Portal -
Mas há produtores
aqui no Brasil que afirmam que a agropecuária não
se desenvolve sem um forte subsídio governamental
e mesmo países como os Estados Unidos e os da União
Européia também pensam assim.
Armando Matielli:
Esses países têm um forte subsídio
mas um subsídio protecionista e nós hoje
competimos com todos esses subsídios e somos capazes
de banca-los e desbanca-los. Tanto os norte-americanos
como os europeus vivem às custas do Tesouro, essa
é a realidade. Essa agricultura está fadada,
no futuro, não posso dizer quando, a sociedade
não vai carregar mais esse ônus, esse peso
enorme desse subsídio enorme que o governo está
pagando para esses países. Então eu acredito
muito mais na agricultura brasileira, que não tem
nada de subsídio. Nós temos uma miséria
de financiamento que não dá nem 10% do PIB
agrícola: no ano passado foram anunciados 34 bilhões
de reais para financiar nossa agricultura e nós
sabemos que hoje a agricultura corresponde a 40% do PIB.
Portanto, mesmo a área de financiamento é
muito pequena, quer dizer, não tem nem financiamento
e nem subsídio e a agricultura está crescendo,
graças ao pacote tecnológico, ao nível
empresarial da nossa agricultura. Nós podemos crescer
muito mais do que os americanos e muito mais do que os
europeus. Primeiro, porque a nossa agricultura ainda pode
absorver pacote tecnológico, tem capacidade, e
eles já estão no topo. Lembrando uma curva,
o Brasil está subindo para o topo e os americanos
estão no topo da curva mas com tendência
a cair. Essa é minha leitura da agricultura em
nível mundial.
Portal - Quais
são os problemas que interferem nessa possibilidade
de crescimento?
Armando Matielli: Primeiro, o que está mais
atrapalhando, é a política retrógrada
do governo. Graças a Deus, o governo não
tem mais maneira de bancar e nem de impor ritmo à
agricultura. A última passagem drástica
que nós tivemos foi no Plano Cruzado, de saquear
o boi no pasto. Ali foi uma divisória mostrando
que o governo não tinha mais força para
impor qualquer coisa. O pecuarista, naquela época,
estava tão solidificado como está hoje o
sojicultor, o pessoal do milho, o de grãos. Hoje
o pessoal de grãos já alcançou aquele
nível que tinha o pessoal da pecuária naquela
época do Plano Cruzado, essa é a leitura
que eu tenho. Não depende mais de subsídio,
de crédito, a agricultura está correndo
sozinha.
Portal - Há
setores que vivem em crise, como café e leite.
O sr. acha que independe das políticas do governo
a superação dessas situações?
Armando Matielli: Eu acho que independe da política
do governo. O café, que é uma cultura a
que eu me dedico muito e gosto de falar, sou cafeicultor,
escrevo sobre cafeicultura. O café está
desamarrando, nesses últimos tempos, das bengalas
que existiam, do IBC e tudo o mais. O café também
está se tornando uma cultura mais empresarial e
nós estamos passando a principal fase crítica
da cultura. Hoje a gente percebe um grande número
de produtores procurando marca própria, fazendo
marketing, criando um marketing para sua produção,
procurando o mercado exterior, tentando deixar de exportar
o grão verde. Nós exportamos café
há 273 anos em sacas de 60 quilos de grão
verde. 90% é matéria prima. Existe um grande
movimento na cafeicultura para desamarrar essa situação,
para partir para o mercado internacional industrializando
e vendendo café torrado, moído e de outras
maneiras.
Portal - Em
quais setores então o governo deve atuar?
Armando
Matielli: Primeiro o governo deve fazer uma reforma
agrária nos moldes que as pessoas possam sobreviver
e não ser amparadas, quase como uma esmola. Para
poder sobreviver no campo em módulos verdadeiros,
não módulos pequenos de 10, 20 hectares.
Seria um grande passo para sossegar a zona rural que está
precisando, porque o que está produzindo para esse
País hoje é a agricultura. O governo precisa
se preocupar com as estradas que estão intransitáveis.
