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João
de Almeida Sampaio Filho
Presidente
da Sociedade Rural Brasileira - SRB
João de Almeida
Sampaio Filho, 39 anos, casado, é economista (FAAP
- 1987) e fazendeiro no Paraná e Mato Grosso. É
também diretor da Usina de Borracha Interlatex, em
Barretos, São Paulo, e atual presidente da Sociedade
Rural Brasileira (SRB). Foi presidente da Associação
dos Produtores de Borracha de Mato Grosso, entre 1994 e 1998,
e da Comissão Nacional da Borracha da Confederação
Nacional da Agricultura - CNA, entre 1996 e 2002.
Portal -Portal
do Fazendeiro: Em recente editorial divulgado, a SRB defende
que o modelo distributivista de reforma agrária utilizado
não é mais compatível com a realidade
dos dias atuais. Por que?
Sampaio Filho:
Porque
primeiro eu acho que o foco, hoje, tem que ser na renda. O
problema que existe nas cidades e no campo é a falta
de renda. No caso específico do campo, isso é
muito claro: é a falta de renda e não a falta
de terra que está acometendo um grande número
de pessoas. E distribuir terras não é distribuir
renda. O governo federal tem agido em função
do fato de que distribuir terras é distribuir renda.
Queremos deixar clara esta dicotomia. Ter terra não
é garantia de renda e muitas vezes é possível
obter uma renda sem ter, necessariamente, a propriedade de
terra. O governo federal poderia estimular consórcios
de produtores em que o próprio governo subsidiasse
o custo de arrendamento para que esse grupo de produtores
arrendasse propriedades e produzisse. Seria muito mais barato
e atenderia um número muito maior de famílias,
além disso o governo poderia usar tais recursos para
comprar terra e garantir, por exemplo, uma melhoria de assistência
técnica; poderia criar núcleos urbanos, conjuntos
habitacionais que estimulariam a construção
civil. Já existem áreas com infra-estrutura
para educação, saúde e transportes e
esses produtores se uniriam para produzir em determinadas
áreas que não necessariamente teriam que ser
deles. Ou seja, as terras teriam que ser arrendadas e o governo
teria que pagar esse arrendamento. Então, o que nós
estamos contestando é o conceito ideológico
de reforma agrária, em que precisa haver a punição
do proprietário com a desapropriação
de sua terra e a doação desta área para
assentados.
Portal -
Os que defendem uma reforma
agrária distributivista, usam como justificativa
o conceito de função social da terra, ou
seja, que determinadas propriedades não cumprem
essa determinação constitucional. Como o
sr. avalia esse conceito e as justificativas que nele
se baseiam?
Sampaio Filho:
Eu
acho que a terra, se trabalhada, pode gerar renda. Então,
para que a terra cumpra essa função social,
que muitas pessoas defendem, não é obrigatório
que haja a desapropriação e que haja, vamos
dizer assim, essa distribuição de terra.
O acesso à terra para que seja gerada uma renda
pode se dar de inúmeras formas e não obrigatoriamente
desta maneira, que é a forma mais cara e, na minha
opinião, a que menos dá resultados neste
momento. Por que? Porque a quantidade de terras improdutivas
diminuiu muito nos estados produtores e nas regiões
onde já existe infra-estrutura esta terra está
caríssima. Então fica cada vez mais difícil
para o governo cumprir a promessa de desapropriar e dar
a terra para as pessoas. Por isso a política agrária
norteada pela desapropriação é um
erro.
Portal - Há
quem afirme que não existem mais sem-terras no
Brasil. O que a SRB acha disso?
Sampaio Filho: Achamos que existem os sem-terra,
afinal existem milhares de famílias acampadas.
No entanto, essas pessoas não chegam ao número
que é alardeado pelo MST ou por outros movimentos
sociais, que é mais de 100 mil famílias.
Achamos que o número é muito menor. Agora,
é claro que existem pessoas que não têm
terra, mas que possuem aptidão para trabalhar na
terra. Para essas pessoas a gente defende que o governo
federal faça um projeto que envolva o crédito
fundiário, que é levantar dinheiro para
que possam comprar terra. Também defendemos o subsídio
ao arrendamento dessas terras e a formação
de consórcios, de cooperativas, para a exploração
de fazendas.
Portal - Qual
é o modelo ideal de reforma agrária para
a atualidade? Ele daria uma resposta aos anseios de milhares
de famílias que fazem parte do movimento pela reforma
agrária?
Sampaio Filho: O modelo que acabei de mencionar seria
um modelo mais moderno, capitalista, poderíamos
chamar. Seria um sistema muito mais viável, que
poderia estar linkado com uma agroindústria. Seria
uma produção já direcionada, específica,
isto é, em determinada região se produz
isso, em determinada região se produz aquilo, tudo
com um mercado garantido. Ou seja, uma coisa muito mais
lógica do que o governo vem fazendo hoje. O governo
dá a terra. A terra custa caro. Dada a terra, falta
infra-estrutura, falta logística, falta assistência
técnica. O governo então, sem saber o que
fazer, não resolve o problema e cria um programa
para comprar antecipadamente tudo o que for produzido.
