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OS
TIROS PODEM SAIR PELA CULATRA
Em meio
aos muitos desafios que compõem os cenários
da nossa atualidade, local e global, restam-nos alguns consolos.
Um deles, é que preocupações com o futuro
não são privilégios de ninguém,
mas a ocupação principal de todos aqueles que
têm qualquer forma de atividade, em qualquer economia,
em qualquer parte do mundo. Nem mesmo os que vivem ainda em
estágio tribal estão livres dos desencontros
dos nossos tempos. O que difere uns dos outros está
no caráter local , que marca agonias, esperanças
e eventuais ações de cada comunidade diante
dos seus próprios desafios.
Uns,
estão comprimidos pelo que já fizeram. Outros,
sofrem pelo que deixaram de fazer. No meio campo, estão
aqueles que podem olhar para trás e para frente, avaliar
erros e acertos, próprios e dos outros. A ordem é
evitar erros, porque eles custam cada vez mais caro e, além
disso, aproveitar as experiências bem sucedidas com
possibilidades de serem adaptadas ou até mesmo melhoradas.
Estamos entre estes últimos. A urgência é
eliminar o risco de receber tiros pela culatra, estabelecer
bons alvos e buscar o máximo de acerto.
Lendo
artigo publicado no "The New York Times" ( reproduzido
no jornal "O Estado de São Paulo", de 27.12.2004)
, sob o título "Pense global, alimente-se loca!",
assinado por Jennifer Wilkins, tivemos a apresentação
da ponta do iceberg que começa a emegir nos cenários
da produção agropecuária dos Estados Unidos,
que nos oferece um amplo exemplo que merece atenção.
Wilkins, que é membro do grupo de estudos sobre"Política
de Alimentos", da divisão de Ciências
Nutricionais ( Cornell ) , nos mostra uma visão crítica
inovadora, quando analisa causas e efeitos da alta concentração
na produção e processamento de alimentos naquele
país. Ela destaca fatores de vulnerabilidade para
a segurança alimentar dos norte-americanos que cada
vez mais têm à mesa alimentos produzidos por
fornecedores externos, apontando o perigo e a facilidade
com que estes alimentos poderiam ser contaminados para atingir
consumidores nos Estados Unidos. E analisa causas e efeitos,
juntamente com um elenco de providências que aconselha
sejam tomadas com presteza.
Equívocos
Perigosos
A
estatística apontando a aumento na concentração
de posse de terras, nos Estados Unidos, vem mantendo índices
crescentes há décadas. Pequenos produtores têm
vendido suas terras a produtores maiores ou destinado suas áreas
a outros negócios, como loteamentos. Com a concentração
das terras também veio acontecendo a concentração
dos recursos destinados a subsidiar a produção
( 3,3% do total usam 20,3% da terra cultivável nos EUA
e respondem por 61,9% de todas as vendas), enquanto as dez maiores
processadoras de alimentos são responsáveis por
mais de metade de todos os produtos presentes nas prateleiras
dos supermercados. Estes são alguns dos pontos da vulnerabilidade
interna, que Wilkins considera tão graves quanto aqueles
que identifica entre os fornecedores externos.
Os tiros estão escapando pela culatra, questionando o
modelo de produção e comercialização
implantados com sucesso histórico naquele país.
Vale, também, para nossas reflexões, tanto pelas
correções que podemos promover para situações
ou tendências semelhantes, quanto pelas providências
que precisamos tomar em relação a eventuais mudanças
de maior significado nas relações comerciais.
Bons diagnósticos servem para prevenir problemas, garantir
nossos produtos como fator de desenvolvimento interno e, por
outro lado, garantir sucesso futuro na linha de produtos exportáveis
para este importante mercado, onde deverão surgir as
já proclamadas barreiras técnicas.
Há,
ainda, outros fatores que merecem constar da nossa pauta de
reflexões. Wilkins destaca, nas suas sugestões,
que os EUA deveriam se voltar para a diversificação
e desconcentração no universo dos alimentos, e
com máxima inclusão de pequenos produtores, pois
estão potencializados para suprir as necessidades do
pais em praticamente todos os itens de alimentação,
" exceto nos itens café e cacau".
