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ENTREVISTAS

Armando Matielli
Produtor rural

Armando Matielli é engenheiro agrônomo, com MBA pela Fundação Getúlio Vargas. Ex-funcionário da Bayer S.A, onde ocupou diversos cargos em 27 anos, hoje é proprietário da empresa Matielli Comércio, Importação e Exportação Ltda., em Pouso Alegre, Minas Gerais, atuando no ramo de insumos para café e outras culturas. Cafeicultor, é proprietário da fazenda Jacutinga, na rodovia Guapé-Passos, MG, desde 1988.Tem vários trabalhos publicados sobre café e outras culturas em congressos e na imprensa.

Portal - Quais são os principais fatores que levaram ao crescimento do PIB da agropecuária em 5% em 2003?

Armando Matielli
: O principal fator que levou a esse resultado foi a diminuição do protecionismo que já foi feito nas últimas duas décadas. O governo começou a cortar todos os subsídios agrícolas e ficaram, na realidade, produtores tecnificados, com pacote tecnológico, o que fez com que se desenvolvesse a agricultura da maneira como se desenvolveu. A pecuária já vinha muito bem sedimentada. Esse boom de soja que aconteceu, e depois da cana-de-açúcar e tudo o mais, estão ocorrendo hoje independente do governo. A agricultura brasileira saiu daquele círculo vicioso e partiu para um ciclo mais tecnificado - círculo vicioso de demandar crédito rural, subsídio. Nós perdemos nessas últimas duas décadas essa dependência capenga, essas bengalas vindas do governo, e partimos para fazer negócio. Depois o clima, a situação da terra, tudo ajuda aqui no Brasil.



Portal - Mas há produtores aqui no Brasil que afirmam que a agropecuária não se desenvolve sem um forte subsídio governamental e mesmo países como os Estados Unidos e os da União Européia também pensam assim.


Armando Matielli:
Esses países têm um forte subsídio mas um subsídio protecionista e nós hoje competimos com todos esses subsídios e somos capazes de banca-los e desbanca-los. Tanto os norte-americanos como os europeus vivem às custas do Tesouro, essa é a realidade. Essa agricultura está fadada, no futuro, não posso dizer quando, a sociedade não vai carregar mais esse ônus, esse peso enorme desse subsídio enorme que o governo está pagando para esses países. Então eu acredito muito mais na agricultura brasileira, que não tem nada de subsídio. Nós temos uma miséria de financiamento que não dá nem 10% do PIB agrícola: no ano passado foram anunciados 34 bilhões de reais para financiar nossa agricultura e nós sabemos que hoje a agricultura corresponde a 40% do PIB. Portanto, mesmo a área de financiamento é muito pequena, quer dizer, não tem nem financiamento e nem subsídio e a agricultura está crescendo, graças ao pacote tecnológico, ao nível empresarial da nossa agricultura. Nós podemos crescer muito mais do que os americanos e muito mais do que os europeus. Primeiro, porque a nossa agricultura ainda pode absorver pacote tecnológico, tem capacidade, e eles já estão no topo. Lembrando uma curva, o Brasil está subindo para o topo e os americanos estão no topo da curva mas com tendência a cair. Essa é minha leitura da agricultura em nível mundial.


Portal - Quais são os problemas que interferem nessa possibilidade de crescimento?


Armando Matielli: Primeiro, o que está mais atrapalhando, é a política retrógrada do governo. Graças a Deus, o governo não tem mais maneira de bancar e nem de impor ritmo à agricultura. A última passagem drástica que nós tivemos foi no Plano Cruzado, de saquear o boi no pasto. Ali foi uma divisória mostrando que o governo não tinha mais força para impor qualquer coisa. O pecuarista, naquela época, estava tão solidificado como está hoje o sojicultor, o pessoal do milho, o de grãos. Hoje o pessoal de grãos já alcançou aquele nível que tinha o pessoal da pecuária naquela época do Plano Cruzado, essa é a leitura que eu tenho. Não depende mais de subsídio, de crédito, a agricultura está correndo sozinha.

Portal - Há setores que vivem em crise, como café e leite. O sr. acha que independe das políticas do governo a superação dessas situações?


