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Fábio
Silveira
Analista
da MSConsult
Fábio
Silveira é Doutor em Economia pela Universidade de
Grenoble/França, pós-graduado em Estudos para
o Desenvolvimento pela Universidade de Genebra/Suíça
e economista graduado pela Universidade de São Paulo.
Foi Coordenador de Estudos Setoriais da MB Associados, Tendências
Consultoria e Departamento de Pesquisa do Unibanco, analisando
o desempenho de mais de 35 setores. Exerceu também
as funções de Controller/Coordenador de Estudos
Estratégicos do Grupo Elf Aquitaine no Brasil e economista
da Copersucar. Atualmente é sócio da MSConsult,
empresa de consultoria especializada na elaboração
de analises macroeconômicas e estudos setoriais.
Portal - O
agronegócio se tornou o grande destaque da economia
brasileira, principalmente em 2003, quando teve um crescimento
de 5% e impediu que o PIB geral caísse mais. Como o
sr. analisa a evolução recente do setor?
Fábio Silveira:
Esse
crescimento do agronegócio foi significativo, sem dúvida
alguma. Ele precisa ser visto sob dois prismas porque, quando
a gente fala do agronegócio, a resultante é
o crescimento significativo em termos de produção,
de receita, de riqueza. Agora, todo esse desenvolvimento está
ligado, fundamentalmente, ao crescimento do agronegócio
voltado para as exportações, para o mercado
externo. Infelizmente, o agronegócio não cresceu
de maneira significativa quando voltado para o mercado doméstico.
Por que? Porque o mercado doméstico cresceu muito pouco
nesses últimos anos. A grande virtude do agronegócio
na segunda metade dos anos 90 foi o aumento de produção,
aumento de produtividade, que permitiu uma redução
de preços, que deu sustentação, sem dúvida
ao agronegócio naquela ocasião, isso até
98, 99. De 99 para cá, com a desvalorização
do câmbio, o agronegócio ganhou impulso no mercado
externo, com as exportações de soja, de carnes,
de açúcar, até de café, de uma
certa maneira a gente pode considerar. Por que? Com a desvalorização
cambial esses produtos se tornaram mais competitivos, você
já tinha esses segmentos em marcha de crescimento da
produtividade, em função do crescente uso da
tecnologia, de fertilizantes, de defensivos. Quando houve
essa conjunção favorável, ou seja, o
agronegócio produzindo relativamente bem, com uma taxa
de câmbio desvalorizada e o mercado internacional que
se abria com o crescimento chinês e outros mercados
asiáticos, o agronegócio então atingiu
seu apogeu, mas foi nos últimos anos, fundamentalmente
apoiado na expansão do mercado internacional.
Portal - O
sr. acha que esse desempenho positivo vai continuar se
repetindo nos próximos anos?
Fábio Silveira:
O horizonte que a gente tem é que não só
os preços das commodities agrícolas, mas
também os das commodities não agrícolas,
como eu já disse, atingiram o seu apogeu. Agora
a expectativa é que esses preços comecem,
lentamente, a recuar. Por que eles vão começar
a recuar? Entre outros fatores porque entra em um período
em que o dólar tende a se fortalecer frente ao
euro, em função da prevista elevação
da taxa de juros. Deve ocorrer uma elevação
da taxa de juros nos Estados Unidos ao longo dos próximos
seis, doze meses. Isso levaria o dólar a se fortalecer
frente ao euro e, conseqüentemente, isso levaria
os preços das commodities, de uma maneira geral,
a ter uma pressão baixista. Com isso as commodities
que são normalmente referenciadas em dólar
tenderiam a diminuir de preços. Esse seria um dos
fatores que levaria a uma queda, do ponto de vista global,
à redução dos preços das commodities.
