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Renato
Junqueira Meirelles Pecuarista
e membro do Conselho Deliberativo da Bolsa de Parcerias e Arrendamento de Terras
Renato Junqueira Meirelles
é paulista de São Joaquim da Barra e reside em Presidente Prudente.
Formado em Direito pela USP e em Administração de Empresas pela
Fundação Getúlio Vargas, trabalhou como advogado até
1968, quando passou a se dedicar exclusivamente à pecuária. É
proprietário de fazendas em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso e São
Paulo e integra o Conselho Deliberativo da Bolsa de Parcerias e Arrendamento
de Terras. Fundada em 1985, a Bolsa
tem sede em Uberaba (MG) e promove a aproximação entre empreendedores
interessados na expansão de suas atividades através de parcerias
ou de arrendamentos. A entidade também auxilia o desenvolvimento de municípios
interioranos, onde a produção primária é pequena,
mobilizando proprietários de terras sub-utilizadas e atraindo agricultores
profissionais para instalação de suas atividades nessas localidades.
Junqueira atua como colaborador financeiro da Bolsa de Parcerias de Arrendamento
de Terras, especificamente na região oeste paulista.
Portal -
As experiências positivas das Bolsas de Arrendamento e Parcerias podem ser
encaradas como uma alternativa à distribuição de terras para
a reforma agrária?
Meirelles:
Acreditamos que sim, ou seja, em mãos de agricultores verdadeiramente vocacionados,
profissionalizados e graduados na faculdade da produção rural, como
são os arrendatários ou parceiros que surgiram após o advento
da bolsa de arrendamento. Louve-se e reconheça-se o extraordinário
valor e mérito na matéria, ao Dr. José Humberto Guimarães,
que lá da longínqua Uberaba-MG, há bastante tempo, cultivou
esta semente extraordinária, de cultivo e recuperação de
solos degradados, através de arrendatários profissionais. Neste
sentido, a bolsa de arrendamento de terras para cultivo de lavouras e recuperação
de solo degradado é uma significativa alternativa à distribuição
de terras para a reforma agrária. Não a única e exclusiva,
eis que, entremeio milhares e milhares de assentados, há aqueles que dedicam
ao solo, o carinho que ele merece. Na maioria dos escassos exemplos correntes,
os assentados levaram seus filhos a uma escola profissionalizante (colégios
agrícolas) e lá obtiveram uma luz de conhecimentos mais atualizados.
A sociedade e o governo federal nada temeriam de desgastes na promoção
da distribuição de terras, se os assentados se assemelhassem aos
arrendatários ou parceiros. Lamentavelmente, não é isto que
acontece.
Portal -
Qual a diferença
entre parceria e arrendamento? Meirelles:
Nenhuma. Apenas na maneira de retorno financeiro ao proprietário do imóvel.
O parceiro proprietário é companheiro no sucesso ou no fracasso
do cultivo. O arrendatário não sofre da agonia... Daí dever
ser bem menos remuneradora esta última atividade. Portal -
Qual é a modalidade
mais apropriada para os trabalhadores sem terra?Meirelles:
A modalidade mais apropriada para o trabalhador rural sem terra é a mesma
do trabalhador "com terra". Labutar sempre, sempre, assistido e orientado
por técnicos na matéria. Cultivar o solo corrigido, protegido, utilizando
sementes apropriadas para o tipo de solo, região do cultivar, merecendo
adubação e defensivos adequados. E isto não é indicativo
para os "sem terra", mas para todos, absolutamente todos que se dedicam
ao amanho do solo. Aqui em Presidente Prudente (SP), temos uma ONG-Proderpp, Núcleo
de Desenvolvimento da Região de Presidente Prudente, estabelecida à
rua Julio Prestes 558, onde se reúnem pessoas das mais diversas atividades
(professores universitários de nossas faculdades, promotores e procuradores
de justiça, advogados, engenheiros, empresários rurais, etc) buscando
diagnosticar os problemas mais graves da região, oferecendo saídas
e buscando solução para os mesmos. Ainda recentemente, levamos à
discussão do grupo, a extraordinária e fundamental importância
para o aproveitamento dos alunos dos colégios agrícolas de toda
a nossa região e até mesmo do Brasil. Em Presidente Prudente, atualmente
existe escola profissionalizante da indústria (Sesi/Senai), do comércio
(Senac) e de serviços e transportes (Sest), além do colégio