A
análise feita por Jennifer Wilkins começa no discurso
de renúncia de Tommy Thompson, secretário da Saúde
e Serviços Humanos, quando fez um comentário "
tão inesperado, quanto correto," conforme ela mesma
qualifica, ao dizer: "Por mais que me esforce, não
consigo entender por que os terroristas não atacaram
nosso suprimento de comida, já que é muito fácil
fazer isso".
À
parte alguma desinformação sobre as reais condições
quanto à produção e ao processamento de
alimentos nos países fornecedores, ela busca falhas nos
sistemas
internos, montando um importante diagnóstico e apontando
alguns remédios necessários.
Argumentos
em números
Em
2005, pela primeira vez em 50 anos, não acontecerá
recorde de superávit agrícola nos Estados Unidos,
fato que ela vê como uma demonstração "
da nossa crescente dependência da produção
agrícola estrangeira e de sistemas de distribuição
que podem não ser seguros".
Além
disso, ela argumenta que" poucas dessas importações
são analisadas para comprovar que atendem os padrões
de saúde e segurança americanos". Em 2004,
a Food and Drug Administration terá inspecionado cerca
de 100 mil, das quase 5 milhões de remessas de alimentos
que cruzaram as fronteiras dos EUA. Justifica: " A distribuição
é tão rápida, que comida estragada pode
chegar aos consumidores em todo o país antes que as autoridades
se dêem conta de que existe um problema. O aumento do
controle sobre o suprimento global de alimentos, concentrado
em poucas corporações, torna a adulteração
mais tentadora para um terrorista que queira provocar impacto".
Desmistificando
o modelo histórico
O
programa "New Deal" de Roosevelt promoveu a ocupação
rural por grandes mananciais de desempregados da crise econômica
que assolou o mundo a partir dos anos 29/30 do século
passado, resultando em soluções positivas e desenvolvimento
. Nos anos 50, a política agrícola daquele país
concentrou-se na receita que privilegiava o máximo de
produção pelo mínimo de custo, gerando
o modelo concentrador que está sendo questionado. Agora
a questão é lucro versus segurança.
Em outras partes do mundo esta questão também
virá à tona. Parece que a economia do século
XXI terá de fazer esta e mais outras opções,
tais como lucro versus paz, lucro versus qualidade de vida,
lucro versus inclusão social e por aí a fora.
Então, não é apenas o modelo de produção/
distribuição/ comercialização que
está no foco dos questionamentos sobre a viabilidade
de bons resultados. Mais que isso, o que está sendo questionado
é o próprio capitalismo histórico, que
acabou gerando concentração sob todas as formas
na sua base exclusiva de conceitos de lucros
O desafio agora é criar um modelo novo, sem cair para
os extremos, lembrando sempre que a História não
dá saltos Por isso, precisamos encontrar um bom caminho
para o desenvolvimento, onde grandes, médios e pequenos,
possam interagir de forma inteligente, produzindo bons resultados
para todos.
Embora esta proposta possa parecer uma utopia, nunca tivemos
momento em nossa história global que privilegiasse soluções
humanizadas, como ocorre nestes novos tempos que configuram
o esgotamento dos modelos, nas experiências tidas e havidas
através das décadas do século passado.
Algumas
sugestões
A pesquisadora Jennifer Wilkins sugere, como solução
para as inseguranças detectadas, o estabelecimento
de sistemas de produção de alimentos que incluam
muitos produtores pequenos e diversidade de produtos. Segundo
ela, isso vai evitar contaminação em larga
escala. Ela justifica:" Um sistema de produção
de alimentos no qual o controle de elementos cruciais está
concentrado em poucas mãos, pode ser e será
vitima do terrorismo ou de acidentes"..
Ela também pede reforço para o sistema de mercados
que vendem diretamente do produtor para o consumidor. Pensa
que operações neste modelo podem atender à
demanda com variedade de produtos, lembrando o sucesso que a
comercialização direta vem obtendo nos anos recentes,
com o número destes estabelecimentos aumentando de 1.700
em l994 para 3100, em 2002. Também sugere soluções
políticas, para incentivar propriedades agrícolas
menores e produção mais diversificada.
