NOTÍCIAS - ENTREVISTAS
Editorias
» Internacionais
» Política Rural
» Panorama Econômico
» Agricultura
» Fruticultura
» Horticultura
» Plantas e Flores
» Pecuária
» Avicultura
» Suinocultura
» Eqüinos
» Piscicultura
» Diversos
»Últimas Notícias
»Notícias sobre o Portal
»Avisos
 


ENTREVISTAS

Ivan Wedekin
secr. de Política Agrícola

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ivan Wedekin, é engenheiro agrônomo, formado pela Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, da USP, pós-graduado em Desenvolvimento Agrícola pela Fundação Getúlio Vargas, com treinamento em Agribusiness na Universidade de Harvard e treinamento gerencial na American Management Association. Autor de vários livros sobre o tema, Wedekin também trabalhou em consultoria privada e na empresa Agroceres. Como professor, coordena o curso de pós-graduação em agribusiness da FGV e é convidado do PENSA - Programa de Estudos sobre os Negócios do Sistema Agroindustrial da Faculdade de Economia e Administração da USP. Foi diretor executivo da Sociedade Rural Brasileira e é diretor do Instituto de Estudos de Agribusiness da ABAG - Associação Brasileira de Agribusiness. Edita a revista Agroanalysis.

Portal - A safra de 2004 promete bater outro recorde, a exemplo de anos anteriores. A que o sr. atribui o crescente aumento da produção agropecuária brasileira?


Ivan Wedekin: Há alguns fatores importantes. Em primeiro lugar, o investimento em tecnologia pelos produtores que têm batido recordes ano a ano de utilização de insumos modernos. O consumo de fertilizantes mais do que dobrou nos últimos 10 anos, o lançamento de novas variedades de sementes, enfim tem todo um aspecto tecnológico importante. O segundo fator relevante é a desvalorização cambial feita em 1999 e que criou um novo patamar: agronegócio é câmbio. A desvalorização permitiu que as exportações gerassem um saldo na balança comercial que, praticamente, dobrou, passou de 13, 14 bilhões de dólares por ano em 94, 95, para 26 bilhões de dólares atualmente. Então, agronegócio é câmbio. O terceiro fator foi a solução dada pelo governo passado no sentido de fazer o alongamento da dívida dos produtores rurais: 27 bilhões de reais que foram rolados a longo prazo, o que permitiu, em conjunto com os dois outros fatores anteriores, criar um potencial de crescimento importante do agronegócio brasileiro. Quarto item: o conjunto de políticas do governo, aumento do volume de crédito rural. Embora sempre escasso, o crédito praticamente dobrou nos últimos três anos para ao produtor. Houve também o lançamento de programas de modernização, como o Moderfrota.


Portal - Esse crescimento não estaria chegando ao seu limite pela própria carência de infra-estrutura do País, como falta de portos, estradas intransitáveis, etc? Até que ponto essa infra-estrutura deficiente pode comprometer o crescimento da produção brasileira?


Ivan Wedekin:
A infra-estrutura é essencial porque nós estamos falando de produtos agrícolas, de commodities que, em geral, são produtos de baixo valor agregado. Uma tonelada de soja vale em torno de 200 dólares, uma tonelada de carro popular vale 5 mil dólares, só para a gente sentir a diferença de valor agregado. O fato é que o Brasil tem baixado os custos de distribuição. Dez anos atrás se gastava 80 dólares para se trazer uma tonelada de soja do Mato Grosso ao porto e hoje isso está em 35 dólares por tonelada. Esse foi um êxito feito no passado mas nós temos uma pressão enorme que vai demandar um volume grande de investimento no agronegócio, vamos ter problemas de perda, eventualmente, de alguma competitividade mas isso certamente o mercado e com as ações do governo tratarão de resolver no horizonte aí de 5, 10 anos.


Portal - O governo anunciou grandes cortes no orçamento, inclusive dos recursos destinados à agricultura. Até que ponto essa redução de recursos pode comprometer as metas da política agrícola?


