NOTÍCIAS - ENTREVISTAS
Editorias
» Internacionais
» Política Rural
» Panorama Econômico
» Agricultura
» Fruticultura
» Horticultura
» Plantas e Flores
» Pecuária
» Avicultura
» Suinocultura
» Eqüinos
» Piscicultura
» Diversos
»Últimas Notícias
»Notícias sobre o Portal
»Avisos
 


ENTREVISTAS

Fábio Silveira
Analista da MSConsult

Fábio Silveira é Doutor em Economia pela Universidade de Grenoble/França, pós-graduado em Estudos para o Desenvolvimento pela Universidade de Genebra/Suíça e economista graduado pela Universidade de São Paulo. Foi Coordenador de Estudos Setoriais da MB Associados, Tendências Consultoria e Departamento de Pesquisa do Unibanco, analisando o desempenho de mais de 35 setores. Exerceu também as funções de Controller/Coordenador de Estudos Estratégicos do Grupo Elf Aquitaine no Brasil e economista da Copersucar. Atualmente é sócio da MSConsult, empresa de consultoria especializada na elaboração de analises macroeconômicas e estudos setoriais.

Portal - O agronegócio se tornou o grande destaque da economia brasileira, principalmente em 2003, quando teve um crescimento de 5% e impediu que o PIB geral caísse mais. Como o sr. analisa a evolução recente do setor?

Fábio Silveira
: Esse crescimento do agronegócio foi significativo, sem dúvida alguma. Ele precisa ser visto sob dois prismas porque, quando a gente fala do agronegócio, a resultante é o crescimento significativo em termos de produção, de receita, de riqueza. Agora, todo esse desenvolvimento está ligado, fundamentalmente, ao crescimento do agronegócio voltado para as exportações, para o mercado externo. Infelizmente, o agronegócio não cresceu de maneira significativa quando voltado para o mercado doméstico. Por que? Porque o mercado doméstico cresceu muito pouco nesses últimos anos. A grande virtude do agronegócio na segunda metade dos anos 90 foi o aumento de produção, aumento de produtividade, que permitiu uma redução de preços, que deu sustentação, sem dúvida ao agronegócio naquela ocasião, isso até 98, 99. De 99 para cá, com a desvalorização do câmbio, o agronegócio ganhou impulso no mercado externo, com as exportações de soja, de carnes, de açúcar, até de café, de uma certa maneira a gente pode considerar. Por que? Com a desvalorização cambial esses produtos se tornaram mais competitivos, você já tinha esses segmentos em marcha de crescimento da produtividade, em função do crescente uso da tecnologia, de fertilizantes, de defensivos. Quando houve essa conjunção favorável, ou seja, o agronegócio produzindo relativamente bem, com uma taxa de câmbio desvalorizada e o mercado internacional que se abria com o crescimento chinês e outros mercados asiáticos, o agronegócio então atingiu seu apogeu, mas foi nos últimos anos, fundamentalmente apoiado na expansão do mercado internacional.



Portal - O sr. acha que esse desempenho positivo vai continuar se repetindo nos próximos anos?


