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Luiz
Gonzaga de Mello Belluzzo
Professor
da Unicamp
O
professor titular de Economia da Unicamp - Universidade de
Campinas, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, é advogado
pela USP. Interrompeu o curso de Ciências Sociais também
na USP para ingressar no Curso de Desenvolvimento Econômico,
promovido pela CEPAL/ILPES, ministrado em nível de
pós-graduação. Contratado como professor
colaborador pela Unicamp, doutorou-se em 1975. Em 1986 tornou-se
professor titular. Entre 1974 e 1992 foi assessor econômico
do PMDB. Foi secretário de Política Econômica
do Ministério da Fazenda no governo Sarney, entre 1985
e 1987 e secretário de Ciência e Tecnologia do
Estado de São Paulo, no governo Quércia, entre
1988 e 1990. É sócio da revista CartaCapital.
Belluzzo tem vários artigos publicados, e é
autor ou co-autor de livros como "Valor e Capitalismo",
"O Senhor e o Unicórnio - A economia dos anos
80", "Depois da Queda", "Poder e Dinheiro"
e "Estados e Moedas". Em 2001 foi incluído
no "Biographical Dictionary of Dissenting Economists"
entre os 100 economistas heterodoxos do século XX.
Portal -
O agronegócio é apontado como o salvador do
PIB brasileiro de 2003, com crescimento de 5%, enquanto o
PIB geral encolheu 0,2%. O segmento responsável pela
façanha é o empresarial, altamente tecnificado,
destinado à exportação. O sr. acredita
que ele terá condições de continuar sustentando
a economia do país a longo prazo?
Belluzzo:
Acho
que nós estamos diante de uma mudança importante
porque o agronegócio hoje, a exportação
de commodities agrícolas, é uma atividade diferente
da que foi na primeira metade do século XX, quando
os países eram primário-exportadores. Foi sobre
isso, na verdade, que se traçou a discussão
a respeito da industrialização brasileira, etc.
O que ocorreu foi um avanço técnico enorme,
o que a gente pode chamar de industralização
do campo, e o agribusiness ganhou um nível de capacidade
tecnológica, empresarial, que não tinha naquele
modelo anterior, que era um modelo que estava sujeito a quedas
de preços sucessivas, ao fenômeno da queda dos
termos de intercâmbio. Não que isso não
possa acontecer hoje, mas o Brasil desenvolveu uma capacidade
exportadora muito importante, tanto que nós, na verdade,
hoje, superamos o nosso vizinho, a Argentina, na exportação
de carnes, por exemplo. Agora, o problema maior do setor é
que ele tem uma relação com o resto da economia
que ainda é pequena. Outro dia eu vi um dado que mostra
que o setor representa 35% da economia. Esse dado não
é correto, representa no máximo 15%. Quando
eu falei da industrialização eu quero dizer
o seguinte: é da relação da atividade
primária, que foi transformada pela tecnologia, com
os outros setores da economia, então hoje ele tem muito
mais impacto, por exemplo, sobre o setor produtor de equipamentos
e insumos do que tinha no passado. É um setor que tem
uma importância dinâmica muito grande mas a importância
maior dele é na formação do superávit
primário. O Brasil tem uma especificidade, tem uma
capacidade de gerar superávits nessa área muito
grande. A maior parte do superávit comercial brasileiro,
nesses últimos anos, foi gerado pelo agribusiness.
É um setor que tem uma contribuição enorme,
quer dizer, quando eu digo capacidade para gerar superávit,
quer dizer que as importações do setor menos
as exportações dão uma diferença
muito grande. No ano passado foi uma coisa de 19 bilhões,
mais ou menos, ao passo que outros setores industriais são
deficitários. Esse setor tem que ser cuidado com muita
diligência por parte do governo brasileiro, nós
não podemos esquecer o papel que teve o crédito
no desenvolvimento do setor durante muitos anos e a Embrapa.
Na verdade, o setor está dando uma chave para o desenvolvimento
brasileiro em outros setores. Ao invés de você
fazer ginásticas para definir políticas industriais
muito complicadas, o setor está dando um retorno, ou
seja, é a colaboração do governo via
uma agência que gera progresso tecnológico e
o crédito público, ou o crédito em geral.
É claro que boa parte do setor se financia fora, etc.
mas a importância maior dele é na geração
do superávit comercial.
Portal -
O Brasil não corre
o risco de ficar muito vulnerável ao mercado externo,
já que os preços das commodities agrícolas
podem variar muito em função de problemas
econômicos e políticos em outros países?
