Portal - O
setor tornou-se o grande destaque da economia brasileira,
principalmente em 2003, quando atingiu um crescimento
de 5%, contribuindo para que o resultado do PIB não
caísse ainda mais. A senhora acredita que existe
fôlego suficiente para que esse desempenho continue
se repetindo nos próximos anos?
Amaryllis Romano:
Eu acho que sim, porque estamos num momento muito particular
de Brasil e do mundo. Por que? A gente já viu no
Brasil uma coisa que está acontecendo no mundo
como um todo, que eu faço uma comparação
com aquele período de um ano e meio, dois anos
logo depois do Plano Real, quando você teve uma
estabilidade de moeda, em que você incorporou ao
exército de consumidores do Brasil uma série
de pessoas, um contingente enorme de população
que na verdade não consumia, apenas sobrevivia.
Aquilo teve uma importância em termos de consumo
de alimentos e produtos agropecuários muito grande
para o Brasil. Hoje em dia a gente está vendo isso
ocorrer na Ásia inteira, não é só
na China. Não é só a China que está
vindo, está comprando mais alimentos, mais fios,
mais algodão para a indústria têxtil,
mais aço. Tem hora que a gente acha que até
tem chinês comendo aço porque não
é possível. Mas, na verdade, todos aqueles
países da Ásia estão incorporando
uma parcela de população a esse mundo de
consumo internacional e isso tem dado uma sustentação
para o nível da demanda. Pelo lado da oferta acho
que, salvo algumas exceções, o Brasil é
o que tem maior capacidade de responder rápido
para essas culturas temporárias, essas culturas
anuais. É o que tem área facilmente incorporável,
que se consegue também trocar de uma lavoura para
outra com maior facilidade. Acho que a gente ainda tem
um período bom pela frente. Tem sempre um problema
que é o seguinte: por exemplo, eu estou fazendo
um relatório de setor sucro-alcooleiro. Um problema
que está começando a acontecer que eu fiquei
até surpreendida, a Índia, por exemplo,
substituindo área de cana, que é uma cultura
tradicional do país, por soja. Porque é
um fato, a soja não é só questão
do preço, a soja é questão da liquidez.
Quando você planta soja você consegue recursos
para plantar, recursos para tratar e para colher, porque
é toda uma dinâmica própria desse
produto desenvolvida com fornecedores, com compradores,
que dá uma maior liquidez. Então eu acho
que a gente pode começar a ver uma mudança
de perfil de produção para os países
mas, como eu coloco, o Brasil continua com a vantagem
de poder não abrir mão de nada e aumentar
a área.
Portal - É
exatamente esse setor empresarial, exportador, mais tecnificado,
que está tendo maior sucesso. Isso não deixa
o Brasil muito dependente desses mercados externos?
Amaryllis Romano: Essa é uma questão
interessante porque fala-se muito que o Brasil aumentou
demais a exportação do agronegócio,
mas se você faz a comparação do crescimento
de produção com o crescimento da exportação,
na verdade você aumentou um pouco a participação
do volume exportado na colheita total, mas a maior parte
de tudo o que a gente faz ainda fica dentro do País.
Na verdade, o que existe hoje em dia é uma contaminação
direta entre a formação de preços,
a formação de preços no mercado interno
tem a ver com preços externos, porque você
tem uma economia aberta e globalizada, mas não
são todas as fichas somente na exportação.
Você, nesse período de 90, 94 para cá,
você aumentou a quantidade, por exemplo, de carne
que fica no mercado interno. É óbvio que
a gente sabe que não é verdade você
dizer que cada brasileiro passou a consumir mais carne,
você teve alguma concentração, mas
o fato é que aumentou a disponibilidade interna
também, na mesma proporção que aumentou
a exportação. Não houve essa opção
de produzir mais só para botar lá fora,
pelo contrário, cada vez que você pega uma
parcela de produção e tem que botar no mercado
internacional, tem que seguir uma série de normas
de sanidade, cuidado com doenças, rastreamento,
para ter a localização da questão,
que isso beneficia o consumidor doméstico também.
E sempre tem que levar em conta o seguinte: a maioria
dos produtos que o Brasil bota para fora tem primeiro,
segundo ou terceiro lugar na produção mundial,
portanto, dizer que a gente fica à mercê
do mercado externo é complicado porque, na verdade,
o preço externo depende da nossa produção.
Nós somos fator determinante na formação
de preços internacionais.
Portal - O
Brasil continua muito dependente da exportação
de produtos primários. O que fazer para agregar
valor a eles e conseguir melhores resultados?
