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Marcel
Domingos Solimeo
Superintendente
do IEGV
Marcel
Domingos Solimeo é superintendente do IEGV - Instituto
de Economia "Gastão Vidigal" -, da Associação
Comercial de São Paulo. Bacharel em Economia e pós-graduado
pela FEA - Faculdade de Economia e Administração
da USP, Solimeo está há 40 anos na ACSP onde,
ao lado de sua atuação no Instituto, desempenhou
várias funções, coordenando cursos e
congressos e assessorando o Clube de Diretores Lojistas, entre
outras atribuições. Co-autor de vários
livros, como "O Plano Real Acabou?", publica regularmente
artigos na imprensa, em especial sobre pequenas e médias
empresas, sua especialidade.
Portal -
O senhor, que acompanha há muitos anos o desempenho
do comércio no Estado de São Paulo, que tipo
de relação vê entre a atividade comercial
e a agropecuária?
Marcel Solimeo:
Eu
acho que na circunstância atual do Brasil o agronegócio
tem uma importância macroeconômica muito grande,
porque vem dando resultado muito bom na balança comercial,
portanto contribuindo para reduzir um dos nossos principais
gargalos que é o setor externo. Então é
comércio, comércio exterior, mas está
ligado. Com relação ao comércio interno,
o agronegócio tem uma relação direta,
porque não só os produtos, a alimentação,
provém do agronegócio, porque é produto
que o comércio vende, mas principalmente pela renda
que ele gera em certas regiões, onde permite ao comércio
ter um desempenho muito ligado ao resultado do agronegócio.
Vemos sempre, quando algumas regiões agrícolas
vão muito bem, o comércio da região vai
bem: a venda de carros aumenta, a venda de televisores aumenta,
não fica só naquela venda dos artigos de subsistência.
Então, o comércio depende do agronegócio
como fornecedor, como supridor, mas depende muito, em determinadas
regiões isso é vital, da renda gerada na região.
O presidente da Associação Comercial de São
Paulo, Guilherme Afif Domingos, falou que, quando chove no
interior, a rua 25 de março, em São Paulo, esvazia
as prateleiras - hoje a 25 já não é tão
mais aquela dos tecidos, mudou muito - , mas o comércio
como um todo tem um bom resultado nas regiões agrícolas
quando a agricultura tem um bom desempenho.
Portal - Há
uma pesquisa da Embrapa, inclusive, que aponta que um
incremento de 10% no PIB agrícola tem um impacto
quase idêntico, de 9 a 10%, no PIB comercial e industrial
de pequenas e médias cidades. Sua experiência
aqui na Associação Comercial comprova esse
peso para o setor de serviços?
Marcel Solimeo:
Comprova, comprova muito. Como eu disse antes, você
tem algumas regiões cujo desempenho do comércio
está diretamente ligado ao resultado da agricultura.
Quando a agricultura tem um ano ruim o comércio
desaba nessas regiões, quando ela tem um ano bom
o comércio tem um desempenho muito bom. Até
São Paulo, a capital, que não é uma
região agrícola, tem os reflexos dos resultados
da agricultura, porque os grandes atacadistas que estão
aqui também vendem mais para o interior. As grandes
redes que têm suas matrizes, mas que hoje estão
também pelo interior, então mesmo as grandes
redes, vamos dizer, urbanas aqui da capital, elas têm
suas ramificações pelo interior e dependem
muito do resultado. Aqui em São Paulo o abastecimento
depende muito da agricultura. A evolução
dos preços, que tem um efeito sobre a renda do
consumidor urbano, também é muito importante:
quando a agricultura tem uma boa produção,
os preços agrícolas, os preços dos
alimentos caem e isso para o comércio é
importante por que sobra mais renda para o consumo de
outros bens. Então, inversamente, quando tem uma
crise de abastecimento, e os preços agrícolas
sobem, cai o consumo dos outros bens em função
do maior comprometimento da renda com o suprimento, com
os gêneros alimentícios, tudo isso. Então,
a relação agricultura/comércio é
muito estreita, o comércio depende muito da agricultura
em vários sentidos.