Belluzzo:
Nós não sabemos exatamente qual é
a natureza do impacto da presença da China, um
país que, na verdade, é demandante de bens
com base em recursos naturais, não só commodities
agrícolas como commodities industriais também,
como é o caso do minério de ferro, minerais
não ferrosos, produtos siderúrgicos, alumínio.
Sempre se corre o risco de que haja a entrada de novos
produtores e que isso deprima os preços. Isso é
um risco que você tem permanentemente em uma estratégia
desse tipo. O Brasil precisa estar sempre qualificando
as suas exportações baseadas no agronegócio.
Qualificando, eu estou dizendo: dando mais valor agregado,
processando melhor o que exporta, porque também
você tem capacidade, hoje em dia, ou possibilidade
de melhorar a qualidade dos produtos, introduzir e firmar
as marcas brasileiras no exterior. Há um enorme
campo que pode nos dar uma vantagem em relação
aos demais.
Portal - Mas
esse é o problema, o grande peso das exportações
brasileiras no setor é de produtos primários.
Quais são as principais dificuldades em se agregar
valor a esses produtos? O que poderia ser feito para modificar
esse quadro?
Belluzzo: Uma das vias é se processar melhor
os produtos, transformá-los ao invés de
commodities porque o problema é o seguinte: hoje,
por exemplo, na área de fruticultura, você
tem um espaço enorme, o Brasil explora pouco isso,
na verdade esse mercado é ocupado por outros. Você
tem o problema da qualidade da fruta que você está
produzindo, da embalagem, do acesso aos mercados, etc.
Não é porque é um produto primário
que não pode ser qualificado. Se você exporta
simplesmente como commoditie é evidente que você
pode sofrer um ataque de outros países. Se você
começa a processar, qualificar melhor, ganhar na
qualidade, coisa que, às vezes, não é
muito a preocupação do exportador brasileiro,
freqüentemente não é, não é
só na área de commodities agrícolas,
mas eu também diria que na área têxtil
é assim, na área de bens duráveis,
é um problema. O Brasil precisa ter as suas próprias
empresas, que isso é um outro problema, porque
a comercialização, na maior das vezes, no
caso brasileiro, é feita pelas empresas estrangeiras.
As tradings são estrangeiras, então o Brasil
tinha que ter suas próprias tradings. Para dar
um exemplo: o Japão não se tornou um grande
exportador porque foi capaz de perseguir as linhas tecnológicas
e de exportação corretas mas porque criou
suas próprias tradings. Isso é muito importante
porque dá uma certa autonomia, uma certa segurança
no processo de exportação. É claro
que há limitações, por exemplo: porque
nós exportamos, basicamente, nós não
podemos ao invés de exportar soja em grão
exportar os produtos que são na verdade derivados
da soja? Isso é uma questão que vai ter
que ser colocada pelos exportadores brasileiros.
Portal - O
sr. acha que na criação dessas tradings
brasileiras o governo poderia ter um papel no sentido
de induzir essa criação ou é uma
coisa que depende do próprio empresariado?
Belluzzo: Isso no mundo nunca é feito assim.
No mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, as exportações
americanas têm apoio de quem? Das tradings privadas
e do Eximbank americano, principalmente quando eles estão
competindo com outros países em certas áreas,
digamos de equipamentos de informática, etc., o
Eximbank americano apóia as exportações.
No caso dos Estados Unidos, essa relação
entre o governo e o setor privado é muito mais
forte do que a gente imagina. É uma mistificação
a idéia de que nos Estados Unidos o setor privado
faz tudo sozinho. Não faz nem na área tecnológica,
porque o avanço tecnológico depende, em
boa medida, dos financiamentos que o governo dá
para as universidades e da demanda militar. Os custos,
os riscos envolvidos no progresso tecnológico são
muito grandes. Boa parte das pesquisas não dão
resultado econômico, então você tem
uma perda enorme. Quem é que carrega a perda? Só
pode ser o Estado. Quem é que vai carregar? O setor
privado não tem capacidade. Mesmo as maiores empresas
elas fazem o P & D, quer dizer, depois que você
já tem definida a viabilidade tecnológica,
elas fazem pesquisa de desenvolvimento e, mesmo assim,
boa parte dessa pesquisa é financiada pelo governo.
