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ENTREVISTAS

Marcel Domingos Solimeo
Superintendente do IEGV

Marcel Domingos Solimeo é superintendente do IEGV - Instituto de Economia "Gastão Vidigal" -, da Associação Comercial de São Paulo. Bacharel em Economia e pós-graduado pela FEA - Faculdade de Economia e Administração da USP, Solimeo está há 40 anos na ACSP onde, ao lado de sua atuação no Instituto, desempenhou várias funções, coordenando cursos e congressos e assessorando o Clube de Diretores Lojistas, entre outras atribuições. Co-autor de vários livros, como "O Plano Real Acabou?", publica regularmente artigos na imprensa, em especial sobre pequenas e médias empresas, sua especialidade.

Portal - O senhor, que acompanha há muitos anos o desempenho do comércio no Estado de São Paulo, que tipo de relação vê entre a atividade comercial e a agropecuária?

Marcel Solimeo
: Eu acho que na circunstância atual do Brasil o agronegócio tem uma importância macroeconômica muito grande, porque vem dando resultado muito bom na balança comercial, portanto contribuindo para reduzir um dos nossos principais gargalos que é o setor externo. Então é comércio, comércio exterior, mas está ligado. Com relação ao comércio interno, o agronegócio tem uma relação direta, porque não só os produtos, a alimentação, provém do agronegócio, porque é produto que o comércio vende, mas principalmente pela renda que ele gera em certas regiões, onde permite ao comércio ter um desempenho muito ligado ao resultado do agronegócio. Vemos sempre, quando algumas regiões agrícolas vão muito bem, o comércio da região vai bem: a venda de carros aumenta, a venda de televisores aumenta, não fica só naquela venda dos artigos de subsistência. Então, o comércio depende do agronegócio como fornecedor, como supridor, mas depende muito, em determinadas regiões isso é vital, da renda gerada na região. O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, falou que, quando chove no interior, a rua 25 de março, em São Paulo, esvazia as prateleiras - hoje a 25 já não é tão mais aquela dos tecidos, mudou muito - , mas o comércio como um todo tem um bom resultado nas regiões agrícolas quando a agricultura tem um bom desempenho.



Portal - Há uma pesquisa da Embrapa, inclusive, que aponta que um incremento de 10% no PIB agrícola tem um impacto quase idêntico, de 9 a 10%, no PIB comercial e industrial de pequenas e médias cidades. Sua experiência aqui na Associação Comercial comprova esse peso para o setor de serviços?


Marcel Solimeo:
Comprova, comprova muito. Como eu disse antes, você tem algumas regiões cujo desempenho do comércio está diretamente ligado ao resultado da agricultura. Quando a agricultura tem um ano ruim o comércio desaba nessas regiões, quando ela tem um ano bom o comércio tem um desempenho muito bom. Até São Paulo, a capital, que não é uma região agrícola, tem os reflexos dos resultados da agricultura, porque os grandes atacadistas que estão aqui também vendem mais para o interior. As grandes redes que têm suas matrizes, mas que hoje estão também pelo interior, então mesmo as grandes redes, vamos dizer, urbanas aqui da capital, elas têm suas ramificações pelo interior e dependem muito do resultado. Aqui em São Paulo o abastecimento depende muito da agricultura. A evolução dos preços, que tem um efeito sobre a renda do consumidor urbano, também é muito importante: quando a agricultura tem uma boa produção, os preços agrícolas, os preços dos alimentos caem e isso para o comércio é importante por que sobra mais renda para o consumo de outros bens. Então, inversamente, quando tem uma crise de abastecimento, e os preços agrícolas sobem, cai o consumo dos outros bens em função do maior comprometimento da renda com o suprimento, com os gêneros alimentícios, tudo isso. Então, a relação agricultura/comércio é muito estreita, o comércio depende muito da agricultura em vários sentidos.


Portal - O diretor exeeutivo do IEDI - Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Júlio Sérgio de Almeida, afirmou em entrevista ao Portal Fazendeiro que o setor de serviços brasileiro é muito mais dependente da indústria do que da agricultura. Qual a sua opinião ?