Fábio Silveira:
O horizonte que a gente tem é que não só os preços das commodities agrícolas, mas também os das commodities não agrícolas, como eu já disse, atingiram o seu apogeu. Agora a expectativa é que esses preços comecem, lentamente, a recuar. Por que eles vão começar a recuar? Entre outros fatores porque entra em um período em que o dólar tende a se fortalecer frente ao euro, em função da prevista elevação da taxa de juros. Deve ocorrer uma elevação da taxa de juros nos Estados Unidos ao longo dos próximos seis, doze meses. Isso levaria o dólar a se fortalecer frente ao euro e, conseqüentemente, isso levaria os preços das commodities, de uma maneira geral, a ter uma pressão baixista. Com isso as commodities que são normalmente referenciadas em dólar tenderiam a diminuir de preços. Esse seria um dos fatores que levaria a uma queda, do ponto de vista global, à redução dos preços das commodities. No caso das commodities agrícolas, em especial a soja, que é disparado o grande carro chefe do agronegócio brasileiro, nós também entramos em um ciclo em que tende a ocorrer, porque o setor agrícola depende muito de regularidade climática, e foi a irregularidade climática que beneficiou o Brasil nos últimos dois, três anos, então na hipótese de ocorrer uma regularidade climática nos próximos dois, três anos, o que ocorreria com a oferta de soja, por exemplo? Tenderia a aumentar, a produção dos Estados Unidos, que é o maior país produtor, tenderia a aumentar. Conseqüentemente, você teria uma redução de preços ocorrendo na margem ao longo de 2004. Você pode perguntar: mas isso vai prejudicar o setor em 2004? Não, em 2004 os preços vão ficar ainda muito acima da média do ano passado, 30% no mínimo, ou seja, apesar da quebra de safra da soja este ano, uma safra que, provavelmente, vai ficar em patamar equivalente ao da soja do ano passado, ou da colheita do ano passado, dizem alguns até em volume inferior, a receita que vai ser auferida pelo setor vai ser muito grande. Então vai ser um setor muito capitalizado este ano e, no ano que vem, eu diria que até 2005 ele teria um grau de capitalização satisfatório. Mas olhando-se num horizonte de dois, três anos, a expectativa é que o preço da soja volte ao patamar histórico. Pode levar dois, três, quatro anos mas ele vai voltar, essa é a lógica do mercado de commodities. Nós fomos beneficiados nos últimos dois, três anos, não só pela pujança, a gente tem que dizer, da agricultura brasileira, dessa voltada para a exportação, mas por um conjunto de fatores muito favoráveis, que abrange uma retração de oferta nos Estados Unidos, um crescimento acentuado da demanda de soja na China e uma oferta de soja nos últimos dois anos. Este ano a gente está tendo uma oferta menor mas, ainda assim, a receita vai ser boa. Eu diria que você tem ainda dois anos de um bom dinamismo no setor agrícola.


Portal - A China se tornou mas uma nova Meca dos exportadores do mundo inteiro mas recentemente começou a se fortalecer uma preocupação com uma possível desaceleração da economia chinesa. O sr. acha que isso vai ter reflexos no comércio com o Brasil?


Fábio Silveira: Vai. Esse é um outro fator que exerceria pressão baixista sobre o preço da soja. A China é o maior comprador de soja em grão do Brasil. Além da alta dos juros, desvalorização do dólar, queda conseqüente do preço da soja, que é um produto alinhado, ou referenciado em dólar, do ponto de vista financeiro, você tem, ao lado do aumento da oferta nos Estados Unidos, uma expectativa, isso mais a médio prazo, de que a economia chinesa entre num processo de taxas de crescimento decrescentes. Por que? A China praticamente já está chegando ao seu limite de capacidade instalada. Ela tem hoje, começa a ter dificuldades de infra-estrutura e, mais grave, ela tem um problema macroeconômico sério já que ela foi a responsável por essa alta dos preços das commodities, pela voracidade de seu crescimento. Ela está importando commodities caras e vendendo manufaturados baratos, então ela está comprando commodities cada vez mais caras, compra soja, celulose, aço, uma série de produtos que estão em marcha de aceleração, os preços estão indo para cima, e está vendendo produtos industrializados que estão como os preços em queda, como os têxteis, eletroeletrônicos. Então isso está provocando uma situação de, vamos dizer, desconforto, de desequilíbrio macroeconômico de longo prazo. O próprio Banco Central chinês já começa a cogitar a hipótese de desacelerar o crescimento. Isso teria impactos baixistas sobre as commodities agrícolas. Os preços das commodities agrícolas estão extraordinariamente elevados, estão muito acima do patamar histórico e é natural que em algum momento do tempo isso volte ao normal.

Portal - O sr. falou do desempenho do agronegócio, que ele não teve um crescimento tão grande no âmbito interno, os melhores resultados foram obtidos por um setor altamente tecnificado e quase totalmente voltado ao mercado externo. Isso não deixa o Brasil muito dependente da volatividade do mercado externo?