Outro ponto: educação para o campo. Os portos,
quanto tempo faz que nós sabemos que existem verdadeiras
máfias de sindicatos nos portos de Santos, Paranaguá,
não muda, não moderniza, nossos portos têm
um dos fretes mais caros do mundo, cheios de taxas, tem
que pagar um monte de coisa para poder levar nossos produtos
lá para fora. Então o governo deveria se
preocupar com esses setores básicos. Já
passamos dos 100 milhões de toneladas produzidas
de grãos que era nossa barreira, estamos em 130.
Podemos colocar 500 milhões nas duas próximas,
três décadas, e podemos chegar lá,
fazer uma grande nação em cima da agricultura
e fazer esse País crescer. É a agricultura
que ai arrancar o Brasil da situação de
hoje.
Portal -
Ao lado de uma agricultura empresarial, tecnificada, que
pode andar pelas próprias pernas, o Brasil convive
com o outro lado que é uma agricultura familiar,
que produz principalmente alimentos para a população.
Como o sr. analisa essa dualidade?
Armando Matielli:
A agricultura é bastante heterogênea, tem
diversos caminhos, mas esses 23, 24 bilhões de
dólares que nós recebemos de superávit
na balança comercial, oriundos da agricultura,
eles vêm da agricultura de economia de escala, não
tenho a menor dúvida. Vêm da agricultura
competitiva, de uma agricultura que tem pacote tecnológico
e dos produtores que possuem um nível intelectual
bem formado, vem daí e não da agricultura
de subsistência, que está em decadência.
Onde cresceu a agricultura? Cresceu, nessa última
década, principalmente nos estados da região
oeste, região central, Mato Grosso, Goiás.
Já viajei muito por essas regiões no passado
e recentemente. A gente vê hoje o tanto que a agricultura
se desenvolveu nessas regiões e continuará
a se desenvolver. Não são propriedades pequenas,
propriedades familiares, são empresários
agrícolas que estão desenvolvendo a agricultura.
Portal - E
como fica a produção de alimentos? Esses
grandes empresários, em geral, produzem para a
exportação, são os produtores, por
exemplo de soja.
Armando
Matielli:
Soja, café, milho, boi, avicultura estão
carregando hoje o Brasil. Nós não exportamos
milho mas exportamos proteína de origem animal,
tanto avicultura como carne de bois, suínos, que
precisam do milho. Então agricultura de subsistência
realmente no Brasil ela está quase morrendo.
Portal -
Mas há produtos que esses grandes produtores não
se interessam, como feijão e mandioca. Como fica
a produção desses alimentos?
Armando
Matielli: Existe
essa agricultura menor, permeando esse grande sistema.
Ela vai ter continuidade mas quem vai alavancar, quem
vai continuar puxando é a agricultura empresarial.
Vai ter essa agricultura de subsistência para manter
os 170 milhões de brasileiros comendo farinha de
mandioca, arroz e feijão. Essa agricultura vai
fazer com que o Brasil se alimente mas aquela que vai
carrear para nós os dividendos, dinheiro que nós
precisamos, vai ser a agricultura empresarial.
Portal -
Essa relação tão íntima com
o mercado internacional não pode deixar o Brasil
numa posição de muita dependência,
como no caso das commodities, que podem ser afetadas por
bruscas variações de preços externos?
Armando
Matielli:
Pode,
acontece e vai acontecer algumas vezes. Só que
nós alcançamos um nível de produtividade
extremamente competitivo. Não temos mais nenhum
subsídio governamental, dando X dólares
por tonelada de soja, de milho e nós competimos
com eles. Hoje nós produzimos três mil quilos
de soja no cerrado brasileiro, oito, nove, 10 mil quilos
de milho por hectare. Não perdemos para nenhum
americano e nenhum europeu. Temos nível tecnológico
e gente capacitada para poder produzir e continuamos produzindo
cada vez mais. Penso o seguinte: no decorrer das próximas
décadas, o Brasil vai prevalecer cada vez mais
sobre eles. Por que? A sociedade americana, a sociedade
européia, em determinado momento, eles vão
dizer: vamos parar com isso. Para que tanto subsídio
e protecionismo? Porque para eles pesam também
e uma hora a situação vai apertar. Eu já
morei na Alemanha e já ouvi isso. Os alemães
estão comentando que um dia vai chegar o ponto
em que não vão agüentar mais bancar
esse jogo.