Portal - O
diretor exeeutivo do IEDI - Instituto de Estudos para
o Desenvolvimento Industrial, Júlio Sérgio
de Almeida, afirmou em entrevista ao Portal Fazendeiro
que o setor de serviços brasileiro é muito
mais dependente da indústria do que da agricultura.
Qual a sua opinião ?
Marcel Solimeo: O setor de serviços é
muito amplo, tem alguns segmentos muito importantes, na
área das comunicações, por exemplo,
que dependem mais da indústria como fornecedora
dos equipamentos, da tecnologia, tudo isso. Você
tem dentro do setor de serviços as instituições
financeiras, que não têm uma longa tradição,
tirando o Banco do Brasil, do financiamento agrícola,
mas que tende a cada vez mais entrar no financiamento
agrícola. À medida em que se está
reduzindo os créditos subsidiados à agricultura,
o setor privado financeiro vai se dedicar mais à
agricultura também. Hoje, atualmente, ele tem uma
participação menor no financiamento agrícola
por que tinha muito crédito subsidiado, que era
via Banco do Brasil. Mas o comércio, que é
um dos segmentos do setor serviços, ele tem, ele
depende da indústria como fornecedora, ele depende
também da renda gerada pela indústria, mas
em determinadas regiões, basicamente, quem sustenta
o comércio é o desempenho agrícola.
Eu acho que a tendência inclusive, os números
estão mostrando, é que a participação
da indústria no PIB vai reduzindo e vai aumentando
a de serviços. E a própria agricultura tende
a aumentar a participação no PIB na medida
em que ela - agricultura não, hoje é o agronegócio
- na medida em que está sendo o grande alavancador
das exportações. E mesmo a indústria
depende muito da agricultura, por que um dos segmentos
mais fortes da indústria, que é a indústria
de alimentos, depende fundamentalmente do suprimento agrícola.
Portal -
A própria Bovespa começou uma campanha de
incentivar a abertura de capital das empresas do agronegócio
e o lançamento de debêntures. O senhor acredita
que possa dar resultado?
Marcel Solimeo: Olha, vai depender muito da macroeconomia.
Porque a própria bolsa sofreu um esvaziamento muito
grande, ela encolheu por que as condições
macroeconômicas, a legislação tributária
e a CPMF, tudo isso inviabilizou. Então eu acredito
que vai ter tanto sucesso para a agricultura quanto tiver
para o resto da economia, porque eu acho que não
é um problema tanto do setor, hoje. Antes a atividade
agrícola era muito mais individual, quer dizer,
hoje já tem características empresariais,
pode ser um único dono mas tem características
empresariais, tem tecnologia, tem condições
de recorrer ao mercado de capitais e recorrer ao financiamento
bancário privado. Mas o problema é até
que ponto o próprio mercado de capitais mesmo vai
evoluir. O próprio crédito, à medida
em que a taxa de juros vem caindo, os bancos vão
tendo menos interesse, menos necessidade de financiar
o setor público, eles vão ter que buscar
as atividades que estão crescendo para financiar.
Acho que é um caminho, mas é um caminho
que depende da economia com um todo. O sucesso não
é da agricultura ou da indústria, é
da economia.
Portal -
E suas expectativas com relação à
economia quais são?
Marcel
Solimeo: 2004 melhor que 2003, crescer 3%, 3,5%, a
agricultura obviamente vai crescer mais. Mas obviamente
o nosso problema não é o hoje, nosso problema
é que, no longo prazo, nós não resolvemos
nenhuma das questões fundamentais, estruturais,
que implicam inclusive em obstáculos ao desenvolvimento
da agricultura. Daqui a pouco não adianta você
produzir que você não vai ter porto para
exportar, como aconteceu no porto de Paranaguá.