Armando Matielli:
Eu acho que independe da política do governo. O café, que é uma cultura a que eu me dedico muito e gosto de falar, sou cafeicultor, escrevo sobre cafeicultura. O café está desamarrando, nesses últimos tempos, das bengalas que existiam, do IBC e tudo o mais. O café também está se tornando uma cultura mais empresarial e nós estamos passando a principal fase crítica da cultura. Hoje a gente percebe um grande número de produtores procurando marca própria, fazendo marketing, criando um marketing para sua produção, procurando o mercado exterior, tentando deixar de exportar o grão verde. Nós exportamos café há 273 anos em sacas de 60 quilos de grão verde. 90% é matéria prima. Existe um grande movimento na cafeicultura para desamarrar essa situação, para partir para o mercado internacional industrializando e vendendo café torrado, moído e de outras maneiras.

Portal - Em quais setores então o governo deve atuar?

Armando Matielli: Primeiro o governo deve fazer uma reforma agrária nos moldes que as pessoas possam sobreviver e não ser amparadas, quase como uma esmola. Para poder sobreviver no campo em módulos verdadeiros, não módulos pequenos de 10, 20 hectares. Seria um grande passo para sossegar a zona rural que está precisando, porque o que está produzindo para esse País hoje é a agricultura. O governo precisa se preocupar com as estradas que estão intransitáveis. Outro ponto: educação para o campo. Os portos, quanto tempo faz que nós sabemos que existem verdadeiras máfias de sindicatos nos portos de Santos, Paranaguá, não muda, não moderniza, nossos portos têm um dos fretes mais caros do mundo, cheios de taxas, tem que pagar um monte de coisa para poder levar nossos produtos lá para fora. Então o governo deveria se preocupar com esses setores básicos. Já passamos dos 100 milhões de toneladas produzidas de grãos que era nossa barreira, estamos em 130. Podemos colocar 500 milhões nas duas próximas, três décadas, e podemos chegar lá, fazer uma grande nação em cima da agricultura e fazer esse País crescer. É a agricultura que ai arrancar o Brasil da situação de hoje.


Portal - Ao lado de uma agricultura empresarial, tecnificada, que pode andar pelas próprias pernas, o Brasil convive com o outro lado que é uma agricultura familiar, que produz principalmente alimentos para a população. Como o sr. analisa essa dualidade?


Armando Matielli: A agricultura é bastante heterogênea, tem diversos caminhos, mas esses 23, 24 bilhões de dólares que nós recebemos de superávit na balança comercial, oriundos da agricultura, eles vêm da agricultura de economia de escala, não tenho a menor dúvida. Vêm da agricultura competitiva, de uma agricultura que tem pacote tecnológico e dos produtores que possuem um nível intelectual bem formado, vem daí e não da agricultura de subsistência, que está em decadência. Onde cresceu a agricultura? Cresceu, nessa última década, principalmente nos estados da região oeste, região central, Mato Grosso, Goiás. Já viajei muito por essas regiões no passado e recentemente. A gente vê hoje o tanto que a agricultura se desenvolveu nessas regiões e continuará a se desenvolver. Não são propriedades pequenas, propriedades familiares, são empresários agrícolas que estão desenvolvendo a agricultura.


Portal - E como fica a produção de alimentos? Esses grandes empresários, em geral, produzem para a exportação, são os produtores, por exemplo de soja.


Armando Matielli: Soja, café, milho, boi, avicultura estão carregando hoje o Brasil. Nós não exportamos milho mas exportamos proteína de origem animal, tanto avicultura como carne de bois, suínos, que precisam do milho. Então agricultura de subsistência realmente no Brasil ela está quase morrendo.


Portal - Mas há produtos que esses grandes produtores não se interessam, como feijão e mandioca. Como fica a produção desses alimentos?


Armando Matielli: Existe essa agricultura menor, permeando esse grande sistema. Ela vai ter continuidade mas quem vai alavancar, quem vai continuar puxando é a agricultura empresarial. Vai ter essa agricultura de subsistência para manter os 170 milhões de brasileiros comendo farinha de mandioca, arroz e feijão. Essa agricultura vai fazer com que o Brasil se alimente mas aquela que vai carrear para nós os dividendos, dinheiro que nós precisamos, vai ser a agricultura empresarial.



