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Leonilde
Servolo de Medeiros
Socióloga
e pesquisadora da Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro
Política
fundiária, formas de organização dos
trabalhadores rurais e assentamentos rurais têm sido
temas das pesquisas de Leonilde Servolo Medeiros e também
das dissertações de mestrado e teses de doutorado
que tem orientado. Formada em Ciências Sociais pela
Universidade de São Paulo, é mestre em Ciência
Política pela mesma Universidade e doutora em Ciências
Sociais pela Unicamp, além de professora e pesquisadora
do Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento,
Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio
de Janeiro. Entre seus trabalhos mais recentes estão
Reforma Agrária no Brasil - História e atualidade
da luta pela terra, editora Fundação Perseu
Abramo, 2003; Movimentos sociais, disputas políticas
e reforma agrária de mercado no Brasil, Editora da
Universidade Rural e UNRISD, 2002; Impactos dos assentamentos:
um estudo sobre o meio rural brasileiro (em co-autoria com
Beatriz Heredia, Moacir Palmeira, Rosângela Cintrão
e Sérgio Leite), Editora da Unesp, 2004; e Assentamentos
rurais, mudança social e dinâmica local (organizadora
em parceria com Sérgio Leite), Editora Mauad.
Portal -
Nos últimos anos, o desempenho do agronegócio
brasileiro impediu uma queda acentuada do PIB e garantiu saldo
positivo na balança comercial. A senhora acredita que
os interesses do segmento tecnificado e voltado para a exportação,
que foi o principal responsável por esse desempenho,
são conciliáveis com as reivindicações
do movimento pela reforma agrária?
Leonilde:
O
movimento de luta por reforma agrária no Brasil tem
demandado a desapropriação de terras que não
cumprem sua função social, tal como definida
nos termos da Constituição de 1988. Função
social não se refere somente a critérios de
produtividade. Dessa perspectiva, a empresa que explora adequadamente
a terra, cumpre a legislação trabalhista e respeita
o meio ambiente não pode ser desapropriada. Se olharmos
o mapa das ocupações, vemos que, no geral, essas
áreas estão sendo respeitadas. Embora os movimentos
sociais tenham críticas ao agronegócio, não
me parece que estejam hoje disputando as terras utilizadas,
segundo os parâmetros legais, por ele. No entanto, não
se pode negar que há um laço entre a luta por
terra e o agronegócio, na medida em que o avanço
desse padrão de agricultura, pela suas características
de emprego da mais moderna tecnologia tem gerado desemprego
no campo: hoje cana, algodão, soja utilizam no seu
processo produtivo pouca mão-de-obra. Se pode ser verdade
que são gerados empregos no processo de transformação,
há que se considerar que são empregos que exigem
um certo nível de preparação e conhecimentos,
ou seja, não são os trabalhadores que estão
sendo expulsos do campo que vão poder ocupar esses
espaços. Parte desses trabalhadores, vêem na
luta por terra uma alternativa de sobrevivência não
só econômica, mas também em termos de
laços sociais, de preservação de modos
de vida.
Portal -
A sra. acredita que uma reforma
agrária baseada na distribuição de
terras é o melhor caminho para o Brasil de hoje?
Leonilde:
As
pesquisas que viemos desenvolvendo nos últimos
anos mostram que a reforma agrária tem sido um
importante instrumento de combate à pobreza e de
estímulo à dinamização dos
espaços rurais, mesmo considerando a precariedade
e o abandono a que os assentamentos foram condenados ao
longo dos anos. Por outro lado, diversas outras pesquisas,
com respaldo inclusive de organismos internacionais, como
a FAO, têm indicado a importância da agricultura
familiar no Brasil. As experiências internacionais
também confirmam o quanto um apoio a uma melhor
distribuição de terras pode alavancar o
desenvolvimento. As cidades hoje têm cada vez menos
oportunidades de trabalho a oferecer. Não por acaso
cresce a miséria e a favelização,
num nível tal que está provocando um dilaceramento
bastante rápido e acentuado do tecido social. Desse
ponto de vista, a distribuição de terras,
acompanhada do apoio às atividades dos assentados,
tem um papel importante na mudança desse quadro.
Portal - Muitas
opiniões são de que não existem mais
terras improdutivas no País e que, portanto, não
há mais como desapropriar. Qual sua posição
a respeito?
