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ENTREVISTAS

Amaryllis Romano
Analista da Tendências Consultoria

Economista graduada pela Faculdade de Economia e Administração da USP, com MBA pelo IBMEC-SP, Amaryllis Romano atuou como gerente de orçamentos (Grupo Itamarati Agropecuária), analista setorial (Unibanco) e foi responsável pela análise da Portopar DTVM, Asset Management (Grupo Porto Seguro - Seguros). Atualmente é analista da Tendências Consultoria Integrada, empresa que tem entre os sócios o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, e o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola. Acompanha os setores de construção civil, celulose e papel e agropecuária

Portal - Na Consultoria Tendências você acompanha o mercado agropecuário. Como a senhora analisa a evolução desse mercado nos últimos anos, já que ele tem obtido resultados muito expressivos?

Amaryllis Romano
: Não é de agora, esse é um processo que já vem de um bom tempo. Se a gente pega os dados de dez, quinze anos, é um processo que está maturando agora mas já vem vindo há mais tempo. Por exemplo, um dos motores do setor agropecuário é a soja, sem sobra de dúvida, e ela vem crescendo desde 1970, quando não era nada. Então é uma coisa que já vem vindo, está maturando agora e que a gente foi ajudado por alguns fatores externos desagradáveis para países competidores mas que deram uma vantagem competitiva e a questão da estabilização macroeconômica de alguns parâmetros que favorecem o setor também. A desvalorização do dólar em 1999 foi fundamental para o desempenho da agropecuária desse período para cá mas, como eu já coloquei, fruto de um trabalho anterior. A gente pode falar em coisa de mais de 20 anos que esse setor vem amadurecendo uma série de projetos.



Portal - O setor tornou-se o grande destaque da economia brasileira, principalmente em 2003, quando atingiu um crescimento de 5%, contribuindo para que o resultado do PIB não caísse ainda mais. A senhora acredita que existe fôlego suficiente para que esse desempenho continue se repetindo nos próximos anos?


Amaryllis Romano:
Eu acho que sim, porque estamos num momento muito particular de Brasil e do mundo. Por que? A gente já viu no Brasil uma coisa que está acontecendo no mundo como um todo, que eu faço uma comparação com aquele período de um ano e meio, dois anos logo depois do Plano Real, quando você teve uma estabilidade de moeda, em que você incorporou ao exército de consumidores do Brasil uma série de pessoas, um contingente enorme de população que na verdade não consumia, apenas sobrevivia. Aquilo teve uma importância em termos de consumo de alimentos e produtos agropecuários muito grande para o Brasil. Hoje em dia a gente está vendo isso ocorrer na Ásia inteira, não é só na China. Não é só a China que está vindo, está comprando mais alimentos, mais fios, mais algodão para a indústria têxtil, mais aço. Tem hora que a gente acha que até tem chinês comendo aço porque não é possível. Mas, na verdade, todos aqueles países da Ásia estão incorporando uma parcela de população a esse mundo de consumo internacional e isso tem dado uma sustentação para o nível da demanda. Pelo lado da oferta acho que, salvo algumas exceções, o Brasil é o que tem maior capacidade de responder rápido para essas culturas temporárias, essas culturas anuais. É o que tem área facilmente incorporável, que se consegue também trocar de uma lavoura para outra com maior facilidade. Acho que a gente ainda tem um período bom pela frente. Tem sempre um problema que é o seguinte: por exemplo, eu estou fazendo um relatório de setor sucro-alcooleiro. Um problema que está começando a acontecer que eu fiquei até surpreendida, a Índia, por exemplo, substituindo área de cana, que é uma cultura tradicional do país, por soja. Porque é um fato, a soja não é só questão do preço, a soja é questão da liquidez. Quando você planta soja você consegue recursos para plantar, recursos para tratar e para colher, porque é toda uma dinâmica própria desse produto desenvolvida com fornecedores, com compradores, que dá uma maior liquidez. Então eu acho que a gente pode começar a ver uma mudança de perfil de produção para os países mas, como eu coloco, o Brasil continua com a vantagem de poder não abrir mão de nada e aumentar a área.


Portal - É exatamente esse setor empresarial, exportador, mais tecnificado, que está tendo maior sucesso. Isso não deixa o Brasil muito dependente desses mercados externos?


Amaryllis Romano: Essa é uma questão interessante porque fala-se muito que o Brasil aumentou demais a exportação do agronegócio, mas se você faz a comparação do crescimento de produção com o crescimento da exportação, na verdade você aumentou um pouco a participação do volume exportado na colheita total, mas a maior parte de tudo o que a gente faz ainda fica dentro do País. Na verdade, o que existe hoje em dia é uma contaminação direta entre a formação de preços, a formação de preços no mercado interno tem a ver com preços externos, porque você tem uma economia aberta e globalizada, mas não são todas as fichas somente na exportação. Você, nesse período de 90, 94 para cá, você aumentou a quantidade, por exemplo, de carne que fica no mercado interno. É óbvio que a gente sabe que não é verdade você dizer que cada brasileiro passou a consumir mais carne, você teve alguma concentração, mas o fato é que aumentou a disponibilidade interna também, na mesma proporção que aumentou a exportação. Não houve essa opção de produzir mais só para botar lá fora, pelo contrário, cada vez que você pega uma parcela de produção e tem que botar no mercado internacional, tem que seguir uma série de normas de sanidade, cuidado com doenças, rastreamento, para ter a localização da questão, que isso beneficia o consumidor doméstico também. E sempre tem que levar em conta o seguinte: a maioria dos produtos que o Brasil bota para fora tem primeiro, segundo ou terceiro lugar na produção mundial, portanto, dizer que a gente fica à mercê do mercado externo é complicado porque, na verdade, o preço externo depende da nossa produção. Nós somos fator determinante na formação de preços internacionais.