Fábio Silveira:
Sem dúvida. Essa seria uma oportunidade de você pensar também como os chineses, no longo prazo. Precisa ter uma metodologia de trabalho de longo prazo no País. O País precisa começar a pensar no longo prazo porque senão viveremos como cigarras, quer dizer, estamos hoje desfrutando de uma receita muito grande no setor do agronegócio mas temos que pensar que há outros segmentos que não estão indo tão bem. Os segmentos de produção de arroz e feijão não vão tão bem, não têm a mesma pujança que têm outros segmentos exportadores. É importante que haja um equilíbrio nisso, alguma forma de planejamento que permita no longo prazo criar mecanismos que permitam que esses segmentos tenham capitalização e rentabilidade, sob pena de lá na frente, em algum momento do tempo, você ter algum crescimento no País e não ter oferta, ter dificuldades no abastecimento. Acho muito engraçado que no País a gente tenha toda essa rejeição à preocupação de planejar produção e mercados. Não precisa interferir no mercado, não é isso que eu estou falando, mas planejamento estratégico, setorial, seja agrícola ou não agrícola, é feito nos Estados Unidos, na Europa, da Austrália, no Japão, na China, na Coréia. Só nós achamos que o mercado vai regular tudo e vai atender às demandas internas e externas. Isso é um sonho, isso não existe entre economistas sérios.

Portal - O Brasil tem defendido o fim dos subsídios para a agricultura para os países ricos mas tem muita gente por aqui, principalmente agricultores, que acha não ser possível fortalecer a agricultura sem uma ajuda mais consistente do governo. O sr. acha que a agropecuária pode se desenvolver sem subsídios?

Fábio Silveira: No médio, longo prazo, acho que a gente vai ter que voltar a pensar em alguns mecanismos não tradicionais de financiamento do setor agrícola que podem passar inclusive por capitalização de mercado financeiro, mercados futuros, enfim, formas mais modernas de financiamento como forma de criar um colchão de proteção. Pela própria natureza o setor agrícola tem um risco mais elevado porque está exposto às anomalias climáticas, então você não pode permitir que apenas as leis de oferta e demanda regulem esse mercado, não é assim. Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, na China não é assim, em nenhum lugar do mundo, em países de economias consolidadas. Acho que a gente não tem que ser meter a Dom Quixote de La Mancha e inventar uma coisa que, historicamente, a gente vê que pode ser uma cartada muito arriscada. Hoje a palavra subsídio é muito carregada de preconceito porque se usou e abusou demasiadamente de subsídios no Brasil, houve má utilização, houve distorção dos subsídios no Brasil e quase se tornou um pecado você falar em subsídio, mas acho que se tem que pensar a longo prazo, não hoje porque a nossa situação fiscal é difícil, é complicada. O País tem que gerar um superávit primário todo ano, representativo, então nesse momento não é o caso de falar em subsídio, mas no médio e longo prazo isso tem que ser pensado não sob a forma clássica de subsídios, dinheiro público voltado à produção, mas mecanismos mais modernos de financiamento da produção agrícola, fundos de investimentos, algo dessa natureza que permita um planejamento da produção sob orientação do Estado.


Portal - Com relação às negociações na OMC e para formação da Alca o sr. acredita que os países envolvidos vão ceder na questão dos subsídios?


Fábio Silveira: Os países desenvolvidos vão ceder muito pouco. Está tendo algum avanço agora na Europa na questão do álcool, de outros produtos como carne. A questão da carne também é porque a Europa não tem oferta de carne, houve gripe, houve de tudo lá, então para não ter inflação eles estão abrindo o mercado de carnes mas eles são muito protecionistas. E tem mais, você criaria um problema social muito sério na Europa se começar a desmontar essa política. Eu vejo que a situação social não é das mais confortáveis, as dificuldades da Europa são grandes, então se criaria mais um problema social, problemas políticos. Eu realmente não acredito nessa marcha à ré. Se aqui a gente está pedindo um pouco mais de planejamento, de subsídio ou equivalente, na Europa é o oposto, como é também nos Estados Unidos, lá a carga de subsídios é um exagero. Somando a Europa com os Estados Unidos dá mais de um bilhão de dólares/dia de subsídios à produção e às exportações agrícolas. É um paradoxo, lá é o oposto.