No caso das commodities agrícolas, em especial
a soja, que é disparado o grande carro chefe do
agronegócio brasileiro, nós também
entramos em um ciclo em que tende a ocorrer, porque o
setor agrícola depende muito de regularidade climática,
e foi a irregularidade climática que beneficiou
o Brasil nos últimos dois, três anos, então
na hipótese de ocorrer uma regularidade climática
nos próximos dois, três anos, o que ocorreria
com a oferta de soja, por exemplo? Tenderia a aumentar,
a produção dos Estados Unidos, que é
o maior país produtor, tenderia a aumentar. Conseqüentemente,
você teria uma redução de preços
ocorrendo na margem ao longo de 2004. Você pode
perguntar: mas isso vai prejudicar o setor em 2004? Não,
em 2004 os preços vão ficar ainda muito
acima da média do ano passado, 30% no mínimo,
ou seja, apesar da quebra de safra da soja este ano, uma
safra que, provavelmente, vai ficar em patamar equivalente
ao da soja do ano passado, ou da colheita do ano passado,
dizem alguns até em volume inferior, a receita
que vai ser auferida pelo setor vai ser muito grande.
Então vai ser um setor muito capitalizado este
ano e, no ano que vem, eu diria que até 2005 ele
teria um grau de capitalização satisfatório.
Mas olhando-se num horizonte de dois, três anos,
a expectativa é que o preço da soja volte
ao patamar histórico. Pode levar dois, três,
quatro anos mas ele vai voltar, essa é a lógica
do mercado de commodities. Nós fomos beneficiados
nos últimos dois, três anos, não só
pela pujança, a gente tem que dizer, da agricultura
brasileira, dessa voltada para a exportação,
mas por um conjunto de fatores muito favoráveis,
que abrange uma retração de oferta nos Estados
Unidos, um crescimento acentuado da demanda de soja na
China e uma oferta de soja nos últimos dois anos.
Este ano a gente está tendo uma oferta menor mas,
ainda assim, a receita vai ser boa. Eu diria que você
tem ainda dois anos de um bom dinamismo no setor agrícola.
Portal - A
China se tornou mas uma nova Meca dos exportadores do
mundo inteiro mas recentemente começou a se fortalecer
uma preocupação com uma possível
desaceleração da economia chinesa. O sr.
acha que isso vai ter reflexos no comércio com
o Brasil?
Fábio Silveira: Vai. Esse é um outro
fator que exerceria pressão baixista sobre o preço
da soja. A China é o maior comprador de soja em
grão do Brasil. Além da alta dos juros,
desvalorização do dólar, queda conseqüente
do preço da soja, que é um produto alinhado,
ou referenciado em dólar, do ponto de vista financeiro,
você tem, ao lado do aumento da oferta nos Estados
Unidos, uma expectativa, isso mais a médio prazo,
de que a economia chinesa entre num processo de taxas
de crescimento decrescentes. Por que? A China praticamente
já está chegando ao seu limite de capacidade
instalada. Ela tem hoje, começa a ter dificuldades
de infra-estrutura e, mais grave, ela tem um problema
macroeconômico sério já que ela foi
a responsável por essa alta dos preços das
commodities, pela voracidade de seu crescimento. Ela está
importando commodities caras e vendendo manufaturados
baratos, então ela está comprando commodities
cada vez mais caras, compra soja, celulose, aço,
uma série de produtos que estão em marcha
de aceleração, os preços estão
indo para cima, e está vendendo produtos industrializados
que estão como os preços em queda, como
os têxteis, eletroeletrônicos. Então
isso está provocando uma situação
de, vamos dizer, desconforto, de desequilíbrio
macroeconômico de longo prazo. O próprio
Banco Central chinês já começa a cogitar
a hipótese de desacelerar o crescimento. Isso teria
impactos baixistas sobre as commodities agrícolas.
Os preços das commodities agrícolas estão
extraordinariamente elevados, estão muito acima
do patamar histórico e é natural que em
algum momento do tempo isso volte ao normal.
Portal - O
sr. falou do desempenho do agronegócio, que ele
não teve um crescimento tão grande no âmbito
interno, os melhores resultados foram obtidos por um setor
altamente tecnificado e quase totalmente voltado ao mercado
externo. Isso não deixa o Brasil muito dependente
da volatividade do mercado externo?