Seria algo que poderíamos tomar a liberdade de considerar
uma reforma agrária modelo século XXI, sem esquecer
a reforma agrária feita na aplicação pioneira
do New Deal de Roosevelt, que conduziu os Estados Unidos a serem
os maiores produtores de alimentos do mundo nas décadas
seguintes?
O
poder concentrado das processadoras de alimentos, nos Estados
Unidos, tirou do agricultor primário o controle sobre
a qualidade do sistema alimentar : cerca de 85% dos legumes
destinados a congelamento e enlatados são produzidos
mediante contratos, com a processadoras ditando variedade, quantidade,
data de entrega e preço. Se os produtores locais não
conseguirem atender às exigências, as processadoras
buscam fornecedores no exterior, onde, segundo Wilkins, "existe
grande potencial de contaminação, por causa de
procedimentos de inspeção menos rigorosos ou mesmo
por causa de menor proteção contra o bioterrorrismo".
Prevenir
ou Remediar ?
-Eis a questão.
Enquanto
observamos no Brasil a implantação de um programa
de reforma agrária de custo altíssimo e resultados
questionáveis, baseado em princípios que já
envelheceram há muito tempo, com o MST avançando
em direções cada vez mais preocupantes conforme
lemos na imprensa, mesmo sem ter até hoje identidade
jurídica e gozando da mais plena impunidade, temos uma
experiência agrícola de ciclo completo, no tempo
e no espaço, com muitos pontos identificados e destacados
no artigo de Jennifer Wilkins.
Certamente,
mudanças que possam ocorrer nos Estados Unidos repercutiriam
diretamente nas suas relações com fornecedores
externos. Surgirão regras e barreiras técnicas,
em nome de suas defesas contra ataques bioterroristas que
" poderão contaminar alimentos em países
fornecedores" A grande chamada que exige resposta por
parte dos fornecedores de alimentos, é a segurança
alimentar, que já ganha destaque na pauta brasileira.,
é exigência do mercado europeu e tendência
a se espalhar pelos mercados mais sofisticados em todo o
mundo..
Então,
nos resta destacar alguns pontos :
1. Concentração / processamento / distribuição
, conseqüentes da implantação de conceitos
firmados na economia de escala
2. Falta de diversificação de produtos,
criando dependência de fornecedores externos.
3. Foco de abastecimento para o mercado interno
4. Sugestão de comunidade de produção
que incluam muitos pequenos produtores e diversidade de
produtos, como medida de segurança;
5. Reforço ao programa de mercados para a
venda direta de produtos, do produtor para o consumidor
6. Políticas que encurtam a distância
entre produtores e consumidores, diminuem pontos vulneráveis
no sistema produção/abastecimento, ampliando
as margens de controle e segurança, conforme conclusões
de Wilkins.
Do
lado de cá : precisamos desenvolver o mercado interno,
promover inclusão social e estabelecer os benefícios
do agronegócio em toda extensão das cadeias
produtivas, lembrando bem que este é o nosso principal
mercado . Nas linhas de exportação, através
da aplicação dos princípios de qualidade
e segurança, buscar a valorização dos
nossos produtos, conquistar novos mercados, ganhar espaço
nos melhores mercados ( aqueles que pagam mais pela qualidade).
Promover a integração de pequenos produtores,
que são a maioria, aos sistemas produtivos, gerando
melhores padrões e quantificando a qualidade , com
vistas ao mercado interno ( incluindo estratégia dos
armazéns de comércio direto) e exportação.
Estratégias para desenvolvimento sócio-político-econômico
sem esquecer os cuidados ambientais. E, sempre, evitando levar
tiros que podem estar vindo da culatra.
São
muitos os pontos que podem ser relacionados. Em 2020 o Brasil
estará entre os países mais desenvolvidos do
mundo, conforme projeção de agências internacionais.
Para tanto, temos ainda muito o que fazer, principalmente,
muitas providências a tomar, buscando os melhores caminhos
e sem cair em experiências que não deram certo.
Ainda que prevaleça nossa geração de
soluções tropicais, adequadas à nossa
potencialidade, alguns exemplos têm valor universal,
como observamos no interessante artigo de Jennifer Wilkins.
Portal
do Fazendeiro
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