Ivan Wedekin: A questão tem dois ângulos: um é o lado do orçamento do Ministério da Agricultura que está sob contingenciamento, uma parte desses recursos está sendo contingenciada em função de que o governo entende que há uma insegurança do lado das receitas e para isso ele está cortando ou controlando o ritmo de suas despesas. O fato é que em relação ao ano passado vai haver um aumento do orçamento do Ministério da Agricultura e com isso ele poderá fazer mais ações relevantes principalmente na parte da defesa sanitária. No ano passado recursos tiveram que ser subtraídos dessa área da defesa sanitária para comporem, digamos, o custeio da máquina do Ministério da Agricultura. Esse ano o orçamento será significativamente ampliado embora, no momento, ele esteja contingenciado. O importante nessa linha sanitária é que sejam criados, à semelhança do que existe em alguns estados, fundos privados para junto com o orçamento publico fazerem esse trabalho de "blindagem" da agropecuária nacional, do risco sanitário que tem se espalhado pelo mundo afora e que vem se traduzindo numa grande oportunidade para o agronegócio brasileiro. Talvez nesse campo, Deus tenha sido brasileiro nesses últimos anos porque enquanto o mundo sofre com a vaca louca, com a gripe do frango, nós pelo menos nessa parte animal estamos bem protegidos, apesar do fenômeno recente da ferrugem da soja. O segundo lado do orçamento é o orçamento para a execução da política agrícola, que é o chamado orçamento das operações oficiais de crédito, que é um volume de recursos que o Tesouro Nacional mobiliza para execução da política agrícola. Aqui, nesse campo, nosso orçamento deste ano é muito limitado, ele é um terço do que era há três anos, o que dificultará a execução de medidas de apoio à comercialização da safra como o lançamento de contratos de opção do governo mas nós estamos também trabalhando numa linha de lançamento de contratos de opção pelo setor privado, num trabalho junto com o governo.

Portal - Qual é o montante que o Ministério dispõe para esse tipo de atividades?


Ivan Wedekin:
Esses números são sigilosos.

Portal - Quais são os principais pontos do Plano Safra 2004/2005 que o governo pretende lançar agora no primeiro semestre?

Ivan Wedekin: O objetivo é continuar alavancando o crescimento do agronegócio brasileiro. O que se pretende é o aperfeiçoamento dos instrumentos hoje disponíveis no agronegócio, melhorando o funcionamento do sistema nacional de crédito rural, azeitando ainda mais os programas de investimento. Em 2002 o Ministério da Agricultura tinha 18 programas de investimento gerenciados pelo BNDES. No Plano Safra em vigor nós reduzimos de 18 para 8 para fazer uma simplificação operacional, padronizar os programas, de modo a que os bancos tivessem mais facilidade operacional nos empréstimos. A idéia era ter reduzido ainda mais mas não foi possível porque esses programas tem prazos diferentes, taxas de juros diferentes, spreads bancários diferentes que impediram uma aglutinação maior nesses programas. Então nós estamos trabalhando na linha da simplificação do crédito rural, da facilitação das operações, da perenização de algumas políticas agrícolas que nos livre de termos que toda hora estar recorrendo a decisões do Conselho Monetário Nacional, essa linha é melhorar o já existente. Uma outra linha é de inovações, de criar novos mecanismos que facilitem o funcionamento do agronegócio, como são as opções privadas, o fundos de investimento no agronegócio e as letras de comércio agrícola para usar três iniciativas que estão trabalhando nessa direção..


Portal - O setor agropecuário está distanciado do mercado financeiro, não existem muitos produtos específicos para o segmento. O sr. pode detalhar essas novas iniciativas?


Ivan Wedekin: O objetivo central é inserir cada vez mais a agricultura no mercado de capitais. Nós temos uma limitação do crédito rural, o agronegócio tem crescido mais do que os depósitos à vista. O sistema de crédito rural é lastreado nos depósitos à vista, em que os bancos têm que aplicar 25% desses depósitos em crédito rural e o Banco do Brasil, que tem a caderneta de poupança rural, tem que aplicar 40% em crédito rural. Então esse é o núcleo do sistema de crédito rural. Como ele é baseado na poupança e nos depósitos à vista, que não estão crescendo na mesma proporção do agronegócio, precisamos criar fontes adicionais de canalização de recursos para alavancar esse crescimento do agronegócio. Uma das iniciativas, e aí nós não estamos inventando a roda, é a criação dos fundos de investimento do agronegócio, à semelhança do que já existe hoje dos fundos de investimentos imobiliários e a idéia seria o lançamento desses fundos de maneira que se pudesse carrear mais recursos para o agronegócio e liberar uma parte dos recursos que estão sendo aplicados através do sistema oficial de crédito rural. Nós estamos fazendo consultas com todo o mercado, ouvindo BM&F, Febraban, Ambid, que á a associação dos bancos de investimento, gestores de carteira, CVM, e esperamos, ao longo desse ano, alavancar a criação desses fundos que são fundos privados que podem ser criados por cooperativas, agroindústrias, empresas de insumos e instituições financeiras, como já existem hoje alguns casos em andamento.