Fábio Silveira: Sem dúvida. Essa seria
uma oportunidade de você pensar também como
os chineses, no longo prazo. Precisa ter uma metodologia
de trabalho de longo prazo no País. O País
precisa começar a pensar no longo prazo porque
senão viveremos como cigarras, quer dizer, estamos
hoje desfrutando de uma receita muito grande no setor
do agronegócio mas temos que pensar que há
outros segmentos que não estão indo tão
bem. Os segmentos de produção de arroz e
feijão não vão tão bem, não
têm a mesma pujança que têm outros
segmentos exportadores. É importante que haja um
equilíbrio nisso, alguma forma de planejamento
que permita no longo prazo criar mecanismos que permitam
que esses segmentos tenham capitalização
e rentabilidade, sob pena de lá na frente, em algum
momento do tempo, você ter algum crescimento no
País e não ter oferta, ter dificuldades
no abastecimento. Acho muito engraçado que no País
a gente tenha toda essa rejeição à
preocupação de planejar produção
e mercados. Não precisa interferir no mercado,
não é isso que eu estou falando, mas planejamento
estratégico, setorial, seja agrícola ou
não agrícola, é feito nos Estados
Unidos, na Europa, da Austrália, no Japão,
na China, na Coréia. Só nós achamos
que o mercado vai regular tudo e vai atender às
demandas internas e externas. Isso é um sonho,
isso não existe entre economistas sérios.
Portal -
O Brasil tem defendido o fim dos subsídios para
a agricultura para os países ricos mas tem muita
gente por aqui, principalmente agricultores, que acha
não ser possível fortalecer a agricultura
sem uma ajuda mais consistente do governo. O sr. acha
que a agropecuária pode se desenvolver sem subsídios?
Fábio
Silveira: No médio, longo prazo, acho que a
gente vai ter que voltar a pensar em alguns mecanismos
não tradicionais de financiamento do setor agrícola
que podem passar inclusive por capitalização
de mercado financeiro, mercados futuros, enfim, formas
mais modernas de financiamento como forma de criar um
colchão de proteção. Pela própria
natureza o setor agrícola tem um risco mais elevado
porque está exposto às anomalias climáticas,
então você não pode permitir que apenas
as leis de oferta e demanda regulem esse mercado, não
é assim. Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão,
na China não é assim, em nenhum lugar do
mundo, em países de economias consolidadas. Acho
que a gente não tem que ser meter a Dom Quixote
de La Mancha e inventar uma coisa que, historicamente,
a gente vê que pode ser uma cartada muito arriscada.
Hoje a palavra subsídio é muito carregada
de preconceito porque se usou e abusou demasiadamente
de subsídios no Brasil, houve má utilização,
houve distorção dos subsídios no
Brasil e quase se tornou um pecado você falar em
subsídio, mas acho que se tem que pensar a longo
prazo, não hoje porque a nossa situação
fiscal é difícil, é complicada. O
País tem que gerar um superávit primário
todo ano, representativo, então nesse momento não
é o caso de falar em subsídio, mas no médio
e longo prazo isso tem que ser pensado não sob
a forma clássica de subsídios, dinheiro
público voltado à produção,
mas mecanismos mais modernos de financiamento da produção
agrícola, fundos de investimentos, algo dessa natureza
que permita um planejamento da produção
sob orientação do Estado.
Portal -
Com relação às negociações
na OMC e para formação da Alca o sr. acredita
que os países envolvidos vão ceder na questão
dos subsídios?
Fábio Silveira:
Os países desenvolvidos vão ceder muito
pouco. Está tendo algum avanço agora na
Europa na questão do álcool, de outros produtos
como carne. A questão da carne também é
porque a Europa não tem oferta de carne, houve
gripe, houve de tudo lá, então para não
ter inflação eles estão abrindo o
mercado de carnes mas eles são muito protecionistas.
E tem mais, você criaria um problema social muito
sério na Europa se começar a desmontar essa
política. Eu vejo que a situação
social não é das mais confortáveis,
as dificuldades da Europa são grandes, então
se criaria mais um problema social, problemas políticos.
Eu realmente não acredito nessa marcha à
ré. Se aqui a gente está pedindo um pouco
mais de planejamento, de subsídio ou equivalente,
na Europa é o oposto, como é também
nos Estados Unidos, lá a carga de subsídios
é um exagero. Somando a Europa com os Estados Unidos
dá mais de um bilhão de dólares/dia
de subsídios à produção e
às exportações agrícolas.
É um paradoxo, lá é o oposto.
Portal - Um
dos principais problemas da agropecuária nacional
é o financiamento. Uma das saídas que vem
sendo tentada para a obtenção de recursos
é a aproximação com o mercado financeiro.
O governo pretende lançar o certificado do recebível
do agronegócio e criar fundos de investimento.
