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Ivan
Wedekin
secr.
de Política Agrícola
O
secretário de Política Agrícola do Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ivan Wedekin,
é engenheiro agrônomo, formado pela Escola de
Agronomia Luiz de Queiroz, da USP, pós-graduado em
D esenvolvimento
Agrícola pela Fundação Getúlio
Vargas, com treinamento em Agribusiness na Universidade de
Harvard e treinamento gerencial na American Management Association.
Autor de vários livros sobre o tema, Wedekin também
trabalhou em consultoria privada e na empresa Agroceres. Como
professor, coordena o curso de pós-graduação
em agribusiness da FGV e é convidado do PENSA - Programa
de Estudos sobre os Negócios do Sistema Agroindustrial
da Faculdade de Economia e Administração da
USP. Foi diretor executivo da Sociedade Rural Brasileira e
é diretor do Instituto de Estudos de Agribusiness da
ABAG - Associação Brasileira de Agribusiness.
Edita a revista Agroanalysis.
Portal -
A safra de 2004 promete bater outro recorde, a exemplo de
anos anteriores. A que o sr. atribui o crescente aumento da
produção agropecuária brasileira?
Ivan
Wedekin: Há alguns fatores importantes. Em primeiro
lugar, o investimento em tecnologia pelos produtores que têm
batido recordes ano a ano de utilização de insumos
modernos. O consumo de fertilizantes mais do que dobrou nos
últimos 10 anos, o lançamento de novas variedades
de sementes, enfim tem todo um aspecto tecnológico
importante. O segundo fator relevante é a desvalorização
cambial feita em 1999 e que criou um novo patamar: agronegócio
é câmbio. A desvalorização permitiu
que as exportações gerassem um saldo na balança
comercial que, praticamente, dobrou, passou de 13, 14 bilhões
de dólares por ano em 94, 95, para 26 bilhões
de dólares atualmente. Então, agronegócio
é câmbio. O terceiro fator foi a solução
dada pelo governo passado no sentido de fazer o alongamento
da dívida dos produtores rurais: 27 bilhões
de reais que foram rolados a longo prazo, o que permitiu,
em conjunto com os dois outros fatores anteriores, criar um
potencial de crescimento importante do agronegócio
brasileiro. Quarto item: o conjunto de políticas do
governo, aumento do volume de crédito rural. Embora
sempre escasso, o crédito praticamente dobrou nos últimos
três anos para ao produtor. Houve também o lançamento
de programas de modernização, como o Moderfrota.
Portal -
Esse crescimento não
estaria chegando ao seu limite pela própria carência
de infra-estrutura do País, como falta de portos,
estradas intransitáveis, etc? Até que ponto
essa infra-estrutura deficiente pode comprometer o crescimento
da produção brasileira?
Ivan Wedekin:
A infra-estrutura é essencial porque nós
estamos falando de produtos agrícolas, de commodities
que, em geral, são produtos de baixo valor agregado.
Uma tonelada de soja vale em torno de 200 dólares,
uma tonelada de carro popular vale 5 mil dólares,
só para a gente sentir a diferença de valor
agregado. O fato é que o Brasil tem baixado os
custos de distribuição. Dez anos atrás
se gastava 80 dólares para se trazer uma tonelada
de soja do Mato Grosso ao porto e hoje isso está
em 35 dólares por tonelada. Esse foi um êxito
feito no passado mas nós temos uma pressão
enorme que vai demandar um volume grande de investimento
no agronegócio, vamos ter problemas de perda, eventualmente,
de alguma competitividade mas isso certamente o mercado
e com as ações do governo tratarão
de resolver no horizonte aí de 5, 10 anos.
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O governo anunciou grandes cortes no orçamento,
inclusive dos recursos destinados à agricultura.
Até que ponto essa redução de recursos
pode comprometer as metas da política agrícola?
Ivan Wedekin: A questão tem dois ângulos:
um é o lado do orçamento do Ministério
da Agricultura que está sob contingenciamento,
uma parte desses recursos está sendo contingenciada
em função de que o governo entende que há
uma insegurança do lado das receitas e para isso
ele está cortando ou controlando o ritmo de suas
despesas. O fato é que em relação
ao ano passado vai haver um aumento do orçamento
do Ministério da Agricultura e com isso ele poderá
fazer mais ações relevantes principalmente
na parte da defesa sanitária. No ano passado recursos
tiveram que ser subtraídos dessa área da
defesa sanitária para comporem, digamos, o custeio
da máquina do Ministério da Agricultura.
