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ENTREVISTAS

Raymundo Magliano Filho
Presidente da Bovespa

Raymundo Magliano Filho é corretor e presidente do Conselho de Administração da Bovespa - Bolsa de Valores de São Paulo. Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo, conheceu cedo o mercado de capitais, trabalhando na corretora do pai, a Magliano S.A. Corretora de Câmbio e Valores Mobiliários, a primeira inscrita na Bovespa. Foi superintendente do Conselho de Jovens Empresários da Associação Comercial de SP, vice-presidente da entidade, e vice-presidente da Bovespa. É membro de diversos conselhos, como o Cebri - Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais - Conselho Empresarial Brasil-Reino Unido, Conselho de Administração da Escola de Administração da FGV e Conselho Empresarial de Governança Corporativa da Associação Comercial do Rio de Janeiro. Faz parte também do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo governo Lula em 2003.

Portal - A Bovespa anunciou que pretende ter um papel importante no financiamento da produção agrícola. Quais os fatores que influenciaram nessa decisão?


Magliano: Principalmente porque nós estamos vendo, cada vez mais, a importância do agronegócio no Brasil. De acordo com o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, 33% do nosso PIB é do mercado de agribusiness e 37% dos empregos também são gerados no setor. Cada vez fica mais clara a importância que vai ter a Bolsa de Valores e o mercado de capitais no financiamento desse setor. Já temos várias companhias de fertilizantes, por exemplo, ligadas ao agronegócio e poderemos ampliar muito. O próprio presidente da Sociedade Rural Brasileira, João Sampaio, diz claramente que uma série de empresas ligadas ao agronegócio açúcar-alcooleiro gostariam, em um futuro próximo, até abrir o capital para financiar seus grandes projetos. E algumas fazendas hoje já estão com a mentalidade muito empresarial, podem também abrir seu próprio capital. Achamos que essa proximidade com a Rural vai ser muito proveitosa. Graças a esse setor da economia, no ano passado, é que nós tivemos desenvolvimento econômico. Se não tivéssemos o setor de agribusiness, teríamos uma diminuição substancial no próprio PIB. Outro ponto também muito importante é que, nesse setor, estamos competindo com o mundo inteiro e demonstrando que a modernidade existe realmente na agricultura, o que é muito compatível com a Bolsa que está sempre gerando a modernidade, se empenhando em financiar de formas mais modernas os empresários e os investimentos.



Portal - O sr. acredita que essa falta de recursos para financiar as empresas seja o principal gargalo para o agronegócio?


Magliano:
Sabemos que, infelizmente no Brasil, temos uma taxa de poupança baixa, 16%, 17%, e que outros países têm uma taxa de poupança muito grande. Sabemos também que somos carentes de capital e temos pouquíssimas fontes. Como disse também o João Sampaio, o financiamento da safra pelo governo, às vezes, é menos de um terço. A necessidade de recursos no setor de agribusiness é muito importante. Dentro dessa visão, a gente acredita que pode colaborar muito, não só na abertura de capital, na emissão de ações, como também nas empresas que desejarem emitir debêntures e outros instrumentos que o mercado financeiro tem. Então precisamos financiar porque os bancos, em geral, financiam a curto prazo e o BNDES tem uma linha limitada de financiamento, assim o único canal aberto é realmente o mercado de capitais e queremos nos inserir no mundo do agribusiness.


Portal - O sr. pode detalhar o projeto da Bovespa? Quais os objetivos do "Bovespa Vai aos Municípios" e como funciona?


Magliano: Estamos numa fase de grande popularização do mercado de capitais. Nossa intenção é esclarecer a importância do mercado de capitais para a sociedade brasileira como um instrumento legítimo para financiar a produção brasileira. Temos sentido que o interior é um grande pólo de desenvolvimento no Brasil, não só pela capacidade populacional, como pela descentralização industrial que tivemos em São Paulo e também pela própria capacidade dos investidores. A primeira cidade que visitamos, em fevereiro de 2004, foi Jaú. Foi impressionante a receptividade que tivemos. Fomos para a Câmara Municipal, fomos recebidos pelo prefeito, pela presidente da Câmara e todos os assessores do governo. Também estavam lá onze representantes e alguns prefeitos de outros municípios próximos a Jaú. Fizemos uma explanação e o interesse foi muito grande. Colocamos a nossa "Bolsa Móvel" para explicar o que é o mercado de capitais, como se compra, como se vende, o que é um investimento, e verificamos o interesse do investidor, pessoa física, na formação até de clubes de investimento, e também o grande interesse dos empresários, porque lá é uma região da calçados, que tem fábricas grandes, com mais de mil funcionários, e o empresário sabe que a Bolsa é um canal que ele pode utilizar. Temos o maior interesse em possa difundir, e tornar acessível ao interior aos conhecimentos do mercado de capitais, não só ao investidor mas também, principalmente, ao empresário. Queremos difundir bastante essa mentalidade nova junto ao agronegócio que está na região toda do interior. É uma possibilidade da gente desenvolver muito nosso mercado de capitais tendo como grande parceiro o interior. A idéia é visitar uma cidade ou mais por mês. Estivemos em Campos de Jordão e em abril ou maio iremos para Rio Preto, cidade que tem muitas indústrias, uma renda boa, várias fazendas, agronegócio. Queremos disseminar essa nova idéia e estar muito juntos com o setor de agribusiness.


Portal - E como vão funcionar as debêntures para as empresas do agronegócio?