Portal - Como
o sr. analisa essas negociações em que o
Brasil está tão empenhado junto à
OMC e na formação da Alca?
Armando
Matielli:
Eu acho muito boa a posição dos nossos negociadores.
Temos gente muito competente negociando nesse momento.
Começa pelo ministro Roberto Rodrigues, com o ministro
Luiz Fernando Furlan, o Celso Amorim. Estão batendo
duro, estão impondo e para poder negociar nessas
rodadas o Brasil tem que se impor e mostrar que temos
potencial. Eles já perceberam que nós não
estamos com brincadeiras nessas negociações.
Os americanos, na primeira rodada de negociações
em Doha, ficaram extremamente deselegantes, em Cancun
de novo, voltaram, retrocederam e querem fazer uma negociação
light. Isso demonstra que nós não afugentamos
com as primeiras imposições. Tenho a impressão
que outrora sentava-se à mesa e os americanos falavam
isso, os europeus falavam aquilo e os brasileiros se abaixavam.
Hoje não, tem gente que tem uma visão totalmente
diferente, que tem poder de negociação e
sabe o quê está falando. Eu acredito muito
nessa equipe que está aí, essa turma sabe
negociar e vai ter que negociar nessa sistemática,
endurecendo, não precisa abaixar.
Portal -
O sr. elogia a política governamental no plano
externo. Qual sua avaliação no plano interno?
Armando
Matielli:
O
problema interno não existe, não tem nenhum
problema. Problema tem de reforma agrária, meia
dúzia de revolucionários levantando uma
bandeira vermelha do MST. Hoje o governo está muito
preocupado em resolver o problema social e eu acho que
tem razão, deveria estar preocupado há muito
mais tempo. Parece que hoje todo o problema social culmina
em cima da agricultura. A agricultura que é a grande
culpada de ter esse tanto de gente famigerada e tanta
pobreza que tem por aí, tantas favelas. Não
é a agricultura. A agricultura fez 24 bilhões
de dólares em superávit comercial, está
trazendo tecnologia, petróleo, medicamentos, biotecnologia,
uma série de inovações e necessidades
prementes para o País. Se não tivesse 24
bilhões de dólares de superávit na
balança comercial teríamos uma situação
paupérrima, igual a um País africano. Quando
se fala de política interna, de apoio a pequenas
propriedades, de apoio ao MST, à reforma agrária
que está se tentando se fazer, eu não acredito
em nada disso. Vejo nisso uma política caótica
e sem nenhum resultado econômico.
Portal -
Como deveria então ser feita uma reforma agrária
já que é inegável a existência
de uma pressão social e uma demanda de famílias
que querem terra?
Armando
Matielli:
O
que eu penso é o seguinte: o módulo rural
em que está se pensando em fazer a reforma agrária
não tem condições de sobrevivência
para uma família. Vamos dizer que nós vamos
fazer uma reforma agrária, como está se
fazendo, de 15, 20 hectares, dependendo da região.
20 hectares numa propriedade rural pensada na mesa, muito
bonita, um ambiente bucólico, uma casinha branca
com janelinha azul, as vaquinhas no pasto, meia dúzia
de cavalinhos, porquinhos gordos no chiqueiro, riozinho
passando, e depois sobram 10, 12 hectares para plantar
cereais que é a grande força do País.