Portal - O Brasil continua muito dependente da exportação de produtos primários. O que fazer para agregar valor a eles e conseguir melhores resultados?


Amaryllis Romano:
Por exemplo, na soja você já vem tendo uma evolução maior da exportação do farelo. Seria mais interessante a gente exportar mais óleo que, na verdade, é o que tem maior valor agregado. Isso é conquista de mercado e aquela questão de trabalhar lá fora de maneira conjunta. Por exemplo, a pecuária tem ganho espaços lá fora com produtos de maior valor agregado. Se você pega fruticultura, ela tem crescido com valor agregado, então é um processo que você tem que ir colocando. Para ter produtos de maior valor agregado, aí é que é interessante como isso bate na dinâmica da economia interna. Você tem que ter uma melhoria de insumos aqui dentro também. Um exemplo disso é, por exemplo, o ano passado: você tem a indústria de papelão ondulado que é, vamos dizer, a base de todas as embalagens. A produção física caiu 12,8% e o faturamento subiu 25%. Sabe por que ele subiu 25%? Não é porque eles exportaram embalagens ou caixas de papelão, é porque produziram muito produto de maior valor agregado para embalar esses produtos de origem agropecuária e mandar lá para fora. Então você tem é que estar sempre ajustando: vai botar uma carne de maior valor agregado lá fora você tem que ter um processo aqui dentro de produção, distribuição, embalagem, tudo mais, adequado a colocar um produto de melhor qualidade no mercado externo e isso acho que a gente está no processo, acho que vai acontecer sem sombra de dúvida. A gente vai encontrar muitas barreiras porque, hoje em dia, o negócio está ficando cada vez mais sutil, as barreiras não são mais somente tarifárias. Tipo assim: o frango salgado, a partir deste mês, ele não é mais considerado salgado só com 0,00032 de sal por peça, agora ele vai ser considerado salgado se ele tiver 0,00010. Isso aí é uma barreira sutilíssima para o produto de qualquer exportador para o país que está fazendo isso. Então é uma questão de agilizar e adequar ao mercado externo mas acho que é um processo que já está ai, a pecuária, a avicultura é muito claro isso.

Portal - O exemplo mais clássico é o café, a Alemanha, que não planta, é o maior exportador.

Amaryllis Romano: O café é uma coisa um pouco mais complicada pelo seguinte: o Brasil sempre foi líder em café. Por que o Brasil perdeu essa posição, por que o café caiu tanto? Tem muito a ver com uma postura internacional de suporte a essas economias asiáticas que, hoje em dia, estão sendo em grande parte responsáveis por esse nível de consumo mundial. Então o que aconteceu? A Alemanha é o maior exportador de café mas ela processa um café indecente. O café que a Alemanha processa não necessariamente é aquele nosso café bom, não é o arábica. Aí é um problema da cadeia produtiva do café aqui, que não se deu ao trabalho, durante um bom tempo, se bem que eles já acordaram faz uns quatro anos, de fazer um trabalho internacional de divulgação do café brasileiro, que é um café de melhor qualidade do que o café do Vietnam. A gente tem o robusta, que é usado na confecção de café solúvel, pela indústria que usa café para fazer outro tipo de coisa, bolo, confeito, etc., mas nós temos um arábica de melhor qualidade. Isso é uma questão só de divulgação, não tem como você provar para um cidadão, que "o meu café é melhor", é uma questão de você botar o selo de qualidade, que já tem. O que aconteceu com o café foi o seguinte: a produção mundial estourou mas não estourou no café de qualidade do Brasil, estourou pela produção de robusta em países não tradicionais. Agora já está mudando, esses países estão largando um pouco, também lá vai ter uma migração de café para soja também, e aí, por exemplo, você começa a mexer nesse preço da soja, do açúcar, tem uma certa migração para outras lavouras e a tendência no médio prazo é dar uma equilibrada. Mais uma vez é uma questão de não ter a preocupação com a divulgação, com a embalagem, com um monte de coisas. Em que o café que é vendido da Itália é melhor do que o café que a gente toma aqui? Em nada, no entanto é o "expresso italiano". Expresso italiano é uma máquina porque o café não é de lá, não tem café na Itália. O que faz o café é, realmente, a qualidade, a qualidade que nós temos.