Amaryllis Romano: Por exemplo, na soja você
já vem tendo uma evolução maior da
exportação do farelo. Seria mais interessante
a gente exportar mais óleo que, na verdade, é
o que tem maior valor agregado. Isso é conquista
de mercado e aquela questão de trabalhar lá
fora de maneira conjunta. Por exemplo, a pecuária
tem ganho espaços lá fora com produtos de
maior valor agregado. Se você pega fruticultura,
ela tem crescido com valor agregado, então é
um processo que você tem que ir colocando. Para
ter produtos de maior valor agregado, aí é
que é interessante como isso bate na dinâmica
da economia interna. Você tem que ter uma melhoria
de insumos aqui dentro também. Um exemplo disso
é, por exemplo, o ano passado: você tem a
indústria de papelão ondulado que é,
vamos dizer, a base de todas as embalagens. A produção
física caiu 12,8% e o faturamento subiu 25%. Sabe
por que ele subiu 25%? Não é porque eles
exportaram embalagens ou caixas de papelão, é
porque produziram muito produto de maior valor agregado
para embalar esses produtos de origem agropecuária
e mandar lá para fora. Então você
tem é que estar sempre ajustando: vai botar uma
carne de maior valor agregado lá fora você
tem que ter um processo aqui dentro de produção,
distribuição, embalagem, tudo mais, adequado
a colocar um produto de melhor qualidade no mercado externo
e isso acho que a gente está no processo, acho
que vai acontecer sem sombra de dúvida. A gente
vai encontrar muitas barreiras porque, hoje em dia, o
negócio está ficando cada vez mais sutil,
as barreiras não são mais somente tarifárias.
Tipo assim: o frango salgado, a partir deste mês,
ele não é mais considerado salgado só
com 0,00032 de sal por peça, agora ele vai ser
considerado salgado se ele tiver 0,00010. Isso aí
é uma barreira sutilíssima para o produto
de qualquer exportador para o país que está
fazendo isso. Então é uma questão
de agilizar e adequar ao mercado externo mas acho que
é um processo que já está ai, a pecuária,
a avicultura é muito claro isso.
Portal -
O exemplo mais clássico é o café,
a Alemanha, que não planta, é o maior exportador.
Amaryllis
Romano: O café é uma coisa um pouco
mais complicada pelo seguinte: o Brasil sempre foi líder
em café. Por que o Brasil perdeu essa posição,
por que o café caiu tanto? Tem muito a ver com
uma postura internacional de suporte a essas economias
asiáticas que, hoje em dia, estão sendo
em grande parte responsáveis por esse nível
de consumo mundial. Então o que aconteceu? A Alemanha
é o maior exportador de café mas ela processa
um café indecente. O café que a Alemanha
processa não necessariamente é aquele nosso
café bom, não é o arábica.
Aí é um problema da cadeia produtiva do
café aqui, que não se deu ao trabalho, durante
um bom tempo, se bem que eles já acordaram faz
uns quatro anos, de fazer um trabalho internacional de
divulgação do café brasileiro, que
é um café de melhor qualidade do que o café
do Vietnam. A gente tem o robusta, que é usado
na confecção de café solúvel,
pela indústria que usa café para fazer outro
tipo de coisa, bolo, confeito, etc., mas nós temos
um arábica de melhor qualidade. Isso é uma
questão só de divulgação,
não tem como você provar para um cidadão,
que "o meu café é melhor", é
uma questão de você botar o selo de qualidade,
que já tem. O que aconteceu com o café foi
o seguinte: a produção mundial estourou
mas não estourou no café de qualidade do
Brasil, estourou pela produção de robusta
em países não tradicionais. Agora já
está mudando, esses países estão
largando um pouco, também lá vai ter uma
migração de café para soja também,
e aí, por exemplo, você começa a mexer
nesse preço da soja, do açúcar, tem
uma certa migração para outras lavouras
e a tendência no médio prazo é dar
uma equilibrada. Mais uma vez é uma questão
de não ter a preocupação com a divulgação,
com a embalagem, com um monte de coisas. Em que o café
que é vendido da Itália é melhor
do que o café que a gente toma aqui? Em nada, no
entanto é o "expresso italiano". Expresso
italiano é uma máquina porque o café
não é de lá, não tem café
na Itália. O que faz o café é, realmente,
a qualidade, a qualidade que nós temos.
Portal -
O setor agrícola tem tido muito peso nas negociações
da OMC e para a formação da Alca. A senhora
acredita que os países desenvolvidos podem ceder
na questão dos subsídios, das barreiras
tarifárias e de outras ordens?
Amaryllis Romano:
Acho que essa vai ser uma das maiores brigas. Alguma coisa
vai ter ceder porque senão você não
vai chegar jamais num acordo e essa discussão é
muito mais ampla do que Brasil/Estados Unidos só.
Os Estados Unidos têm problemas sérios com
a União Européia, a gente também;
é uma negociação bastante complicada.
Acho que tende a haver algum tipo de abertura sim, mesmo
porque nem os Estados Unidos estão agüentando
o seu sistema de suporte à agricultura, apesar
de ter uma tremenda parcela que é de recursos privados,
mas está ficando muito difícil. Eles ficam
numa posição bem mais confortável
atualmente quando todos os preços estão
acima do que eles consideram mínimo e eles não
têm que pagar nada. Acho que até por condições
internas - o déficit americano é uma coisa
complicada também - eles têm que tomar algum
cuidado com isso. A União Européia também
vai ter que começar a pensar que não dá
para suportar produtor francês com tamanho subsídio
à medida que for incorporando todos aqueles países
do Leste Europeu. Lá talvez justificaria algum
tipo de subsídio, até trazer aquela produção
ao patamar tecnológico do resto do mundo, mas ficar
a União Européia inteira sustentando a França
e levando prejuízo no resto também é
complicado. Aí são muitos anos de discussão,
você vai ter meio passo para frente e cinco para
trás porque primeiro são culturas e tradições
diferentes em cada uma dessas regiões do mundo
e segundo são posições muito difíceis.