Portal - Essa relação tão íntima com o mercado internacional não pode deixar o Brasil numa posição de muita dependência, como no caso das commodities, que podem ser afetadas por bruscas variações de preços externos?



Armando Matielli: Pode, acontece e vai acontecer algumas vezes. Só que nós alcançamos um nível de produtividade extremamente competitivo. Não temos mais nenhum subsídio governamental, dando X dólares por tonelada de soja, de milho e nós competimos com eles. Hoje nós produzimos três mil quilos de soja no cerrado brasileiro, oito, nove, 10 mil quilos de milho por hectare. Não perdemos para nenhum americano e nenhum europeu. Temos nível tecnológico e gente capacitada para poder produzir e continuamos produzindo cada vez mais. Penso o seguinte: no decorrer das próximas décadas, o Brasil vai prevalecer cada vez mais sobre eles. Por que? A sociedade americana, a sociedade européia, em determinado momento, eles vão dizer: vamos parar com isso. Para que tanto subsídio e protecionismo? Porque para eles pesam também e uma hora a situação vai apertar. Eu já morei na Alemanha e já ouvi isso. Os alemães estão comentando que um dia vai chegar o ponto em que não vão agüentar mais bancar esse jogo.


Portal - Como o sr. analisa essas negociações em que o Brasil está tão empenhado junto à OMC e na formação da Alca?


Armando Matielli: Eu acho muito boa a posição dos nossos negociadores. Temos gente muito competente negociando nesse momento. Começa pelo ministro Roberto Rodrigues, com o ministro Luiz Fernando Furlan, o Celso Amorim. Estão batendo duro, estão impondo e para poder negociar nessas rodadas o Brasil tem que se impor e mostrar que temos potencial. Eles já perceberam que nós não estamos com brincadeiras nessas negociações. Os americanos, na primeira rodada de negociações em Doha, ficaram extremamente deselegantes, em Cancun de novo, voltaram, retrocederam e querem fazer uma negociação light. Isso demonstra que nós não afugentamos com as primeiras imposições. Tenho a impressão que outrora sentava-se à mesa e os americanos falavam isso, os europeus falavam aquilo e os brasileiros se abaixavam. Hoje não, tem gente que tem uma visão totalmente diferente, que tem poder de negociação e sabe o quê está falando. Eu acredito muito nessa equipe que está aí, essa turma sabe negociar e vai ter que negociar nessa sistemática, endurecendo, não precisa abaixar.


Portal - O sr. elogia a política governamental no plano externo. Qual sua avaliação no plano interno?


Armando Matielli: O problema interno não existe, não tem nenhum problema. Problema tem de reforma agrária, meia dúzia de revolucionários levantando uma bandeira vermelha do MST. Hoje o governo está muito preocupado em resolver o problema social e eu acho que tem razão, deveria estar preocupado há muito mais tempo. Parece que hoje todo o problema social culmina em cima da agricultura. A agricultura que é a grande culpada de ter esse tanto de gente famigerada e tanta pobreza que tem por aí, tantas favelas. Não é a agricultura. A agricultura fez 24 bilhões de dólares em superávit comercial, está trazendo tecnologia, petróleo, medicamentos, biotecnologia, uma série de inovações e necessidades prementes para o País. Se não tivesse 24 bilhões de dólares de superávit na balança comercial teríamos uma situação paupérrima, igual a um País africano. Quando se fala de política interna, de apoio a pequenas propriedades, de apoio ao MST, à reforma agrária que está se tentando se fazer, eu não acredito em nada disso. Vejo nisso uma política caótica e sem nenhum resultado econômico.


Portal - Como deveria então ser feita uma reforma agrária já que é inegável a existência de uma pressão social e uma demanda de famílias que querem terra?