Portal - O setor agrícola tem tido muito peso nas negociações da OMC e para a formação da Alca. A senhora acredita que os países desenvolvidos podem ceder na questão dos subsídios, das barreiras tarifárias e de outras ordens?


Amaryllis Romano: Acho que essa vai ser uma das maiores brigas. Alguma coisa vai ter ceder porque senão você não vai chegar jamais num acordo e essa discussão é muito mais ampla do que Brasil/Estados Unidos só. Os Estados Unidos têm problemas sérios com a União Européia, a gente também; é uma negociação bastante complicada. Acho que tende a haver algum tipo de abertura sim, mesmo porque nem os Estados Unidos estão agüentando o seu sistema de suporte à agricultura, apesar de ter uma tremenda parcela que é de recursos privados, mas está ficando muito difícil. Eles ficam numa posição bem mais confortável atualmente quando todos os preços estão acima do que eles consideram mínimo e eles não têm que pagar nada. Acho que até por condições internas - o déficit americano é uma coisa complicada também - eles têm que tomar algum cuidado com isso. A União Européia também vai ter que começar a pensar que não dá para suportar produtor francês com tamanho subsídio à medida que for incorporando todos aqueles países do Leste Europeu. Lá talvez justificaria algum tipo de subsídio, até trazer aquela produção ao patamar tecnológico do resto do mundo, mas ficar a União Européia inteira sustentando a França e levando prejuízo no resto também é complicado. Aí são muitos anos de discussão, você vai ter meio passo para frente e cinco para trás porque primeiro são culturas e tradições diferentes em cada uma dessas regiões do mundo e segundo são posições muito difíceis. Como é que você vai dizer para um produtor de queijo na França que ele não vai ter mais subsídio? Pelo sistema corporativista que ele tem, aquela cultura toda, não é uma coisa muito simples, no entanto vai ter que ter algum tipo de negociação e eu acho que vai ser forçado até por questões internas.


Portal - Um dos principais problemas do setor é o financiamento. O governo está, inclusive, tentando uma aproximação com o mercado financeiro através da criação das CRAs - Certificados do Recebível do Agronegócio - e de fundos de investimentos. Você acha isso viável?


Amaryllis Romano: Eu acho, mas uma vez mais a gente vai bater numa história, que é o que eu acabei de falar, que é a questão da cultura. Inclusive a Tendências está envolvida num projeto de formação desses fundos, num sistema mesmo junto com a BM&F, é um trabalho que começou antes de eu vir para cá, lá em 1997, com a primeira proposta, e está sendo levado adiante. A grande questão é o seguinte: a gente tem que montar um esquema de maneira que você minimize para o aplicador o risco da agricultura e da pecuária que são atividades de risco de fato. Você pode perder muito ou ganhar muito. A hora em que você vai chamar um investidor privado, ele não necessariamente quer saber o que é que ele está mexendo. O cara pode estar querendo aplicar em café mas não quer ver pé de café nenhum. O máximo que ele quer ver em relação com o café é tomar um cafezinho. Mas para o cara ter segurança você primeiro tem que desenvolver um sistema de informação nacional porque se, por acaso, o cara quiser saber o que está acontecendo ele consegue e criar esses mecanismos, vamos dizer, de securitizar de fato esses papéis. Você só faz isso, primeiro, você tem que ter participação do setor privado mesmo, não pode ficar só na mão de instituições oficiais e você tem que ter câmara de compensação, seguro para esse tipo de coisa e, principalmente o seguinte: se você não fizer esse tipo de coisa agora você não vai ter nunca mais, a hora é essa de fato para você desenvolver. Eu acho que no Brasil a gente não tem muita cultura de aplicação em títulos desse gênero, é um trabalho que também vai ser aos poucos. No setor imobiliário ele já cresceu muito, os fundos de desenvolvimento imobiliário, aí eu acho que é viável crescer no agrícola também, principalmente agora com essa tendência de queda de taxa de juros porque a possibilidade de ter um rendimento maior ao aplicar num papel agropecuário, arbitrando safra, entressafra, períodos de preço alto e preços baixos, tende a ficar mais atrativo do que aplicar em títulos do governo. Na verdade, no Brasil, o maior problema é esse para qualquer tipo de papel que você vai lançar: em qualquer tipo de papel você esbarra no fato de que você ganha muito mais aplicando num título do governo.


Portal - A grande crítica que se faz a essa proposta é sobre a própria economia do País, quer dizer, a poupança interna é muito pequena, a economia do País não favorece esse tipo de investimento. O que a senhora acha desse argumento?