Isso pode dar certo?
Fábio
Silveira:
Isso pode dar certo se houver uma ampla campanha de esclarecimento,
de aprendizagem até para que o mercado possa a
aprender a lidar com esses instrumentos porque no curto,
médio prazo, você não encontraria
saída para o financiamento agrícola que
não começasse um pouco por esse caminho,
de procurar utilizar ou criar esses mecanismos alternativos
para o financiamento agrícola. A produção
agrícola não vai crescer com base em expansão
de recursos oficiais porque esses recursos oficiais vão
permanecer escassos, pelo menos nos próximos dois,
três anos. Acho que mercado e governo deveriam estar
aliados no sentido de fortalecer a implementação
desses mecanismos. Se vai dar certo? Vai depender da vontade
de mercado e governo.
Portal -
Nessa mesma linha, a Bovespa está incentivando
a abertura de capital e lançamento de debêntures
de empresas do agronegócio. O sr. acha que existe
condições do mercado absorver esses papéis?
Fábio
Silveira: O
mercado está olhando esse segmento da economia
brasileira com melhores olhos, com menos preconceito.
No passado, acho que existia um pouco de preconceito em
relação ao setor agrícola e acabou
sendo um erro porque você tem hoje poucas empresas
de capital aberto que são ligadas ao agronegócio,
não houve muita visão. Acho que faltou visão
de governo, não um governo intervencionista, estatizante,
não é isso, mas visão de governo
enquanto planejador ou contribuinte do planejamento do
País. Então acho que tem sim condições
de ter essa absorção mas como tudo vai ser
um processo lento.
Portal -
Quais são os principais problemas enfrentados pela
agropecuária e pelo agronegócio no Brasil?
Fábio
Silveira:
Em primeiro lugar acho que é necessário
você ter alguma forma de planejamento de longo prazo
de onde você quer chegar com o agronegócio.
O agronegócio chegou onde chegou um pouco porque
havia uma base produtiva que se modernizou aos trancos
e barrancos na década de 90 e depois ela ganhou
forte impulso em função do crescimento dos
mercados demandadores de commodities de todas as naturezas,
agrícolas e não agrícolas. Não
vou dizer que foi o acaso que beneficiou o agronegócio
mas, de uma certa maneira, o benefício de um inesperado
crescimento chinês, pelo menos nessa magnitude,
que contribuiu de forma significativa para esse desempenho
do agronegócio. Caso contrário, se a China
não tivesse surgido, emergido como um grande país
consumidor voraz de produtos básicos, o agronegócio
não teria tido todo o brilho que vem tendo nos
últimos anos. A coisa aconteceu não vou
dizer por acaso, seria um exagero, mas aconteceu de uma
maneira um tanto inesperada. Por isso é que, em
primeiro lugar, é importante você ter um
planejamento de médio e longo prazo que é
para se enxergar o que se pretende daqui a 10 anos, onde
você quer chegar daqui 15 anos, como você
faz com o setor agrícola lá fora, com o
setor energético, diferentes setores que têm
o planejamento de 10, 15 anos. O planejamento energético
nos Estados Unidos, por exemplo, tem 20 anos, assinado
pelo Bush, pelo Dick Cheney, ninguém vai taxar
isso de intervencionismo. Só que os caras tentam,
como numa empresa multinacional, se enxergar no longo
prazo, como a Petrobrás tenta enxergar a longo
prazo, que é uma grande corporação.
O País precisava pensar a agricultura também
dessa maneira, ele tem um talismã na mão
hoje, e esse talismã se não for bem gerenciado
pode perder valor. Então a primeira coisa é
você ter um planejamento de longo prazo e um comprometimento
das elites dirigentes desse País com esse planejamento,
como você tem na Flórida, produtora de suco
de laranja. Você tem um comprometimento de todo
o Estado da Flórida com a produção
de laranja, é a Universidade, são os produtores,
o Estado, os institutos de pesquisa. Eu mesmo já
recebi pesquisador da Flórida que queria conhecer
o mercado de suco de laranja aqui do Brasil. Ele veio
de lá para pesquisar, veio conversar comigo na
época em que eu acompanhava o setor no detalhe.