Armando Matielli: O que eu penso é o seguinte: o módulo rural em que está se pensando em fazer a reforma agrária não tem condições de sobrevivência para uma família. Vamos dizer que nós vamos fazer uma reforma agrária, como está se fazendo, de 15, 20 hectares, dependendo da região. 20 hectares numa propriedade rural pensada na mesa, muito bonita, um ambiente bucólico, uma casinha branca com janelinha azul, as vaquinhas no pasto, meia dúzia de cavalinhos, porquinhos gordos no chiqueiro, riozinho passando, e depois sobram 10, 12 hectares para plantar cereais que é a grande força do País. Se plantar 12 hectares, seja soja ou milho, vai ter uma renda, no máximo, de 24 mil reais no ano para uma família, bruto. Vamos dizer que o bom resultado é de 25% de margem líquida. Vai ter um resultado de 6 mil reais, se tudo colaborar, se for um bom agricultor e São Pedro der uma mão. Com seis mil reais uma família vive, pagando todos os custos de impostos, energia, todos os custos indiretos? Esquece. Essa agricultura, nessa situação de competição mundial, na globalização e economia de escala, essa agricultura está fadada a morrer. Não existe, não vai, tanto é que nós já assentamos, não sei exatamente, 500 mil, 600 mil famílias e estão com sucesso 18 ou 20 mil, segundo os dados estatísticos. Não foi e não vai, economicamente não vira, vão virar uma verdadeira favela rural. Para mim a agricultura só vai se tiver um apadrinhamento tecnológico. Por exemplo, se eu sou um produtor de soja, planto soja, milho, café, crio boi, tenho que transferir parte do meu pacote tecnológico para uma gama de pessoas. Como fazer isso? Ao invés do governo ficar tentando repartir em lotes de 20 hectares, que se trace módulos de acordo com o nível de sobrevivência, da renda para cada tipo de cultura. Vamos lembrar da soja que é um modismo: um sojicultor para viver dignamente tem que plantar no mínimo 60 hectares. Ele vai ter uma renda bruta de 120 mil reais. 25%, ele vai ter uma renda líquida de 40 mil reais, aí é capaz de sobreviver. Mas se ele tiver que fazer todo o pacote tecnológico para 60 hectares ele não consegue, então o produtor que faça esse apadrinhamento. O governo pode vender a idéia e vender o princípio, vender não, impor um nível de negociação onde exista o apadrinhamento tecnológico. Esse é meu pensamento: cada bom produtor, que hoje tem um pacote tecnológico, que já sabe produzir, que trate de passar esse pacote tecnológico para 10, 12, 15 produtores, num módulo tal que faça com que essa família consiga viver lá no campo. Com isso nós vamos continuar gerando tecnologia, não vamos ter essas dependências de um órgão estatal enorme, de assistência técnica, educação e tudo o mais, porque aquele que já sabe pode ensinar aquele que não sabe. Tem benefícios? Sim, quem faz o apadrinhamento tecnológico, quem faz a tutela tecnológica, recebe qualquer ajuda, diminui a carga tributária para aquela fazenda, aumenta um pouco o preço de venda dele, tem crédito rural, alguma sistemática tal que faça com que aquela pessoa se sinta estimulada a repassar o pacote tecnológico para 10 ou 12 produtores dentro do módulo rural. Aí eu acredito na reforma agrária, porque tem consistência, tem renda e tem passagem tecnológica, porque essa reforma agrária de 20 hectares, como está se fazendo, assentando milhares de famílias numa situação lamentável, não vai virar nada, não vai render nada para o Brasil. Vamos gerar mais pobreza e mais conflito social.


Portal - A existência desses "padrinhos tecnológicos" não pressupõe a existência de terras, que o governo assente essas famílias e depois escolha os padrinhos tecnológicos?