Amaryllis Romano: Acho que é uma limitante mas existe uma parcela da população que aplica bastante em ativos financeiros. Se você for ver o quanto aumentou a aplicação em fundos de investimentos imobiliários nos últimos três anos é muita coisa, e é pessoa física aplicando. Aquele Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, foi inteirinho construído com uma sistemática semelhante ao que a gente imagina para ativo rural e pecuário e até hoje é um investimento que as pessoas se interessam. Você não pode ficar num tipo de papel que tenha liquidez só num primeiro momento, você tem criar esse mercado secundário, que vai dar liquidez e vai andar. Agora não tem dúvida que a economia tem que crescer como um todo, a gente não tem poupança interna, mas existe uma parcela que dá para ser aplicada, inclusive do próprio setor. O setor é o que tem tido a maior rentabilidade nos últimos anos e que não necessariamente aplica tudo de volta na safra seguinte. Esse setor tem uma poupança dele para começar esse tipo de coisa. O início desse processo vai ser com investidor profissional e com pessoas do setor. Não adianta eu querer sair mundo afora vendendo tudo. O começo vai ter que ser com essas pessoas que a gente diria especializadas na questão. Agora tudo vai depender de como você coloca. Fundo de investimento imobiliário começou a andar mais na hora em que a Caixa Econômica Federal começou a falar nisso. Por que? É uma instituição que tem credibilidade frente a todo mundo. Então vai ter que ser um processo semelhante: alguém que tenha credibilidade apresentando o papel e um esquema montado de maneira a não permitir problemas como, por exemplo, o fundo do Boi Gordo em que todo mundo perdeu dinheiro. Esses Recebíveis são uma coisa muito interessante. Eu não acho que vão bombar em um ano mas têm grandes chances.



Portal - A senhora falou na questão dos juros altos. A senhora acredita numa queda mais acentuada proximamente?



Amaryllis Romano: Eu sou muito otimista no curto prazo. As condições no curto prazo estão super azeitadas para você ter um desenvolvimento interessante e cair essa taxa de juros. Eu tenho preocupação para o médio e longo prazos, acho que tem questões sérias que não estão resolvidas internamente que são questões microeconômicas. Por exemplo, eu acho complicadíssimo o que estão fazendo com as agências reguladoras, o que se tentou fazer e, de certo modo, ainda se colocou alguns entraves ao desenvolvimento da Embrapa que é pesquisa. A Embrapa teve um papel incalculável para o Brasil chegar nessa posição de hoje em dia, foi a Embrapa e a iniciativa privada. Eu trabalhei nesse setor de soja e me lembro muito bem de cultivares e pesquisas levadas minuciosamente a diante pelas duas: a fazenda privada junto com a Embrapa, era uma pesquisa muito bem encaminhada. Eles foram responsáveis pelo que o Centro-Oeste está produzindo hoje em dia. Essas pequenas questões no curto prazo elas não vão atrapalhar mas se você continua com esses entraves, no médio prazo você começa a prejudicar uma série de coisas. Por exemplo, papel e celulose, que é um setor que está dentro do agronegócio. É inconcebível o que aconteceu, de ter uma multinacional de papel e celulose no Brasil que teve numa área sua os eucaliptos cortados (1). Eu me surpreendi pessoalmente ao fazer uma viagem de carro no final do ano daqui até Trancoso, fiquei maravilhada com as plantações de eucalipto que tem para cima de Vitória. Tudo começou com a Aracruz, que tem muitas áreas. Você sai e tem a Bahia Sul, volta para a Aracruz 2 e aí você tem a Veracel. Isso gera emprego, traz dinamismo e desenvolvimento para as regiões. É óbvio, eucalipto você não come, mas você vende a celulose feita do eucalipto e compra comida. Esse tipo de risco eu acho que pode prejudicar no médio e longo prazos. É o risco que você tem internacional também: as condições de crescimento econômico no mundo estão ótimas, agora sei lá se vai ter outro atentado, se vai acontecer alguma coisa, a Espanha já foi lastimável. Economicamente você tem condições de crescer tudo atualmente, agora como essas questões micro e geo-políticas e políticas vão se desenvolver é uma incógnita.


Portal - Voltando à questão do mercado financeiro, a Bovespa está incentivando a abertura de capital e lançamento de debêntures para empresas de agronegócio. A senhora acha que o mercado tem condições de absorver esses papéis?

Amaryllis Romano: Acho que agora não, não tem muita condição, acho que tenderiam a ser lançamentos tímidos, porque o mercado todo funciona mais ou menos assim, mas no médio prazo sim. Agora é meio difícil você fazer fazendas lançarem papéis e convencerem investidores a aplicar porque tem muito essa questão da informação. O Brasil é um país complicado em termos contábeis, as pessoas que analisam e que fazem recomendações no mercado financeiro se baseiam em números. Se você não tem um balanço em que consegue entender exatamente o que está acontecendo a coisa fica difícil e o balanço numa empresa agropecuária não tem nada a ver com o de uma empresa do setor industrial. É outro mundo, é outra coisa, então você vai ter que levar um tempo tanto para fazer o mercado entender aquele balanço quanto para esse balanço estar organizado do ponto de vista das empresas que vão abrir o capital. E tem que reduzir o custo dessa abertura de capital também, porque fica muito caro. Também nesse caso é semelhante ao problema de empresa de construção civil: a grande má vontade do mercado é que você não consegue entender o balanço de uma empresa de construção. Se você não consegue entender, como é que você vai comprar o papel, como você vai projetar lucro? É uma coisa muito difícil, então você tem que ter uma difusão maior de informações das questões envolvidas. Meu papel aqui é muito esse, como eu projeto preços de commodities agropecuárias, projeto volume de exportação, de demanda interna, etc., é mostrar que é possível você fazer uma projeção para uma empresa agropecuária. Você pode chegar numa receita bruta e num lucro líquido mas é difícil passar isso adiante, muito difícil.