Se plantar 12 hectares, seja soja ou milho, vai ter uma
renda, no máximo, de 24 mil reais no ano para uma
família, bruto. Vamos dizer que o bom resultado
é de 25% de margem líquida. Vai ter um resultado
de 6 mil reais, se tudo colaborar, se for um bom agricultor
e São Pedro der uma mão. Com seis mil reais
uma família vive, pagando todos os custos de impostos,
energia, todos os custos indiretos? Esquece. Essa agricultura,
nessa situação de competição
mundial, na globalização e economia de escala,
essa agricultura está fadada a morrer. Não
existe, não vai, tanto é que nós
já assentamos, não sei exatamente, 500 mil,
600 mil famílias e estão com sucesso 18
ou 20 mil, segundo os dados estatísticos. Não
foi e não vai, economicamente não vira,
vão virar uma verdadeira favela rural. Para mim
a agricultura só vai se tiver um apadrinhamento
tecnológico. Por exemplo, se eu sou um produtor
de soja, planto soja, milho, café, crio boi, tenho
que transferir parte do meu pacote tecnológico
para uma gama de pessoas. Como fazer isso? Ao invés
do governo ficar tentando repartir em lotes de 20 hectares,
que se trace módulos de acordo com o nível
de sobrevivência, da renda para cada tipo de cultura.
Vamos lembrar da soja que é um modismo: um sojicultor
para viver dignamente tem que plantar no mínimo
60 hectares. Ele vai ter uma renda bruta de 120 mil reais.
25%, ele vai ter uma renda líquida de 40 mil reais,
aí é capaz de sobreviver. Mas se ele tiver
que fazer todo o pacote tecnológico para 60 hectares
ele não consegue, então o produtor que faça
esse apadrinhamento. O governo pode vender a idéia
e vender o princípio, vender não, impor
um nível de negociação onde exista
o apadrinhamento tecnológico. Esse é meu
pensamento: cada bom produtor, que hoje tem um pacote
tecnológico, que já sabe produzir, que trate
de passar esse pacote tecnológico para 10, 12,
15 produtores, num módulo tal que faça com
que essa família consiga viver lá no campo.
Com isso nós vamos continuar gerando tecnologia,
não vamos ter essas dependências de um órgão
estatal enorme, de assistência técnica, educação
e tudo o mais, porque aquele que já sabe pode ensinar
aquele que não sabe. Tem benefícios? Sim,
quem faz o apadrinhamento tecnológico, quem faz
a tutela tecnológica, recebe qualquer ajuda, diminui
a carga tributária para aquela fazenda, aumenta
um pouco o preço de venda dele, tem crédito
rural, alguma sistemática tal que faça com
que aquela pessoa se sinta estimulada a repassar o pacote
tecnológico para 10 ou 12 produtores dentro do
módulo rural. Aí eu acredito na reforma
agrária, porque tem consistência, tem renda
e tem passagem tecnológica, porque essa reforma
agrária de 20 hectares, como está se fazendo,
assentando milhares de famílias numa situação
lamentável, não vai virar nada, não
vai render nada para o Brasil. Vamos gerar mais pobreza
e mais conflito social.
Portal - A
existência desses "padrinhos tecnológicos"
não pressupõe a existência de terras,
que o governo assente essas famílias e depois escolha
os padrinhos tecnológicos?
Ivan
Wedekin:
A
maneira como vai ser feito eu não vou definir aqui,
também não tenho um plano completo para
isso. Poderia a Sociedade Rural estar prontamente aberta
para conversar sobre esse assunto. Essa pressão
que está sendo feita pelo MST é uma pressão
boba, que não traz nenhum benefício, amedronta,
coloca em risco aquilo que ele tem de mais sagrado que
é a terra de quem está produzindo. Isso
deveria vir de uma conversação, o Lula prometeu
mil conversações e até agora não
vi conversando com ninguém, a não ser impor.
Faça uma conversação, coloque isso
aberto para a sociedade. Com isso vai ter mais paz no
campo, que está precisando urgentemente e cada
qual se habilite a fazer o seu apadrinhamento tecnológico
porque vai ter e vai ser pago por isso, vai receber crédito
rural ou ter diminuição de juros, ou dos
impostos. Aí eu tenho certeza que muitos produtores
rurais estarão abertos a fazer esse pacote tecnológico
repassado a 10, 12 companheiros.
Portal -
Existe uma articulação política que
dê uma base social a essa proposta?