Ivan Wedekin: A maneira como vai ser feito eu não vou definir aqui, também não tenho um plano completo para isso. Poderia a Sociedade Rural estar prontamente aberta para conversar sobre esse assunto. Essa pressão que está sendo feita pelo MST é uma pressão boba, que não traz nenhum benefício, amedronta, coloca em risco aquilo que ele tem de mais sagrado que é a terra de quem está produzindo. Isso deveria vir de uma conversação, o Lula prometeu mil conversações e até agora não vi conversando com ninguém, a não ser impor. Faça uma conversação, coloque isso aberto para a sociedade. Com isso vai ter mais paz no campo, que está precisando urgentemente e cada qual se habilite a fazer o seu apadrinhamento tecnológico porque vai ter e vai ser pago por isso, vai receber crédito rural ou ter diminuição de juros, ou dos impostos. Aí eu tenho certeza que muitos produtores rurais estarão abertos a fazer esse pacote tecnológico repassado a 10, 12 companheiros.


Portal - Existe uma articulação política que dê uma base social a essa proposta?


Armando Matielli:
Essa proposta é a primeira vez que eu estou falando, é uma idéia que eu tenho, porque eu não acredito numa reforma agrária onde você tem que dar a terra, educação, assistência técnica, o trator, a semente, o médico, a estrada. Aí não tem jeito, onde nós vamos arrumar dinheiro para isso? Já estamos cansados de pagar tantos impostos. Até quando nós vamos continuar dando as coisas? Eu não acredito nessa política em hipótese alguma.


Portal - Nos últimos 50 anos sempre se disse que a industrialização foi a grande responsável pelo desenvolvimento do País. O sr. acredita que com os bons resultados da agropecuária e do agronegócio, esses setores vão tomar esse papel?


Armando Matielli:
Graças a Deus descobriram agora que o Brasil não tem a mínima vocação para o industrial. Cadê a indústria, o comércio e os serviços? Os serviços e o comércio vão girar em função da economia como um todo. A indústria está capenga, não temos capacidade de competir com os países industrializados, na agricultura nós temos. Temos ainda mais 120 milhões de hectares para plantar, para abrir, e na indústria não temos mais nada. Agora o Brasil está percebendo que o grande negócio é o agronegócio, depois de errar tanto. Isso começou no governo do Getúlio, passou pelo governo Juscelino: achavam que a industrialização salvaria o País. O País não tem a mínima tendência, nenhuma vocação para o setor industrial. O Brasil é um País essencialmente agrícola, nós somos ruralistas. No momento está se percebendo que essa doença acaba. Estamos ainda produzindo muita matéria prima. O próximo passo é melhorar, industrializar, trabalhar o setor terciário da economia dentro da agricultura, do agronegócio, marquetear melhor tudo isso para agregar valor e vender mais caro, porque aí sim, o País vai deslanchar, ninguém pega o Brasil. Os países que têm grandes extensões territoriais que são o Canadá, a Rússia, a China, são áreas inóspitas em termos de agricultura. Elas são limitadas, só se pode plantar numa determinada época do ano, e nós não, nós temos ainda mais 120 milhões de hectares para fazer uma grande agricultura. Nós estamos produzindo 120 milhões de toneladas de grãos, amanhã podemos produzir 500 milhões de toneladas. O Brasil tem tudo pela frente, é só o governo não atrapalhar muito e objetivar um pouco mais as coisas que só vai crescer. Eu tenho uma esperança enorme na agricultura.


Portal - O sr. acredita que exista ainda um certo preconceito em relação ao campo?


Armando Matielli: Não, acabou tudo isso. Hoje o interior do Brasil, eu morei na capital 17 anos mas eu sou um homem de origem rural, vim do campo, criado em fazenda, trabalhei na Bayer 27 anos, fui diretor de marketing da companhia. Hoje eu não vejo mais nenhuma preocupação nesse sentido, os homens mais bem sucedidos nesse País estão na área agrícola. Tirando Antonio Ermírio de Moraes, que é uma bandeira de exemplo na área industrial, os grandes exemplos hoje estão na área agrícola. Temos grandes impérios sendo montados, dando prazer de falar que trabalha no agronegócio. O agronegócio hoje tem a FGV formando os MBAs em agribusiness, todas as faculdades voltadas para trabalhar dentro do conceito de agronegócio, e o pessoal mandando os filhos estudar lá fora para aprender a agregar valor, muita gente falando duas ou três línguas dentro das fazendas. Mudou todo o cenário, não existe mais aquela agricultura do Jeca Tatu, nossa agricultura hoje é extremamente moderna e tecnificada, com muita gente capacitada.