Marcel Solimeo: O setor de serviços é muito amplo, tem alguns segmentos muito importantes, na área das comunicações, por exemplo, que dependem mais da indústria como fornecedora dos equipamentos, da tecnologia, tudo isso. Você tem dentro do setor de serviços as instituições financeiras, que não têm uma longa tradição, tirando o Banco do Brasil, do financiamento agrícola, mas que tende a cada vez mais entrar no financiamento agrícola. À medida em que se está reduzindo os créditos subsidiados à agricultura, o setor privado financeiro vai se dedicar mais à agricultura também. Hoje, atualmente, ele tem uma participação menor no financiamento agrícola por que tinha muito crédito subsidiado, que era via Banco do Brasil. Mas o comércio, que é um dos segmentos do setor serviços, ele tem, ele depende da indústria como fornecedora, ele depende também da renda gerada pela indústria, mas em determinadas regiões, basicamente, quem sustenta o comércio é o desempenho agrícola. Eu acho que a tendência inclusive, os números estão mostrando, é que a participação da indústria no PIB vai reduzindo e vai aumentando a de serviços. E a própria agricultura tende a aumentar a participação no PIB na medida em que ela - agricultura não, hoje é o agronegócio - na medida em que está sendo o grande alavancador das exportações. E mesmo a indústria depende muito da agricultura, por que um dos segmentos mais fortes da indústria, que é a indústria de alimentos, depende fundamentalmente do suprimento agrícola.

Portal - A própria Bovespa começou uma campanha de incentivar a abertura de capital das empresas do agronegócio e o lançamento de debêntures. O senhor acredita que possa dar resultado?

Marcel Solimeo:
Olha, vai depender muito da macroeconomia. Porque a própria bolsa sofreu um esvaziamento muito grande, ela encolheu por que as condições macroeconômicas, a legislação tributária e a CPMF, tudo isso inviabilizou. Então eu acredito que vai ter tanto sucesso para a agricultura quanto tiver para o resto da economia, porque eu acho que não é um problema tanto do setor, hoje. Antes a atividade agrícola era muito mais individual, quer dizer, hoje já tem características empresariais, pode ser um único dono mas tem características empresariais, tem tecnologia, tem condições de recorrer ao mercado de capitais e recorrer ao financiamento bancário privado. Mas o problema é até que ponto o próprio mercado de capitais mesmo vai evoluir. O próprio crédito, à medida em que a taxa de juros vem caindo, os bancos vão tendo menos interesse, menos necessidade de financiar o setor público, eles vão ter que buscar as atividades que estão crescendo para financiar. Acho que é um caminho, mas é um caminho que depende da economia com um todo. O sucesso não é da agricultura ou da indústria, é da economia.

Portal - E suas expectativas com relação à economia quais são?

Marcel Solimeo: 2004 melhor que 2003, crescer 3%, 3,5%, a agricultura obviamente vai crescer mais. Mas obviamente o nosso problema não é o hoje, nosso problema é que, no longo prazo, nós não resolvemos nenhuma das questões fundamentais, estruturais, que implicam inclusive em obstáculos ao desenvolvimento da agricultura. Daqui a pouco não adianta você produzir que você não vai ter porto para exportar, como aconteceu no porto de Paranaguá. Então crescimento de curto prazo, este ano crescer 3%, o ano que vem talvez dê para crescer mais 3%, mas um crescimento sustentado e mais alto, como tivemos no passado e como precisamos, está dependendo muito de questões estruturais. E a própria agricultura pode acabar tendo um estrangulamento na infraestrutura. Ela pode ter tecnologia, ter crédito, ter mercado, e morrer na praia, se não resolver. Estão discutindo já há um ano e tanto essa PPP( parcerias público-privadas), estão discutindo regulamentação de agências, tão discutindo uma série de coisas, mas até agora nada definido, nada resolvido. Se não se eliminar os pontos de estrangulamento da infraestrutura, pontos de estrangulamento macroeconômicos, o risco tanto para a agricultura como para as demais atividades é de um crescimento medíocre. Se a indústria de repente, por um milagre, saísse a todo vapor, nós íamos bater na energia elétrica. Então os problemas estruturais condicionam o crescimento de longo prazo do Brasil.


Portal - E em relação à taxa de juros, que está caindo muito lentamente?