Armando
Matielli:
Essa
proposta é a primeira vez que eu estou falando,
é uma idéia que eu tenho, porque eu não
acredito numa reforma agrária onde você tem
que dar a terra, educação, assistência
técnica, o trator, a semente, o médico,
a estrada. Aí não tem jeito, onde nós
vamos arrumar dinheiro para isso? Já estamos cansados
de pagar tantos impostos. Até quando nós
vamos continuar dando as coisas? Eu não acredito
nessa política em hipótese alguma.
Portal - Nos
últimos 50 anos sempre se disse que a industrialização
foi a grande responsável pelo desenvolvimento do
País. O sr. acredita que com os bons resultados
da agropecuária e do agronegócio, esses
setores vão tomar esse papel?
Armando
Matielli:
Graças
a Deus descobriram agora que o Brasil não tem a
mínima vocação para o industrial.
Cadê a indústria, o comércio e os
serviços? Os serviços e o comércio
vão girar em função da economia como
um todo. A indústria está capenga, não
temos capacidade de competir com os países industrializados,
na agricultura nós temos. Temos ainda mais 120
milhões de hectares para plantar, para abrir, e
na indústria não temos mais nada. Agora
o Brasil está percebendo que o grande negócio
é o agronegócio, depois de errar tanto.
Isso começou no governo do Getúlio, passou
pelo governo Juscelino: achavam que a industrialização
salvaria o País. O País não tem a
mínima tendência, nenhuma vocação
para o setor industrial. O Brasil é um País
essencialmente agrícola, nós somos ruralistas.
No momento está se percebendo que essa doença
acaba. Estamos ainda produzindo muita matéria prima.
O próximo passo é melhorar, industrializar,
trabalhar o setor terciário da economia dentro
da agricultura, do agronegócio, marquetear melhor
tudo isso para agregar valor e vender mais caro, porque
aí sim, o País vai deslanchar, ninguém
pega o Brasil. Os países que têm grandes
extensões territoriais que são o Canadá,
a Rússia, a China, são áreas inóspitas
em termos de agricultura. Elas são limitadas, só
se pode plantar numa determinada época do ano,
e nós não, nós temos ainda mais 120
milhões de hectares para fazer uma grande agricultura.
Nós estamos produzindo 120 milhões de toneladas
de grãos, amanhã podemos produzir 500 milhões
de toneladas. O Brasil tem tudo pela frente, é
só o governo não atrapalhar muito e objetivar
um pouco mais as coisas que só vai crescer. Eu
tenho uma esperança enorme na agricultura.
Portal -
O sr. acredita que exista ainda um certo preconceito em
relação ao campo?
Armando
Matielli:
Não,
acabou tudo isso. Hoje o interior do Brasil, eu morei
na capital 17 anos mas eu sou um homem de origem rural,
vim do campo, criado em fazenda, trabalhei na Bayer 27
anos, fui diretor de marketing da companhia. Hoje eu não
vejo mais nenhuma preocupação nesse sentido,
os homens mais bem sucedidos nesse País estão
na área agrícola. Tirando Antonio Ermírio
de Moraes, que é uma bandeira de exemplo na área
industrial, os grandes exemplos hoje estão na área
agrícola. Temos grandes impérios sendo montados,
dando prazer de falar que trabalha no agronegócio.
O agronegócio hoje tem a FGV formando os MBAs em
agribusiness, todas as faculdades voltadas para trabalhar
dentro do conceito de agronegócio, e o pessoal
mandando os filhos estudar lá fora para aprender
a agregar valor, muita gente falando duas ou três
línguas dentro das fazendas. Mudou todo o cenário,
não existe mais aquela agricultura do Jeca Tatu,
nossa agricultura hoje é extremamente moderna e
tecnificada, com muita gente capacitada.
Portal - O
sr. disse que o próximo passo é agregar
valor. Como isso pode ser feito?
Armando
Matielli:
Eu
vou dar um exemplo: o agronegócio café em
nível mundial gira em torno de 70, 80 bilhões
de dólares. É o melhor negócio do
mundo, nem a cocaína, o tráfico de drogas
é tão bom como o café porque as drogas
são ilícitas, café é lícito.