Leonilde:
A esse respeito, não se deve discutir "opiniões",
mas os dados existentes. Basta olhar os dados dos cadastramentos
do Incra (que são declaratórios) para ver
a quantidade de terras que pode ser enquadrada na categoria
"improdutiva" e, portanto, são passíveis
de desapropriação. Além disso, os
índices de utilização da terra com
que o Incra ainda hoje trabalha foram formulados nos anos
70. De lá para cá, a tecnologia avançou
muito mas não foram alterados os critérios
para julgar o que se considera produtivo.
Portal - O
livro "Impactos dos Assentamentos" informa que
a grande maioria dos assentamentos pesquisados foi formada
a partir de pedido de desapropriação nascido
dos trabalhadores e de seus movimentos sociais, em situação
de conflito pela posse da terra. Seria ainda esse o caminho,
já que uma das principais críticas feitas
aos movimentos de sem terra é justamente em relação
à violência no campo?
Leonilde:
Os conflitos pela terra existem como resultado da crescente
pauperização, em especial nas áreas
rurais. Na falta de alternativas de trabalho, tem se colocado
inclusive a volta para o campo como uma possibilidade
de reprodução não só econômica,
mas também social, permitindo a reconstrução
de formas de sociabilidade em processo de destruição.
Em nossas pesquisas, visitando assentamentos, conversando
com as famílias, ouvimos de famílias assentadas
que já tinham passado pela experiência urbana
a justificativa de que voltar para o campo era também
a possibilidade de criar os filhos com mais tranqüilidade,
sem o risco de que eles fossem recrutados pelo tráfico,
por exemplo. Os números muitas vezes escondem a
dramaticidade do processo de expropriação
e pauperização da sociedade brasileira.
É importante, por outro lado, não identificar
as demandas por terra, as mobilizações dos
trabalhadores com violência. Faz parte da tradição
política brasileira uma enorme dificuldade em lidar
com as demandas sociais que emergem de forma organizada,
sempre lidas como sendo sinais de "baderna".
A emergência de demandas, a mobilização
social, o apresentar reivindicações nos
espaços públicos são antes sinais
de democratização da sociedade e é
preciso aprender a conviver e a dialogar com essas demandas.
Se formos fazer um balanço dos conflitos no campo,
é fácil constatar que mortes, feridos etc
ocorrem fundamentalmente do lado dos trabalhadores. Nos
últimos 50 anos, foram inúmeras as lideranças
assassinadas, muitas delas compondo aquilo que normalmente
se chama de "mortes anunciadas". Portanto, é
necessário qualificar melhor o que se entende por
violência.
Portal - Nesse
sentido, qual sua análise do papel do governo?
Por que ele não consegue se antecipar às
reivindicações? A sra. vê alguma mudança
significativa no atual governo em termos de posicionamento
em relação à reforma agrária?
Leonilde:
Essa pergunta supõe um Estado que como se substituísse
à sociedade, fosse capaz de prever suas demandas
e necessidades. Na verdade , é importante entender
os movimentos sociais, as reivindicações
que deles emergem, como sinalizadores de temas e problemas
que vão se revelando na sociedade e que passam
a compor a agenda política. Dessa perspectiva,
os conflitos sociais, que se expressam sob a forma de
movimentos organizados, são sinais da vitalidade
da sociedade e não necessariamente aspectos negativos
a serem evitados a qualquer custo. É essa a perspectiva
de uma sociedade democrática: aquela em que os
conflitos encontram arenas públicas para se exprimir
e na qual os diversos agentes encontrem espaços
para expressar suas demandas e anseios.
Portal -
Os pequenos lotes formados a partir da reforma agrária
têm condições de absorver tecnologia
a ponto de sobreviver e competir em um mercado de agronegócio
cada vez mais tecnificado? A assistência técnica
é suficiente?
Leonilde:
Não se trata de concorrer com o agronegócio,
mas sim de que os assentamentos, nesse momento, podem
ter um papel importante no abastecimento de pequenos mercados
locais e regionais, revitalizando áreas em crise,
mas também gerar emprego, dar condições
de vida a famílias extremamente pauperizadas. As
pesquisas que fizemos mostraram, por exemplo, que cada
lote gera em média 3 postos de trabalho e a um
custo relativamente baixo. No que se refere à assistência
técnica, ela tem sido um problema no Brasil, sob
diversos ângulos. Em primeiro lugar, há que
considerar que o sistema de assistência técnica
estatal foi completamente desmontado nos últimos
anos, prejudicando em especial as diferentes formas de
agricultura familiar, que não tem recursos para
arcar com assistência técnica privada. Um
outro aspecto é que ela sempre foi voltada para
o estímulo à produção com
base em insumos químicos. Cada vez mais tem sido
discutido internacionalmente esse modelo. Várias
experiências estão ocorrendo no sentido de
criar as bases para uma assistência técnica
fundada em novas bases, em especial aquela baseada num
modelo agroecológico. Apesar das dificuldades que
se apresentam, em especial a falta de agrônomos
preparados para lidar com essa nova perspectiva, vem sendo
feitos esforços nessa direção, tanto
no âmbito do Incra como do MDA (Ministério
do Desenvolvimento Agrário), apontando para a possibilidade
dos pequenos agricultores (assentados ou não) serem
estimulados a um padrão de produção
menos agressivo. As experiências existentes, estimuladas
por organizações não governamentais
e por algumas empresas de assistência técnica
de governos estaduais, têm se mostrado um rico laboratório
para reflexão.