Portal - Um dos principais problemas da agropecuária nacional é o financiamento. Uma das saídas que vem sendo tentada para a obtenção de recursos é a aproximação com o mercado financeiro. O governo pretende lançar o certificado do recebível do agronegócio e criar fundos de investimento. Isso pode dar certo?


Fábio Silveira: Isso pode dar certo se houver uma ampla campanha de esclarecimento, de aprendizagem até para que o mercado possa a aprender a lidar com esses instrumentos porque no curto, médio prazo, você não encontraria saída para o financiamento agrícola que não começasse um pouco por esse caminho, de procurar utilizar ou criar esses mecanismos alternativos para o financiamento agrícola. A produção agrícola não vai crescer com base em expansão de recursos oficiais porque esses recursos oficiais vão permanecer escassos, pelo menos nos próximos dois, três anos. Acho que mercado e governo deveriam estar aliados no sentido de fortalecer a implementação desses mecanismos. Se vai dar certo? Vai depender da vontade de mercado e governo.


Portal - Nessa mesma linha, a Bovespa está incentivando a abertura de capital e lançamento de debêntures de empresas do agronegócio. O sr. acha que existe condições do mercado absorver esses papéis?


Fábio Silveira: O mercado está olhando esse segmento da economia brasileira com melhores olhos, com menos preconceito. No passado, acho que existia um pouco de preconceito em relação ao setor agrícola e acabou sendo um erro porque você tem hoje poucas empresas de capital aberto que são ligadas ao agronegócio, não houve muita visão. Acho que faltou visão de governo, não um governo intervencionista, estatizante, não é isso, mas visão de governo enquanto planejador ou contribuinte do planejamento do País. Então acho que tem sim condições de ter essa absorção mas como tudo vai ser um processo lento.


Portal - Quais são os principais problemas enfrentados pela agropecuária e pelo agronegócio no Brasil?



Fábio Silveira: Em primeiro lugar acho que é necessário você ter alguma forma de planejamento de longo prazo de onde você quer chegar com o agronegócio. O agronegócio chegou onde chegou um pouco porque havia uma base produtiva que se modernizou aos trancos e barrancos na década de 90 e depois ela ganhou forte impulso em função do crescimento dos mercados demandadores de commodities de todas as naturezas, agrícolas e não agrícolas. Não vou dizer que foi o acaso que beneficiou o agronegócio mas, de uma certa maneira, o benefício de um inesperado crescimento chinês, pelo menos nessa magnitude, que contribuiu de forma significativa para esse desempenho do agronegócio. Caso contrário, se a China não tivesse surgido, emergido como um grande país consumidor voraz de produtos básicos, o agronegócio não teria tido todo o brilho que vem tendo nos últimos anos. A coisa aconteceu não vou dizer por acaso, seria um exagero, mas aconteceu de uma maneira um tanto inesperada. Por isso é que, em primeiro lugar, é importante você ter um planejamento de médio e longo prazo que é para se enxergar o que se pretende daqui a 10 anos, onde você quer chegar daqui 15 anos, como você faz com o setor agrícola lá fora, com o setor energético, diferentes setores que têm o planejamento de 10, 15 anos. O planejamento energético nos Estados Unidos, por exemplo, tem 20 anos, assinado pelo Bush, pelo Dick Cheney, ninguém vai taxar isso de intervencionismo. Só que os caras tentam, como numa empresa multinacional, se enxergar no longo prazo, como a Petrobrás tenta enxergar a longo prazo, que é uma grande corporação. O País precisava pensar a agricultura também dessa maneira, ele tem um talismã na mão hoje, e esse talismã se não for bem gerenciado pode perder valor. Então a primeira coisa é você ter um planejamento de longo prazo e um comprometimento das elites dirigentes desse País com esse planejamento, como você tem na Flórida, produtora de suco de laranja. Você tem um comprometimento de todo o Estado da Flórida com a produção de laranja, é a Universidade, são os produtores, o Estado, os institutos de pesquisa. Eu mesmo já recebi pesquisador da Flórida que queria conhecer o mercado de suco de laranja aqui do Brasil. Ele veio de lá para pesquisar, veio conversar comigo na época em que eu acompanhava o setor no detalhe. Esse espírito de pesquisa, de análise, de prognóstico, é uma coisa que tem que ser resgatada. E tem outros aspectos que a gente tem que considerar, que é a questão da infra-estrutura que precisa ser ampliada, sem dúvida, com um escoamento melhor para você ter uma base de portos, de rodovias. Tudo isso que hoje virou meio consenso no mercado, das necessidades, eu também concordo que precisa ser feito. A questão é como você vai financiar isso? Não basta você ter regras, porque muita gente fala que precisa ter regras, é importante ter um marco regulatório. É importante, é lógico mas só ter marco regulatório não resolve, você precisa ter investidor que acredite não só nas regras mas acredite no País porque hoje você não tem investidores que acreditem piamente no País. Não é só por causa das regras que estão longe de ser perfeitas mas o Brasil tem mais regras que a China, por exemplo. Tem um marco regulatório muito mais complexo do que o chinês mas nem por isso a China deixa de crescer sete, 8% ao ano e a gente cresce meio por cento ao ano, quer dizer, o marco regulatório é uma coisa secundária, o que é importante é você ter uma expectativa de crescimento da economia como um todo. Precisa-se ter investimentos em infraestrutura, precisa-se ter marco regulatório, alguns mecanismos que fortaleçam o financiamento da agricultura no médio e longo prazo. O resto, as coisas se sinalizadas, você sinaliza para o mercado que quer ter a oferta doméstica de alimentos para o atendimento do mercado doméstico, com transparência, com metas estabelecidas, com contrato de gestão. Eu acho que isso é positivo para o setor agrícola no médio e longo prazo e que impediria o País ficar à mercê da volatividade internacional, precisava ter um colchão de proteção.