Então crescimento de curto prazo, este ano crescer
3%, o ano que vem talvez dê para crescer mais 3%,
mas um crescimento sustentado e mais alto, como tivemos
no passado e como precisamos, está dependendo muito
de questões estruturais. E a própria agricultura
pode acabar tendo um estrangulamento na infraestrutura.
Ela pode ter tecnologia, ter crédito, ter mercado,
e morrer na praia, se não resolver. Estão
discutindo já há um ano e tanto essa PPP(
parcerias público-privadas), estão discutindo
regulamentação de agências, tão
discutindo uma série de coisas, mas até
agora nada definido, nada resolvido. Se não se
eliminar os pontos de estrangulamento da infraestrutura,
pontos de estrangulamento macroeconômicos, o risco
tanto para a agricultura como para as demais atividades
é de um crescimento medíocre. Se a indústria
de repente, por um milagre, saísse a todo vapor,
nós íamos bater na energia elétrica.
Então os problemas estruturais condicionam o crescimento
de longo prazo do Brasil.
Portal -
E em relação à taxa de juros, que
está caindo muito lentamente?
Marcel Solimeo:
A taxa de juros, a taxa Selic, tem uma grande importância
como sinalização, mas se você pegar
a diferença entre taxa Selic e a taxa paga pela
empresa ou pelo consumidor, o tal spread (taxa de risco),
há uma diferença muito grande. Nós
vamos ter que trabalhar muito nesse spread, por que a
taxa Selic pode e deve continuar caindo, vai continuar
caindo lentamente e tem um limite de queda, que não
é suficiente para tornar os juros efetivos pagos
pelas empresas suficientes para aumentar a competitividade.
Então nós temos que trabalhar muito na redução
do spread bancário, e aí vem compulsório,
vem tributação, vem risco de crédito,
vem falta de concorrência maior entre os bancos,
tudo isto que tem que ser atacado. Porque a agricultura
tem que trabalhar com crédito a custo de mercado,
mas não dá para ela trabalhar com crédito
a custo de mercado, como não dá para a indústria
ficar pagando aí 40%, 45 ou 50% ao ano e o competidor
dela 4%. Então a tendência da taxa de juros,
tendência da Selic, é continuar caindo lentamente,
isso é importante como sinalização,
mas temos que atacar os outros componentes da taxa de
juros para que a queda seja mais que proporcional à
queda da Selic, para que a gente possa ter o crédito
na ponta mais barato, e isso ainda não estou vendo
passos nessa direção.
Portal - Tem
uma coisa que o governo está começando anunciar
que vai fazer, que é a criação de
um fundo de investimento do agronegócio, para capitar
poupança interna, e de letras de comércio
agrícolas, para capitar recursos externos. O senhor
acha que essas seriam uma saída para o financiamento
?
Marcel Solimeo:
Eu acho que sim. Você está criando uma poupança
de longo prazo através dos fundos de pensão
que necessita inclusive de papéis, eles só
tão aplicando em papel público. Na medida
em que reduzir a demanda do governo no mercado, esses
fundos vão precisar de papéis para formar
suas carteiras, papéis de prazos mais longos, e
isso abre um campo para financiamento da atividade agrícola
como do próprio comércio, com os recebíveis,
tudo isso. Agora, não adianta criar o papel se
não der condições efetivas de mercado,
se tiver uma tributação excessiva, se tiver
uma série de restrições, como o governo
em tudo costuma ter, acaba inviabilizando.
Portal -
A principal crítica que se faz a esse projeto do
governo, é que o Brasil tem uma poupança
interna muito pequena para poder financiar.
Marcel
Solimeo: Ela
é pequena mas ela é crescente, via fundos
de pensão. E é poupança de longo
prazo, coisa que nós até agora não
tínhamos, o cidadão poupar a longo prazo.