Está errado. A reforma agrária já
foi feita no Brasil, o Brasil fez a maior reforma agrária
do mundo. Nos últimos dez anos, o Brasil desapropriou
20 milhões de hectares e assentou 400 mil famílias,
número superior à quantidade de agricultores
de um país como a Argentina, por exemplo. Isso
já é a maior reforma agrária do mundo.
Então para que continuar insistindo em algo que,
infelizmente, não está dando certo? Então
eu acho que o modelo ideal é um que gere condições
para que as famílias tenham acesso à terra
e que esse acesso seja democrático. E isso, repito,
pode ser feito com crédito fundiário, cooperativas,
parcerias rurais e arrendamentos.
Portal - Existe
uma discussão sobre a limitação do
tamanho que uma propriedade rural deve ter. Qual é
a posição da SRB em relação
a isso?
Sampaio
Filho: Nós somos totalmente contrários
a essa idéia. Trata-se de um anacronismo, uma excrescência
dentro da constituição brasileira, uma coisa
absurda. Nós até pedimos a essa pessoas,
que defendem essa idéia, que vejam a China, por
exemplo, que mudou a constituição para,
justamente, permitir a concentração da terra,
para aumentar o tamanho da propriedade. Em algumas culturas,
é bom que a propriedade seja grande para que gere
maior competitividade; em outras culturas, é importante
que a propriedade seja pequena também em função
da competitividade. Então a agricultura familiar
e a agricultura empresarial são atividades que
andam juntas e que não são antagônicas,
como querem fazer acreditar os opositores.
Portal - A
SRB concorda com os critérios de produtividade
adotados hoje em dia para definir se a propriedade é
produtiva ou não?
Sampaio
Filho: A opinião da SRB sobre isso é
que esses critérios atuais já colocam a
obrigatoriedade dos proprietários brasileiros,
dos fazendeiros brasileiros, estarem entre os mais produtivos
do mundo. Então não tem sentido algum aumentar
esses índices; os índices foram criados
há algum tempo e era muito difícil alcançá-los.
E hoje, porque muitos alcançaram, não tem
sentido punir os proprietários aumentando ainda
mais esses índices.
Portal - O
líder do MST, João Pedro Stédile,
já declarou que o MST quer terra para trabalhar
e não para acumular. Por isso defende que os assentados
não recebam o título de propriedade individual
da terra e sim a concessão de uso real, com direto
à herança. Esse seria um modelo viável?
Sampaio
Filho:
Isso pressupõe que a terra seja do governo. Na
nossa opinião, é uma coletivização
da terra que já está ultrapassada. Um modelo
muito mais viável seria que o governo federal subsidiasse
a compra de terras, que o governo ajudasse a pagar o arrendamento
dessas terras; não haveria necessidade do governo
comprar a terra. Na nossa opinião, o governo federal
deveria, em primeiro lugar, abaixar os impostos, e com
o dinheiro arrecadado investir em saúde e educação,
e não em aquisição de terras. Adquirir
terras não faz sentido em um país em que
faltam tantas outras coisas.
Portal -
Como conciliar a agricultura familiar, basicamente voltada
para o mercado interno, com uma agricultura empresarial,
capitalizada, e dedicada, principalmente, à exportação?
Sampaio
Filho: Eu
acho que dá para conciliar sem o menor problema.
São atividades que caminham juntas. Como eu falei,
existem culturas próprias para a agricultura familiar
e outras culturas que são mais apropriadas para
a produção em grande escala, voltadas à
exportação. Então eu acho que elas
não devem ser vistas como atividades antagônicas.
E o Brasil é um país continente, tem espaço
para a agricultura mini, pequena, média, grande
e imensa.
Portal -
A expansão do agronegócio tem condições
de absorver a mão-de-obra que está ociosa
no campo? A crescente tecnificação não
contribuiria ainda mais para liberar mão-de-obra,
aumentando o número de desempregados?
Sampaio
Filho:
Felizmente,
a situação tem justamente mostrado o contrário.
Essa foi uma idéia muito difundida nos últimos
dois ou três anos pelo MST, mas atualmente as pesquisas,
o próprio IBGE, mostram o contrário. Onde
mais cresce o número de contratações
de novas pessoas é no campo tecnificado. Se você
analisar o exemplo do Mato Grosso, o nível de desemprego
é muito menor do que em outras regiões do
Brasil, e sabe-se que o Mato Grosso é o Estado
que possui, talvez, a agricultura mais tecnificada do
país. A questão é que o campo tecnificado
exige uma mão-de-obra qualificada e não
pessoas despreparadas. Daí a insistência
da Sociedade Rural em fazer com que o governo utilize
recursos em investimentos em saúde e educação,
prioritariamente.