No caso do agribusiness, é inegável que
a presença da Embrapa foi importante para que a
gente fizesse alguns avanços na área da
pesquisa genética, tudo isso, que nos deu certas
vantagens em algumas áreas. É necessário
que haja sempre essa sinergia, essa integração
entre o governo e o setor privado, em qualquer caso, sobretudo
nesse que nós temos já uma vantagem natural,
nós temos que explorar mais essa vantagem natural
que nós temos. Acho que esse setor pode crescer
e ainda se tornar mais importante para o Brasil, dependendo
da direção que a gente dê a ele.
Portal - Como
o sr. analisa as negociações brasileiras
na OMC e para a formação da Alca que têm
dado uma grande ênfase aos produtos agrícolas?
Os países ricos tendem a ceder na questão
das barreiras tarifárias e de outras ordens?
Belluzzo:
Muito pouco, por razões políticas e
de longo prazo. Como eu disse, o sistema de subsídios,
de proteção à agricultura na Europa,
tem a ver com a idéia da segurança alimentar.
E também porque apesar do peso da agricultura no
emprego e na renda ser relativamente pequeno, considerada
a agricultura tradicionalmente, o peso político
não é. Os agricultores franceses, por exemplo
- eu já vi uma manifestação deles
em frente ao Champs Elyses - eles na verdade botam prá
quebrar quando afetam de alguma maneira os subsídios
deles, etc. Assim também nos Estados Unidos, a
parte do Congresso que é eleita da região
do meio-oeste, onde você tem uma presença
muito grande, importante da agricultura americana, eles
também espelham esses interesses, então
acho muito difícil que se façam avanços
muito significativos nessa área. Tomara que eu
esteja enganado mas acho vai ser muito lento, talvez eles
abram para alguns produtos que não concorram exatamente
com os deles mas uma abertura como essa que está
sendo pretendida na OMC e na Alca vai levar muito tempo.
Portal -
Nas últimas décadas a industrialização
sempre foi apontada como a grande indutora do desenvolvimento
da economia brasileira. Com esses últimos resultados
do agronegócio o sr. acha que poderá haver
uma mudança de rumo, quer dizer, o agronegócio
ser encarado como esse indutor?
Belluzzo: Ou
você se industrializa, ou você persegue essa
meta da industrialização ou você vai
ficar para trás. Quando eu falei da industrialização
do campo eu estou me referindo inclusive à industrialização
da chamada área agrícola. Na verdade, o
que é a industrialização? Você
vai ganhando uma autonomia em relação às
determinações naturais. A agricultura hoje
está ficando muito mais independente das questões
climáticas, etc., por conta dos progressos que
foram feitos na área tecnológica. Isso inclui,
inclusive, a previsão das chuvas, a antecipação
rápida das mudanças meteorológicas,
isso é um avanço incrível. Hoje em
dia é possível você antecipar com
24 horas, aqui em São Paulo, pelo menos, qual vai
ser a mudança climática. Claro que você
não pode lidar com um fenômeno como o aquecimento
global que esse está fora de seu controle. A industrialização
quer dizer que você vai se afastando pelas limitações
que são impostas pela natureza, você vai
criando um ambiente. Hoje em dia é muito difícil
você distinguir, quando você fala em agronegócio
você não fala só da atividade que
está ligada à produção diretamente,
ou seja, a agricultura entendida no seu sentido convencional,
você está falando de um sistema que envolve
os produtores de equipamentos, de insumos, de defensivos,
tudo isso faz parte do complexo agroindustrial. A industrialização,
entendida dessa maneira, está se tornando uma mancha
que vai tomando conta de toda a atividade. Como você
vai conceber os serviços bancários hoje
sem a informática? Está no setor de serviços,
não é verdade? Se tiver um banco que não
é capaz de produzir informação rapidamente,
fazer a avaliação do crédito rapidamente...
Eu acho que essa oposição é uma visão
anacrônica porque a industrialização
significa isso, você incorporar a essa lógica
do progresso tecnológico setores que, antigamente,
eram vistos como naturalmente atrasados. Todo mundo dizia
que ele incorporava devagar progresso técnico,
etc. É claro que isso tem uma conseqüência
que já está ocorrendo hoje que é
o fato de que o setor, o agronegócio, emprega pouca
mão-de-obra por causa da alta tecnificação
e aí se coloca um outro problema. Eu fico muito
assustado quando ouço as pessoas dizerem que o
agronegócio emprega pouco porque usa tecnologia
muito avançada, o grau de mecanização
é alto, expulsa gente do campo, mas isso é
assim mesmo, não é problema dele. É
problema do resto da economia que não funciona
direito.
Portal - O
sr. está falando nesse setor mais tecnificado,
empresarial, voltado à exportação,
mas o Brasil ainda convive com um grande setor de agricultura
familiar e ainda um contingente na luta por posse de terra.