O setor externo, na medida em que a agricultura é
exportadora, ela tem condições de tomar
financiamento externo por que ela tem o hedge natural
do risco de câmbio. Então eu acho que há
espaço pro governo fazer esse financiamento agrícola
e mesmo industrial e comercial via fundos de pensão.
Agora o fundamental para isso era você liberar a
poupança interna e para isso o governo tem que
reduzir o seu déficit, reduzir dívida. Não
adianta essa história de que nós estamos
com superávits, é balela. Nós continuamos
tendo déficit público. Superávit
primário foi um truque que o ex-ministro Delfim
Neto inventou por que ele não conseguia cumprir
as metas do FMI. Na verdade, nós temos é
déficit, por que superávit primário
não inclui a conta juros. Então o governo
precisava reduzir a necessidade dele de poupança
interna para liberar para os outros setores. A poupança
brasileira é baixa mas não é o pior
problema. O pior problema é que a poupança
que existe é carreada para o governo, para financiar
o governo. Nós tínhamos, aí na década
de 70, investimentos da ordem de 25% do PIB. Era 18% de
poupança do setor privado, 2% de poupança
externa, e 5% de poupança pública. Hoje
nós continuamos tendo os 18% de poupança
do setor privado, menos um, menos zero qualquer coisa
externo, por que em vez de receber nós estamos
exportando poupança quando temos superávit,
e temos um déficit de 5% do governo, que consome
poupança do setor privado. Então o problema
do financiamento, não só da agricultura,
não é não ter a poupança.
É que o governo continua absorvendo uma parcela
muito grande da poupança doméstica. Mas
como está aumentando a poupança de longo
prazo, há uma possibilidade, por que esses fundos
vão ter que aplicar e aplicar em papéis,
do setor privado também. E a agricultura é
um setor que pode tomar financiamento externo, a agricultura
exportadora, por que ela tem o hedge. Porque o que inviabilizou,
quebrou empresas, foi essa questão de financiamento
externo, porque a volatilidade cambial é muito
grande. Embora ultimamente, a taxa cambial esteja relativamente
comportada, nós tivemos saltos que quebraram muitas
empresas que tomaram financiamento externo. Agora, quem
tem o hedge natural, como a agricultura, não tem
esse risco.
Portal -
O PIB agrícola, no ano passado, foi o responsável
para que o resultado geral não fosse ainda mais
desastroso. Só que a industrialização
sempre foi considerada indutora do desenvolvimento, pelo
menos nas últimas décadas. Com esses resultados
da agropecuária e do agronegócio, o senhor
acredita que esses setores podem se tornar indutores do
desenvolvimento no lugar da indústria?
Marcel
Solimeo:
Eu acho que não é "no lugar",
são complementares. A evolução natural
do desenvolvimento, quer dizer, o país começa
agrícola, depois vai se industrializando, a indústria
passa a ser o setor mais importante dentro do PIB, depois
o setor serviços. Isso era tradicionalmente, mas
hoje a agricultura capitalista é uma agricultura
tecnificada, com investimentos, então ela deixa
de ser aquilo que era no passado: liberadora de mão
de obra para o setor urbano. Ela passa a ser uma atividade
com tanta incorporação de tecnologia como
a indústria ou serviços. E, no caso brasileiro,
em que nós temos o potencial para ser celeiro do
mundo - temos as condições - a tendência
é que a agricultura e o agronegócio tenham
um aumento da sua participação no PIB. E
a indústria vem tendo já um declínio,
mas na medida em que parte do agronegócio é
indústria, ela mantém, mas a agricultura,
via exportação, ela deve ter um aumento
da participação no PIB e ser um alavancador
importante do crescimento da economia. Mas acho que não
é em substituição, acho que é
complementarmente.
Portal -
Essa questão justamente desse segmento exportador
ser o que está tendo o melhor desempenho não
deixa o Brasil muito vulnerável às questões
do mercado externo?