Esse ano o orçamento será significativamente
ampliado embora, no momento, ele esteja contingenciado.
O importante nessa linha sanitária é que
sejam criados, à semelhança do que existe
em alguns estados, fundos privados para junto com o orçamento
publico fazerem esse trabalho de "blindagem"
da agropecuária nacional, do risco sanitário
que tem se espalhado pelo mundo afora e que vem se traduzindo
numa grande oportunidade para o agronegócio brasileiro.
Talvez nesse campo, Deus tenha sido brasileiro nesses
últimos anos porque enquanto o mundo sofre com
a vaca louca, com a gripe do frango, nós pelo menos
nessa parte animal estamos bem protegidos, apesar do fenômeno
recente da ferrugem da soja. O segundo lado do orçamento
é o orçamento para a execução
da política agrícola, que é o chamado
orçamento das operações oficiais
de crédito, que é um volume de recursos
que o Tesouro Nacional mobiliza para execução
da política agrícola. Aqui, nesse campo,
nosso orçamento deste ano é muito limitado,
ele é um terço do que era há três
anos, o que dificultará a execução
de medidas de apoio à comercialização
da safra como o lançamento de contratos de opção
do governo mas nós estamos também trabalhando
numa linha de lançamento de contratos de opção
pelo setor privado, num trabalho junto com o governo.
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Qual é o montante que o Ministério dispõe
para esse tipo de atividades?
Ivan Wedekin: Esses números são sigilosos.
Portal - Quais
são os principais pontos do Plano Safra 2004/2005
que o governo pretende lançar agora no primeiro
semestre?
Ivan
Wedekin: O objetivo é continuar alavancando
o crescimento do agronegócio brasileiro. O que
se pretende é o aperfeiçoamento dos instrumentos
hoje disponíveis no agronegócio, melhorando
o funcionamento do sistema nacional de crédito
rural, azeitando ainda mais os programas de investimento.
Em 2002 o Ministério da Agricultura tinha 18 programas
de investimento gerenciados pelo BNDES. No Plano Safra
em vigor nós reduzimos de 18 para 8 para fazer
uma simplificação operacional, padronizar
os programas, de modo a que os bancos tivessem mais facilidade
operacional nos empréstimos. A idéia era
ter reduzido ainda mais mas não foi possível
porque esses programas tem prazos diferentes, taxas de
juros diferentes, spreads bancários diferentes
que impediram uma aglutinação maior nesses
programas. Então nós estamos trabalhando
na linha da simplificação do crédito
rural, da facilitação das operações,
da perenização de algumas políticas
agrícolas que nos livre de termos que toda hora
estar recorrendo a decisões do Conselho Monetário
Nacional, essa linha é melhorar o já existente.
Uma outra linha é de inovações, de
criar novos mecanismos que facilitem o funcionamento do
agronegócio, como são as opções
privadas, o fundos de investimento no agronegócio
e as letras de comércio agrícola para usar
três iniciativas que estão trabalhando nessa
direção..
Portal -
O setor agropecuário está distanciado do
mercado financeiro, não existem muitos produtos
específicos para o segmento. O sr. pode detalhar
essas novas iniciativas?
Ivan Wedekin:
O objetivo central é inserir cada vez mais a agricultura
no mercado de capitais. Nós temos uma limitação
do crédito rural, o agronegócio tem crescido
mais do que os depósitos à vista. O sistema
de crédito rural é lastreado nos depósitos
à vista, em que os bancos têm que aplicar
25% desses depósitos em crédito rural e
o Banco do Brasil, que tem a caderneta de poupança
rural, tem que aplicar 40% em crédito rural. Então
esse é o núcleo do sistema de crédito
rural. Como ele é baseado na poupança e
nos depósitos à vista, que não estão
crescendo na mesma proporção do agronegócio,
precisamos criar fontes adicionais de canalização
de recursos para alavancar esse crescimento do agronegócio.
Uma das iniciativas, e aí nós não
estamos inventando a roda, é a criação
dos fundos de investimento do agronegócio, à
semelhança do que já existe hoje dos fundos
de investimentos imobiliários e a idéia
seria o lançamento desses fundos de maneira que
se pudesse carrear mais recursos para o agronegócio
e liberar uma parte dos recursos que estão sendo
aplicados através do sistema oficial de crédito
rural. Nós estamos fazendo consultas com todo o
mercado, ouvindo BM&F, Febraban, Ambid, que á
a associação dos bancos de investimento,
gestores de carteira, CVM, e esperamos, ao longo desse
ano, alavancar a criação desses fundos que
são fundos privados que podem ser criados por cooperativas,
agroindústrias, empresas de insumos e instituições
financeiras, como já existem hoje alguns casos
em andamento.