Portal - Tendo em vista esses pontos que o sr. levantou, qual é sua avaliação da atual política do governo para o setor?


Fábio Silveira: A atual política tenta preservar o que tem de bom no setor, nesse ciclo expansionista verificado nesses últimos anos, não está querendo fazer marola, gerar turbulências, tentando abrir novos mercados para o setor agrícola. Acho que isso é muito importante. Agora, eu acho que seria importante para esse governo e para o seguinte, seja dessa bandeira ou outra, não importa, insisto nesse ponto: que você tenha um horizonte de longo prazo, onde você quer chegar, que culturas você quer produzir nesse País daqui dez anos, 15 anos. Qual é o mapa, qual é o desenho que você deveria estar fazendo hoje para tentar enxergar. O Brasil vai produzir mais álcool, menos álcool? Mais arroz, mais feijão? Haveria necessidade nesse ponto.


Portal - A industrialização foi considerada nas últimas décadas a grande indutora do desenvolvimento nacional mas o desempenho do agronegócio agora não aponta para um desenvolvimento econômico em que a agropecuária pode ser o principal indutor?


Fábio Silveira: Um dos motivos que ajudou o agronegócio a se expandir, não é o principal motivo mas um motivo secundário, é que as oportunidades de investimento começaram a se tornar rarefeitas no setor industrial na década de 90. Então muita gente que estava na indústria, não só empregados mas investidores, empresários, viram um desaparecimento na base importante da indústria, muita gente acabou migrando, enquanto investidor, enquanto empresário, para o campo, isso também ajudou. Houve uma migração da inteligência que saía da indústria para o setor rural, isso não tenha dúvida. Então isso também ajudou o agronegócio a se fortalecer. A indústria hoje no Brasil ela está muito atrelada, o agronegócio está muito atrelado ao desenvolvimento, ao fortalecimento dessa indústria de baixo valor agregado, então a indústria de produção de frangos está muito atrelada ao desenvolvimento do mercado de milho, ou melhor, o mercado de milho está muito atrelado ao desenvolvimento da indústria de frangos, a produção de soja está muito atrelada às exportações de óleo e de farelo, os manufaturados. Vejo que esse pedaço da indústria vai continuar, apesar de queda de preços, vai continuar tendo um peso importante no País. O País deixou de ser um grande produtor de produtos industriais de alto valor agregado e se focou na produção de produtos de baixo valor agregado e exportou esses produtos, calçados, couro, isso foi também um fator que sustentou, que dinamizou a base agrícola. Eu acho que esse movimento ainda continua alguns anos, não com a mesma rentabilidade, a mesma receita verificada nos últimos dois anos mas continuará com um peso importante. O agronegócio como indutor de desenvolvimento eu acho que não. A indústria, por ser um segmento transformador, exportador, é que arrasta e dinamiza o setor agrícola. Você não pode prescindir de um esmagador de soja, de transformadores de laranja em suco de laranja, você não vai poder prescindir das empresas exportadoras de frango, que crescendo atraem ou expandem a produção de milho, você não vai poder prescindir das empresas exportadoras de açúcar, a usinas que ao mesmo tempo que exportam açúcar fortalecem não só suas próprias plantações de cana como fortalecem as plantações de cana de fornecedores terceirizados, tem toda uma malha, é o setor externo junto com o segmento transformador que arrasta a agricultura. Mas você tem que ter sempre como pano de fundo a competitividade da moeda, fatores que favoreçam, escala de produção, uso intensivo de fertilizantes, você precisa disso tudo para que a agricultura continue crescendo. Se você tiver um desequilíbrio muito acentuado em um desses fatores, por exemplo, se você tiver uma alta exagerada no preço dos fertilizantes ou dificuldades de importação de defensivos, enfim, você pode tirar muito da competitividade brasileira.