Portal - E as letras de comércio agrícola?


Ivan Wedekin: Os fundos de investimento têm o objetivo de captar a poupança interna. Temos um cenário de redução da taxa de juros, de maneira que os gestores dos fundos de investimentos, das carteiras que estão muito dependentes de empréstimos ao governo, entendem que será necessário uma diversificação de carteira e, portanto, esses fundos de investimento têm o objetivo de juntar as duas coisas: interesse dos investidores e interesses do agronegócio em ter outras alternativas de financiamento. Então os FIAS são para captar a poupança interna. As letras de comércio agrícola têm o objetivo de captar a poupança externa, ou seja, atrai recursos do exterior através da criação desse título de letra do comércio agrícola, que é um título comercial com lastro em produto agrícola a ser emitido por produtores, cooperativas ou agroindústrias, notadamente ligados ao ramo da exportação. Com isso nós estamos querendo trazer dinheiro do mercado internacional, cujos investidores estão tendo rendimentos de 1%, 2% a 3% ao ano para aplicar aqui numa atividade de risco, portanto sem taxa pré-fixada, para financiar o agronegócio.


Portal - A agropecuária e a agroindústria têm conseguido resultados na economia mais expressivos do que a indústria e o setor de serviços. O sr. acha que, com o tempo, esses segmentos podem se tornar indutores do desenvolvimento, ao contrário dos últimos 50 anos, durante os quaisa indústria sempre puxou o desenvolvimento econômico?


Ivan Wedekin: Na verdade, se a gente for olhar na origem, todo o desenvolvimento agroindustrial brasileiro, principalmente a partir dos anos 30, até os anos 80, foi financiado com recursos da agricultura, do setor rural. A industrialização brasileira foi feita com recursos transferidos pelo setor produtivo rural através de diversos mecanismos, como controle cambial, cotas, contingenciamentos, tabelamentos e que carrearam esses recursos para financiar a urbanização e a industrialização do Brasil. Essa fase já foi vencida, hoje as transferências de renda da agricultura para o setor urbano industrial não acontece mais e também não temos o fenômeno contrário que é os consumidores subsidiarem os agricultores como é o caso da maioria dos países ricos, cujas agriculturas são altamente protegidas. Aqui no Brasil não há subsídio ao setor rural da mesma forma como não existem mecanismos de vazamento de rendas. Então nós temos uma agricultura em choque competitivo e uma agricultura que é relevante, é um dos elementos de desenvolvimento nacional, não é o único, representa 25% do PIB brasileiro, existem outros setores, de alta tecnologia, de aviação, de máquinas e equipamentos, de construção civil, que têm também o papel de alavancar o desenvolvimento brasileiro. Por ser o setor mais aberto e exposto à concorrência internacional, a agricultura tem um papel importante na geração do aumento de exportações e de salto na balança comercial, além do papel de abastecer de alimentos, vestuário e energia os consumidores brasileiros. Embora se dê muita ênfase ao aspecto exportador do agronegócio, 80% do PIB do agronegócio é consumido no Brasil e 20% é exportado. A importância da agricultura também se deve ao papel de interiorização do desenvolvimento que ela promove por ser a base desse desenvolvimento e gerar o crescimento da indústria e dos serviços no campo e nas cidades de apoio. Ainda nos próximos 20 anos a agricultura exercerá um papel crítico e importante para o país.


Portal - Apesar do sr. ter dito que muitos dos recursos para a industrialização do país têm origem na atividade agrícola, é inegável que a visão do desenvolvimento como um desenvolvimento industrial prevaleceu nas últimas décadas. Isso revela um certo preconceito, uma certa visão que deixa em segundo plano a agricultura. O sr. acha que existe a necessidade de uma mudança na visão que a sociedade brasileira tem do papel da agricultura?