agrícola, com três centenas de alunos. Acontece que toda a 10ª
região, da Alta Sorocabana possui mais de 2 milhões de hectares
de terras, sendo portanto, o local mais carente de mão-de-obra especializada
em tarefas do campo, muitíssimo maior e mais importante do que as outras
atividades há pouco referidas. Isto sem nos atermos à circunstância
de que, na região do pontal do Paranapanema agrega o maior número
de assentamentos rurais de todo o país. Sugerimos ao grupo de trabalho
na ong, que emprestássemos toda a colaboração, estímulo
e assistência ao colégio agrícola local e principalmente,
ouvidas as demais entidades locais, solicitássemos ao Instituto de Terras
de São Paulo (Itesp), um aproveitamento total desta mão-de-obra,
confiando a cada técnico ali preparado. Um grupo de dez ou vinte famílias
assentadas sob a orientação e vigilância permanente do profissional
indicado no sentido de acompanhá-los e indicar a melhor maneira de cultivo
e aproveitamento do quinhão recebido. Se tal acontecesse, com reais e efetivos
benefícios a toda a comunidade - Estado, Município e cidades,- pela
eliminação da fraude fiscal e proteção ao terreno
recebido. Desta maneira, a modalidade mais indicada para o trabalhador rural,
dada a sua baixa escolaridade e familiaridade com as novas técnicas agrícolas,
seria uma constante assistência por quem estivesse capacitado a fornecê-la.
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Como é
o funcionamento dessas bolsas? Elas oferecem terras acessíveis a qualquer
tipo de produtor e atividade e podem ser utilizadas por sem terras?Meirelles:
O proprietário rural que detiver área de pastagem degradada e com
suporte de animais muito baixo, procura a "bolsa de arrendamento", descreve
e localiza o seu quinhão, ofertando-o para ser explorado por profissional
de reconhecida competência na atividade, proprietário de máquinas
e capital suficiente para explorar aquele solo, iniciando pelos serviços
de terraceamento e contenção de águas pluviais. Por esta
razão, notadamente, ausência de capital máquina, o terreno
não pode ser ofertado aos sem terras. Portal -
As novas parcerias
não se confundem com as antigas "meações". Quais
as principais diferenças?Meirelles:
De certa forma sim. Nas antigas meações, em que nem sempre o resultado
auferido era dividido em partes iguais, sim, maior ao lavrador e senhor do cultivo,
o proprietário do terreno recebia seus rendimentos já a partir do
primeiro ano de exploração. Nas parcerias ofertadas pela bolsa,
o primeiro ano é sempre sem qualquer retribuição de rendimentos.
No segundo ano, o proprietário passa a receber o que for ajustado no contrato
e do terceiro em diante, um percentual maior. Portal -
Até que
ponto os arrendamentos e parcerias conseguem melhorar economicamente a região
em que se encontram e a vida dos sem-terra?Meirelles:
Os inúmeros agricultores, geralmente oriundos dos estados do sul, vem contribuindo
de maneira notável para o desenvolvimento desta região da Alta Sorocabana,
principalmente através de inequívoca demonstração
de que o solo pode e deve ser recuperado. E assim ocorrendo, tornar-se economicamente
viável e através da produtividade alcançada na exploração
agrícola, fixar o exato valor do solo, para efeito de sua comercialização.
Ademais, o comercio das pequenas localidades onde estão os parceiros, os
serviços (postos de combustível, borracheiro, oficinas, comercio
em geral), estão em franca recuperação, uma vez que, atrás
do lavourista, as lojas de insumos e fertilizantes em especial, estão ali
para oferecer seus produtos. Portal -
A implantação
de um projeto de pareceria ou arrendamento pode gerar empregos em número
suficiente para absorver a mão-de-obra excedente no campo?Meirelles:
Não em sua totalidade e a maior ou menor absorção está
diretamente ligado ao tipo de exploração e da lavoura. Grande parte
do excedente da mão-de-obra na região e acreditamos em todo o Estado,
é absorvido pela cultura da cana, por ocasião do corte e tratos
culturais da cana de açúcar. Na região da Nova Alta Paulista
(margem direita do rio do Peixe), desenvolve-se intenso e produtivo trabalho na
fruticultura, quer nos parreirais de uvas de variadas qualidades como no de acerola.