Marcel Solimeo: A taxa de juros, a taxa Selic, tem uma grande importância como sinalização, mas se você pegar a diferença entre taxa Selic e a taxa paga pela empresa ou pelo consumidor, o tal spread (taxa de risco), há uma diferença muito grande. Nós vamos ter que trabalhar muito nesse spread, por que a taxa Selic pode e deve continuar caindo, vai continuar caindo lentamente e tem um limite de queda, que não é suficiente para tornar os juros efetivos pagos pelas empresas suficientes para aumentar a competitividade. Então nós temos que trabalhar muito na redução do spread bancário, e aí vem compulsório, vem tributação, vem risco de crédito, vem falta de concorrência maior entre os bancos, tudo isto que tem que ser atacado. Porque a agricultura tem que trabalhar com crédito a custo de mercado, mas não dá para ela trabalhar com crédito a custo de mercado, como não dá para a indústria ficar pagando aí 40%, 45 ou 50% ao ano e o competidor dela 4%. Então a tendência da taxa de juros, tendência da Selic, é continuar caindo lentamente, isso é importante como sinalização, mas temos que atacar os outros componentes da taxa de juros para que a queda seja mais que proporcional à queda da Selic, para que a gente possa ter o crédito na ponta mais barato, e isso ainda não estou vendo passos nessa direção.


Portal - Tem uma coisa que o governo está começando anunciar que vai fazer, que é a criação de um fundo de investimento do agronegócio, para capitar poupança interna, e de letras de comércio agrícolas, para capitar recursos externos. O senhor acha que essas seriam uma saída para o financiamento ?


Marcel Solimeo: Eu acho que sim. Você está criando uma poupança de longo prazo através dos fundos de pensão que necessita inclusive de papéis, eles só tão aplicando em papel público. Na medida em que reduzir a demanda do governo no mercado, esses fundos vão precisar de papéis para formar suas carteiras, papéis de prazos mais longos, e isso abre um campo para financiamento da atividade agrícola como do próprio comércio, com os recebíveis, tudo isso. Agora, não adianta criar o papel se não der condições efetivas de mercado, se tiver uma tributação excessiva, se tiver uma série de restrições, como o governo em tudo costuma ter, acaba inviabilizando.


Portal - A principal crítica que se faz a esse projeto do governo, é que o Brasil tem uma poupança interna muito pequena para poder financiar.


Marcel Solimeo: Ela é pequena mas ela é crescente, via fundos de pensão. E é poupança de longo prazo, coisa que nós até agora não tínhamos, o cidadão poupar a longo prazo. O setor externo, na medida em que a agricultura é exportadora, ela tem condições de tomar financiamento externo por que ela tem o hedge natural do risco de câmbio. Então eu acho que há espaço pro governo fazer esse financiamento agrícola e mesmo industrial e comercial via fundos de pensão. Agora o fundamental para isso era você liberar a poupança interna e para isso o governo tem que reduzir o seu déficit, reduzir dívida. Não adianta essa história de que nós estamos com superávits, é balela. Nós continuamos tendo déficit público. Superávit primário foi um truque que o ex-ministro Delfim Neto inventou por que ele não conseguia cumprir as metas do FMI. Na verdade, nós temos é déficit, por que superávit primário não inclui a conta juros. Então o governo precisava reduzir a necessidade dele de poupança interna para liberar para os outros setores. A poupança brasileira é baixa mas não é o pior problema. O pior problema é que a poupança que existe é carreada para o governo, para financiar o governo. Nós tínhamos, aí na década de 70, investimentos da ordem de 25% do PIB. Era 18% de poupança do setor privado, 2% de poupança externa, e 5% de poupança pública. Hoje nós continuamos tendo os 18% de poupança do setor privado, menos um, menos zero qualquer coisa externo, por que em vez de receber nós estamos exportando poupança quando temos superávit, e temos um déficit de 5% do governo, que consome poupança do setor privado. Então o problema do financiamento, não só da agricultura, não é não ter a poupança. É que o governo continua absorvendo uma parcela muito grande da poupança doméstica. Mas como está aumentando a poupança de longo prazo, há uma possibilidade, por que esses fundos vão ter que aplicar e aplicar em papéis, do setor privado também. E a agricultura é um setor que pode tomar financiamento externo, a agricultura exportadora, por que ela tem o hedge. Porque o que inviabilizou, quebrou empresas, foi essa questão de financiamento externo, porque a volatilidade cambial é muito grande. Embora ultimamente, a taxa cambial esteja relativamente comportada, nós tivemos saltos que quebraram muitas empresas que tomaram financiamento externo. Agora, quem tem o hedge natural, como a agricultura, não tem esse risco.