Como é que você vai dizer para um produtor
de queijo na França que ele não vai ter
mais subsídio? Pelo sistema corporativista que
ele tem, aquela cultura toda, não é uma
coisa muito simples, no entanto vai ter que ter algum
tipo de negociação e eu acho que vai ser
forçado até por questões internas.
Portal - Um
dos principais problemas do setor é o financiamento.
O governo está, inclusive, tentando uma aproximação
com o mercado financeiro através da criação
das CRAs - Certificados do Recebível do Agronegócio
- e de fundos de investimentos. Você acha isso viável?
Amaryllis
Romano:
Eu acho, mas uma vez mais a gente vai bater numa história,
que é o que eu acabei de falar, que é a
questão da cultura. Inclusive a Tendências
está envolvida num projeto de formação
desses fundos, num sistema mesmo junto com a BM&F,
é um trabalho que começou antes de eu vir
para cá, lá em 1997, com a primeira proposta,
e está sendo levado adiante. A grande questão
é o seguinte: a gente tem que montar um esquema
de maneira que você minimize para o aplicador o
risco da agricultura e da pecuária que são
atividades de risco de fato. Você pode perder muito
ou ganhar muito. A hora em que você vai chamar um
investidor privado, ele não necessariamente quer
saber o que é que ele está mexendo. O cara
pode estar querendo aplicar em café mas não
quer ver pé de café nenhum. O máximo
que ele quer ver em relação com o café
é tomar um cafezinho. Mas para o cara ter segurança
você primeiro tem que desenvolver um sistema de
informação nacional porque se, por acaso,
o cara quiser saber o que está acontecendo ele
consegue e criar esses mecanismos, vamos dizer, de securitizar
de fato esses papéis. Você só faz
isso, primeiro, você tem que ter participação
do setor privado mesmo, não pode ficar só
na mão de instituições oficiais e
você tem que ter câmara de compensação,
seguro para esse tipo de coisa e, principalmente o seguinte:
se você não fizer esse tipo de coisa agora
você não vai ter nunca mais, a hora é
essa de fato para você desenvolver. Eu acho que
no Brasil a gente não tem muita cultura de aplicação
em títulos desse gênero, é um trabalho
que também vai ser aos poucos. No setor imobiliário
ele já cresceu muito, os fundos de desenvolvimento
imobiliário, aí eu acho que é viável
crescer no agrícola também, principalmente
agora com essa tendência de queda de taxa de juros
porque a possibilidade de ter um rendimento maior ao aplicar
num papel agropecuário, arbitrando safra, entressafra,
períodos de preço alto e preços baixos,
tende a ficar mais atrativo do que aplicar em títulos
do governo. Na verdade, no Brasil, o maior problema é
esse para qualquer tipo de papel que você vai lançar:
em qualquer tipo de papel você esbarra no fato de
que você ganha muito mais aplicando num título
do governo.
Portal -
A grande crítica que se faz a essa proposta é
sobre a própria economia do País, quer dizer,
a poupança interna é muito pequena, a economia
do País não favorece esse tipo de investimento.
O que a senhora acha desse argumento?
Amaryllis
Romano: Acho
que é uma limitante mas existe uma parcela da população
que aplica bastante em ativos financeiros. Se você
for ver o quanto aumentou a aplicação em
fundos de investimentos imobiliários nos últimos
três anos é muita coisa, e é pessoa
física aplicando. Aquele Shopping Pátio
Higienópolis, em São Paulo, foi inteirinho
construído com uma sistemática semelhante
ao que a gente imagina para ativo rural e pecuário
e até hoje é um investimento que as pessoas
se interessam. Você não pode ficar num tipo
de papel que tenha liquidez só num primeiro momento,
você tem criar esse mercado secundário, que
vai dar liquidez e vai andar. Agora não tem dúvida
que a economia tem que crescer como um todo, a gente não
tem poupança interna, mas existe uma parcela que
dá para ser aplicada, inclusive do próprio
setor. O setor é o que tem tido a maior rentabilidade
nos últimos anos e que não necessariamente
aplica tudo de volta na safra seguinte. Esse setor tem
uma poupança dele para começar esse tipo
de coisa. O início desse processo vai ser com investidor
profissional e com pessoas do setor. Não adianta
eu querer sair mundo afora vendendo tudo. O começo
vai ter que ser com essas pessoas que a gente diria especializadas
na questão. Agora tudo vai depender de como você
coloca. Fundo de investimento imobiliário começou
a andar mais na hora em que a Caixa Econômica Federal
começou a falar nisso. Por que? É uma instituição
que tem credibilidade frente a todo mundo. Então
vai ter que ser um processo semelhante: alguém
que tenha credibilidade apresentando o papel e um esquema
montado de maneira a não permitir problemas como,
por exemplo, o fundo do Boi Gordo em que todo mundo perdeu
dinheiro. Esses Recebíveis são uma coisa
muito interessante. Eu não acho que vão
bombar em um ano mas têm grandes chances.