Portal - Muito
se fala que os movimentos de sem terra abrigam, na maior
parte, gente sem vocação para a atividade
agrícola, num certo "oportunismo" para
conseguir terras. Isso, inclusive, explicaria o abandono
de grande parte dos lotes após um certo período.
Qual o perfil de assentados que a sra. encontrou?
Leonilde:
As pesquisas (e não só as que temos realizado
no CPDA ( Curso de Pós-graduação
em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade
Federal do Rio de Janeiro) não mostram isso. A
pesquisa sobre impactos dos assentamentos mostra inclusive,
nos casos estudados, um índice baixo de pessoas
que antes tinham experiência urbana. É claro
que há casos de oportunismo na luta por terra.
Mas o próprio tempo de acampamento acaba por desestimular
possíveis oportunistas. O que encontramos nas pesquisas
foram famílias que lutam para ter condições
de produção, que tentam reconstituir sua
vida no assentamento, que tentam buscar condições
para novas formas de inserção social. No
que se refere a saídas de assentamentos, um estudo
de que participei e publicado pelo convênio FAO/Incra
em 2001, mostra que os maiores índices encontram-se
em regiões de absoluta precariedade de infra-estrutura.
No geral, quando há saídas (e elas são,
em alguma medida, inevitáveis), há uma rápida
substituição de responsável pelo
lote, não chegando a afetar a dinâmica do
assentamento. Há poucas pesquisas sobre o tema,
mas seria importante mapear melhor a dimensão das
saídas e, principalmente, suas razões. Os
dados que obtivemos na pesquisa sobre os impactos dos
assentamentos mostram uma estabilização
grande das famílias, permitindo que se levante
a hipótese de que o movimento de saídas
não é muito significativo.
Portal -
Fala-se também que a reduzida extensão dos
lotes dos assentamentos inviabilizaria seu sucesso econômico.
Alguma coisa foi apurada nesse sentido?
Leonilde:
O tema não
foi objeto da nossa pesquisa. No entanto, é possível
observar que, em muitos locais, o tamanho do lote é
inferior ao módulo fiscal local. Obviamente esse
é um dos elementos que dificulta a situação
dos assentados, em especial quando se toma em consideração
o padrão pouco intensivo da agricultura neles praticado.
Portal -
Até que ponto a vida dessas famílias realmente
melhorou após a mudança para as áreas
de assentamentos?
Leonilde:
Fizemos
três grandes pesquisas sobre assentamentos, duas
delas recobrindo no total 160 unidades da federação
e uma delas específica sobre o Rio de Janeiro,
esta acompanhando por um ano uma amostra de famílias
assentadas para acompanhar os orçamentos familiares.
Isso nos deu um cabedal de conhecimento sobre a situação
das famílias nos assentamentos, sobre seu passado
e seu presente. Em todas elas ficou evidente a melhoria
das condições de vida se comparada a situação
atual com a anterior. Essa melhora é tanto sentida
subjetivamente pelos assentados, como pode ser vista na
melhoria das casas, da alimentação, posse
de eletrodomésticos, grau de escolaridade etc.
Portal -
Em várias regiões do país, já
se percebe uma migração de retorno das grandes
cidades para o meio rural. Isso não seria um sintoma
de que existe um aumento significativo da capacidade de
absorção de mão-de-obra nesse meio
que independe da distribuição de terras?
Leonilde:
O meio rural hoje absorve pouca mão-de-obra, a
não ser nas áreas de predomínio da
agricultura familiar. Dessa perspectiva é importante
ressaltar que os assentamentos, como apontado anteriormente,
têm sido um importante gerador de empregos. A agricultura
de grande escala gera poucos empregos, pois é totalmente
ou quase totalmente mecanizada, como é o caso da
soja, algodão, cana etc. E os empregos que são
gerados nas atividades de processamento da produção,
no geral, têm pouco potencial para abrigar todo
um contingente marcado pela exclusão social, baixa
escolaridade etc.