Marcel
Solimeo:
Veja, na medida em que você consiga diversificar
mercados, e é o caminho que o Brasil vem seguindo,
você reduz, não elimina, mas reduz esse risco.
Um outro ponto: quando você exporta 12 bilhões
de dólares e tem uma crise externa, sua capacidade
de ajustar é pequena, qualquer crise que afete
a sua exportação é mortal, como nós
éramos no passado. Nossa balança comercial
era de 4 bilhões de dólares, as exportações,
passamos para 12 e já foi um salto, estamos aí
na casa dos 60. Mas se nós tivéssemos um
comércio internacional - o México está
com 150 bilhões, não vou nem falar da China.
Se você tiver uma queda de 5% em 150 bilhões,
o impacto interno é pequeno. Então, quanto
mais nós aumentarmos as exportações,
mais nós estaremos minimizando os riscos de oscilações
no mercado internacional. Então eu vejo ao contrário,
eu vejo que nós temos que aumentar o volume de
exportações, não necessariamente
aumentar o saldo da balança comercial, aumentar
o volume de comércio exterior, que quanto maior
esse volume menor o impacto de qualquer oscilação
externa. Se você fizer um ajuste, com a queda das
exportações de 5%, quando você exporta
150 bilhões, o impacto interno é menor do
que quando você exporta 12. Então, eu acho
que temos que caminhar para aumentar o volume do nosso
comércio exterior, não o superávit
comercial, por que acho que o superávit comercial
está de bom tamanho já, e nós estamos
tendo superávit em transações correntes,
o que não é o caminho para um país
em desenvolvimento, significa exportar poupança
e nós precisamos de poupança interna. Então
eu acho que nosso objetivo não é tanto aumentar
o superávit comercial, é aumentar o volume
de comércio exterior.
Portal -
Mas no Brasil, a maioria das exportações
ainda é de produtos primários. O senhor
acha que agregando valor o resultado seria melhor? Quer
dizer, o que falta para mudar esses parâmetros?
Marcel
Solimeo:
Eu
acho que nós temos que caminhar para agregar valor,
o agronegócio é o caminho para você
agregar valor, você vender mais os alimentos e as
matérias primas transformadas, você agrega
valor. Mas ainda nós vamos continuar sendo um fornecedor
importante de produtos primários mesmo. Eu acho
que nós não temos que procurar só
substituir o produto primário pelo produto já
com algum grau de industrialização, nós
temos que procurar é aumentar as duas coisas, para
poder aumentar realmente a nossa produção.
O grande problema do Brasil na exportação
é que nós não temos excedentes exportáveis.
Agora na agricultura conseguimos um aumento na produção
para gerar um volume maior de excedentes exportáveis,
mas até há pouco nós exportávamos
quando o mercado interno encolhia. Quando o mercado interno
se recuperava, a exportação caía.
O que nós temos que ter é um volume de produção
que nos permita atender ao mercado externo e atender ao
mercado interno quando ele se recupera. O Plano Cruzado
deu a explosão de consumo e nós viramos
importador de alimento, no Plano Real no começo
a mesma coisa. Então, nós temos que aumentar
a produção e acho que temos campo ainda
para continuar exportando volumes apreciáveis de
produtos in natura e temos campo para conquistar mercados
para os produtos já elaborados, com valor agregado
muito mais alto. O caso do café solúvel
é um exemplo: a gente exporta o café e a
Alemanha processa e é a grande fornecedora do café
solúvel no mundo. Acho que é um processo,
nós já incorporamos tecnologia no processo
produtivo. Nós precisamos incorporar tecnologia
na transformação e precisamos incorporar
tecnologia e principalmente investimentos na infraestrutura,
que é um grande gargalo da exportação
brasileira. Acho que nós temos muito o que avançar,
não é caso ainda de a gente pensar: "Vamos
substituir a exportação do produto primário
pelo semi elaborado." Vamos exportar primário,
vamos exportar semi elaborado, vamos exportar produto
acabado, tem mercado pra tudo aí. E você
vai ter compradores que querem ainda o produto primário.