Belluzzo:
Isso é o que nós temos que tratar agora.
Nós falamos do agronegócio mas a agricultura
brasileira não se reduz ao agronegócio,
tem o setor de agricultura familiar que na verdade tem
baixo rendimento e produz com um grau de tecnificação
ainda relativamente incipiente, se comparado com o outro
setor e você tem toda a massa de gente que é
expulsa do campo que faz parte, que está buscando,
é mais de um milhão e quinhentas mil pessoas
que fazem parte desse movimento dos sem terra. Isso tem
vários determinantes. Inclusive uma boa parte dessa
gente é gente que foi para as cidades nos últimos
20 anos. Como a economia não cresceu eles foram
expulsos para as periferias e eles estão numa situação
ambígua porque eles são recém chegados
no campo e, ao mesmo tempo, não conseguiram encontrar
emprego nas cidades. Esse é um problema que realmente
tem a ver com o baixo dinamismo da economia brasileira
nos últimos 20 anos. A economia não conseguiu
responder adequadamente a essas transformações.
Portal -
O sr. acha possível integrar esses três setores,
uma agricultura de ponta com essa agricultura familiar
voltada ao mercado interno e ainda incorporar essas pessoas
que estão demandando por terra?
Belluzzo:
O Brasil se atrasou
muito na questão da distribuição
da propriedade. Os americanos fizeram isso com o Homestead
Act (1) no século XIX, mais ou menos em 1840 e
poucos. Depois da II Guerra, os países europeus,
a Itália, por exemplo, fez sua reforma agrária
e o Brasil não conseguiu fazer. Na verdade, de
uma certa forma, do ponto de vista produtivo, nós
perdemos o timming, nós deveríamos ter feito
muito antes para acomodar essas tensões que surgiram
no campo. Vamos pegar o exemplo da China que é
ao contrário, a China fez uma estatização
das terras e a partir de 1978 o que ela fez? Foi transformando
tudo em agricultura familiar. Fez uma transição
às avessas bastante inteligente, percebeu que a
coisa da estatização era estúpida
e começou a reverter isso e transformar essa agricultura
familiar, mantendo um enorme controle sobre as migrações,
etc. porque a China tem problemas de excesso de população,
corre um risco sério de ter um processo de urbanização
tão descontrolado como foi o nosso. Veja bem: a
nossa urbanização foi um desastre porque
os fatores de expulsão da agricultura, num certo
momento, passaram a ser mais fortes do que os fatores
de atração para as cidades, você tem
uma certa inércia nisso. Você botava gente
para fora num momento em que a industrialização
já tinha perdido o fôlego e não conseguia
absorver mais. Então você criou esse problema
da terra. É isso mesmo que nós temos que
combinar: essa agricultura moderna, tecnificada, que garante
um desempenho importante das nossas exportações,
com a agricultura familiar e com a questão da reforma
agrária. Outro dia lendo uma entrevista do João
Pedro Stédile, coordenador do MST, ele diz claramente:
nós não temos nada a ver com o agronegócio,
não queremos que ele sofra solução
de continuidade, mas nós temos um problema de propriedade
da terra que é velho e que nós temos que
encaminhar. Enquanto não encaminhar isso, a tensão
pelo lado da propriedade da terra vai continuar.
Portal -
Mas como inserir no mercado essas pequenas propriedades
que vêm dos assentamentos, com pouca tecnologia
e crédito pequeno?
Belluzzo:
Você
vai ter que ter uma política específica
para a produção de alimentos. Eu estou aqui
sentado nesta mesa como se o problema fosse simples, esse
problema é complicado porque nós deixamos
correr. É óbvio que você vai ter que
fazer uma divisão do trabalho aí e o governo
vai ter que ter política de compra de excedentes,
vai ter política de fixação de preços,
porque não tem mais nada. Até um tempo atrás
teve, o acesso ao crédito era limitado mas tinha.
Se ouve falar hoje que nós temos uma política
de estoques reguladores de alimentos? Não tem,
acabou. O crédito agrícola encolheu. Na
Europa eles têm uma política de segurança
alimentar, não adianta você bater nessa porta,
com os americanos. Eles não vão abrir mão
dos subsídios agrícolas porque isso faz
parte de uma estratégia de segurança, não
é um problema de política econômica.
O que você pode discutir é o seguinte: os
subsídios que eles dão para as exportações
agrícolas deles, esse ponto é que nós
devemos atacar mas imaginar que eles vão, na verdade,
tirar o apoio à agricultura deles é ilusão
porque ela tem uma função até ecológica,
porque os agricultores lá cuidam do equilíbrio
ecológico, são responsáveis por isso.