Portal - O Brasil tem dois setores: uma agricultura empresarial moderna, voltada à exportação, e outra familiar, mais voltada para o mercado interno, para a produção de alimentos, que enfrenta uma série de problemas como baixa tecnologia e falta de recursos. O sr. acha que é possível um desenvolvimento harmônico entre esses dois setores?


Fábio Silveira: Teoricamente, sim. Teoricamente você pode fazer tudo mas eu não vejo essa articulação ocorrendo no curto, médio prazo, exatamente porque não tem um planejamento e a implementação de ações que permitam essa coordenação entre a agricultura moderna, exportadora, e a agricultura familiar. Os recursos do Pronaf são limitados. Eu estou querendo dizer o seguinte: precisa ter algumas ações que permitam fazer esses dois universos co-existirem. Nós vamos ter que aprender isso, é um aprendizado que nós vamos ter que passar ao longo dos próximos anos. No curto e médio prazo eu não vejo isso até porque o Estado enquanto entidade de planejamento se enfraqueceu muito, não tem mecanismos, não tem formas de coordenar ação de uma ou outra faceta do universo agrícola. Por isso que eu digo: teoricamente dá para fazer como os Estados Unidos fazem, como alguns países da Europa fazem, você tem a França, com a agricultura familiar co-existindo com a agricultura mais moderna, de maior densidade tecnológica, exportadora de vinhos, exportadora de produtos com maior valor agregado dentro da agricultura, mas a base de tudo isso são negociações, são ações articuladas, e aqui no Brasil o País não tem muita tradição de planejamento, precisaria começar.


Portal - Além desses segmentos tem um contingente de trabalhadores sem terra que pressionam pela reforma agrária. O modelo que está sendo feito, com distribuição de terras é capaz de integrar ao mercado as pequenas propriedades que devem surgir dos assentamentos?


Fábio Silveira: No curto e médio prazo não é possível de ver isso porque como nos anos anteriores você ainda implementa uma reforma agrária sem o devido suporte financeiro e tecnológico. Não é por acaso que outro dia, os números podem estar destoando mas boa parte das terras que foram entregues a trabalhadores foram revendidas o que contraria inclusive a regra, as premissas dessa reforma. Por que isso ocorreu? Porque você não tinha, mais uma vez, instrumentos que levassem o produtor a poder sobreviver numa economia capitalista, que tem necessidade de tecnologia, que tem necessidade de ter escala de produção, canais de distribuição, financiamento para compra de produtos agrícolas, para compra de insumos, então do jeito que a coisa vem sendo feita você pode ter assentamentos mas você também pode manter elevada taxa de revenda desses terrenos, dessas terras, e você não atingiu o objetivo esperado que era o de assentar essas pessoas nessas áreas de forma produtiva. Eu acho que esse é o desafio, eu vejo pouco isso agora.