Portal -
Esse modelo do agronegócio, altamente tecnificado,
convive com uma agricultura familiar, que enfrenta problemas
de crédito, de baixa tecnologia. Como conciliar
esses segmentos?
Marcel
Solimeo:
Eu
acho que eles não são conflitantes ou mutuamente
excludentes. Eu acho que nós temos ainda necessidade
muito grande de manter a agricultura familiar por que
é ocupação de mão-de-obra.
Agora, nós temos que procurar é como aumentar
a produtividade da agricultura familiar, para que realmente
se manter no campo não seja um sacrifício,
mas seja uma opção. Tem vários países
onde a agricultura familiar tem um papel importante. No
Brasil, que nós temos uma população
grande para alimentar, e determinados produtos que não
permitem as grandes extensões ou as grandes propriedades,
têm que ser desenvolvidos pela agricultura familiar.
Mas pode ser desenvolvido pela agricultura familiar mais
produtiva, mais eficiente. Acho que nós temos que
investir na tecnificação da agricultura
familiar, na preparação do agricultor para
que ele seja um empresário agrícola, embora
pequeno. Você tem o pequeno empresário urbano,
você tem o micro-empresário urbano, que não
precisa necessariamente ter uma baixa tecnologia ou uma
baixa eficiência. Eu acho que esse conceito é
que tem que ser transportado para a área rural.
Agora é lógico que depende de apoio tecnológico,
depende de apoio financeiro, depende apoio gerencial,
formação de mão-de-obra. E também
do conceito de que a propriedade agrícola pequena
não tem que ser só produtora de alimento.
Existem várias atividades que você desenvolve
dentro da atividade agrícola. A atividade agrícola
tende a ser cada vez mais multifuncional, multisetorial.
Você tem uma pequena propriedade com gado, você
faz um queijo, você faz produtos derivados do leite.
Você industrializa plantas, você não
precisa necessariamente ficar só na fase da produção.
Muitas vezes o filho do agricultor, normalmente, ele estuda
mais e quer sair, quer ir para a cidade, mas pode desenvolver
na propriedade agrícola uma série de outras
atividades e não necessariamente ficar só
no hortifrutigranjeiro. E pode produzir o hortifrutigranjeiro
com melhor tecnologia, aliás hoje você já
tem aí os produtos naturais, que é uma evolução
da agricultura, da agricultura sem agrotóxicos
e tudo isso, e que tem um valor de mercado maior. Também
o pequeno produtor pode pensar em agregar valor aos seus
produtos. Acho que isso não é incompatível
com a grande propriedade, com a agricultura voltada para
exportação, por que tem uma série
de produtos que não dá para você imaginar
em produzir em grandes propriedades. Eu acho que elas
são complementares, não são nem concorrentes
nem mutuamente excludentes, nem competidoras.
Portal - O
senhor tem uma avaliação da política
do governo, tanto para o setor que é mais tecnificado
quanto para a agricultura familiar?
Marcel
Solimeo:
Olha,
acho que o grande apoio do governo para o setor agrícola
foi a Embrapa. Fora isso, nós vivemos de períodos
cíclicos, nós tivemos períodos em
que o crédito para agricultura era abundante, era
disponível, e períodos em que não
se tinha o crédito. Nós nunca tivemos uma
política agrícola regular, ela foi sempre
cíclica, variando muito em função
até da própria conjuntura econômica,
da arrecadação do governo, e isto acabou
fazendo com que a agricultura fosse se libertando do governo,
no caso dos grandes empresários. Para os pequenos,
não existe praticamente uma política agrícola
e hoje eu diria que existe praticamente uma antipolítica
agrícola, que é o que está se fazendo
com essa política de assentamentos. Eu acho que
é antipolítica agrícola você
pegar pessoas totalmente despreparadas, que não
têm nenhuma vivência da agricultura, aliás
acho que é uma confusão muito grande achar
que o camarada que trabalhou na enxada é um agricultor.