Portal -
Um dos coordenadores do MST, Gilmar Mauro, disse ao Portal
Fazendeiro que um modelo que pode dar certo implica a
construção de agroindústrias para
a pequena agricultura e no estímulo ao cooperativismo,
como forma de agregação de valor, maior
ganho e geração de empregos. O sr. acha
que pode dar certo?
Sampaio
Filho:
Eu acho que eles estão trabalhando de trás
para a frente, talvez. Antes de ter a agroindústria,
é preciso ter mercado para comprar o produto, e
esse produto precisa ter qualidade. Existem hoje inúmeras
agroindústrias e é claro que os assentados
podem criar novas agroindústrias competentes e
o governo federal pode ser importante nessa parceria.
Acho que o sistema de funcionamento cooperativa-agroindústria
é perfeitamente viável; no entanto, volto
a insistir: em locais onde hoje já existem assentados,
o governo federal deve investir o máximo de recursos
para viabilizar a permanência dessas pessoas na
terra, e aí sim, criar uma agroindústria
e ensiná-los a trabalhar de forma cooperativada.
Para os novos assentados, a gente defende que o governo
não compre terra, mas que os agregue em consórcios
ou cooperativas ou agroindústrias já existentes.
O nível de investimento do governo federal tem
que ser direcionado, prioritariamente, para aqueles que
já estão assentados, para educação,
e não para novos assentamentos.
Portal -
Como o sr. analisa a política agrária do
atual governo? Ela é melhor ou pior do que no governo
de Fernando Henrique Cardoso?
Sampaio
Filho:
No
nossa opinião, continuam existindo os mesmos entraves
que havia no governo Fernando Henrique. Só que
no governo atual houve uma piora em relação
ao MST. Vemos um tratamento condescendente dado ao MST,
há uma falta de pulso por parte do governo para
rechaçar as atividades ilegais, criminosas, do
MST. Isso é uma piora, sem dúvida alguma.
Talvez falte a coragem que esse governo teve para assumir
uma política econômica diferente da que foi
pregada quando era oposição, para também
conduzir a questão agrária. Falta enxergar
que a política que sempre foi defendida está
ultrapassada e não dá mais certo, e que
existe uma alternativa com perspectivas boas. Só
que para isso, é preciso coragem para ir contra
antigos companheiros.
Portal -
Uma das principais críticas dos movimentos populares
é em relação à lentidão
com que o processo está sendo conduzido. O sr.
acha que a questão agrária no Brasil poderia
ser resolvida mais rapidamente?
Sampaio
Filho:
A
lentidão existia no governo FHC. A diferença
básica é que no início do governo
Fernando Henrique existia uma certa "facilidade"
para arrecadar terras, coisa que hoje não existe.
Posso dizer com absoluta certeza que vai ser muito difícil
achar propriedades improdutivas em regiões importantes
no Brasil. Isso porque hoje produzir é um bom negócio;
mau negócio é ter terra parada. Então
é cada vez mais difícil para o governo federal
arrecadar terras, o que agrava ainda mais a lentidão
de uma reforma agrária. Por isso o governo deveria
considerar este fator e mudar o modelo.
Portal - Encontrar
uma resposta para o problema agrário no Brasil
é uma questão de interesse nacional. De
que maneira os diversos segmentos sociais e econômicos
do País podem contribuir para o avanço dessa
discussão e a superação dos impasses
políticos que impedem sua resolução?
Sampaio
Filho:
A
SRB tem tentado expor suas opiniões junto à
mídia especializada, junto a formadores de opinião,
junto a entidades urbanas. Temos procurado professores,
industriais, representantes do comércio, para mostrar
esse lado perverso da questão agrária, que
é a possibilidade de conflitos, a falta de segurança
no campo. E que tudo isso gera falta de investimentos.
Temos procurado mostrar a importância do engajamento
da sociedade urbana na questão agrária.
A sociedade precisa entender que a idéia de que
a reforma agrária vai tirar os desempregados da
cidade e levá-los para o campo é equivocada.
É um conceito vencido, ultrapassado. A atividade
no campo exige cada vez mais qualificação
e educação e a transferência da miséria
urbana para o campo terá cada vez menos sucesso.
E é justamente isso que o modelo do Rossetto (Miguel
Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário)
está fazendo. A SRB tem tentado, nos mais diversos
fóruns, mostrar isso e mudar a situação.
Portal -
E
os resultados são animadores?
Sampaio
Filho:
Os
segmentos têm demonstrado interesse, temos tido
uma receptividade muito grande. Algumas associações
comerciais do interior, próximas a lugares onde
houve assentamentos, no Pontal do Paranapanema, em São
Paulo, ou em algumas cidades do oeste do Rio Grande do
Sul, por exemplo, têm se mostrado sensibilizadas
com a questão. A violência, principalmente,
impressiona e chama a atenção das pessoas.
Quando mostramos alguns vídeos com os atos de vandalismo,
invasões, depredações, a sociedade
vê a gravidade do problema. Isso assusta e acaba
despertando algum interesse.
Portal do Fazendeiro
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