Portal - E
as letras de comércio agrícola?
Ivan Wedekin:
Os fundos de investimento têm o objetivo de captar
a poupança interna. Temos um cenário de
redução da taxa de juros, de maneira que
os gestores dos fundos de investimentos, das carteiras
que estão muito dependentes de empréstimos
ao governo, entendem que será necessário
uma diversificação de carteira e, portanto,
esses fundos de investimento têm o objetivo de juntar
as duas coisas: interesse dos investidores e interesses
do agronegócio em ter outras alternativas de financiamento.
Então os FIAS são para captar a poupança
interna. As letras de comércio agrícola
têm o objetivo de captar a poupança externa,
ou seja, atrai recursos do exterior através da
criação desse título de letra do
comércio agrícola, que é um título
comercial com lastro em produto agrícola a ser
emitido por produtores, cooperativas ou agroindústrias,
notadamente ligados ao ramo da exportação.
Com isso nós estamos querendo trazer dinheiro do
mercado internacional, cujos investidores estão
tendo rendimentos de 1%, 2% a 3% ao ano para aplicar aqui
numa atividade de risco, portanto sem taxa pré-fixada,
para financiar o agronegócio.
Portal -
A agropecuária e a agroindústria têm
conseguido resultados na economia mais expressivos do
que a indústria e o setor de serviços. O
sr. acha que, com o tempo, esses segmentos podem se tornar
indutores do desenvolvimento, ao contrário dos
últimos 50 anos, durante os quaisa indústria
sempre puxou o desenvolvimento econômico?
Ivan
Wedekin: Na
verdade, se a gente for olhar na origem, todo o desenvolvimento
agroindustrial brasileiro, principalmente a partir dos
anos 30, até os anos 80, foi financiado com recursos
da agricultura, do setor rural. A industrialização
brasileira foi feita com recursos transferidos pelo setor
produtivo rural através de diversos mecanismos,
como controle cambial, cotas, contingenciamentos, tabelamentos
e que carrearam esses recursos para financiar a urbanização
e a industrialização do Brasil. Essa fase
já foi vencida, hoje as transferências de
renda da agricultura para o setor urbano industrial não
acontece mais e também não temos o fenômeno
contrário que é os consumidores subsidiarem
os agricultores como é o caso da maioria dos países
ricos, cujas agriculturas são altamente protegidas.
Aqui no Brasil não há subsídio ao
setor rural da mesma forma como não existem mecanismos
de vazamento de rendas. Então nós temos
uma agricultura em choque competitivo e uma agricultura
que é relevante, é um dos elementos de desenvolvimento
nacional, não é o único, representa
25% do PIB brasileiro, existem outros setores, de alta
tecnologia, de aviação, de máquinas
e equipamentos, de construção civil, que
têm também o papel de alavancar o desenvolvimento
brasileiro. Por ser o setor mais aberto e exposto à
concorrência internacional, a agricultura tem um
papel importante na geração do aumento de
exportações e de salto na balança
comercial, além do papel de abastecer de alimentos,
vestuário e energia os consumidores brasileiros.
Embora se dê muita ênfase ao aspecto exportador
do agronegócio, 80% do PIB do agronegócio
é consumido no Brasil e 20% é exportado.
A importância da agricultura também se deve
ao papel de interiorização do desenvolvimento
que ela promove por ser a base desse desenvolvimento e
gerar o crescimento da indústria e dos serviços
no campo e nas cidades de apoio. Ainda nos próximos
20 anos a agricultura exercerá um papel crítico
e importante para o país.
Portal -
Apesar do sr. ter dito que muitos dos recursos para a
industrialização do país têm
origem na atividade agrícola, é inegável
que a visão do desenvolvimento como um desenvolvimento
industrial prevaleceu nas últimas décadas.
Isso revela um certo preconceito, uma certa visão
que deixa em segundo plano a agricultura. O sr. acha que
existe a necessidade de uma mudança na visão
que a sociedade brasileira tem do papel da agricultura?