Portal -
A senhora falou na questão dos juros altos. A senhora
acredita numa queda mais acentuada proximamente?
Amaryllis
Romano:
Eu
sou muito otimista no curto prazo. As condições
no curto prazo estão super azeitadas para você
ter um desenvolvimento interessante e cair essa taxa de
juros. Eu tenho preocupação para o médio
e longo prazos, acho que tem questões sérias
que não estão resolvidas internamente que
são questões microeconômicas. Por
exemplo, eu acho complicadíssimo o que estão
fazendo com as agências reguladoras, o que se tentou
fazer e, de certo modo, ainda se colocou alguns entraves
ao desenvolvimento da Embrapa que é pesquisa. A
Embrapa teve um papel incalculável para o Brasil
chegar nessa posição de hoje em dia, foi
a Embrapa e a iniciativa privada. Eu trabalhei nesse setor
de soja e me lembro muito bem de cultivares e pesquisas
levadas minuciosamente a diante pelas duas: a fazenda
privada junto com a Embrapa, era uma pesquisa muito bem
encaminhada. Eles foram responsáveis pelo que o
Centro-Oeste está produzindo hoje em dia. Essas
pequenas questões no curto prazo elas não
vão atrapalhar mas se você continua com esses
entraves, no médio prazo você começa
a prejudicar uma série de coisas. Por exemplo,
papel e celulose, que é um setor que está
dentro do agronegócio. É inconcebível
o que aconteceu, de ter uma multinacional de papel e celulose
no Brasil que teve numa área sua os eucaliptos
cortados (1). Eu me surpreendi pessoalmente ao fazer uma
viagem de carro no final do ano daqui até Trancoso,
fiquei maravilhada com as plantações de
eucalipto que tem para cima de Vitória. Tudo começou
com a Aracruz, que tem muitas áreas. Você
sai e tem a Bahia Sul, volta para a Aracruz 2 e aí
você tem a Veracel. Isso gera emprego, traz dinamismo
e desenvolvimento para as regiões. É óbvio,
eucalipto você não come, mas você vende
a celulose feita do eucalipto e compra comida. Esse tipo
de risco eu acho que pode prejudicar no médio e
longo prazos. É o risco que você tem internacional
também: as condições de crescimento
econômico no mundo estão ótimas, agora
sei lá se vai ter outro atentado, se vai acontecer
alguma coisa, a Espanha já foi lastimável.
Economicamente você tem condições
de crescer tudo atualmente, agora como essas questões
micro e geo-políticas e políticas vão
se desenvolver é uma incógnita.
Portal - Voltando
à questão do mercado financeiro, a Bovespa
está incentivando a abertura de capital e lançamento
de debêntures para empresas de agronegócio.
A senhora acha que o mercado tem condições
de absorver esses papéis?
Amaryllis
Romano:
Acho que agora não, não tem muita condição,
acho que tenderiam a ser lançamentos tímidos,
porque o mercado todo funciona mais ou menos assim, mas
no médio prazo sim. Agora é meio difícil
você fazer fazendas lançarem papéis
e convencerem investidores a aplicar porque tem muito
essa questão da informação. O Brasil
é um país complicado em termos contábeis,
as pessoas que analisam e que fazem recomendações
no mercado financeiro se baseiam em números. Se
você não tem um balanço em que consegue
entender exatamente o que está acontecendo a coisa
fica difícil e o balanço numa empresa agropecuária
não tem nada a ver com o de uma empresa do setor
industrial. É outro mundo, é outra coisa,
então você vai ter que levar um tempo tanto
para fazer o mercado entender aquele balanço quanto
para esse balanço estar organizado do ponto de
vista das empresas que vão abrir o capital. E tem
que reduzir o custo dessa abertura de capital também,
porque fica muito caro. Também nesse caso é
semelhante ao problema de empresa de construção
civil: a grande má vontade do mercado é
que você não consegue entender o balanço
de uma empresa de construção. Se você
não consegue entender, como é que você
vai comprar o papel, como você vai projetar lucro?
É uma coisa muito difícil, então
você tem que ter uma difusão maior de informações
das questões envolvidas. Meu papel aqui é
muito esse, como eu projeto preços de commodities
agropecuárias, projeto volume de exportação,
de demanda interna, etc., é mostrar que é
possível você fazer uma projeção
para uma empresa agropecuária. Você pode
chegar numa receita bruta e num lucro líquido mas
é difícil passar isso adiante, muito difícil.
Portal -
A industrialização, durante décadas,
foi apontada como a grande indutora do desenvolvimento
brasileiro mas, ultimamente, o agronegócio tem
tido resultados mais expressivos. Você acredita
numa inversão de papéis a partir de agora?
Amaryllis
Romano:
Eu
acho que tende a andar junto. A gente não pode
entender esse crescimento do agronegócio sem muita
pesquisa. Você teve avanços interessantíssimos
em biogenética, em máquinas e equipamentos
porque tudo é um processo, o output da agropecuária
foi maior mas ele também interfere no resto, assim
como o resto tem alguma influência nele. É
inevitável nesse processo de crescimento da agropecuária
você levar alguns setores da indústria junto,
tem indústria de fertilizantes, defensivos, a questão
das sementes está super discutida, então
eu acho que por um tempo você vai ter essa dinâmica.