Ivan Wedekin: A conta do desenvolvimento urbano industrial brasileiro já foi paga pela agricultura, essa etapa já está vencida. Hoje nós já estamos em outro momento histórico super importante que é a consciência do setor urbano industrial quanto à importância do agronegócio brasileiro para o crescimento do país, para a geração de empregos. Hoje já é um consenso na sociedade de que o agronegócio é um elemento dinâmico para o país, para a geração de renda, para ampliação do volume de empregos e que isso foi feito com base na eficiência, embora existam ainda desigualdades no campo brasileiro, portanto o que se vê pelo reflexo da cobertura da mídia, é que estamos hoje remando todos na mesma direção, com o agronegócio desempenhando um papel importante para o desenvolvimento nacional.


Portal - O setor de exportações é o que tem obtido os melhores resultados nos últimos anos. Isso não deixa o Brasil muito dependente em relação aos mercados internacionais?


Ivan Wedekin: Pode deixar circunstancialmente porque o Brasil é o número um nas exportações de café, de açúcar, de suco de laranja, de carne bovina, do complexo soja, quer dizer, o Brasil tem um papel importante no comércio internacional mas mesmo em números agregados, o Brasil representa 4% do comércio do agronegócio mundial. O Brasil é grande e é pequeno ao mesmo tempo, o que mostra que nós temos possibilidade de expansão das nossas exportações, ampliando o número de países de destino de nossas mercadorias, ampliando a pauta exportadora, trabalhando em nichos e outros segmentos de mercado, então tem um potencial. Eu diria que o mercado externo não é risco para o Brasil, ele é oportunidade no sentido de que, se nós temos uma demanda de 80 para o mercado interno e de 20 para as exportações, ambos, o conjunto de 100, acaba reduzindo o risco da nossa atividade. Mas estamos sujeitos ao risco do mercado, já que nós estamos falando de commodities, sujeitas a grandes variações de preços.


Portal - Existem dois setores distintos: esse setor voltado à exportação, com uma alta tecnologia e, do outro lado, uma agricultura familiar que enfrenta inúmeros problemas. Como é possível integrar esses dois segmentos?


Ivan Wedekin: Essa dualidade existe mais no discurso do que na prática porque, na verdade, 90% das propriedades agrícolas brasileiras têm menos de 100 hectares e essas propriedades representam 43% do valor da produção agropecuária. Não há conflito entre grande e pequeno produtor. Toda a agricultura brasileira é, basicamente, uma agricultura de base familiar, seja produtor pequeno ou grande mas são unidades de negócio de gestão familiar, então não há esse conflito, da mesma forma como nós temos pequenos produtores integrados ao mercado. O fundamental não é a divisão entre exportação e mercado interno e nem entre grandes produtores ou médios e grandes produtores, o fundamental é a integração desses produtores ao mercado. Nós temos, por exemplo, na avicultura de Santa Catarina que é, predominantemente, uma avicultura de pequenos produtores mas que estão, através do mecanismo da integração, perfeitamente conectados ao mercado e com um padrão de vida, mesmo sendo pequenos produtores, superior a boa parte da população urbana brasileira. Não há conflito, há uma comunhão de interesses entre os mercados internos e os mercados internacionais. Temos que ter, obviamente, políticas direcionadas para um segmento mais pobre da população e aí entram alguns programas de governo que devem ser desenhados para atender regiões específicas onde há mais pobreza rural, no sentido de, através da integração desses produtores ao mercado, reduzir as disparidades regionais e pessoais de renda no país.


Portal - A pressão social pela reforma agrária tende a criar um contingente novo de propriedades familiares. O sr. considera possível elevar a produtividade, integrar essas novas propriedades, vindas de assentamentos, ao mercado de maneira a viabiliza-las economicamente?


Ivan Wedekin: Esse é um desafio importante porque nós temos um contingente de 4,5 milhões de produtores rurais, nosso desafio é apóia-los para que permaneçam na atividade. Para isso existem diversos programas no governo, como o Pronaf, o Proger Rural e as próprias ações sociais do governo, inclusive do Programa fome Zero. Temos aqui um desafio de manutenção dessas pessoas no campo e de integração à atividade produtiva. Esse desafio é ainda maior para as pessoas que querem entrar no campo, os egressos de assentamentos rurais. Temos aí um desafio que não é de mera distribuição de terras, é um desafio de incorporação econômica dessas pessoas e famílias ao mercado e isso está sendo tocado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. A reforma agrária, evidentemente, tem um papel de acomodação mas o grande potencial de geração de empregos no campo vem dessa agricultura de pequenos, médios ou grandes produtores mas que estão integrados ao mercado, às diversas cadeias produtivas, esse é o foco principal: dotá-los de insumos modernos, de assistência técnica, enfim, das condições de competirem e crescerem no mercado.