Eu acho que seria muito bem vindo para o Brasil, desde
que nós tivéssemos uma política de
estoques reguladores, crédito e preços,
como fazem no resto do mundo para desenvolver a agricultura
familiar. Sem isso nós não vamos ter um
desenvolvimento adequado nessa área, quer do ponto
de vista de emprego, quer do ponto de vista da situação
relacionada com a propriedade.
Portal -
Nesse sentido, como o sr. está vendo a política
agrícola do governo Lula?
Belluzzo:
Nessa altura do campeonato, se você falar isso para
o ministro Palocci ele tem um ataque porque isso tudo
exigiria um maior comprometimento do governo não
só com crédito mas também com a utilização
dos recursos fiscais. Primeiro você precisa remontar
todos esses estoques. Na verdade nós não
estamos tendo problemas nessa área porque a economia
não cresce e o poder de compra das pessoas foi
deprimido, caiu 30%, e nós estamos tendo aqui um
fenômeno inacreditavelmente grave: a demanda dos
produtos não duráveis, inclusive alimentos,
a demanda deles tem crescido menos ou tem caído
mais do que os duráveis. À medida em que
a economia vai começar a crescer você vai
ter pressão, vai ter uma demanda, então
você precisa se prevenir para isso. Na verdade o
que se tinha de política agrícola foi praticamente
desmontado, o crédito agrícola encolheu,
caiu em termos reais. Então, por enquanto, esse
problema não apareceu para eles, então não
estão cuidando dele, mas vai aparecer no momento
em que a economia crescer, e pouca gente fala disso.
Portal -
E o sr. tem uma perspectiva otimista em relação
a esse crescimento?
Belluzzo:
Não,
não tenho uma perspectiva otimista. Acho que nós
vamos crescer um pouco este ano mas basicamente por um
ajustamento em relação à queda do
ano passado. Todos os fatores que estão sendo movidos
pela política econômica são contracionistas
- a subida da carga tributária, o superávit
fiscal e a taxa de juros. O ministro disse: "estou
preocupado com a dívida, com o endividamento brasileiro".
Então, se é isso, como na verdade taxa de
juros muito alta afeta o crescimento da dívida
interna e nós não temos segurança
nenhuma do que vai ocorrer do setor externo, nossa dívida
externa também é muito alta, então
eu imagino que nós vamos passar três ou quatro
anos com um crescimento medíocre, como aliás
foi com o Fernando Henrique: nós ficamos dez anos
e a economia cresceu 2,5% na média, praticamente
nada, e chegamos na situação que hoje chegamos:
uma queda de renda de 30%, o que torna esse problema de
demanda de alimentos, digamos, você joga para debaixo
do tapete. Esse problema não existe, esse problema
da política agrícola. O que o ministro da
Agricultura faz, basicamente, é lidar com o agronegócio,
um setor que aliás anda já com as próprias
pernas, do ponto de vista do crédito anda com as
próprias pernas.
Portal -
A grande crítica do MST é essa lentidão
do governo em colocar em prática as promessas da
reforma agrária.
Belluzzo:
Reforma
agrária custa caro. Não adianta você
só distribuir a terra, você tem que dar assistência
técnica, dar as condições para que
a família comece a produzir, tem que abastecer
com sementes, tem que fazer uma política agrícola
mesmo. Uma coisa é a questão agrária,
vamos supor que você resolvesse a questão
agrária com a distribuição de terras,
isso não é possível num espaço
curto de tempo. Toda vez que você protela, que você
demora, piora. Você vai ter todo o gasto com a fixação
das famílias do campo, com o financiamento. Não
há capitalismo, mesmo de pequena propriedade, sobretudo
sem financiamento adequado. Não vai funcionar.
Portal - Há
algumas correntes que são contra esse modelo de
reforma agrária com distribuição
de terras, dizendo que você tem como absorver toda
essa mão-de-obra no campo através da criação
de novos empregos no agronegócio. O sr. acha isso
possível?