Portal - A industrialização, durante décadas, foi apontada como a grande indutora do desenvolvimento brasileiro mas, ultimamente, o agronegócio tem tido resultados mais expressivos. Você acredita numa inversão de papéis a partir de agora?


Amaryllis Romano: Eu acho que tende a andar junto. A gente não pode entender esse crescimento do agronegócio sem muita pesquisa. Você teve avanços interessantíssimos em biogenética, em máquinas e equipamentos porque tudo é um processo, o output da agropecuária foi maior mas ele também interfere no resto, assim como o resto tem alguma influência nele. É inevitável nesse processo de crescimento da agropecuária você levar alguns setores da indústria junto, tem indústria de fertilizantes, defensivos, a questão das sementes está super discutida, então eu acho que por um tempo você vai ter essa dinâmica. Eu acho que a tendência do Brasil é as forças caminharem muito próximas, a gente não pode negar essa vocação agropecuária, não tem jeito, essa negação durante os anos da industrialização é burrice, até porque tem todo um setor capaz de gerar poupança interna para fazer o que tem que fazer até no setor industrial. Então eu acho que teve essa puxada agora mas essa própria puxada tende a levar a uma atividade industrial um pouco maior. Eu acho que a tendência do Brasil, o correto no Brasil, seria um certo equilíbrio entre as duas coisas. Hoje em dia a agropecuária é tão tecnificada, usa tanta tecnologia, que não dá para você ficar pensando só em termos fechados de agropecuária, você tem todo um processo de industrialização, de pasteurização de leite que envolve máquinas, equipamentos. O conceito de agronegócio é mais amplo que só o de agropecuária que é uma coisa muito mais interessante porque no conceito de agronegócio você envolve até móvel de madeira que você exporta porque, na verdade, vai estar ligado também à questão da construção civil então é uma visão muito interessante do que só agropecuária. O que tem tido esse desenvolvimento fantástico e o que tem contribuído para geração de saldo é o agronegócio, não é só agricultura e pecuária, tem uma parcela importante de alimentos industrializados, que ainda não é a maior parte mas, por exemplo, na pecuária boi e carne tem uma boa parcela disso aí que já passou pela indústria, que é semi-manufaturado ou manufaturado, então é um processo conjunto.


Portal - A senhora acha que ainda existe um certo preconceito em relação ao campo?


Amaryllis Romano: Acho que isso está acabando cada vez mais porque agora é "in" ir a rodeio, esse tipo de coisa, o pessoal acha legal, mas a grande questão é a seguinte: está claro que quem está gerando dinheiro é o agronegócio, então não dá para você ter preconceito. Não dá nem para você chamar de novo rico porque sempre foram. Tem aquela história de que não tem lastro, não tem cultura. Como não tem lastro e não tem cultura? É o pessoal que está na terra e está lá há anos, a aristocracia paulista, o pessoal do Nordeste que faz açúcar. Hoje em dia quando você vai a um evento de agropecuária já é outro mundo. Um exemplo foi o da BM&F (2), num grande hotel em São Paulo. É como um evento que tem nos Estados Unidos onde um pouco antes de iniciar a colheita ou logo que iniciou se faz um evento onde lança todas as estimativas, chama os especialistas. Esse foi o terceiro ou quarto que a BM&F promoveu junto com o Ministério. Abre com palestras gerais para todo mundo e no período da tarde você tem painéis por produtos. Na verdade é como se fosse o lançamento da perspectiva para comercialização de um ano e meio na frente. Então você vai lá e já vê que não é mais aquele mundo lá de trás não, você vê que tem o pessoal da indústria de insumos que é indústria mesmo, é o pessoal de multinacional, de empresa nacional grande e é todo mundo lá numa discussão envolvendo discussão de macro, micro e depois na segunda parte passando produto por produto. Então você vê que o mundo já não é mais o mesmo, porque do contrário você iria para Ribeirão Preto fazer isso? Ía lá não sei para onde pra discutir? Não, é um evento nacional, de porte, vieram os ministros Furlan e o Rodrigues, o Furlan abriu o evento e é ele que trata dessas relações da balança comercial e foi fechado pelo Roberto Rodrigues. Então isso já dá uma dimensão do peso que se dá hoje em dia para esse setor.


Portal - A própria Embrapa tem um estudo sobre essa relação, um impacto de 10% sobre o PIB agrícola tem um impacto quase igual, de 9% a 10% no PIB industrial e comercial. Como a senhora vê essa relação?