Esse espírito de pesquisa, de análise, de
prognóstico, é uma coisa que tem que ser
resgatada. E tem outros aspectos que a gente tem que considerar,
que é a questão da infra-estrutura que precisa
ser ampliada, sem dúvida, com um escoamento melhor
para você ter uma base de portos, de rodovias. Tudo
isso que hoje virou meio consenso no mercado, das necessidades,
eu também concordo que precisa ser feito. A questão
é como você vai financiar isso? Não
basta você ter regras, porque muita gente fala que
precisa ter regras, é importante ter um marco regulatório.
É importante, é lógico mas só
ter marco regulatório não resolve, você
precisa ter investidor que acredite não só
nas regras mas acredite no País porque hoje você
não tem investidores que acreditem piamente no
País. Não é só por causa das
regras que estão longe de ser perfeitas mas o Brasil
tem mais regras que a China, por exemplo. Tem um marco
regulatório muito mais complexo do que o chinês
mas nem por isso a China deixa de crescer sete, 8% ao
ano e a gente cresce meio por cento ao ano, quer dizer,
o marco regulatório é uma coisa secundária,
o que é importante é você ter uma
expectativa de crescimento da economia como um todo. Precisa-se
ter investimentos em infraestrutura, precisa-se ter marco
regulatório, alguns mecanismos que fortaleçam
o financiamento da agricultura no médio e longo
prazo. O resto, as coisas se sinalizadas, você sinaliza
para o mercado que quer ter a oferta doméstica
de alimentos para o atendimento do mercado doméstico,
com transparência, com metas estabelecidas, com
contrato de gestão. Eu acho que isso é positivo
para o setor agrícola no médio e longo prazo
e que impediria o País ficar à mercê
da volatividade internacional, precisava ter um colchão
de proteção.
Portal - Tendo
em vista esses pontos que o sr. levantou, qual é
sua avaliação da atual política do
governo para o setor?
Fábio
Silveira:
A atual política tenta preservar o que tem de bom
no setor, nesse ciclo expansionista verificado nesses
últimos anos, não está querendo fazer
marola, gerar turbulências, tentando abrir novos
mercados para o setor agrícola. Acho que isso é
muito importante. Agora, eu acho que seria importante
para esse governo e para o seguinte, seja dessa bandeira
ou outra, não importa, insisto nesse ponto: que
você tenha um horizonte de longo prazo, onde você
quer chegar, que culturas você quer produzir nesse
País daqui dez anos, 15 anos. Qual é o mapa,
qual é o desenho que você deveria estar fazendo
hoje para tentar enxergar. O Brasil vai produzir mais
álcool, menos álcool? Mais arroz, mais feijão?
Haveria necessidade nesse ponto.
Portal -
A industrialização foi considerada nas últimas
décadas a grande indutora do desenvolvimento nacional
mas o desempenho do agronegócio agora não
aponta para um desenvolvimento econômico em que
a agropecuária pode ser o principal indutor?
Fábio
Silveira:
Um
dos motivos que ajudou o agronegócio a se expandir,
não é o principal motivo mas um motivo secundário,
é que as oportunidades de investimento começaram
a se tornar rarefeitas no setor industrial na década
de 90. Então muita gente que estava na indústria,
não só empregados mas investidores, empresários,
viram um desaparecimento na base importante da indústria,
muita gente acabou migrando, enquanto investidor, enquanto
empresário, para o campo, isso também ajudou.
Houve uma migração da inteligência
que saía da indústria para o setor rural,
isso não tenha dúvida. Então isso
também ajudou o agronegócio a se fortalecer.