Portal - O PIB agrícola, no ano passado, foi o responsável para que o resultado geral não fosse ainda mais desastroso. Só que a industrialização sempre foi considerada indutora do desenvolvimento, pelo menos nas últimas décadas. Com esses resultados da agropecuária e do agronegócio, o senhor acredita que esses setores podem se tornar indutores do desenvolvimento no lugar da indústria?



Marcel Solimeo: Eu acho que não é "no lugar", são complementares. A evolução natural do desenvolvimento, quer dizer, o país começa agrícola, depois vai se industrializando, a indústria passa a ser o setor mais importante dentro do PIB, depois o setor serviços. Isso era tradicionalmente, mas hoje a agricultura capitalista é uma agricultura tecnificada, com investimentos, então ela deixa de ser aquilo que era no passado: liberadora de mão de obra para o setor urbano. Ela passa a ser uma atividade com tanta incorporação de tecnologia como a indústria ou serviços. E, no caso brasileiro, em que nós temos o potencial para ser celeiro do mundo - temos as condições - a tendência é que a agricultura e o agronegócio tenham um aumento da sua participação no PIB. E a indústria vem tendo já um declínio, mas na medida em que parte do agronegócio é indústria, ela mantém, mas a agricultura, via exportação, ela deve ter um aumento da participação no PIB e ser um alavancador importante do crescimento da economia. Mas acho que não é em substituição, acho que é complementarmente.


Portal - Essa questão justamente desse segmento exportador ser o que está tendo o melhor desempenho não deixa o Brasil muito vulnerável às questões do mercado externo?

Marcel Solimeo: Veja, na medida em que você consiga diversificar mercados, e é o caminho que o Brasil vem seguindo, você reduz, não elimina, mas reduz esse risco. Um outro ponto: quando você exporta 12 bilhões de dólares e tem uma crise externa, sua capacidade de ajustar é pequena, qualquer crise que afete a sua exportação é mortal, como nós éramos no passado. Nossa balança comercial era de 4 bilhões de dólares, as exportações, passamos para 12 e já foi um salto, estamos aí na casa dos 60. Mas se nós tivéssemos um comércio internacional - o México está com 150 bilhões, não vou nem falar da China. Se você tiver uma queda de 5% em 150 bilhões, o impacto interno é pequeno. Então, quanto mais nós aumentarmos as exportações, mais nós estaremos minimizando os riscos de oscilações no mercado internacional. Então eu vejo ao contrário, eu vejo que nós temos que aumentar o volume de exportações, não necessariamente aumentar o saldo da balança comercial, aumentar o volume de comércio exterior, que quanto maior esse volume menor o impacto de qualquer oscilação externa. Se você fizer um ajuste, com a queda das exportações de 5%, quando você exporta 150 bilhões, o impacto interno é menor do que quando você exporta 12. Então, eu acho que temos que caminhar para aumentar o volume do nosso comércio exterior, não o superávit comercial, por que acho que o superávit comercial está de bom tamanho já, e nós estamos tendo superávit em transações correntes, o que não é o caminho para um país em desenvolvimento, significa exportar poupança e nós precisamos de poupança interna. Então eu acho que nosso objetivo não é tanto aumentar o superávit comercial, é aumentar o volume de comércio exterior.

Portal - Mas no Brasil, a maioria das exportações ainda é de produtos primários. O senhor acha que agregando valor o resultado seria melhor? Quer dizer, o que falta para mudar esses parâmetros?