Ali, em áreas diminutas e de boa fertilidade, obtêm-se elevados retornos
financeiros com as atividades das lavouras que exigem bastante contratação
de mão de obra excedente nas cidades. Portal -
O sr. trabalha na região
do Pontal do Paranapanema, em São Paulo, que sempre sofreu uma grande pressão
do movimento dos sem terra. Recentemente, inclusive, um grupo de fazendeiros quis
comprar uma fazenda para oferecer ao governo do Estado e transformá-la
em um assentamento. O negócio prosperou?Meirelles:
Não. Na verdade, ainda não se evoluiu nesta tratativa de se adquirir
fazendas completas e ofertá-las ao governo do Estado de S.Paulo (ITESP)
para que promovesse assentamentos rurais, porque o governo paulista ainda não
sinalizou um percentual palatável para tal composição. Realmente,
admitiu-se tal possibilidade de transação e pacificação
dominial em toda a região, aonde todos, absolutamente todos envolvidos
na questão seriam beneficiados, notadamente o órgão gestor
e responsável pelos "sem terras" (Itesp). Portal -
É difícil
encontrar terras para assentamentos? O preço inviabiliza o negócio?Meirelles:
Na região de Presidente Prudente, não existe terra "improdutiva",
passível de desapropriação para fins de reforma agrária.
Avalia-se a maior ou menor produtividade em razão do desgaste do solo extremamente
arenoso, como da competência do proprietário da área. Assim
sendo, resta ao governo adquirir fazendas, ou parte delas, ao preço de
mercado, daqueles que pretendem se afastar da atividade do campo e proceder a
entrega aos assentados. Há um ano, quando a euforia da soja se fazia presente
no país inteiro (saca próxima de R$ 50,00), o valor de um hectare
estava fixado em quantidade de sacas de soja, ainda que o adquirente não
fosse cultivá-la. Isto elevou o valor a patamares inimagináveis.
Por isto mesmo, houve total paralisação de transações
imobiliárias. No corrente ano, em ambiente de expectativa, quanto aos valores
daquela oleaginosa, acredita-se no aparecimento de áreas para negócio.
E aí, pagando-se valores condizentes, acredita-se, que se encontre terreno
suficiente para aquela finalidade de assentamento rural. Portal -
Qual sua avaliação
dos assentamentos já realizados no Pontal e no País, de uma forma
geral?Meirelles:
Muito ruim. Em todo o país. Com raras exceções, a grande
maioria dos assentados está abandonada a própria sorte, desestimulada
e totalmente desassistida tecnicamente. Daí se prestarem os assentamentos
existentes, a toda sorte de negociata, transações proibidas, etc,
etc. Portal -
O que é preciso
para um assentamento "dar certo"?Meirelles:
O que é preciso fazer para dar certo? SDÉ o que já foi
dito há pouco: seleção de famílias verdadeiramente
vocacionadas para o cultivo do solo, com experiência, amor e tradição,
de um lado. Do outro, boa assistência técnica, com orientação
permanente e muito presente, de técnico agrícola, estimulando e
animando-o nos momentos de fraqueza e desânimo. Do governo federal, assistência
creditícia no momento exato e na quantidade necessária, para levar
avante a tarefa. Neste particular, louvemos e rendamos nossos aplausos à
orientação emanada do atual governo federal (Lula, em quem não
votamos) em se fazer uma "reforma agrária de qualidade". Exclusão
por exclusão, é altamente preferível manter tais famílias
nas periferias das grandes cidades do que levá-las ao campo e deixá-las
à própria sorte e no abandono, como ocorre atualmente. Na cidade,
com toda a dificuldade corrente, é mais fácil prestar assistência
educacional, alimentar, na saúde, pelo simples motivo de saber aonde e
quantos são. No campo, todos esparsos, sem água, luz, acesso, moradia,
escola, etc, etc, como assisti-los? É altamente preferível e aconselhável
a atual política de assentamento conduzida pelo governo Lula em comparação
ao governo anterior, ao pretender FAZER BEM FEITO e desprezando a quantidade,
malgrado o alarido crescente dos pretensos assentados.
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