Não necessariamente, o agricultor é um camarada
que corre o risco da atividade, que toma decisões:
o que plantar, o que não plantar, quanto plantar,
que tecnologia usar. Não é o camarada simplesmente
que trabalhou na enxada na agricultura que você
vai transformá-lo num agricultor. Agricultor é
um empresário. Você não transforma
um torneiro mecânico num microempresário
se ele não tiver as condições inatas
da atividade empresarial, não adianta chegar e
falar: "Pode pegar seu torno aqui da firma e leva
para sua casa" e vai ter um microeempresário,
se não tiver noções do que fazer
com aquele torno, qual é o mercado, onde conquistar,
como administrar. E a mesma coisa é a agricultura
e inclusive a agricultura familiar. Então essa
política de assentamento, onde estão jogando
muito dinheiro, que poderia estar sendo utilizado para
fortalecer efetivamente a agricultura familiar, eu acho
que é uma antipolítica agrícola.
Portal -
Mas é inegável que existe uma massa reinvidicando
terra, quer dizer, ao lado dessa agricultura empresarial
tecnificada, ao lado da agricultura familiar, há
esse grande contingente. O que fazer para absorver esse
contingente?
Marcel
Solimeo:
É
um contingente que foi criado artificialmente, a grande
maioria não é nem da zona rural, tem pesquisas
mostrando que o MST recruta gente, desempregado da cidade,
com a promessa de obter terra. Como é que se fez
a reforma agrária, entre aspas, no interior do
estado de São Paulo? Japoneses e italianos que
vieram como imigrantes, ninguém deu lotes pra eles;
eles foram trabalhando e comprando. Por que ? Porque eles
tinham espírito empresarial. Você dá
um lote pra um camarada que não tem nenhum conhecimento
da terra ou pode até, mas não tem o espírito
empresarial, ele não vai se transformar num agricultor,
ele vai ser um assentado a vida inteira, vai ficar sempre
dependente da orientação, do suporte, que
continua sendo até nos assentamentos mais antigos,
de recursos para sobrevivência. Tem que distribuir
cesta básica em assentamento. Você não
faz o agricultor simplesmente dando terra pra ele. Você
dá, mas tem que dar terra, tem que dar as ferramentas,
assistência técnica, mas se ele não
tiver um espírito empresarial ele vai ficar no
assentamento fazendo a mesma coisa a vida inteira. Eu
acho que a política de distribuição
de terra não é a solução,
pode ser uma parte da solução, mas se você
continuar com essa política por que tem uma pressão.
O governo não faz reforma agrária, ele reage
às pressões do MST. Ele não determina
a política que ele vai fazer: o MST pressiona por
distribuição de terra, ele faz distribuição
de terra. Qual é a análise da relação
custo/benefício dessa política que foi feita
até hoje? Os poucos estudos que foram feitos não
mostram um resultado positivo da relação
custo/benefício. O problema de venda de terra,
de abandonar assentamento, isso é uma prova de
que essa política não pode ser generalizada
como está sendo. Acho que se você desse mais
apoio à agricultura familiar, talvez tivesse menos
gente pedindo terra. A melhor reforma agrária para
esvaziar o MST é voltar a crescer o emprego na
cidade, você vai ver. Porque o problema não
é de estar sem terra. Qual é a população
sem terra dos Estados Unidos? 96% da população,
por que só 4% são agricultores. Isso é
uma inversão completa de raciocínio. Eu
sou um sem terra. O problema não é terra.