Ivan
Wedekin:
A conta do desenvolvimento urbano industrial brasileiro
já foi paga pela agricultura, essa etapa já
está vencida. Hoje nós já estamos
em outro momento histórico super importante que
é a consciência do setor urbano industrial
quanto à importância do agronegócio
brasileiro para o crescimento do país, para a geração
de empregos. Hoje já é um consenso na sociedade
de que o agronegócio é um elemento dinâmico
para o país, para a geração de renda,
para ampliação do volume de empregos e que
isso foi feito com base na eficiência, embora existam
ainda desigualdades no campo brasileiro, portanto o que
se vê pelo reflexo da cobertura da mídia,
é que estamos hoje remando todos na mesma direção,
com o agronegócio desempenhando um papel importante
para o desenvolvimento nacional.
Portal - O
setor de exportações é o que tem
obtido os melhores resultados nos últimos anos.
Isso não deixa o Brasil muito dependente em relação
aos mercados internacionais?
Ivan
Wedekin:
Pode deixar circunstancialmente porque o Brasil é
o número um nas exportações de café,
de açúcar, de suco de laranja, de carne
bovina, do complexo soja, quer dizer, o Brasil tem um
papel importante no comércio internacional mas
mesmo em números agregados, o Brasil representa
4% do comércio do agronegócio mundial. O
Brasil é grande e é pequeno ao mesmo tempo,
o que mostra que nós temos possibilidade de expansão
das nossas exportações, ampliando o número
de países de destino de nossas mercadorias, ampliando
a pauta exportadora, trabalhando em nichos e outros segmentos
de mercado, então tem um potencial. Eu diria que
o mercado externo não é risco para o Brasil,
ele é oportunidade no sentido de que, se nós
temos uma demanda de 80 para o mercado interno e de 20
para as exportações, ambos, o conjunto de
100, acaba reduzindo o risco da nossa atividade. Mas estamos
sujeitos ao risco do mercado, já que nós
estamos falando de commodities, sujeitas a grandes variações
de preços.
Portal -
Existem dois setores distintos: esse setor voltado à
exportação, com uma alta tecnologia e, do
outro lado, uma agricultura familiar que enfrenta inúmeros
problemas. Como é possível integrar esses
dois segmentos?
Ivan
Wedekin:
Essa
dualidade existe mais no discurso do que na prática
porque, na verdade, 90% das propriedades agrícolas
brasileiras têm menos de 100 hectares e essas propriedades
representam 43% do valor da produção agropecuária.
Não há conflito entre grande e pequeno produtor.
Toda a agricultura brasileira é, basicamente, uma
agricultura de base familiar, seja produtor pequeno ou
grande mas são unidades de negócio de gestão
familiar, então não há esse conflito,
da mesma forma como nós temos pequenos produtores
integrados ao mercado. O fundamental não é
a divisão entre exportação e mercado
interno e nem entre grandes produtores ou médios
e grandes produtores, o fundamental é a integração
desses produtores ao mercado. Nós temos, por exemplo,
na avicultura de Santa Catarina que é, predominantemente,
uma avicultura de pequenos produtores mas que estão,
através do mecanismo da integração,
perfeitamente conectados ao mercado e com um padrão
de vida, mesmo sendo pequenos produtores, superior a boa
parte da população urbana brasileira. Não
há conflito, há uma comunhão de interesses
entre os mercados internos e os mercados internacionais.
Temos que ter, obviamente, políticas direcionadas
para um segmento mais pobre da população
e aí entram alguns programas de governo que devem
ser desenhados para atender regiões específicas
onde há mais pobreza rural, no sentido de, através
da integração desses produtores ao mercado,
reduzir as disparidades regionais e pessoais de renda
no país.
Portal -
A pressão social pela reforma agrária tende
a criar um contingente novo de propriedades familiares.
O sr. considera possível elevar a produtividade,
integrar essas novas propriedades, vindas de assentamentos,
ao mercado de maneira a viabiliza-las economicamente?
Ivan
Wedekin:
Esse
é um desafio importante porque nós temos
um contingente de 4,5 milhões de produtores rurais,
nosso desafio é apóia-los para que permaneçam
na atividade. Para isso existem diversos programas no
governo, como o Pronaf, o Proger Rural e as próprias
ações sociais do governo, inclusive do Programa
fome Zero. Temos aqui um desafio de manutenção
dessas pessoas no campo e de integração
à atividade produtiva. Esse desafio é ainda
maior para as pessoas que querem entrar no campo, os egressos
de assentamentos rurais. Temos aí um desafio que
não é de mera distribuição
de terras, é um desafio de incorporação
econômica dessas pessoas e famílias ao mercado
e isso está sendo tocado pelo Ministério
do Desenvolvimento Agrário. A reforma agrária,
evidentemente, tem um papel de acomodação
mas o grande potencial de geração de empregos
no campo vem dessa agricultura de pequenos, médios
ou grandes produtores mas que estão integrados
ao mercado, às diversas cadeias produtivas, esse
é o foco principal: dotá-los de insumos
modernos, de assistência técnica, enfim,
das condições de competirem e crescerem
no mercado.