Belluzzo:
Não
porque está mais do que claro que o agronegócio
pela sua própria natureza, pelo fato dele ser muito
intensivo, tecnologia não só mecanização
mas também melhorias genéticas e o uso cada
vez mais eficiente da terra, ele é destruidor de
empregos. A gente não pode apostar, a gente não
tem que ficar fazendo esse tipo de raciocínio porque
ele não é realista. Nós não
podemos imaginar, a menos que você tenha, digamos,
duas Chinas operando na mesma velocidade, a gente não
sabe até quando uma vai funcionar. Na verdade,
fazendo um parênteses, o grande efeito da China
foi porque ela entrou na Organização Mundial
do Comércio, baixou tarifas e abriu um pouco seu
mercado para importação de produtos agrícolas,
esse efeito foi muito importante. Nós temos que
saber que o agronegócio tem como função
tornar a agricultura brasileira muito competitiva. Nós
não podemos incomodar esse projeto com outras coisas.
Agora a política agrária e agrícola
do governo, do ponto de vista de abastecimento, do mercado
interno, eu não vejo porquê você não
possa fazer essa divisão de trabalho. Essa divisão
de trabalho já está posta. Quem é
que produz alimentos? É o agribusiness? Não
é. Quem produz alimentos é a agricultura
familiar. Essa divisão de trabalho foi posta naturalmente
e é isso que a gente tem que fazer que avance.
Agora o governo precisa ter uma política agrária,
todo mundo tem no mundo. O Brasil é um país
muito esquisito porque ele gosta de ser moderno em certas
coisas e em outras é atrasado. Ele gosta de ser
moderno, por exemplo, nos padrões de consumo. Nós
sempre queremos consumir a última coisa que apareceu
nos países desenvolvidos, sempre precisamos ter
o computador da última geração. Talvez
isso não seja tão importante quanto você
ter uma política agrícola consistente.
Portal -
Como o sr. analisa a relação do agronegócio
com a indústria, o comércio e o mercado
financeiro? A própria Embrapa tem um estudo que
diz que 10% de impacto no PIB agrícola provoca
um impacto quase igual no PIB industrial e do comércio
nas pequenas e médias cidades.
Belluzzo:
Eu
vi um estudo que dá ao agronegócio um peso
de 35%. Nós fizemos uma avaliação
na Unicamp de como isso é, pelos encadeamentos
para trás, e o impacto é menor, mais ou
menos a metade disso. No entanto, é um impacto
importante, porque, como eu disse, é um complexo
industrial, de serviços, que gira em torno do agronegócio.
Mas vamos olhar o que está acontecendo: o agronegócio
é o único setor que está crescendo
a taxas razoáveis no Brasil. O impacto dele sobre
o emprego e a renda, a despeito desses efeitos de encadeamento,
você pode identificar as regiões e os setores
onde isso está ocorrendo. O problema é que
a economia brasileira é uma economia urbano-industrial.
Então se a construção civil cai 5%
o efeito é devastador porque tem um peso enorme
na formação do PIB brasileiro, aí
sim você espalha os efeitos dinâmicos para
dentro da economia e a construção civil,
assim como a construção pesada, hoje em
dia têm um impacto mais importante por causa da
geração de empregos do que a própria
indústria de transformação, que queimou
mais de dois milhões de postos de trabalho nos
últimos 20 anos. Ela está enxuta, ela pode
crescer, mas o efeito dela sobre o emprego e a renda vai
ser menor do que o impacto da construção
civil. O que aconteceu, apesar dos encadeamentos do agronegócio
terem se ampliado, o efeito sobre o emprego é pequeno,
direto e indireto, ainda é menor do que a construção
civil.
Portal - Outros
setores, como o mercado financeiro, estão se dedicando
mais ao agronegócio. A própria Bovespa anunciou
produtos voltados para o interior. O sr. acredita que
essa demora para a sociedade urbana brasileira em reconhecer
a importância do segmento rural é conseqüência
e um certo preconceito que ainda existe em relação
ao campo?
Belluzzo:
Talvez
se dê até um certo desconhecimento em relação
às transformações que a agricultura
sofreu, principalmente o agronegócio. Você
está criando agora um movimento que tem o preconceito
ao contrário. O Brasil não vai voltar a
ser um país agrário. O Brasil vai ser um
país que vai industrializar a sua produção
agrícola, isso é uma coisa inevitável.