Marcel Solimeo: Eu acho que nós temos que caminhar para agregar valor, o agronegócio é o caminho para você agregar valor, você vender mais os alimentos e as matérias primas transformadas, você agrega valor. Mas ainda nós vamos continuar sendo um fornecedor importante de produtos primários mesmo. Eu acho que nós não temos que procurar só substituir o produto primário pelo produto já com algum grau de industrialização, nós temos que procurar é aumentar as duas coisas, para poder aumentar realmente a nossa produção. O grande problema do Brasil na exportação é que nós não temos excedentes exportáveis. Agora na agricultura conseguimos um aumento na produção para gerar um volume maior de excedentes exportáveis, mas até há pouco nós exportávamos quando o mercado interno encolhia. Quando o mercado interno se recuperava, a exportação caía. O que nós temos que ter é um volume de produção que nos permita atender ao mercado externo e atender ao mercado interno quando ele se recupera. O Plano Cruzado deu a explosão de consumo e nós viramos importador de alimento, no Plano Real no começo a mesma coisa. Então, nós temos que aumentar a produção e acho que temos campo ainda para continuar exportando volumes apreciáveis de produtos in natura e temos campo para conquistar mercados para os produtos já elaborados, com valor agregado muito mais alto. O caso do café solúvel é um exemplo: a gente exporta o café e a Alemanha processa e é a grande fornecedora do café solúvel no mundo. Acho que é um processo, nós já incorporamos tecnologia no processo produtivo. Nós precisamos incorporar tecnologia na transformação e precisamos incorporar tecnologia e principalmente investimentos na infraestrutura, que é um grande gargalo da exportação brasileira. Acho que nós temos muito o que avançar, não é caso ainda de a gente pensar: "Vamos substituir a exportação do produto primário pelo semi elaborado." Vamos exportar primário, vamos exportar semi elaborado, vamos exportar produto acabado, tem mercado pra tudo aí. E você vai ter compradores que querem ainda o produto primário.


Portal - Esse modelo do agronegócio, altamente tecnificado, convive com uma agricultura familiar, que enfrenta problemas de crédito, de baixa tecnologia. Como conciliar esses segmentos?


Marcel Solimeo: Eu acho que eles não são conflitantes ou mutuamente excludentes. Eu acho que nós temos ainda necessidade muito grande de manter a agricultura familiar por que é ocupação de mão-de-obra. Agora, nós temos que procurar é como aumentar a produtividade da agricultura familiar, para que realmente se manter no campo não seja um sacrifício, mas seja uma opção. Tem vários países onde a agricultura familiar tem um papel importante. No Brasil, que nós temos uma população grande para alimentar, e determinados produtos que não permitem as grandes extensões ou as grandes propriedades, têm que ser desenvolvidos pela agricultura familiar. Mas pode ser desenvolvido pela agricultura familiar mais produtiva, mais eficiente. Acho que nós temos que investir na tecnificação da agricultura familiar, na preparação do agricultor para que ele seja um empresário agrícola, embora pequeno. Você tem o pequeno empresário urbano, você tem o micro-empresário urbano, que não precisa necessariamente ter uma baixa tecnologia ou uma baixa eficiência. Eu acho que esse conceito é que tem que ser transportado para a área rural. Agora é lógico que depende de apoio tecnológico, depende de apoio financeiro, depende apoio gerencial, formação de mão-de-obra. E também do conceito de que a propriedade agrícola pequena não tem que ser só produtora de alimento. Existem várias atividades que você desenvolve dentro da atividade agrícola. A atividade agrícola tende a ser cada vez mais multifuncional, multisetorial. Você tem uma pequena propriedade com gado, você faz um queijo, você faz produtos derivados do leite. Você industrializa plantas, você não precisa necessariamente ficar só na fase da produção. Muitas vezes o filho do agricultor, normalmente, ele estuda mais e quer sair, quer ir para a cidade, mas pode desenvolver na propriedade agrícola uma série de outras atividades e não necessariamente ficar só no hortifrutigranjeiro. E pode produzir o hortifrutigranjeiro com melhor tecnologia, aliás hoje você já tem aí os produtos naturais, que é uma evolução da agricultura, da agricultura sem agrotóxicos e tudo isso, e que tem um valor de mercado maior. Também o pequeno produtor pode pensar em agregar valor aos seus produtos. Acho que isso não é incompatível com a grande propriedade, com a agricultura voltada para exportação, por que tem uma série de produtos que não dá para você imaginar em produzir em grandes propriedades. Eu acho que elas são complementares, não são nem concorrentes nem mutuamente excludentes, nem competidoras.