Portal - O que o sr. acha desse modelo de reforma agrária que tem sido feito no Brasil até agora?



Ivan Wedekin: O governo está reavaliando todos esses programas, tanto é que não se lançou, nem no ano passado nem nesse ano, programas de assentamentos maciços, numerosos, porque quer se priorizar a qualidade dos assentamentos ao invés da quantidade.


Portal - Outra questão é a ambiental, que é um condicionante cada vez mais importante no desenvolvimento agropecuário e é uma questão que é levantada inclusive como barreira à expansão das exportações. Na elaboração da política agropecuária do governo, que peso é dado a esse fator?


Ivan Wedekin: Primeiro a gente tem que ter em mente que o Brasil pratica uma agricultura, em boa parte, sustentável. O Brasil é um país grande mas o grosso da agricultura brasileira está sendo feita em bases sustentáveis. Outros países do mundo, na Europa e mesmo nos Estados Unidos, fizeram programas de desequilíbrios da suas florestas muito mais relevantes do que o Brasil. O Brasil tem uma vantagem importante: o potencial de expansão da agricultura está em cima de áreas já abertas, principalmente na área de pastagem. A área plantada com grãos no Brasil estava estagnada em torno de 38 milhões de hectares até três safras atrás e nas últimas três, incluindo agora a de 2003/2004 nós tivemos um aumento de área plantada de 9,5 milhões de hectares, aproximadamente. A maior parte desse incremento veio em cima de áreas de pastagem porque nós também temos programas, como o Moderagro, um programa de investimento do Ministério gerenciado pelo BNDES, que está financiando a integração da agricultura com a pecuária, a renovação de pastagens e a recuperação de pastagens degradadas. Essa expansão de 9,5 milhões de hectares tem sido feita em áreas que já estavam abertas e portanto com baixo investimento e com reduzidíssimo impacto ambiental. Afora isso, nesse próximo plano de safra nós estaremos incorporando entre os itens financiáveis a adequação das propriedades às exigências ambientais. As questões de reflorestamento, de recomposição de matas ciliares estarão sendo objeto desse plano no sentido que o Brasil estará recuperando suas áreas e dando indicações para o mundo de que nós temos uma agricultura em bases sustentáveis e que podemos contribuir para a alimentação do mundo com baixo impacto sobre o nosso ecosistema.



Portal - Em quê a política agropecuária do governo atual se diferencia daquela implementada pelo governo Fernando Henrique?


Ivan Wedekin:
Basicamente não se está inventando a roda, o que estamos fazendo é aperfeiçoando os mecanismos já existentes. Nós temos uma legislação de crédito rural dos anos 60, 70, e estamos aperfeiçoando os mecanismos de crédito rural dos programas de investimento, simplificando as operações e criando instrumentos novos dentro do conceito de soluções de mercado e aí estamos falando de financiamento do setor agroindustrial e agropecuário através dos fundos de investimento do agronegócio, das letras de comércio agrícola. Estamos reduzindo o risco da atividade rural com a aprovação, em dezembro, da lei do seguro agrícola e com o aperfeiçoamento dos mecanismos de intervenção do governo no mercado, não apenas por conta de limitações orçamentárias mas porque nós precisamos colocar cada vez mais o setor privado tendo uma atuação importante na comercialização da safra agrícola. E um outro ponto extremamente importante é que está se fazendo um direcionamento maior para os pequenos produtores, para a agricultura familiar. Apenas no segundo semestre do ano passado foram aplicados 3 bilhões de reais no Pronaf. Houve todo um direcionamento das ações do governo para essa agricultura familiar, embora a agricultura comercial, integrada ao mercado, esteja merecendo aí uma prioridade, não apenas do ponto de vista do crédito. O nosso desafio é, através desses novos mecanismos, ampliar a inclusão econômica e social dos agricultores em benefício da sociedade e dos consumidores.