Os negócios lícitos que dão mais
dinheiro são petróleo e café. Vamos
eleger 75 bilhões de dólares para um consumo
de 110 milhões de sacas dá 682 dólares
a saca de café, esse é o preço que
é comercializado em nível mundial médio,
entre os países produtores e os países compradores.
Quando nós levamos esse preço para os países
compradores, que são os da Europa, os Estados Unidos,
Japão, principalmente, que giram em torno de 85
milhões de sacas, esse preço passa para
mais de mil dólares, porque quem derruba preço
são os países consumidores, países
produtores, caso do Brasil, que vende café barato
no mercado interno. Então vende-se o café
a mais de mil dólares e nós estamos vendendo
café a 50, 60 dólares. Eles pegam 950. A
relação exata é a seguinte: 94% para
o comércio e 6 para o produtor, quer dizer, olha
a almofada que tem para a gente mexer na agricultura e
no agronegócio e ganhar dinheiro. O café
é o exemplo típico: nós exportamos
no ano retrasado 1,3 bilhão de dólares.
Desse mesmo 1,3 que nós exportamos eles fizeram
19 bilhões nas nossas costas. Temos que aprender,
urgentemente, a agregar valor, industrializar esse café,
quebrar barreiras alfandegárias, entrar lá,
abrir torrefação, empacotamento e brigar
no mercado internacional, porque nós temos matéria-prima
e temos tecnologia. Esse é o caminho que o Brasil
tem. É um absurdo: vendemos 1,3 bilhão e
eles fazem 19 bilhões com nosso café e nós
estamos aí, capengas, agricultura quebrada. Vivo
diretamente da cafeicultura e vejo uma situação
lamentável. Eu tenho compaixão, às
vezes, de mim próprio como dos companheiros que
estão lutando no dia a dia, mandando gente embora,
não conseguem pagar seus empregados, não
conseguem pagar os encargos sociais. Lamentável,
por falta de uma política e de cultura mostrando
que nós temos que agregar valor. Não tem
outro caminho: o Brasil produzindo matéria prima
está fadado sempre a ter esses entraves quando
chega nas áreas de commodities.
Portal -
O sr. falou que nós temos ainda 120 milhões
de hectares que podem ser explorados. Isso não
pode ter um custo ambiental muito grande? Como conciliar
essa questão ambiental, que é muito cobrada
no exterior, e essa necessidade de expandir a produção?
Armando
Matielli:
Existe
um exagero na área ambiental, uma extrema preocupação
que eles não tiveram e agora vão querer
exigir de nós? Talvez esse nível de exigência
seja para dizer: "parem de produzir que nós
estamos com medo de vocês". Nós, como
velhos cordeiros, escutamos e vamos então não
plantar nada, largar a vida na mata, não exportamos
mais nada, o povo passa fome e vamos continuar por aí.
No meu entendimento como agrônomo, eu sou um grande
ecologista - gosto da natureza e planto muitas árvores
- tem que preservar sim, mas quando tem que plantar para
dar subsistência, para dar educação,
comida para nosso povo, tem que arrancar a mata quando
for preciso. Independente desse meu pensamento, da minha
linha de conduta, o Brasil tem 550 milhões de hectares
da floresta amazônica que é o maior pulmão
do planeta. Ninguém tem tantos hectares totalmente
preservados, inóspitos, com uma agricultura que
não tem jeito de praticar. Então deixa esses
550 milhões de hectares quietos, não vamos
mexer com aquilo lá. Nós não estamos
mexendo, quem conhece a região amazônica
sabe que não tem jeito de trabalhar na região,
principalmente no estado do Amazonas, no Pará,
onde passam os grandes mananciais de água, clima
quente, nós não vamos mexer nunca. Mas nós
temos outros 120 milhões que já estão
mapeados, a Embrapa mostrou, a Veja acabou de lançar
uma reportagem recentemente, mostrando que existem 120
milhões de hectares que são perfeitamente
viáveis, sem provocar nenhum dano ambiental mas
que são cultiváveis. Nós temos esse
montante que está guardado à disposição
e nós temos mais 170, 180 milhões de hectares
de pastagens. Podem deixar as pastagens lá que
ainda sobram esses 120 milhões de hectares para
poder cultivar. Se fizer uma reforma agrária naqueles
moldes que nós acabamos de falar cabe muita gente.