A indústria hoje no Brasil ela está muito
atrelada, o agronegócio está muito atrelado
ao desenvolvimento, ao fortalecimento dessa indústria
de baixo valor agregado, então a indústria
de produção de frangos está muito
atrelada ao desenvolvimento do mercado de milho, ou melhor,
o mercado de milho está muito atrelado ao desenvolvimento
da indústria de frangos, a produção
de soja está muito atrelada às exportações
de óleo e de farelo, os manufaturados. Vejo que
esse pedaço da indústria vai continuar,
apesar de queda de preços, vai continuar tendo
um peso importante no País. O País deixou
de ser um grande produtor de produtos industriais de alto
valor agregado e se focou na produção de
produtos de baixo valor agregado e exportou esses produtos,
calçados, couro, isso foi também um fator
que sustentou, que dinamizou a base agrícola. Eu
acho que esse movimento ainda continua alguns anos, não
com a mesma rentabilidade, a mesma receita verificada
nos últimos dois anos mas continuará com
um peso importante. O agronegócio como indutor
de desenvolvimento eu acho que não. A indústria,
por ser um segmento transformador, exportador, é
que arrasta e dinamiza o setor agrícola. Você
não pode prescindir de um esmagador de soja, de
transformadores de laranja em suco de laranja, você
não vai poder prescindir das empresas exportadoras
de frango, que crescendo atraem ou expandem a produção
de milho, você não vai poder prescindir das
empresas exportadoras de açúcar, a usinas
que ao mesmo tempo que exportam açúcar fortalecem
não só suas próprias plantações
de cana como fortalecem as plantações de
cana de fornecedores terceirizados, tem toda uma malha,
é o setor externo junto com o segmento transformador
que arrasta a agricultura. Mas você tem que ter
sempre como pano de fundo a competitividade da moeda,
fatores que favoreçam, escala de produção,
uso intensivo de fertilizantes, você precisa disso
tudo para que a agricultura continue crescendo. Se você
tiver um desequilíbrio muito acentuado em um desses
fatores, por exemplo, se você tiver uma alta exagerada
no preço dos fertilizantes ou dificuldades de importação
de defensivos, enfim, você pode tirar muito da competitividade
brasileira.
Portal -
O Brasil tem dois setores: uma agricultura empresarial
moderna, voltada à exportação, e
outra familiar, mais voltada para o mercado interno, para
a produção de alimentos, que enfrenta uma
série de problemas como baixa tecnologia e falta
de recursos. O sr. acha que é possível um
desenvolvimento harmônico entre esses dois setores?
Fábio
Silveira:
Teoricamente,
sim. Teoricamente você pode fazer tudo mas eu não
vejo essa articulação ocorrendo no curto,
médio prazo, exatamente porque não tem um
planejamento e a implementação de ações
que permitam essa coordenação entre a agricultura
moderna, exportadora, e a agricultura familiar. Os recursos
do Pronaf são limitados. Eu estou querendo dizer
o seguinte: precisa ter algumas ações que
permitam fazer esses dois universos co-existirem. Nós
vamos ter que aprender isso, é um aprendizado que
nós vamos ter que passar ao longo dos próximos
anos. No curto e médio prazo eu não vejo
isso até porque o Estado enquanto entidade de planejamento
se enfraqueceu muito, não tem mecanismos, não
tem formas de coordenar ação de uma ou outra
faceta do universo agrícola. Por isso que eu digo:
teoricamente dá para fazer como os Estados Unidos
fazem, como alguns países da Europa fazem, você
tem a França, com a agricultura familiar co-existindo
com a agricultura mais moderna, de maior densidade tecnológica,
exportadora de vinhos, exportadora de produtos com maior
valor agregado dentro da agricultura, mas a base de tudo
isso são negociações, são
ações articuladas, e aqui no Brasil o País
não tem muita tradição de planejamento,
precisaria começar.
Portal -
Além desses segmentos tem um contingente de trabalhadores
sem terra que pressionam pela reforma agrária.
O modelo que está sendo feito, com distribuição
de terras é capaz de integrar ao mercado as pequenas
propriedades que devem surgir dos assentamentos?
Fábio
Silveira:
No
curto e médio prazo não é possível
de ver isso porque como nos anos anteriores você
ainda implementa uma reforma agrária sem o devido
suporte financeiro e tecnológico. Não é
por acaso que outro dia, os números podem estar
destoando mas boa parte das terras que foram entregues
a trabalhadores foram revendidas o que contraria inclusive
a regra, as premissas dessa reforma. Por que isso ocorreu?
Porque você não tinha, mais uma vez, instrumentos
que levassem o produtor a poder sobreviver numa economia
capitalista, que tem necessidade de tecnologia, que tem
necessidade de ter escala de produção, canais
de distribuição, financiamento para compra
de produtos agrícolas, para compra de insumos,
então do jeito que a coisa vem sendo feita você
pode ter assentamentos mas você também pode
manter elevada taxa de revenda desses terrenos, dessas
terras, e você não atingiu o objetivo esperado
que era o de assentar essas pessoas nessas áreas
de forma produtiva. Eu acho que esse é o desafio,
eu vejo pouco isso agora.