Portal -
A dificuldade na obtenção de crédito
ainda é um empecilho para o desenvolvimento dos
assentamentos?
Leonilde:
No
geral, o sistema de crédito tem dificuldades administrativas,
inclusive, para operar com pequenos tomadores. A burocracia
bancária se defronta com pessoas que ainda não
têm sequer sua documentação completa,
conhecimento sobre como lidar com bancos etc. A pesquisa
sobre impactos demonstrou que 93% das famílias
entrevistadas nunca haviam tido acesso a crédito
antes. No entanto, é preciso apontar que em grande
parte dos casos os créditos de custeio sempre foram
marcados pela lógica do atraso, muitas vezes inviabilizando
o plantio. Parece-me que os esforços recentes em
torno do Plano Safra têm procurado superar esse
tipo de dificuldade.
Portal -
Qual o impacto da presença dos assentamentos nos
municípios em que se encontram?
Leonilde:
As
pesquisas que fizemos mostraram que eles tendem a revitalizar
áreas antes decadentes, aumentar a diversidade
produtiva, estimular a produção de alimentos
e conseqüentemente os mercados locais. Além
disso, os assentados tendem, pela sua própria experiência
anterior de luta, a ser mais reivindicativos, demandando
acesso a políticas públicas, maior participação
nas decisões etc. Hoje é relativamente comum
ver lideranças de assentamentos ocupando cargos
em conselhos locais de desenvolvimento, disputando vereanças
e até mesmo prefeituras. Esses fatos têm
redefinido as políticas locais em alguns municípios.
Embora experiências localizadas, elas são
um aprendizado que não pode ser desconhecido.
Portal - Em
termos de infra-estrutura, o que a pesquisa constatou?
A grande maioria é mesmo deficiente? Isso também
poderia explicar o abandono da terra e a baixa produtividade
atribuída aos assentamentos?
Leonilde:
A
marca dos assentamentos em termos de infra-estrutura é
a precariedade. Na maioria dos locais encontramos estradas
intransitáveis, em especial em época das
chuvas, dificuldade de acesso à escola (no geral,
nos assentamentos, a escola só vai até a
4ª série), ausência ou quase ausência
de serviços de saúde. Se muitos assentamentos
têm energia elétrica, são raros aqueles
em que a energia chega até todos os lotes. Há
problemas, em algumas situações, com a própria
forma de recortar o lote, deixando o assentados sem acesso
a cursos d'água.
Portal -E
a questão ambiental? Faz parte das preocupações
dos assentados? Ocupa um lugar importante entre essas
preocupações?
Leonilde:
A
preocupação ambiental aparece de forma diluída,
no cotidiano, por meio de queixas de nascentes com pouca
água, da poluição dos rios com esgoto,
dos efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde.
Ou seja, os assentados sentem a questão ambiental
no seu cotidiano e parecem ser bastante sensíveis
aos problemas decorrentes. Já as organizações
e movimentos sociais têm um discurso mais articulado
sobre o tema. A própria adoção da
agroecologia como bandeira aponta nessa direção.
Portal - Em
seu trabalho, a sra. constata as possibilidades de inserção
social e política desses assentados. Como isso
poderia ser conseguido e quais são os aspectos
positivos dessa inserção? Como uma reforma
agrária poderia diminuir as desigualdades sociais
na sociedade brasileira?
Leonilde:
Os
assentamentos estão produzindo essa inserção,
na medida em que criam as condições para
que os trabalhadores recuperem sua dignidade, possam trabalhar,
produzir, ter acesso a bens de consumo, a serviços.
Embora de forma molecular, isso está gerando uma
nova concepção de meio rural. Se tradicionalmente,
no Brasil, ele foi marcado pela precariedade, cada vez
mais ele é um espaço de reivindicações
múltiplas. As pessoas que vão para os assentamentos
ou que lutam para permanecer na terra, querem um rural
diferente daquele que conheceram: querem educação,
saúde, lazer, reconhecimento social e político,
novas alternativas de inserção na sociedade.
As diferentes pesquisas de que dispomos mostram que os
assentamentos são um instrumento extremamente importante
de redução das desigualdades sociais, gerando
empregos, novas oportunidades de inserção
econômica, social e política.
Portal do Fazendeiro
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