Hoje nós usamos 40 milhões de hectares que
produzem os grãos. Nós temos a produção
de 60 milhões de toneladas de soja, mais ou menos
40 milhões de hectares de milho e 20 milhões
de arroz e outros. Então temos 40 milhões
de hectares que estão sendo cultivados hoje que
produzem as 120 milhões de toneladas de grãos.
Nós temos mais ou menos 20 milhões de hectares
que entram o café, a cana-de-açúcar,
a fruticultura, então nós temos cultivados
no Brasil por volta de 60 milhões de hectares e
nós temos duas vezes mais do que cultivamos para
poder plantar. Se a gente falar que nós não
vamos nunca provocar um desequilíbrio, não
é verdade. Toda a vez que o homem mexe na natureza
- arou, plantou - já está desequilibrando.
Isso é normal, isso vai acontecer, mas uma coisa
que seja extremamente pejorativa, que vai criar um impacto
que seja irracional, não é. Esses 120 milhões
de hectares estão mapeados, já podemos plantar
sem criar grandes danos ambientais.
Portal -
O sr. acha que existe entre os produtores rurais uma consciência
disseminada sobre a necessidade de preservação?
Armando
Matielli:
Eu
vou dizer para você: eu estava trabalhando dentro
do escritório aqui em São Paulo, fazendo
marketing e muitas vezes me distanciava um pouco do campo
apesar de que sempre estive na fazenda, sempre ligado
no dia a dia pela minha própria formação
profissional, eu gosto de ser agricultor. Eu passei uns
tempos aqui em São Paulo que eu não estava
sentindo esse desenvolvimento. O pessoal hoje está
crescendo demais em cima disso, preocupado, se você
entrar no Estado de São Paulo e ver a recuperação
que nós tivemos nas matas ciliares dos rios que
cortam o Estado é uma coisa impressionante. Eu
acho que nosso agricultor está muito bem consciente
com relação ao meio ambiente, não
tenho a menor dúvida. Temos o maior programa em
nível mundial, um dos mais modernos que é
a reciclagem de lixo tóxico vindo da zona rural,
temos um sistema de coleta que é um exemplo. Nós
temos hoje diversos exemplos a citar com relação
a matas ciliares, com relação à preservação.
O pessoal está correndo atrás de selos de
certificação agrícola, que é
um modismo: você produzir uma agricultura socialmente
justa, ecologicamente correta e economicamente viável,
esse é o tripé da agricultura que está
na cabeça dos grandes empresários agrícolas.
Não tenho a menor preocupação em
dizer que não está faltando nada para os
agricultores, lógico que tem as exceções,
mas de modo geral o agricultor é ciente e consciente
em relação ao meio ambiente.
Portal -
Mesmo nessas áreas que estão sofrendo mais
com o desmatamento, como Rondônia, sul do Pará?
Armando
Matielli:
Eu
fui a Rondônia e ao sul do Pará. Quem eu
vi tacando fogo lá eram os madeireiros e índios.
Hoje a região do Mato Grosso do Sul, mesmo Mato
Grosso, o que tem para devastar são pequenos cerrados,
para poder limpar, que não provoca esse alarido
de fogo que se provoca lá na região de Rondônia
e no sul do Pará. Provocou, já teve e tem
mas muito longe da gente colocar isso como uma barreira
para o avanço do Brasil. Não pode ser uma
barreira e nós não podemos ficar aceitando
essas posições internacionais de que nós
estamos prejudicando o meio ambiente. Temos 550 milhões
de hectares para poder preservar. Os norte-americanos
têm isso? Não. Os europeus têm isso?
Não. Se nós tivermos que derrubar algumas
árvores, vamos derrubar sim, mas vamos deixar os
550 milhões lá. Essa deve ser a tônica
do negócio e o agricultor está ciente disso,
não tenho a menor dúvida.
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