Portal - O senhor tem uma avaliação da política do governo, tanto para o setor que é mais tecnificado quanto para a agricultura familiar?


Marcel Solimeo: Olha, acho que o grande apoio do governo para o setor agrícola foi a Embrapa. Fora isso, nós vivemos de períodos cíclicos, nós tivemos períodos em que o crédito para agricultura era abundante, era disponível, e períodos em que não se tinha o crédito. Nós nunca tivemos uma política agrícola regular, ela foi sempre cíclica, variando muito em função até da própria conjuntura econômica, da arrecadação do governo, e isto acabou fazendo com que a agricultura fosse se libertando do governo, no caso dos grandes empresários. Para os pequenos, não existe praticamente uma política agrícola e hoje eu diria que existe praticamente uma antipolítica agrícola, que é o que está se fazendo com essa política de assentamentos. Eu acho que é antipolítica agrícola você pegar pessoas totalmente despreparadas, que não têm nenhuma vivência da agricultura, aliás acho que é uma confusão muito grande achar que o camarada que trabalhou na enxada é um agricultor. Não necessariamente, o agricultor é um camarada que corre o risco da atividade, que toma decisões: o que plantar, o que não plantar, quanto plantar, que tecnologia usar. Não é o camarada simplesmente que trabalhou na enxada na agricultura que você vai transformá-lo num agricultor. Agricultor é um empresário. Você não transforma um torneiro mecânico num microempresário se ele não tiver as condições inatas da atividade empresarial, não adianta chegar e falar: "Pode pegar seu torno aqui da firma e leva para sua casa" e vai ter um microeempresário, se não tiver noções do que fazer com aquele torno, qual é o mercado, onde conquistar, como administrar. E a mesma coisa é a agricultura e inclusive a agricultura familiar. Então essa política de assentamento, onde estão jogando muito dinheiro, que poderia estar sendo utilizado para fortalecer efetivamente a agricultura familiar, eu acho que é uma antipolítica agrícola.


Portal - Mas é inegável que existe uma massa reinvidicando terra, quer dizer, ao lado dessa agricultura empresarial tecnificada, ao lado da agricultura familiar, há esse grande contingente. O que fazer para absorver esse contingente?


Marcel Solimeo:
É um contingente que foi criado artificialmente, a grande maioria não é nem da zona rural, tem pesquisas mostrando que o MST recruta gente, desempregado da cidade, com a promessa de obter terra. Como é que se fez a reforma agrária, entre aspas, no interior do estado de São Paulo? Japoneses e italianos que vieram como imigrantes, ninguém deu lotes pra eles; eles foram trabalhando e comprando. Por que ? Porque eles tinham espírito empresarial. Você dá um lote pra um camarada que não tem nenhum conhecimento da terra ou pode até, mas não tem o espírito empresarial, ele não vai se transformar num agricultor, ele vai ser um assentado a vida inteira, vai ficar sempre dependente da orientação, do suporte, que continua sendo até nos assentamentos mais antigos, de recursos para sobrevivência. Tem que distribuir cesta básica em assentamento. Você não faz o agricultor simplesmente dando terra pra ele. Você dá, mas tem que dar terra, tem que dar as ferramentas, assistência técnica, mas se ele não tiver um espírito empresarial ele vai ficar no assentamento fazendo a mesma coisa a vida inteira. Eu acho que a política de distribuição de terra não é a solução, pode ser uma parte da solução, mas se você continuar com essa política por que tem uma pressão. O governo não faz reforma agrária, ele reage às pressões do MST. Ele não determina a política que ele vai fazer: o MST pressiona por distribuição de terra, ele faz distribuição de terra. Qual é a análise da relação custo/benefício dessa política que foi feita até hoje? Os poucos estudos que foram feitos não mostram um resultado positivo da relação custo/benefício. O problema de venda de terra, de abandonar assentamento, isso é uma prova de que essa política não pode ser generalizada como está sendo. Acho que se você desse mais apoio à agricultura familiar, talvez tivesse menos gente pedindo terra. A melhor reforma agrária para esvaziar o MST é voltar a crescer o emprego na cidade, você vai ver. Porque o problema não é de estar sem terra. Qual é a população sem terra dos Estados Unidos? 96% da população, por que só 4% são agricultores. Isso é uma inversão completa de raciocínio. Eu sou um sem terra. O problema não é terra. Onde é que está escrito, qual é a ciência que mostra que você tem que dar terra pra todo mundo e que isso vai resolver o problema do emprego no Brasil ou qualquer tipo de problema no Brasil? Você pode ter política para facilitar o acesso à terra, mas o cara tem que pagar por isso.