Portal - Uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo em 18/04 afirma que no interior paulista, onde predominam empresas ligadas ao agronegócio, lidera a recuperação do emprego industrial no Estado. O sr. acha que essa dinâmica pode se ampliar e gerar empregos suficientes para tornar desnecessária uma reforma agrária nos moldes reivindicados pelo MST?


Fábio Silveira:
A velocidade da criação desses empregos é menor do que a velocidade de absorção da mão-de-obra que existe hoje no âmbito rural. Você tem uma demanda por emprego industrial que cresce numa velocidade muito mais lenta do que a expansão da oferta de mão-de-obra dentro do setor agrícola. O próprio crescimento desse emprego industrial ele ainda não foi tão grande. Houve crescimento mas em termos macroeconômicos ele não foi tão grande. Então você precisaria acelerar ainda de forma muito acentuada o crescimento dos empregos industriais ligados à produção têxtil, à produção de calçados, de alimentos, enfim, vários setores ligados ao agronegócio para que você tivesse o atendimento parcial das demandas ou do preenchimento do atendimento dessa mão-de-obra que está excessivamente disponível. Você tem um excesso de mão-de-obra muito grande. Por que isso ocorreu? Primeiro pela retração da oferta de emprego nas capitais, quer dizer, muita gente que estava ligada ao mundo industrial nos anos 80 e 90, famílias mesmo, o pai trabalhava na indústria ou na área de serviços, perdeu o emprego, foi pai e filho, é gente que saiu de São Paulo, do Rio, das grandes cidades, então tinha oferta de mão-de-obra, das pessoas que estavam aqui, são pessoas que a gente fica imaginando que esse pessoal saiu do nada, saiu lá do cafundó, não, esse pessoal saiu uma parte aqui das cidades e outra parte saiu do próprio setor rural, foi expulsa com a própria mecanização da agricultura, a mecanização e a modernização. Isso é assim há séculos, você moderniza a base produtiva agrícola, você expulsa a mão-de-obra, três, quatro cinco, dez séculos que isso funciona assim. Isso, evidentemente, a geração, o aparecimento, o surgimento dessas famílias está ligado também à modernização agrícola, é um duplo movimento de destruição de postos de trabalho nos centros urbanos, da indústria, da área de serviços e expulsão induzida pela tecnificação da agricultura moderna, de escala de produção grande que não teve condições de absorver os filhos, os irmãos de quem estava na agricultura há 10, 15 anos atrás, viraram sem terra, quer dizer, você tem um problemão pela frente.



Portal - O sr. acha que eles teriam que ser absorvidos pelo setor urbano mesmo?


Fábio Silveira:
Têm que ser absorvidos onde o País escolher. O País precisa parar para pensar. Tem que alocar esse pessoal em algum lugar, não adianta querer, não adianta dizer nós vamos coloca-los aqui, vamos confiná-los, não existe isso, não dá para pedir para eles ficarem calados quando você sabe que são quatro milhões de famílias, três, que sejam. Então o movimento de reforma agrária teria que ser atrelado para iniciar mecanismos de aumento da tecnificação de quem vai ocupar ou vai assentar uma área produtiva e como esse produtor agrícola vai se articular com a grande agricultura, com a agricultura moderna. Ele vai, de alguma forma, ser articulado a uma agricultura moderna, exportadora, ao agronegócio transformador de insumos básicos em produtos industriais exportáveis ou consumíveis no mercado doméstico, calçados, vai ter que pensar, fazer um desenho, tem que ter uma estratégia. Não se pode imaginar que o mercado vai resolver isso. O mercado não vai resolver isso, vai aguçar as contradições. Vai fazer o quê? Vai jogar no mar? Não é esse o caso. É lógico que a ação dos sem terra ela gera instabilidade entre os investidores, ninguém pode negar isso, mas é um problema que você vai ter que enfrentar enquanto País, tem que se pensar.


Portal do Fazendeiro

Envie essa entrevista
para um amigo(a)

 


 
   
Notícias | Previsão do Tempo | Cotações | Classificados | Eventos | Publicações
Fale Conosco | Cadastre-se | Anuncie | Criadores/Produtores | Mapa do Site