Eu acho que a tendência do Brasil é as forças
caminharem muito próximas, a gente não pode
negar essa vocação agropecuária,
não tem jeito, essa negação durante
os anos da industrialização é burrice,
até porque tem todo um setor capaz de gerar poupança
interna para fazer o que tem que fazer até no setor
industrial. Então eu acho que teve essa puxada
agora mas essa própria puxada tende a levar a uma
atividade industrial um pouco maior. Eu acho que a tendência
do Brasil, o correto no Brasil, seria um certo equilíbrio
entre as duas coisas. Hoje em dia a agropecuária
é tão tecnificada, usa tanta tecnologia,
que não dá para você ficar pensando
só em termos fechados de agropecuária, você
tem todo um processo de industrialização,
de pasteurização de leite que envolve máquinas,
equipamentos. O conceito de agronegócio é
mais amplo que só o de agropecuária que
é uma coisa muito mais interessante porque no conceito
de agronegócio você envolve até móvel
de madeira que você exporta porque, na verdade,
vai estar ligado também à questão
da construção civil então é
uma visão muito interessante do que só agropecuária.
O que tem tido esse desenvolvimento fantástico
e o que tem contribuído para geração
de saldo é o agronegócio, não é
só agricultura e pecuária, tem uma parcela
importante de alimentos industrializados, que ainda não
é a maior parte mas, por exemplo, na pecuária
boi e carne tem uma boa parcela disso aí que já
passou pela indústria, que é semi-manufaturado
ou manufaturado, então é um processo conjunto.
Portal -
A senhora acha que ainda existe um certo preconceito em
relação ao campo?
Amaryllis
Romano:
Acho
que isso está acabando cada vez mais porque agora
é "in" ir a rodeio, esse tipo de coisa,
o pessoal acha legal, mas a grande questão é
a seguinte: está claro que quem está gerando
dinheiro é o agronegócio, então não
dá para você ter preconceito. Não
dá nem para você chamar de novo rico porque
sempre foram. Tem aquela história de que não
tem lastro, não tem cultura. Como não tem
lastro e não tem cultura? É o pessoal que
está na terra e está lá há
anos, a aristocracia paulista, o pessoal do Nordeste que
faz açúcar. Hoje em dia quando você
vai a um evento de agropecuária já é
outro mundo. Um exemplo foi o da BM&F (2), num grande
hotel em São Paulo. É como um evento que
tem nos Estados Unidos onde um pouco antes de iniciar
a colheita ou logo que iniciou se faz um evento onde lança
todas as estimativas, chama os especialistas. Esse foi
o terceiro ou quarto que a BM&F promoveu junto com
o Ministério. Abre com palestras gerais para todo
mundo e no período da tarde você tem painéis
por produtos. Na verdade é como se fosse o lançamento
da perspectiva para comercialização de um
ano e meio na frente. Então você vai lá
e já vê que não é mais aquele
mundo lá de trás não, você
vê que tem o pessoal da indústria de insumos
que é indústria mesmo, é o pessoal
de multinacional, de empresa nacional grande e é
todo mundo lá numa discussão envolvendo
discussão de macro, micro e depois na segunda parte
passando produto por produto. Então você
vê que o mundo já não é mais
o mesmo, porque do contrário você iria para
Ribeirão Preto fazer isso? Ía lá
não sei para onde pra discutir? Não, é
um evento nacional, de porte, vieram os ministros Furlan
e o Rodrigues, o Furlan abriu o evento e é ele
que trata dessas relações da balança
comercial e foi fechado pelo Roberto Rodrigues. Então
isso já dá uma dimensão do peso que
se dá hoje em dia para esse setor.
Portal - A
própria Embrapa tem um estudo sobre essa relação,
um impacto de 10% sobre o PIB agrícola tem um impacto
quase igual, de 9% a 10% no PIB industrial e comercial.
Como a senhora vê essa relação?
Amaryllis
Romano:
Essa
conta é um nó. Cada lugar faz a conta do
jeito que quer. Depende do conceito, do que você
engloba em agronegócio, pecuária, agropecuária.