Portal - Embora a agricultura tenha um tratamento diferenciado em juros de custeio e para alguns equipamentos, a compra de insumos, a comercialização, elas perdem poder de competitividade por causa dos juros. O sr. considera a redução de juros uma condição necessária para a melhoria do resultado da atividade agropecuária?


Ivan Wedekin: O Brasil está caminhando a um ajuste fiscal para reduzir a taxa de juros da economia e com isso reduzir o custo de se fazer negócios no país. A taxa de juros é uma peça extremamente importante e hoje em dia o setor produtivo brasileiro, agropecuário ou não, corre riscos extremamente elevados porque temos uma taxa de juros na economia acima da taxa de rentabilidade dos negócios. É fundamental a redução da taxa de juros na economia e se reduzindo o custo do negócio teremos mais condições de ampliar nossa base produtiva agropecuária, agroindustrial e de todos os setores e com isso ampliar o volume de empregos e a renda do país. Então nesse aspecto é fundamental, o cenário macro é determinante principalmente para o setor agrícola que é sujeito além dos riscos financeiros a riscos de pragas, de doenças e do clima. Toda a política agrícola está em harmonia com a política macroeconômica no sentido de também dotar o setor agropecuário das condições de se mover e se movimentar cada vez mais dentro do mercado, inserindo a agricultura no mercado de capitais e, com isso, reduzindo o custo do dinheiro para o agronegócio como um todo e permitindo com isso uma redução do custo de produção, em paralelo a todos os esforços de aumento de escala, de incorporação de tecnologia, o que vai fazer com que o Brasil ser ainda mais competitivo no cenário internaciona, melhorar a qualidade dos produtos e ampliar a nossa base de consumidores dentro do país.


Portal - Os produtores reclamam que a agricultura de outros países é fortemente subsidiada, questão que permeia as discussões da ALCA e OMC. O Brasil optou por uma linha diferente, de inserir o setor, cada vez mais, no mercado de capitais. Como o governo analisa essa questão?



Ivan Wedekin:
No Brasil existe um tratamento preferencial para o setor rural, por exemplo, ele é um dos poucos setores que tem uma taxa de juros bem abaixo da taxa de juros da economia. Isso mostra que, historicamente, se tem dado um tratamento preferencial à agricultura e esse governo tem feito esforços para ampliar o volume de recursos a taxas de juros mais baixas, pré-fixadas e com prazo longo de financiamento como são os programas de investimentos. Evidentemente existem alguns subsídios feitos pelo Tesouro Nacional mas infinitamente abaixo do que os países ricos o fazem porque o Tesouro não tem recursos para amparar o setor produtivo. Nesse aspecto os agricultores sabem dessa situação e têm feito seus esforços, ali na microeconomia da fazenda para reduzir seus custos de produção, melhorar a qualidade, ganhar eficiência e melhorar o seu gerenciamento. Por outro lado, o governo brasileiro tem feito um papel extremamente importante, em alguns aspectos até de liderança, como é o caso do G-20, de uma firme defesa dos interesses do agronegócio nas complexas, difíceis e lentas negociações internacionais. O agronegócio é prioritário para as negociações internacionais no sentido de que precisamos ter mais acesso aos mercados no mundo todo, não podemos aceitar a competição desleal de países que subsidiam as suas exportações e nem mesmo daqueles países que, ao protegerem suas agriculturas com medidas de apoio interno, acabam extravasando o impacto dessas medidas e afetando os preços internacionais. Para isso o Brasil está com uma ação na OMC contra a política dos Estados Unidos para o algodão e uma ação na também na OMC contra a política açucareira da União Européia. São duas ações que estão batendo no coração do protecionismo dos países ricos no campo agrícola. Além disso é fundamental uma ação do setor privado, além das ações conjuntas do setor privado com o governo nas negociações internacionais. É preciso uma ênfase ainda maior do setor privado na abertura de novos mercados, no marketing internacional, na prestação de serviços aos importadores que é uma maneira fundamental para a ampliação das nossas exportações, portanto é um trabalho conjunto entre o setor público e o privado e obviamente no interesse das cadeias produtivas do agronegócio e dos consumidores do país.

 


Portal do Fazendeiro

Envie essa entrevista
para um amigo



 
   
Notícias | Previsão do Tempo | Cotações | Classificados | Eventos | Publicações