Você, na verdade, está começando a
superar as limitações que são impostas
pela economia natural. A economia moderna não é
mais uma economia natural, ela tende a se afastar - é
claro que você não pode se livrar completamente
- mas o que está acontecendo, vou dar um exemplo
que seja talvez apenas incipiente, mas as técnicas
de agricultura hidropônica, elas não têm
escala suficiente ainda mas provavelmente elas vão
representar uma fração crescente. O que
é isso? É o homem querendo ter um maior
controle sobre o que ele está produzindo, se afastar
um pouco das determinações naturais. Eu
vejo o agronegócio como uma extensão da
indústria na medida em que eles são muito
interdependentes, da indústria química,
de uma parte da indústria mecânica, então
a gente precisa rever esses conceitos porque a agricultura
não é hoje... aliás a transformação
que ocorreu ao longo do século XX com a introdução
do adubo, dos defensivos, aí você foi evoluindo
em direção da genética, provavelmente
nos próximos anos. Eu acho meio estranha essa discussão
dos transgênicos porque eu acho que ela é
parecida com a atitude de alguns setores da sociedade,
de oposição. A meu juízo, primeiro
que ela é mal fundada e segundo que o Brasil não
pode perder essa carreira e esse problema vai se colocar
de maneira crescente, quer dizer, a genética vai
mudar radicalmente a natureza da agricultura nos próximos
anos, sem dúvida nenhuma. Então que eles
tem a ver com a agricultura do século XIX? Quase
nada, a agricultura no século XIX no Brasil é
a agricultura de grande extensão, é o período
da plantation do café em outros países da
América Latina e da Ásia também,
mas o que tem a ver aquela agricultura com essa de hoje?
Nada, então essa separação entre
indústria e agricultura vai tender a desaparecer
no futuro e é isso que o agronegócio está
apontando claramente. Se você não tiver condições
técnicas de fazer avançar a base tecnológica
do seu agronegócio você vai ficar para trás
na agricultura também. Se você não
continuar esse processo de industrialização
no campo você vai perder certamente espaço
na agricultura também. Isso é que, na verdade,
os economistas do século XIX anteciparam: "vai
haver uma industrialização do campo".
A industrialização é esse fenômeno,
é o fenômeno de maior controle do homem sobre
o processo de produção e de afastamento
das limitações naturais, que é a
transformação. Eu diria que nós estamos
caminhando na direção da reinvenção
da natureza, que é um outro passo. Nós estamos
reinventando os processos naturais. O que é a clonagem
na verdade? A clonagem é o homem, qualquer que
seja nossa posição moral em relação
ao caso, mas a clonagem é uma atividade do homem
tentando simular, reproduzir os processos da natureza.
Então isso é uma outra etapa e isso vai
afetar muito a agricultura, a pecuária, nós
sabemos que vai. É evidente que tem que se ter
controle sobre isso, mas é uma tendência
da indústria, a indústria é isso,
ela não se limita a deformar, amassar, comprimir,
a indústria hoje reinventa a natureza, ela reproduz,
ela recria. Isso está, por exemplo, na microeletrônica
que está criando um mundo novo, assim como a genética
está criando um mundo novo. Então a gente
precisa contornar, de uma certa forma, essas idéias
que a gente tinha, tem da agricultura, setor serviços.
O setor serviços está sendo tecnificado
também e violentamente. Então é isso
que nós precisamos entender: que essa separação
que foi feita lá no século XIX precisamos
olhar de outra maneira.
Portal -
O governo está vendo no mercado de capitais uma
opção para obter recursos para financiar
o agronegócio. O Plano Safra que será lançado
prevê mecanismos como fundos privados de investimento
voltados para o agribusiness para captar poupança
interna e letras de comércio agrícola que
são títulos para captar recursos no exterior.
O sr. acha que tem viabilidade esse tipo de mecanismo?
Belluzzo:
Esse
é um outro problema do Brasil, quer dizer, que
não tem um mercado que seja capaz de mobilizar
a poupança existente. Eu nunca vi um mercado de
capitais funcionar sem um sistema bancário que
seja capaz de dar liquidez. É uma coisa complicada
de explicar mas você não pode botar o carro
na frente dos bois, eu vou explicar o que é. Você
não pode ter um mercado de capitais num país
que não cresce há 20 anos, que não
tem poupança. A poupança está estacionada:
se a economia não cresce, a renda não cresce,
como é que vai aumentar a poupança? Só
se for por um milagre da Providência, quer dizer,
as pessoas vão poupar da onde? Primeiro você
precisa ter um sistema bancário que crie liquidez,
que adiante recursos, que seja capaz de financiar, aí
você pode criar um sistema. Por que nossas empresas
vão captar recursos com bonds, etc. fora do Brasil?