Eu, particularmente, acompanho mais os dados e estudos
do Cepea - Centro de Estudos Avançados em Economia
Agrícola -, ligado à ESALQ/USP. Eles dão
todo mês o PIB do agronegócio, fazem uma
divisão dentro da porteira, dentro da fazenda,
da fase anterior de insumos à fase de produção
propriamente dita, depois a industrialização
e a distribuição. Então ali você
tem uma dimensão mas mesmo lá tem hora que
tem pessoas que questionam. O fato é que se você
juntar todo o envolvido pega uma parcela significativa
do PIB. Só a agropecuária, ano passado,
se não me engano, chegou quase a 10%, cresceu de
8 e pouco para 10, 10 e pouquinho. Você pega o agronegócio
você passa de 22%, 24%. Tem gente que fala em 38%,
então tudo é bem possível. Então
não resta dúvida que é uma questão
muito importante e vai ser motor de crescimento, por exemplo,
pelo gargalo da infra estrutura. Precisamos muito de estradas,
portos, transporte fluvial. Está ficando claro
que você não consegue escoar a safra brasileira
do jeito que as coisas estão aí. Então
vai ser inevitável você começar a
ter um processo de investimentos e ele vai ser privado
mesmo, a exemplo do que aconteceu lá no porto de
Santarém com a própria Cargill montando
o porto lá. A Bunge também já está
montando outro. A partir do momento em que você
monta um porto para sair com produtos lá por cima
a conseqüência é: a estrada tem que
melhorar porque senão não chega até
lá. Então mais uma vez essa questão
do dinamismo do agronegócio interferindo no resto
e eu acho que vai ser meio inevitável porque este
ano já está dando problema. Além
de problema político em Paranaguá que tem
umas questões que não são, vamos
dizer físicas, de restrições físicas,
que também aconteceram, você tem problema
político e esse risco que eu não sei no
médio prazo o que vai dar. Acho que a necessidade
gera o investimento. Eu não tenho problema nenhum
com quem compra o grão, o frango, a carne bovina,
que são tradings internacionais, são as
mesmas no mundo inteiro, se são elas que vem aqui
investir em infra-estrutura, eu quero mais é que
invistam, invistam e façam com que essa renda gerada
no Centro-Oeste do Brasil, agora mais no Norte, resulte
em benefício para as populações locais,
acho que esse é o caminho mesmo.
Portal -
Ao lado desse setor empresarial, o Brasil tem ainda a
agricultura familiar, voltada para o mercado interno,
basicamente para a produção de alimentos
e uma grande massa que ainda luta pela posse da terra.
Como conciliar esses três setores?
Amaryllis
Romano:
Acho
que esse setor de agricultura familiar tem que ser sempre
o foco da política oficial. A gente tem um governo
que tem restrições financeiras, de orçamento,
sérias, e que não tem que ficar gastando
dinheiro com o grande produtor rural porque não
existe dinheiro para todo mundo. Então esse pessoal
de agricultura familiar tem que ser, necessariamente,
o pessoal focado na hora em que você faz uma política
oficial de financiamento à agricultura. Como eu
falei, os outros produtos você cria uma dinâmica
de mercado que apesar de ainda não ter os papéis,
os ativos financeiros da agropecuária, você
não ter securitizado nada, já existe um
mercado futuro informal que funciona, mas não funciona
para esse pessoal que não consegue financiar sua
produção com quem vai comprar lá
na frente. Então eles é que tem que ser
o foco da política oficial mesmo, ou seja, a maior
parte dos recursos tem que ser direcionada para a agricultura
familiar. Deixa quem tem condição de mercado
lidar com o próprio mercado, lidar com esses mecanismos
de mercado financeiro. Eu acho que é uma parcela
muito importante, particularmente na produção
de vegetais, de milho ainda tem alguma coisa, leite é
uma participação, apesar de você ter
uma concentração, também tem importância
e, nesse sentido vários passos foram dados ultimamente:
o leite entrou na política de preços mínimos
no último ano do governo do Fernando Henrique Cardoso
e foi mantido depois, o que eu acho que está corretíssimo.
Agora eu acho que você tem que ter sempre a preocupação
para esse pessoal, que o que interessa é a economia
funcionando, porque se eles estão lá no
pedacinho de terra deles produzindo com suporte oficial,
o que significa que nesse suporte oficial eles vão
ter seguro para no caso de alguma intempérie, algo
que não é previsível e eles não
têm a menor condição de se contrapor,
eles terem algum tipo de assistência, eles têm
que ter mercado para colocar as coisas deles e mercado
com condições justas. Por isso que não
pode acontecer, por exemplo, coisas como a fusão
da Nestlé com a Garoto porque se você cria
concentrações absurdas na industrialização
de produtos, você tira completamente a condição
de competitividade desse pessoal, então isso aí
é uma dinâmica de mercado moderno e aberto
que tem que funcionar. Para isso você tem que ter
agência reguladora de tudo, para acompanhar esse
tipo de coisa, porque se você deixar concentrar,
ficar três empresas comprando leite, comprando alcachofra
de todo mundo, o coitado do pequeno produtor não
vai ter a menor condição. Isso é
uma coisa que tem que ser sempre acompanhada. Por outro
lado, na avicultura e suinocultura, por exemplo, você
teve um crescimento grande de integrações
nesses últimos anos. É melhor do que ter
granjas sem nada porque aí você tem acesso
a essa questão do adiantamento para compra de insumos,
esse tipo de coisa.
Portal -
Nesse sentido como é que a senhora analisa a política
agrícola do governo Lula?
Amaryllis
Romano:
Eu
acho que ela está correta, ela já veio correta
e o governo Lula manteve os principais pontos. A questão
de reforma agrária eu acho um pouco mais complicada,
não é isso que eu estou discutindo. O que
eu estou discutindo é essa questão de olhar
do Pronaf, da questão da agricultura familiar,
da inserção de alguns produtos e manutenção
desses produtos na política de preços mínimos,
eu acho que está correto. É meio fácil
também você criticar demais. O fato é
que não tem recursos, não adianta, não
tem de onde tirar, então tem que direcionar um
pouco mais para isso. Aí talvez, por exemplo, eu
tenha alguns problemas com os produtores de café.