Amaryllis Romano: Essa conta é um nó. Cada lugar faz a conta do jeito que quer. Depende do conceito, do que você engloba em agronegócio, pecuária, agropecuária. Eu, particularmente, acompanho mais os dados e estudos do Cepea - Centro de Estudos Avançados em Economia Agrícola -, ligado à ESALQ/USP. Eles dão todo mês o PIB do agronegócio, fazem uma divisão dentro da porteira, dentro da fazenda, da fase anterior de insumos à fase de produção propriamente dita, depois a industrialização e a distribuição. Então ali você tem uma dimensão mas mesmo lá tem hora que tem pessoas que questionam. O fato é que se você juntar todo o envolvido pega uma parcela significativa do PIB. Só a agropecuária, ano passado, se não me engano, chegou quase a 10%, cresceu de 8 e pouco para 10, 10 e pouquinho. Você pega o agronegócio você passa de 22%, 24%. Tem gente que fala em 38%, então tudo é bem possível. Então não resta dúvida que é uma questão muito importante e vai ser motor de crescimento, por exemplo, pelo gargalo da infra estrutura. Precisamos muito de estradas, portos, transporte fluvial. Está ficando claro que você não consegue escoar a safra brasileira do jeito que as coisas estão aí. Então vai ser inevitável você começar a ter um processo de investimentos e ele vai ser privado mesmo, a exemplo do que aconteceu lá no porto de Santarém com a própria Cargill montando o porto lá. A Bunge também já está montando outro. A partir do momento em que você monta um porto para sair com produtos lá por cima a conseqüência é: a estrada tem que melhorar porque senão não chega até lá. Então mais uma vez essa questão do dinamismo do agronegócio interferindo no resto e eu acho que vai ser meio inevitável porque este ano já está dando problema. Além de problema político em Paranaguá que tem umas questões que não são, vamos dizer físicas, de restrições físicas, que também aconteceram, você tem problema político e esse risco que eu não sei no médio prazo o que vai dar. Acho que a necessidade gera o investimento. Eu não tenho problema nenhum com quem compra o grão, o frango, a carne bovina, que são tradings internacionais, são as mesmas no mundo inteiro, se são elas que vem aqui investir em infra-estrutura, eu quero mais é que invistam, invistam e façam com que essa renda gerada no Centro-Oeste do Brasil, agora mais no Norte, resulte em benefício para as populações locais, acho que esse é o caminho mesmo.


Portal - Ao lado desse setor empresarial, o Brasil tem ainda a agricultura familiar, voltada para o mercado interno, basicamente para a produção de alimentos e uma grande massa que ainda luta pela posse da terra. Como conciliar esses três setores?


Amaryllis Romano:
Acho que esse setor de agricultura familiar tem que ser sempre o foco da política oficial. A gente tem um governo que tem restrições financeiras, de orçamento, sérias, e que não tem que ficar gastando dinheiro com o grande produtor rural porque não existe dinheiro para todo mundo. Então esse pessoal de agricultura familiar tem que ser, necessariamente, o pessoal focado na hora em que você faz uma política oficial de financiamento à agricultura. Como eu falei, os outros produtos você cria uma dinâmica de mercado que apesar de ainda não ter os papéis, os ativos financeiros da agropecuária, você não ter securitizado nada, já existe um mercado futuro informal que funciona, mas não funciona para esse pessoal que não consegue financiar sua produção com quem vai comprar lá na frente. Então eles é que tem que ser o foco da política oficial mesmo, ou seja, a maior parte dos recursos tem que ser direcionada para a agricultura familiar. Deixa quem tem condição de mercado lidar com o próprio mercado, lidar com esses mecanismos de mercado financeiro. Eu acho que é uma parcela muito importante, particularmente na produção de vegetais, de milho ainda tem alguma coisa, leite é uma participação, apesar de você ter uma concentração, também tem importância e, nesse sentido vários passos foram dados ultimamente: o leite entrou na política de preços mínimos no último ano do governo do Fernando Henrique Cardoso e foi mantido depois, o que eu acho que está corretíssimo. Agora eu acho que você tem que ter sempre a preocupação para esse pessoal, que o que interessa é a economia funcionando, porque se eles estão lá no pedacinho de terra deles produzindo com suporte oficial, o que significa que nesse suporte oficial eles vão ter seguro para no caso de alguma intempérie, algo que não é previsível e eles não têm a menor condição de se contrapor, eles terem algum tipo de assistência, eles têm que ter mercado para colocar as coisas deles e mercado com condições justas. Por isso que não pode acontecer, por exemplo, coisas como a fusão da Nestlé com a Garoto porque se você cria concentrações absurdas na industrialização de produtos, você tira completamente a condição de competitividade desse pessoal, então isso aí é uma dinâmica de mercado moderno e aberto que tem que funcionar. Para isso você tem que ter agência reguladora de tudo, para acompanhar esse tipo de coisa, porque se você deixar concentrar, ficar três empresas comprando leite, comprando alcachofra de todo mundo, o coitado do pequeno produtor não vai ter a menor condição. Isso é uma coisa que tem que ser sempre acompanhada. Por outro lado, na avicultura e suinocultura, por exemplo, você teve um crescimento grande de integrações nesses últimos anos. É melhor do que ter granjas sem nada porque aí você tem acesso a essa questão do adiantamento para compra de insumos, esse tipo de coisa.



Portal - Nesse sentido como é que a senhora analisa a política agrícola do governo Lula?