Portal - O sr. disse que o próximo passo é agregar valor. Como isso pode ser feito?


Armando Matielli:
Eu vou dar um exemplo: o agronegócio café em nível mundial gira em torno de 70, 80 bilhões de dólares. É o melhor negócio do mundo, nem a cocaína, o tráfico de drogas é tão bom como o café porque as drogas são ilícitas, café é lícito. Os negócios lícitos que dão mais dinheiro são petróleo e café. Vamos eleger 75 bilhões de dólares para um consumo de 110 milhões de sacas dá 682 dólares a saca de café, esse é o preço que é comercializado em nível mundial médio, entre os países produtores e os países compradores. Quando nós levamos esse preço para os países compradores, que são os da Europa, os Estados Unidos, Japão, principalmente, que giram em torno de 85 milhões de sacas, esse preço passa para mais de mil dólares, porque quem derruba preço são os países consumidores, países produtores, caso do Brasil, que vende café barato no mercado interno. Então vende-se o café a mais de mil dólares e nós estamos vendendo café a 50, 60 dólares. Eles pegam 950. A relação exata é a seguinte: 94% para o comércio e 6 para o produtor, quer dizer, olha a almofada que tem para a gente mexer na agricultura e no agronegócio e ganhar dinheiro. O café é o exemplo típico: nós exportamos no ano retrasado 1,3 bilhão de dólares. Desse mesmo 1,3 que nós exportamos eles fizeram 19 bilhões nas nossas costas. Temos que aprender, urgentemente, a agregar valor, industrializar esse café, quebrar barreiras alfandegárias, entrar lá, abrir torrefação, empacotamento e brigar no mercado internacional, porque nós temos matéria-prima e temos tecnologia. Esse é o caminho que o Brasil tem. É um absurdo: vendemos 1,3 bilhão e eles fazem 19 bilhões com nosso café e nós estamos aí, capengas, agricultura quebrada. Vivo diretamente da cafeicultura e vejo uma situação lamentável. Eu tenho compaixão, às vezes, de mim próprio como dos companheiros que estão lutando no dia a dia, mandando gente embora, não conseguem pagar seus empregados, não conseguem pagar os encargos sociais. Lamentável, por falta de uma política e de cultura mostrando que nós temos que agregar valor. Não tem outro caminho: o Brasil produzindo matéria prima está fadado sempre a ter esses entraves quando chega nas áreas de commodities.

Portal - O sr. falou que nós temos ainda 120 milhões de hectares que podem ser explorados. Isso não pode ter um custo ambiental muito grande? Como conciliar essa questão ambiental, que é muito cobrada no exterior, e essa necessidade de expandir a produção?