Portal - O senhor acha que com a expansão do agronegócio o próprio setor poderia gerar os empregos suficientes para absorver essa mão-de-obra, sem a necessidade de uma reforma agrária com distribuição de terras?


Marcel Solimeo:
Eu acho que não só o agronegócio, precisa da agricultura familiar e precisa voltar o emprego urbano. O processo natural de desenvolvimento em todos os países, e que o Brasil vinha seguindo, é que a atividade agrícola é liberadora de mão-de-obra. Agora, isso pressupõe que o setor urbano absorva. O que está acontecendo é que o setor urbano está sendo liberador de mão-de-obra. Então, você está tentando devolver esse pessoal para o campo em vez de tentar gerar emprego aqui. Acho que é uma visão completamente equivocada, e hoje em dia - hoje em dia não é agora não, o governo Fernando Henrique fez igualzinho, ele não fez política de reforma agrária, ele reagiu ao MST. O governo faz também agora, que aumentou um 1,7 bilhões de recursos para reforma agrária, ele aumentou o valor que ele dá para o arrendado de quatro mil e duzentos para sete mil, ele aumentou o sete mil e pouco para dezesseis o valor para compra de material, numa reação às pressões do MST. Ele não analisou se é isso o que está precisando fazer. Ele não analisa se aquela região é propícia a você fazer uma reforma agrária e desapropriar, ele vai onde está a pressão do MST e desapropria. Ele não analisa se em determinadas regiões, pelas características do solo ou da atividade agrícola, tem que ser grandes propriedades mesmo. Nada disso é analisado, ele só reage às pressões. Tem uma demanda por terra gerada pelo MST, ele distribui terra. Mas o pior não é isso. Eu digo que isso é anti-política agrícola porque ele gerou insegurança no campo, no proprietário agrícola. Quem vai investir? Por que você não tem investimento estrangeiro na agricultura? Quem vai investir? Mesmo o brasileiro, tem brasileiro investindo no Paraguai, na agricultura! Você investir aqui, qual é a segurança jurídica que você tem? A economia capitalista é uma economia contratual, uma economia baeada em instituições. Você tem que ter garantia do direito de propriedade e garantia do respeito aos contratos, sem isso nenhum país se desenvolve. Isso vale para a agricultura e o direito de propriedade na agricultura já foi limitado até constitucionalmente de forma demagógica: função social. Mas além de ele ter posto aquelas limitações todas já na Constituição nem aquilo está garantido. O jornal O Estado de São Paulo, de 15-04-2004, deu uma foto dramática de um cidadão que fez da casa dele um bunker, para garantir a propriedade dele, que está na família há 70 anos. Isso é estimular o setor agrícola? Agora uma pergunta que ninguém faz: por que entidades estrangeiras financiam o MST? É só razões humanitárias? Eu tenho minhas dúvidas. O Brasil é a maior ameaça para a agricultura dos Estados Unidos, como competidor, o Brasil tem tudo para ser o maior exportador agrícola do mundo. Será que toda essa proteção ambiental, todas essas pressões de ONGs, por terra para índio, para MST invadir, restrições ambientais, essas ONGs são totalmente desinteressadas, todas humanitárias, com tanto dinheiro como têm? Por que que tem uma série de entidades financiando o MST? Por que eles não financiam aqui várias entidades que tentam sustentar criancinhas ou o pessoal da favela aqui de Heliópolis para desenvolver atividades produtivas? Por que financiam o MST? Eu tenho sérias dúvidas de que isso seja por altruísmo.

Portal do Fazendeiro

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