Portal - O
que o sr. acha desse modelo de reforma agrária
que tem sido feito no Brasil até agora?
Ivan
Wedekin:
O
governo está reavaliando todos esses programas,
tanto é que não se lançou, nem no
ano passado nem nesse ano, programas de assentamentos
maciços, numerosos, porque quer se priorizar a
qualidade dos assentamentos ao invés da quantidade.
Portal - Outra
questão é a ambiental, que é um condicionante
cada vez mais importante no desenvolvimento agropecuário
e é uma questão que é levantada inclusive
como barreira à expansão das exportações.
Na elaboração da política agropecuária
do governo, que peso é dado a esse fator?
Ivan
Wedekin:
Primeiro
a gente tem que ter em mente que o Brasil pratica uma
agricultura, em boa parte, sustentável. O Brasil
é um país grande mas o grosso da agricultura
brasileira está sendo feita em bases sustentáveis.
Outros países do mundo, na Europa e mesmo nos Estados
Unidos, fizeram programas de desequilíbrios da
suas florestas muito mais relevantes do que o Brasil.
O Brasil tem uma vantagem importante: o potencial de expansão
da agricultura está em cima de áreas já
abertas, principalmente na área de pastagem. A
área plantada com grãos no Brasil estava
estagnada em torno de 38 milhões de hectares até
três safras atrás e nas últimas três,
incluindo agora a de 2003/2004 nós tivemos um aumento
de área plantada de 9,5 milhões de hectares,
aproximadamente. A maior parte desse incremento veio em
cima de áreas de pastagem porque nós também
temos programas, como o Moderagro, um programa de investimento
do Ministério gerenciado pelo BNDES, que está
financiando a integração da agricultura
com a pecuária, a renovação de pastagens
e a recuperação de pastagens degradadas.
Essa expansão de 9,5 milhões de hectares
tem sido feita em áreas que já estavam abertas
e portanto com baixo investimento e com reduzidíssimo
impacto ambiental. Afora isso, nesse próximo plano
de safra nós estaremos incorporando entre os itens
financiáveis a adequação das propriedades
às exigências ambientais. As questões
de reflorestamento, de recomposição de matas
ciliares estarão sendo objeto desse plano no sentido
que o Brasil estará recuperando suas áreas
e dando indicações para o mundo de que nós
temos uma agricultura em bases sustentáveis e que
podemos contribuir para a alimentação do
mundo com baixo impacto sobre o nosso ecosistema.
Portal - Em
quê a política agropecuária do governo
atual se diferencia daquela implementada pelo governo
Fernando Henrique?
Ivan
Wedekin:
Basicamente
não se está inventando a roda, o que estamos
fazendo é aperfeiçoando os mecanismos já
existentes. Nós temos uma legislação
de crédito rural dos anos 60, 70, e estamos aperfeiçoando
os mecanismos de crédito rural dos programas de
investimento, simplificando as operações
e criando instrumentos novos dentro do conceito de soluções
de mercado e aí estamos falando de financiamento
do setor agroindustrial e agropecuário através
dos fundos de investimento do agronegócio, das
letras de comércio agrícola. Estamos reduzindo
o risco da atividade rural com a aprovação,
em dezembro, da lei do seguro agrícola e com o
aperfeiçoamento dos mecanismos de intervenção
do governo no mercado, não apenas por conta de
limitações orçamentárias mas
porque nós precisamos colocar cada vez mais o setor
privado tendo uma atuação importante na
comercialização da safra agrícola.
E um outro ponto extremamente importante é que
está se fazendo um direcionamento maior para os
pequenos produtores, para a agricultura familiar. Apenas
no segundo semestre do ano passado foram aplicados 3 bilhões
de reais no Pronaf. Houve todo um direcionamento das ações
do governo para essa agricultura familiar, embora a agricultura
comercial, integrada ao mercado, esteja merecendo aí
uma prioridade, não apenas do ponto de vista do
crédito. O nosso desafio é, através
desses novos mecanismos, ampliar a inclusão econômica
e social dos agricultores em benefício da sociedade
e dos consumidores.