Produtor de café não precisa de tanto suporte
como precisa o pequeno produtor familiar. Muito poucos
produtores familiares plantam café, eles fazem
geralmente a cultura anual, esse tipo de coisa, porque
é a dinâmica deles. Eu acho que não
é que você tenha que largar mão das
grandes lavouras. Quando eu chamo de grandes lavouras
não estou, necessariamente, falando no tamanho
da propriedade que produz, estou falando em termos de
cultura como um todo. O café sempre foi um mercado
globalizado, o cara sabe que tem que ficar antenado com
o mercado internacional e ele sempre direcionou o produto
dele lá para fora. Esse cara tem uma condição
de se defender no mercado, teria que ter, infinitamente
maior do que o agricultor familiar. Um exemplo disso é
a própria soja que cresceu à revelia de
financiamento oficial, à revelia de qualquer coisa.
Você tem que deixar essa dinâmica e favorecer
cada vez mais os parcos recursos oficiais para esse tipo
de produção, que é uma coisa que
vai sempre existir e que tem que existir. É muito
mais interessante que alface e chuchu cheguem nas grandes
cidades através de pequenos produtores em volta,
é um fato, e esse pessoal tem que viver direitinho.
Quando a gente fala em Centro-Oeste tem muito pouco pequeno,
já tem muito pouco pequeno produtor porque lá
as propriedades são grandes, e no Sul, na região
sul do País, o pequeno produtor familiar também
não tem essa característica que a gente
imagina em livro de economia. Ele é um cara inserido
no mercado global também porque é o pequeno
produtor de arroz, de milho, de soja, de gado, porque
lá a estrutura agrária é diferente
mas a cultura também já é essa cultura
globalizada. É um pouco difícil porque como
é que você faz essa divisão toda entre
quem tem que receber, quem não tem que receber,
mas acho que o caminho está correto. Isso vai demorar,
vai continuar a ter problemas. Agora eu sou terminantemente
contra a movimento dos sem terra porque eu acho um absurdo.
Desde a pequena propriedade familiar até o grande
latifúndio produtivo tem que ser respeitado. Posso
até questionar latifúndio improdutivo, posso
me propor a fazer uma discussão mas, mesmo assim,
a gente tem que verificar algumas coisas. Agora eu ouvi
o dirigente maior do Movimento dos Sem Terra dizer que
o latifúndio produtivo, por produzir com alto grau
de tecnologia, não deixa a terra cumprir sua função
social e é o cara que vai lá e derruba o
eucalipto porque eucalipto você não come.
Aí eu já acho que é uma loucura total.
Portal -
E como a senhora analisa a reforma agrária que
está sendo feita no Brasil?
Amaryllis
Romano:
É
difícil, ela está indo a passos muito lentos,
mas acho meio inevitável ela ir dessa maneira.
É uma coisa complicada você assentar a pessoa
de fato. Você precisa criar algum mecanismo de garantia
de que aquela família assentada vai ficar. O que
você tem hoje em dia, você não tem
mercado secundário de título agrícola
mas você tem mercado secundário de terras
de assentamento, igualzinho você tem na cidade quando
você tira uma família, bota no Projeto Cingapura
com condições especiais de financiamento,
o cara mora lá um ano depois aluga, vende, esse
tipo de coisa. Então tem que se criar mecanismos
aonde você tenha uma maior regulação
da fixação do homem à terra onde
ele foi assentado de fato. Agora, você tem que contar
que não tem recursos. Você para tirar a terra
de alguém para fazer reforma agrária você
tem que pagar, é um direito do dono da terra receber
alguma coisa, o governo não tem esse recurso, então
é um processo que vai andar de maneira mais lenta.
Terra tem, não acho que esse seja o problema. O
que eu não acho é que se deva trabalhar
com o número de não assentados esse dos
sem terra que tem por aí porque de fato não
são agricultores que estão a fim de se acertar
em algum lugar. Você vai ao Mato Grosso, é
uma coisa muito complicada, o produtor rural que tem sua
terra, ele tem que manter aqueles 20% que não pode
desmatar, ele não pode plantar na mata ciliar,
tem uma distância X, tem uma série de restrições
que encarecem o seu investimento na terra. Porém,
em todas as cidades, todas as prefeituras, no Estado inteiro,
quando existe uma invasão de sem terra ou de índios,
porque os índios também saem e vão
para outro lugar, aí necessariamente é dada
a permissão para fazer pesqueiro e para plantar
da maneira como você quiser. Então você
não pode ter esses dois comportamentos distintos,
tem que haver regras comuns para todos. O cara que tem
o rio e não pode fazer o pesqueiro porque vai atrapalhar
a questão da mata ciliar tem que ter o mesmo direito
do assentado do lado dele, que aí as prefeituras
vão lá e dão autorização
para montar o pesqueiro porque se não a questão
fica muito complicada. Agora eu acho que a reforma agrária
é uma coisa que vai andar muito devagar ainda e
esse é um dos pontos explosivos da questão
política no Brasil.