Porque o mercado aqui, se você colocar duas empresas
grandes botando debêntures na praça, o mercado
não agüenta, não tem profundidade,
o mercado não tem profundidade, ou seja, qualquer
emissão nova afeta os preços do mercado
e não tem liquidez, não tem quem, na verdade,
faça esse papel de comprar e vender. Eu já
vi essa tentativa ser feita com letras imobiliárias,
já vi essa tentativa ser feita com papéis
industriais. Vamos pegar o exemplo dos países asiáticos
que estão crescendo mais: hoje tem uma discussão
entre os especialistas em matéria financeira, por
que os países asiáticos usam mais os bancos
do que o mercado de capitais? Usam mais os bancos porque
eles tinham projetos de industrialização
e de crescimento muito claros e eles usaram o sistema
bancário com taxas de juros muito baixas para financiar
isso. Agora que eles estão começando, de
uma forma muito incipiente, a criar esses mercados de
capitais porque uma coisa vem depois da outra. Nos Estados
Unidos você tem um mercado de capitais muito amplo,
assim como na Inglaterra você tem, na Europa menos.
Isso foi criado ao longo de muitos anos, isso tem a ver
com a diversificação, com o aumento da riqueza
nesses países. Se você tem um problema de
financiamento, então vamos criar um mercado de
capitais, você não consegue, se não
conseguiu para o mercado imobiliário não
vai conseguir, talvez as letras que você vai colocar
no exterior funcionem muito bem até porque todo
mundo vê o agronegócio no Brasil como uma
coisa que é solvente e interessante do ponto de
vista de quem trabalha com moeda estrangeira porque ele
é um hedge natural. Como ele é exportador,
você vai colocar essas letras, tem hedge natural.
Não vejo problema por aí, pelo capital externo,
mas dentro do Brasil, antes você precisa crescer,
criar as instituições adequadas, precisa
estimular o surgimento de fundos de pensão, como
o governo está tentando fazer na reforma da previdência,
que está correto, e fundos de investimento porque
isso que dá liquidez, são esses investidores
institucionais que vão dar liquidez para esses
papéis. Como você tem um mercado razoavelmente
raso e a economia não cresce, eu acho que é
muito difícil.
Portal -
O presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, fala
na possibilidade de empresas de agronegócio, de
fazendas, abrirem o capital, lançarem debêntures.
O sr. acredita que isso é uma possibilidade real?
Belluzzo:
Se
a economia estiver crescendo sim, mas como está
hoje o problema é que o mercado é raso.
Qual é o volume de debêntures que está
colocado no mercado brasileiro? É muito pouco porque
o mercado não tem capacidade de absorver. Quem
na verdade faz isso? São os fundos de pensão
das estatais, são os tomadores finais e você
tem um mercado muito pouco líquido. Mesmo o mercado
de ações aqui ele é ridiculamente
pequeno, por que? Eu trabalhei em mercado financeiro,
tenho amigos lá, trabalhei numa corretora. Vamos
desenvolver o mercado de capitais: não adianta
você querer por os carros na frente dos bois, você
primeiro tem que fazer a economia crescer. Quando você
tiver uma massa de poupança, depois o mercado de
ações precisa se ampliar, ele é muito
volátil, as pessoas ficam desconfiadas. Eu gostaria
que o país tivesse um mercado de ações
mais profundo, em que você tivesse um número
maior de empresas de capital aberto. Na verdade diminuiu
o número de empresas. E por que encolheu? Se vendeu
um monte de empresas brasileiras que fecharam o capital
aqui e abriram fora. Um país desnacionalizado não
pode ter um mercado de capitais forte, não é
verdade? Você precisa ter empresa grande, empresas
de porte. Antigamente quais eram as blue chips no Brasil?
Tinham algumas empresas privadas e tinham as estatais.
O que você fez? Vendeu as empresas brasileiras para
os estrangeiros, as públicas, e vendeu as privadas
também. A Metal Leve estava cotada na Bolsa mas
hoje não existe mais, fechou, a empresa foi vendida,
abriu capital lá. Então tem certas coisas
que são elementares: se não tem um sistema
de empresas, sejam elas públicas ou privadas, que
tenham aporte suficiente para garantir seu mercado, quer
dizer, para ancorar o seu mercado, você não
vai desenvolver esse mercado nunca. Isso é uma
coisa clara, em todos os países que desenvolveram
mercados de capitais eles foram escorados por empresas
grandes.
(1)
Homestead
Act: Defendido inicialmente em 1842, pelos deputados sulistas,
interessados na expansão para o oeste, o Homestead
Act foi aprovado pela Câmara Federal em 1862 durante
o governo Lincoln. A medida intensificou a distribuição
das terras do governo federal dos Estados Unidos, em favor
de produtores agrários e artesãos. Foram
distribuídos, até 1904, 147 milhões
de acres.
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