Portal -
Embora a agricultura tenha um tratamento diferenciado
em juros de custeio e para alguns equipamentos, a compra
de insumos, a comercialização, elas perdem
poder de competitividade por causa dos juros. O sr. considera
a redução de juros uma condição
necessária para a melhoria do resultado da atividade
agropecuária?
Ivan
Wedekin:
O
Brasil está caminhando a um ajuste fiscal para
reduzir a taxa de juros da economia e com isso reduzir
o custo de se fazer negócios no país. A
taxa de juros é uma peça extremamente importante
e hoje em dia o setor produtivo brasileiro, agropecuário
ou não, corre riscos extremamente elevados porque
temos uma taxa de juros na economia acima da taxa de rentabilidade
dos negócios. É fundamental a redução
da taxa de juros na economia e se reduzindo o custo do
negócio teremos mais condições de
ampliar nossa base produtiva agropecuária, agroindustrial
e de todos os setores e com isso ampliar o volume de empregos
e a renda do país. Então nesse aspecto é
fundamental, o cenário macro é determinante
principalmente para o setor agrícola que é
sujeito além dos riscos financeiros a riscos de
pragas, de doenças e do clima. Toda a política
agrícola está em harmonia com a política
macroeconômica no sentido de também dotar
o setor agropecuário das condições
de se mover e se movimentar cada vez mais dentro do mercado,
inserindo a agricultura no mercado de capitais e, com
isso, reduzindo o custo do dinheiro para o agronegócio
como um todo e permitindo com isso uma redução
do custo de produção, em paralelo a todos
os esforços de aumento de escala, de incorporação
de tecnologia, o que vai fazer com que o Brasil ser ainda
mais competitivo no cenário internaciona, melhorar
a qualidade dos produtos e ampliar a nossa base de consumidores
dentro do país.
Portal - Os
produtores reclamam que a agricultura de outros países
é fortemente subsidiada, questão que permeia
as discussões da ALCA e OMC. O Brasil optou por
uma linha diferente, de inserir o setor, cada vez mais,
no mercado de capitais. Como o governo analisa essa questão?
Ivan
Wedekin:
No
Brasil existe um tratamento preferencial para o setor
rural, por exemplo, ele é um dos poucos setores
que tem uma taxa de juros bem abaixo da taxa de juros
da economia. Isso mostra que, historicamente, se tem dado
um tratamento preferencial à agricultura e esse
governo tem feito esforços para ampliar o volume
de recursos a taxas de juros mais baixas, pré-fixadas
e com prazo longo de financiamento como são os
programas de investimentos. Evidentemente existem alguns
subsídios feitos pelo Tesouro Nacional mas infinitamente
abaixo do que os países ricos o fazem porque o
Tesouro não tem recursos para amparar o setor produtivo.
Nesse aspecto os agricultores sabem dessa situação
e têm feito seus esforços, ali na microeconomia
da fazenda para reduzir seus custos de produção,
melhorar a qualidade, ganhar eficiência e melhorar
o seu gerenciamento. Por outro lado, o governo brasileiro
tem feito um papel extremamente importante, em alguns
aspectos até de liderança, como é
o caso do G-20, de uma firme defesa dos interesses do
agronegócio nas complexas, difíceis e lentas
negociações internacionais. O agronegócio
é prioritário para as negociações
internacionais no sentido de que precisamos ter mais acesso
aos mercados no mundo todo, não podemos aceitar
a competição desleal de países que
subsidiam as suas exportações e nem mesmo
daqueles países que, ao protegerem suas agriculturas
com medidas de apoio interno, acabam extravasando o impacto
dessas medidas e afetando os preços internacionais.
Para isso o Brasil está com uma ação
na OMC contra a política dos Estados Unidos para
o algodão e uma ação na também
na OMC contra a política açucareira da União
Européia. São duas ações que
estão batendo no coração do protecionismo
dos países ricos no campo agrícola. Além
disso é fundamental uma ação do setor
privado, além das ações conjuntas
do setor privado com o governo nas negociações
internacionais. É preciso uma ênfase ainda
maior do setor privado na abertura de novos mercados,
no marketing internacional, na prestação
de serviços aos importadores que é uma maneira
fundamental para a ampliação das nossas
exportações, portanto é um trabalho
conjunto entre o setor público e o privado e obviamente
no interesse das cadeias produtivas do agronegócio
e dos consumidores do país.
Portal do Fazendeiro
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