Amaryllis Romano:
Eu acho que ela está correta, ela já veio correta e o governo Lula manteve os principais pontos. A questão de reforma agrária eu acho um pouco mais complicada, não é isso que eu estou discutindo. O que eu estou discutindo é essa questão de olhar do Pronaf, da questão da agricultura familiar, da inserção de alguns produtos e manutenção desses produtos na política de preços mínimos, eu acho que está correto. É meio fácil também você criticar demais. O fato é que não tem recursos, não adianta, não tem de onde tirar, então tem que direcionar um pouco mais para isso. Aí talvez, por exemplo, eu tenha alguns problemas com os produtores de café. Produtor de café não precisa de tanto suporte como precisa o pequeno produtor familiar. Muito poucos produtores familiares plantam café, eles fazem geralmente a cultura anual, esse tipo de coisa, porque é a dinâmica deles. Eu acho que não é que você tenha que largar mão das grandes lavouras. Quando eu chamo de grandes lavouras não estou, necessariamente, falando no tamanho da propriedade que produz, estou falando em termos de cultura como um todo. O café sempre foi um mercado globalizado, o cara sabe que tem que ficar antenado com o mercado internacional e ele sempre direcionou o produto dele lá para fora. Esse cara tem uma condição de se defender no mercado, teria que ter, infinitamente maior do que o agricultor familiar. Um exemplo disso é a própria soja que cresceu à revelia de financiamento oficial, à revelia de qualquer coisa. Você tem que deixar essa dinâmica e favorecer cada vez mais os parcos recursos oficiais para esse tipo de produção, que é uma coisa que vai sempre existir e que tem que existir. É muito mais interessante que alface e chuchu cheguem nas grandes cidades através de pequenos produtores em volta, é um fato, e esse pessoal tem que viver direitinho. Quando a gente fala em Centro-Oeste tem muito pouco pequeno, já tem muito pouco pequeno produtor porque lá as propriedades são grandes, e no Sul, na região sul do País, o pequeno produtor familiar também não tem essa característica que a gente imagina em livro de economia. Ele é um cara inserido no mercado global também porque é o pequeno produtor de arroz, de milho, de soja, de gado, porque lá a estrutura agrária é diferente mas a cultura também já é essa cultura globalizada. É um pouco difícil porque como é que você faz essa divisão toda entre quem tem que receber, quem não tem que receber, mas acho que o caminho está correto. Isso vai demorar, vai continuar a ter problemas. Agora eu sou terminantemente contra a movimento dos sem terra porque eu acho um absurdo. Desde a pequena propriedade familiar até o grande latifúndio produtivo tem que ser respeitado. Posso até questionar latifúndio improdutivo, posso me propor a fazer uma discussão mas, mesmo assim, a gente tem que verificar algumas coisas. Agora eu ouvi o dirigente maior do Movimento dos Sem Terra dizer que o latifúndio produtivo, por produzir com alto grau de tecnologia, não deixa a terra cumprir sua função social e é o cara que vai lá e derruba o eucalipto porque eucalipto você não come. Aí eu já acho que é uma loucura total.


Portal - E como a senhora analisa a reforma agrária que está sendo feita no Brasil?


Amaryllis Romano: É difícil, ela está indo a passos muito lentos, mas acho meio inevitável ela ir dessa maneira. É uma coisa complicada você assentar a pessoa de fato. Você precisa criar algum mecanismo de garantia de que aquela família assentada vai ficar. O que você tem hoje em dia, você não tem mercado secundário de título agrícola mas você tem mercado secundário de terras de assentamento, igualzinho você tem na cidade quando você tira uma família, bota no Projeto Cingapura com condições especiais de financiamento, o cara mora lá um ano depois aluga, vende, esse tipo de coisa. Então tem que se criar mecanismos aonde você tenha uma maior regulação da fixação do homem à terra onde ele foi assentado de fato. Agora, você tem que contar que não tem recursos. Você para tirar a terra de alguém para fazer reforma agrária você tem que pagar, é um direito do dono da terra receber alguma coisa, o governo não tem esse recurso, então é um processo que vai andar de maneira mais lenta. Terra tem, não acho que esse seja o problema. O que eu não acho é que se deva trabalhar com o número de não assentados esse dos sem terra que tem por aí porque de fato não são agricultores que estão a fim de se acertar em algum lugar. Você vai ao Mato Grosso, é uma coisa muito complicada, o produtor rural que tem sua terra, ele tem que manter aqueles 20% que não pode desmatar, ele não pode plantar na mata ciliar, tem uma distância X, tem uma série de restrições que encarecem o seu investimento na terra. Porém, em todas as cidades, todas as prefeituras, no Estado inteiro, quando existe uma invasão de sem terra ou de índios, porque os índios também saem e vão para outro lugar, aí necessariamente é dada a permissão para fazer pesqueiro e para plantar da maneira como você quiser. Então você não pode ter esses dois comportamentos distintos, tem que haver regras comuns para todos. O cara que tem o rio e não pode fazer o pesqueiro porque vai atrapalhar a questão da mata ciliar tem que ter o mesmo direito do assentado do lado dele, que aí as prefeituras vão lá e dão autorização para montar o pesqueiro porque se não a questão fica muito complicada. Agora eu acho que a reforma agrária é uma coisa que vai andar muito devagar ainda e esse é um dos pontos explosivos da questão política no Brasil.