Portal -
Uma reportagem publicada no jornal Folha de São
Paulo em 18/04 afirma que no interior paulista, onde predominam
empresas ligadas ao agronegócio, lidera a recuperação
do emprego industrial no Estado. O sr. acha que essa dinâmica
pode se ampliar e gerar empregos suficientes para tornar
desnecessária uma reforma agrária nos moldes
reivindicados pelo MST?
Fábio
Silveira:
A
velocidade da criação desses empregos é
menor do que a velocidade de absorção da
mão-de-obra que existe hoje no âmbito rural.
Você tem uma demanda por emprego industrial que
cresce numa velocidade muito mais lenta do que a expansão
da oferta de mão-de-obra dentro do setor agrícola.
O próprio crescimento desse emprego industrial
ele ainda não foi tão grande. Houve crescimento
mas em termos macroeconômicos ele não foi
tão grande. Então você precisaria
acelerar ainda de forma muito acentuada o crescimento
dos empregos industriais ligados à produção
têxtil, à produção de calçados,
de alimentos, enfim, vários setores ligados ao
agronegócio para que você tivesse o atendimento
parcial das demandas ou do preenchimento do atendimento
dessa mão-de-obra que está excessivamente
disponível. Você tem um excesso de mão-de-obra
muito grande. Por que isso ocorreu? Primeiro pela retração
da oferta de emprego nas capitais, quer dizer, muita gente
que estava ligada ao mundo industrial nos anos 80 e 90,
famílias mesmo, o pai trabalhava na indústria
ou na área de serviços, perdeu o emprego,
foi pai e filho, é gente que saiu de São
Paulo, do Rio, das grandes cidades, então tinha
oferta de mão-de-obra, das pessoas que estavam
aqui, são pessoas que a gente fica imaginando que
esse pessoal saiu do nada, saiu lá do cafundó,
não, esse pessoal saiu uma parte aqui das cidades
e outra parte saiu do próprio setor rural, foi
expulsa com a própria mecanização
da agricultura, a mecanização e a modernização.
Isso é assim há séculos, você
moderniza a base produtiva agrícola, você
expulsa a mão-de-obra, três, quatro cinco,
dez séculos que isso funciona assim. Isso, evidentemente,
a geração, o aparecimento, o surgimento
dessas famílias está ligado também
à modernização agrícola, é
um duplo movimento de destruição de postos
de trabalho nos centros urbanos, da indústria,
da área de serviços e expulsão induzida
pela tecnificação da agricultura moderna,
de escala de produção grande que não
teve condições de absorver os filhos, os
irmãos de quem estava na agricultura há
10, 15 anos atrás, viraram sem terra, quer dizer,
você tem um problemão pela frente.
Portal -
O sr. acha que eles teriam que ser absorvidos pelo setor
urbano mesmo?
Fábio
Silveira:
Têm
que ser absorvidos onde o País escolher. O País
precisa parar para pensar. Tem que alocar esse pessoal
em algum lugar, não adianta querer, não
adianta dizer nós vamos coloca-los aqui, vamos
confiná-los, não existe isso, não
dá para pedir para eles ficarem calados quando
você sabe que são quatro milhões de
famílias, três, que sejam. Então o
movimento de reforma agrária teria que ser atrelado
para iniciar mecanismos de aumento da tecnificação
de quem vai ocupar ou vai assentar uma área produtiva
e como esse produtor agrícola vai se articular
com a grande agricultura, com a agricultura moderna. Ele
vai, de alguma forma, ser articulado a uma agricultura
moderna, exportadora, ao agronegócio transformador
de insumos básicos em produtos industriais exportáveis
ou consumíveis no mercado doméstico, calçados,
vai ter que pensar, fazer um desenho, tem que ter uma
estratégia. Não se pode imaginar que o mercado
vai resolver isso. O mercado não vai resolver isso,
vai aguçar as contradições. Vai fazer
o quê? Vai jogar no mar? Não é esse
o caso. É lógico que a ação
dos sem terra ela gera instabilidade entre os investidores,
ninguém pode negar isso, mas é um problema
que você vai ter que enfrentar enquanto País,
tem que se pensar.
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