Armando Matielli:
Existe um exagero na área ambiental, uma extrema preocupação que eles não tiveram e agora vão querer exigir de nós? Talvez esse nível de exigência seja para dizer: "parem de produzir que nós estamos com medo de vocês". Nós, como velhos cordeiros, escutamos e vamos então não plantar nada, largar a vida na mata, não exportamos mais nada, o povo passa fome e vamos continuar por aí. No meu entendimento como agrônomo, eu sou um grande ecologista - gosto da natureza e planto muitas árvores - tem que preservar sim, mas quando tem que plantar para dar subsistência, para dar educação, comida para nosso povo, tem que arrancar a mata quando for preciso. Independente desse meu pensamento, da minha linha de conduta, o Brasil tem 550 milhões de hectares da floresta amazônica que é o maior pulmão do planeta. Ninguém tem tantos hectares totalmente preservados, inóspitos, com uma agricultura que não tem jeito de praticar. Então deixa esses 550 milhões de hectares quietos, não vamos mexer com aquilo lá. Nós não estamos mexendo, quem conhece a região amazônica sabe que não tem jeito de trabalhar na região, principalmente no estado do Amazonas, no Pará, onde passam os grandes mananciais de água, clima quente, nós não vamos mexer nunca. Mas nós temos outros 120 milhões que já estão mapeados, a Embrapa mostrou, a Veja acabou de lançar uma reportagem recentemente, mostrando que existem 120 milhões de hectares que são perfeitamente viáveis, sem provocar nenhum dano ambiental mas que são cultiváveis. Nós temos esse montante que está guardado à disposição e nós temos mais 170, 180 milhões de hectares de pastagens. Podem deixar as pastagens lá que ainda sobram esses 120 milhões de hectares para poder cultivar. Se fizer uma reforma agrária naqueles moldes que nós acabamos de falar cabe muita gente. Hoje nós usamos 40 milhões de hectares que produzem os grãos. Nós temos a produção de 60 milhões de toneladas de soja, mais ou menos 40 milhões de hectares de milho e 20 milhões de arroz e outros. Então temos 40 milhões de hectares que estão sendo cultivados hoje que produzem as 120 milhões de toneladas de grãos. Nós temos mais ou menos 20 milhões de hectares que entram o café, a cana-de-açúcar, a fruticultura, então nós temos cultivados no Brasil por volta de 60 milhões de hectares e nós temos duas vezes mais do que cultivamos para poder plantar. Se a gente falar que nós não vamos nunca provocar um desequilíbrio, não é verdade. Toda a vez que o homem mexe na natureza - arou, plantou - já está desequilibrando. Isso é normal, isso vai acontecer, mas uma coisa que seja extremamente pejorativa, que vai criar um impacto que seja irracional, não é. Esses 120 milhões de hectares estão mapeados, já podemos plantar sem criar grandes danos ambientais.


Portal - O sr. acha que existe entre os produtores rurais uma consciência disseminada sobre a necessidade de preservação?


Armando Matielli:
Eu vou dizer para você: eu estava trabalhando dentro do escritório aqui em São Paulo, fazendo marketing e muitas vezes me distanciava um pouco do campo apesar de que sempre estive na fazenda, sempre ligado no dia a dia pela minha própria formação profissional, eu gosto de ser agricultor. Eu passei uns tempos aqui em São Paulo que eu não estava sentindo esse desenvolvimento. O pessoal hoje está crescendo demais em cima disso, preocupado, se você entrar no Estado de São Paulo e ver a recuperação que nós tivemos nas matas ciliares dos rios que cortam o Estado é uma coisa impressionante. Eu acho que nosso agricultor está muito bem consciente com relação ao meio ambiente, não tenho a menor dúvida. Temos o maior programa em nível mundial, um dos mais modernos que é a reciclagem de lixo tóxico vindo da zona rural, temos um sistema de coleta que é um exemplo. Nós temos hoje diversos exemplos a citar com relação a matas ciliares, com relação à preservação. O pessoal está correndo atrás de selos de certificação agrícola, que é um modismo: você produzir uma agricultura socialmente justa, ecologicamente correta e economicamente viável, esse é o tripé da agricultura que está na cabeça dos grandes empresários agrícolas. Não tenho a menor preocupação em dizer que não está faltando nada para os agricultores, lógico que tem as exceções, mas de modo geral o agricultor é ciente e consciente em relação ao meio ambiente.

Portal - Mesmo nessas áreas que estão sofrendo mais com o desmatamento, como Rondônia, sul do Pará?


Armando Matielli:
Eu fui a Rondônia e ao sul do Pará. Quem eu vi tacando fogo lá eram os madeireiros e índios. Hoje a região do Mato Grosso do Sul, mesmo Mato Grosso, o que tem para devastar são pequenos cerrados, para poder limpar, que não provoca esse alarido de fogo que se provoca lá na região de Rondônia e no sul do Pará. Provocou, já teve e tem mas muito longe da gente colocar isso como uma barreira para o avanço do Brasil. Não pode ser uma barreira e nós não podemos ficar aceitando essas posições internacionais de que nós estamos prejudicando o meio ambiente. Temos 550 milhões de hectares para poder preservar. Os norte-americanos têm isso? Não. Os europeus têm isso? Não. Se nós tivermos que derrubar algumas árvores, vamos derrubar sim, mas vamos deixar os 550 milhões lá. Essa deve ser a tônica do negócio e o agricultor está ciente disso, não tenho a menor dúvida.

Portal do Fazendeiro

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