Portal - A senhora acha possível integrar essas pequenas propriedades que se formam a partir dos assentamentos a uma economia de mercado como a gente tem hoje?


Amaryllis Romano:
Eu acho que daria porque você tem centros de consumo específicos. A gente quando trabalha em defesa da concorrência a gente aprende a determinar um negócio chamado mercado relevante que é o seguinte: é determinar mesmo que influências que as empresas têm, se é uma questão do mercado regional, se é um mercado nacional, se é de qualquer outro tipo, e a maioria dos produtos agropecuários tem um mercado muito regional, é quase no nível da cidade. Então é uma questão de você ter uma economia andando, essas pessoas de fato serem assentadas com o espírito de fazer uma produção, de ter uma produção que você acaba gerando a produção necessária para abastecer os centros mais próximos. Eu não posso querer que um assentado do Mato Grosso do Sul se torne um exportador de soja, ele não vai se tornar um exportador de soja mas ele pode se tornar um fornecedor para a região de Dourados, por exemplo. Então é isso que deve ser melhor elaborado mas eu acho que a discussão está muito ideológica ainda nessa questão da reforma agrária e tem muito esse ponto de que, na verdade, como é uma questão ideológica, como é um movimento político, quando você assenta não necessariamente os assentados ficam lá fazendo a produção. E tem que escolher bem, obviamente não adianta nada você assentar um monte de gente em áreas do agreste onde antes de assentar alguém você tem que montar um projeto de irrigação, você tem que dar condições para o cara produzir. E aí a gente vai esbarrar, mais uma vez, na questão da escassez de recursos públicos.

Portal - Tem algumas correntes que são contra esse projeto de reforma agrária com distribuição de terras que dizem que o agronegócio é capaz de absorver essa mão-de-obra que está excedente no campo. A senhora concorda com isso?


Amaryllis Romano:
Não, não concordo. Sempre vai ter uma parcela que não vai ser incorporada no processo produtivo porque é um fato que, na medida em que você aumenta o grau tecnologia utilizada, você reduz um pouco a mão-de-obra utilizada. Não é nada catastrófico mas é fato, você usa uma colheitadeira gigantesca você manda um monte de gente embora. E é fato de que tem uma série de pessoas que não tem condições de começar nada, que já são proprietários hoje em dia e não tem condições de começar. Para essa parcela é que você tem que dar essa atenção especial mas ela não é do tamanho que se fala hoje em dia. Não precisaria fazer nada tão drástico assim para resolver essa questão, você não teria que sair expropriando mundo afora para assentar todo o mundo. O difícil é você fazer a divisão entre o que é um movimento político, de desestabilização, e tudo o mais e o que é de fato essa agricultura familiar que precisa ser assentada. Você tem exemplos que funcionam no Estado de São Paulo, tem uns dois assentamentos da época do governador Franco Montoro que funcionam até hoje, estão aí, os caras fazem legumes, verduras e tudo o mais. Se as pessoas ficassem de fato comprometidas na terra em que foram assentadas, que foram poucas mas já ocorreu, ficassem lá... Por que não ocorreu, por exemplo, o processo natural que seria a formação de cooperativas desse pessoal? Por que será? Porque, na verdade, o cara que foi assentado ali, na maioria das vezes não ficou lá ou então faltou a infra-estrutura mas a infra-estrutura falta para todo o mundo também. Então acho que é uma questão de separar o joio do trigo, é uma coisa muito difícil. Mas que tem uma parcela que você vai ter que a vida inteira ficar preocupado tem, é semelhante à habitação na cidade. Tem uma parcela de população nos centros urbanos que jamais vai ter condições de comprar um apartamento ou comprar uma casa. É uma parcela que não vai ter jeito, não vai ter renda jamais. Os parcos recursos vão ter que ser utilizados e direcionados para essa parcela que não é esse número enorme, não são seis milhões de moradias, não é bem isso, o número fica vinte vezes menor. Mas não resta dúvida: o resto da população vai ter que subsidiar essa parcela. É uma parcela tão reduzida frente ao todo que se coloca hoje em dia que, na verdade, não chega a onerar ninguém. É uma questão de você separar o que é de fato do que é ideologia e política.

(1) Cerca de 2.500 militantes do MST invadiram a multinacional Veracel Celulose em Porto Seguro, a 705 Km ao sul de Salvador, no dia 05/04. Em quatro dias, derrubaram 25 hectares de eucalipto e plantaram milho, feijão e mandioca. No dia 08/04 foi feito um acordo para a retirada entre a direção do movimento, o Incra e o governo baiano.

(2) O Seminário "Perspectivas para o Agribusiness em 2004 e 2005" foi realizado no dia 06/04, com a participação de 700 pessoas. Elas discutiram as possibilidades gerais e setoriais de crescimento para o setor.

Portal do Fazendeiro

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