Onde é que está escrito, qual é a
ciência que mostra que você tem que dar terra
pra todo mundo e que isso vai resolver o problema do emprego
no Brasil ou qualquer tipo de problema no Brasil? Você
pode ter política para facilitar o acesso à
terra, mas o cara tem que pagar por isso.
Portal -
O senhor acha que com a expansão do agronegócio
o próprio setor poderia gerar os empregos suficientes
para absorver essa mão-de-obra, sem a necessidade
de uma reforma agrária com distribuição
de terras?
Marcel
Solimeo:
Eu
acho que não só o agronegócio, precisa
da agricultura familiar e precisa voltar o emprego urbano.
O processo natural de desenvolvimento em todos os países,
e que o Brasil vinha seguindo, é que a atividade
agrícola é liberadora de mão-de-obra.
Agora, isso pressupõe que o setor urbano absorva.
O que está acontecendo é que o setor urbano
está sendo liberador de mão-de-obra. Então,
você está tentando devolver esse pessoal
para o campo em vez de tentar gerar emprego aqui. Acho
que é uma visão completamente equivocada,
e hoje em dia - hoje em dia não é agora
não, o governo Fernando Henrique fez igualzinho,
ele não fez política de reforma agrária,
ele reagiu ao MST. O governo faz também agora,
que aumentou um 1,7 bilhões de recursos para reforma
agrária, ele aumentou o valor que ele dá
para o arrendado de quatro mil e duzentos para sete mil,
ele aumentou o sete mil e pouco para dezesseis o valor
para compra de material, numa reação às
pressões do MST. Ele não analisou se é
isso o que está precisando fazer. Ele não
analisa se aquela região é propícia
a você fazer uma reforma agrária e desapropriar,
ele vai onde está a pressão do MST e desapropria.
Ele não analisa se em determinadas regiões,
pelas características do solo ou da atividade agrícola,
tem que ser grandes propriedades mesmo. Nada disso é
analisado, ele só reage às pressões.
Tem uma demanda por terra gerada pelo MST, ele distribui
terra. Mas o pior não é isso. Eu digo que
isso é anti-política agrícola porque
ele gerou insegurança no campo, no proprietário
agrícola. Quem vai investir? Por que você
não tem investimento estrangeiro na agricultura?
Quem vai investir? Mesmo o brasileiro, tem brasileiro
investindo no Paraguai, na agricultura! Você investir
aqui, qual é a segurança jurídica
que você tem? A economia capitalista é uma
economia contratual, uma economia baeada em instituições.
Você tem que ter garantia do direito de propriedade
e garantia do respeito aos contratos, sem isso nenhum
país se desenvolve. Isso vale para a agricultura
e o direito de propriedade na agricultura já foi
limitado até constitucionalmente de forma demagógica:
função social. Mas além de ele ter
posto aquelas limitações todas já
na Constituição nem aquilo está garantido.
O jornal O Estado de São Paulo, de 15-04-2004,
deu uma foto dramática de um cidadão que
fez da casa dele um bunker, para garantir a propriedade
dele, que está na família há 70 anos.
Isso é estimular o setor agrícola? Agora
uma pergunta que ninguém faz: por que entidades
estrangeiras financiam o MST? É só razões
humanitárias? Eu tenho minhas dúvidas. O
Brasil é a maior ameaça para a agricultura
dos Estados Unidos, como competidor, o Brasil tem tudo
para ser o maior exportador agrícola do mundo.
Será que toda essa proteção ambiental,
todas essas pressões de ONGs, por terra para índio,
para MST invadir, restrições ambientais,
essas ONGs são totalmente desinteressadas, todas
humanitárias, com tanto dinheiro como têm?
Por que que tem uma série de entidades financiando
o MST? Por que eles não financiam aqui várias
entidades que tentam sustentar criancinhas ou o pessoal
da favela aqui de Heliópolis para desenvolver atividades
produtivas? Por que financiam o MST? Eu tenho sérias
dúvidas de que isso seja por altruísmo.
Portal do Fazendeiro
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