Portal - A
senhora acha possível integrar essas pequenas propriedades
que se formam a partir dos assentamentos a uma economia
de mercado como a gente tem hoje?
Amaryllis
Romano:
Eu
acho que daria porque você tem centros de consumo
específicos. A gente quando trabalha em defesa
da concorrência a gente aprende a determinar um
negócio chamado mercado relevante que é
o seguinte: é determinar mesmo que influências
que as empresas têm, se é uma questão
do mercado regional, se é um mercado nacional,
se é de qualquer outro tipo, e a maioria dos produtos
agropecuários tem um mercado muito regional, é
quase no nível da cidade. Então é
uma questão de você ter uma economia andando,
essas pessoas de fato serem assentadas com o espírito
de fazer uma produção, de ter uma produção
que você acaba gerando a produção
necessária para abastecer os centros mais próximos.
Eu não posso querer que um assentado do Mato Grosso
do Sul se torne um exportador de soja, ele não
vai se tornar um exportador de soja mas ele pode se tornar
um fornecedor para a região de Dourados, por exemplo.
Então é isso que deve ser melhor elaborado
mas eu acho que a discussão está muito ideológica
ainda nessa questão da reforma agrária e
tem muito esse ponto de que, na verdade, como é
uma questão ideológica, como é um
movimento político, quando você assenta não
necessariamente os assentados ficam lá fazendo
a produção. E tem que escolher bem, obviamente
não adianta nada você assentar um monte de
gente em áreas do agreste onde antes de assentar
alguém você tem que montar um projeto de
irrigação, você tem que dar condições
para o cara produzir. E aí a gente vai esbarrar,
mais uma vez, na questão da escassez de recursos
públicos.
Portal -
Tem algumas correntes que são contra esse projeto
de reforma agrária com distribuição
de terras que dizem que o agronegócio é
capaz de absorver essa mão-de-obra que está
excedente no campo. A senhora concorda com isso?
Amaryllis
Romano:
Não,
não concordo. Sempre vai ter uma parcela que não
vai ser incorporada no processo produtivo porque é
um fato que, na medida em que você aumenta o grau
tecnologia utilizada, você reduz um pouco a mão-de-obra
utilizada. Não é nada catastrófico
mas é fato, você usa uma colheitadeira gigantesca
você manda um monte de gente embora. E é
fato de que tem uma série de pessoas que não
tem condições de começar nada, que
já são proprietários hoje em dia
e não tem condições de começar.
Para essa parcela é que você tem que dar
essa atenção especial mas ela não
é do tamanho que se fala hoje em dia. Não
precisaria fazer nada tão drástico assim
para resolver essa questão, você não
teria que sair expropriando mundo afora para assentar
todo o mundo. O difícil é você fazer
a divisão entre o que é um movimento político,
de desestabilização, e tudo o mais e o que
é de fato essa agricultura familiar que precisa
ser assentada. Você tem exemplos que funcionam no
Estado de São Paulo, tem uns dois assentamentos
da época do governador Franco Montoro que funcionam
até hoje, estão aí, os caras fazem
legumes, verduras e tudo o mais. Se as pessoas ficassem
de fato comprometidas na terra em que foram assentadas,
que foram poucas mas já ocorreu, ficassem lá...
Por que não ocorreu, por exemplo, o processo natural
que seria a formação de cooperativas desse
pessoal? Por que será? Porque, na verdade, o cara
que foi assentado ali, na maioria das vezes não
ficou lá ou então faltou a infra-estrutura
mas a infra-estrutura falta para todo o mundo também.
Então acho que é uma questão de separar
o joio do trigo, é uma coisa muito difícil.
Mas que tem uma parcela que você vai ter que a vida
inteira ficar preocupado tem, é semelhante à
habitação na cidade. Tem uma parcela de
população nos centros urbanos que jamais
vai ter condições de comprar um apartamento
ou comprar uma casa. É uma parcela que não
vai ter jeito, não vai ter renda jamais. Os parcos
recursos vão ter que ser utilizados e direcionados
para essa parcela que não é esse número
enorme, não são seis milhões de moradias,
não é bem isso, o número fica vinte
vezes menor. Mas não resta dúvida: o resto
da população vai ter que subsidiar essa
parcela. É uma parcela tão reduzida frente
ao todo que se coloca hoje em dia que, na verdade, não
chega a onerar ninguém. É uma questão
de você separar o que é de fato do que é
ideologia e política.
(1)
Cerca de 2.500 militantes do MST invadiram a multinacional
Veracel Celulose em Porto Seguro, a 705 Km ao sul de Salvador,
no dia 05/04. Em quatro dias, derrubaram 25 hectares de
eucalipto e plantaram milho, feijão e mandioca.
No dia 08/04 foi feito um acordo para a retirada entre
a direção do movimento, o Incra e o governo
baiano.
(2) O Seminário "Perspectivas para
o Agribusiness em 2004 e 2005" foi realizado no dia
06/04, com a participação de 700 pessoas.
Elas discutiram as possibilidades gerais e setoriais de
crescimento para o setor.