Magliano:
A empresa decide não abrir ainda seu capital. Não quer dividir ainda o capital da empresa com vários investidores, mas às vezes ela tem um projeto específico, com uma maturação, por exemplo, de dois anos. Então, no lugar de emitir ações, ela emite debêntures para financiar especificamente aquele projeto, ou financiar o capital de giro por um ano, dois anos. Emite e faz um grande teste no mercado para ver a receptividade de seus papéis. É a primeira fase que, às vezes, a empresa tem antes de realmente abrir seu capital. Essas debêntures, que agora a CVM - Comissão de Valores Mobiliários - regulamentou, como debêntures padronizadas, vão facilitar muito o negócio. Também queremos que as debêntures sejam compradas por pessoas físicas, no varejo por mil reais, dois mil, cinco mil, para que o aplicador tenha a possibilidade de aplicar em renda fixa, em fundos, em debêntures, em ações e criar uma carteira diversificada de investimentos, essa é a idéia.


Portal - Quais as principais vantagens para as empresas do agronegócio que desejem abrir o capital?

Magliano: O principal é a liberdade. Temos um exemplo clássico que é o da Gerdau e do Pão de Açúcar. Depois que abriram o capital, se desenvolveram e se tornaram quase empresas multinacionais, como é o caso da Gerdau, que se desenvolveu muito no Brasil e já comprou três ou quatro fábricas nos Estados Unidos. Se uma empresa, por exemplo, só atinge um mercado muito regional e quer atingir o Estado todo e depois o Brasil ou lá fora, ela vai precisar de capital. O mercado de capitais lhe dá essa liberdade: você tendo uma boa fidelização com seu acionista, tratando bem seu acionista, a qualquer momento que você quiser capital você vai ter. Isso é importante para o empresário porque às vezes ele está com um grande empreendimento para ser feito e não tem os canais - naquele momento o banco pode estar fechado, o BNDES pode não estar financiando aquele tipo de atividade - e o mercado de capitais está aberto para o Brasil inteiro. Não só o Brasil como o exterior também, porque hoje nós temos vários investidores estrangeiros que compram ações, que compram debêntures brasileiras. A maneira de você se internacionalizar, em termos de captação de capital, é por intermédio da Bolsa. Se alguns tipos de empresas brasileiras que foram vendidas tivessem aberto seu capital e tivessem se desenvolvido, hoje poderiam ser grandes empresas. Infelizmente, algumas delas não optaram por isso mas acho que o momento atual é muito importante: aquela que quiser se desenvolver vai precisar do mercado de capitais.

Portal - O sr. acredita que as empresas, principalmente do agronegócio, ainda têm um certo receio em relação ao mercado de ações?


Magliano: Nós não temos ainda uma cultura como a anglo-saxônica, de desenvolvimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, quando a criança nasce o pai dá de presente as ações da Walt Disney, já começa a participar. Nós não temos e não tivemos isso ainda no Brasil, aqui é muito mais uma visão do Estado financiando. É essa cultura que estamos mudando, estamos modernizando. As resistências são naturais, não só do próprio empresário como do investidor. Na área do investidor, esse trabalho todo que nós fizemos com o projeto "Bovespa vai até você", que foi para praias, faculdades, barcas de Niterói, Metrô, em todos os lugares, deixa a pessoa esclarecida, desmistifica aquela idéia de que Bolsa é cassino, é casa de jogo. A pessoa fica altamente receptiva. Prova é que em um ano e pouco, constituímos quase 310 clubes de investimento. Para nós é bom porque clubes de investimento são pequenas quantias juntadas por um grupo, como nós temos as professoras, que há cinco anos - são 25 professoras - que dão 100 reais todo o mês e estão aprendendo economia, discutem, compram ações, vendem ações, se aculturaram no mercado e hoje têm um patrimônio de quase 200 mil reais. Então é essa mudança cultural que é importante, que está acontecendo com o investidor. A gente está indo ao interior para mostrar e desmistificar a Bolsa para o empresário agrícola, que na hora em que precisar de capital vai ter como opção a Bolsa de Valores. O que para nós está sendo altamente auspicioso é que estamos conseguindo agora acabar com o preconceito do trabalhador. Nós já fizemos duas parcerias, uma com a Força Sindical, onde nós temos um escritório, e outra com a CGT - Confederação Geral dos Trabalhadores - onde temos também. Fazemos cursos para esclarecer os trabalhadores e o que a gente tem visto é que o trabalhador está muito interessado. Prova é que foi feito um clube de investimento na Força Sindical com 100 trabalhadores interessados - cada um dá 29 reais por mês, não é nem um real por dia - que discutem, conversam. Está há mais de um ano com o fundo que dá uma rentabilidade grande. Fomos à CGT e conseguimos, depois de fazer quatro cursos, já foi constituído um primeiro clube de investimento em Campinas. Então a gente vê que na hora em que desmistifica, quebra a resistência, você vê que é uma alternativa de poupança para financiar os estudos do seu filho e ter uma aposentadoria mais condigna com a pessoa. Ao longo do tempo a pessoa aprende também que o mercado de Bolsa é um investimento a longo prazo e que é um mercado de risco, então fica tudo muito claro. É um mercado para se aplicar de cinco a dez anos. Antes disso, não pense em resgatar. Então você precisa ter um dinheiro que você possa separar para aplicar numa poupança. Qualquer poupança no mundo é dez, quinze, vinte anos. Segundo: não se espante se a bolsa sobe dois, três, se no ano todo a Bolsa cai, dois anos consecutivos. Você sabe que ao longo do tempo a bolsa deverá dar mais lucro ou mais rentabilidade do que a renda fixa. Então fica tudo muito claro, muito límpido. O trabalhador teve a possibilidade de aplicar 50% do Fundo de Garantia em ações da Petrobrás - foram 370 mil pessoas e na Vale do Rio Doce foram 800 mil - todos que compraram ganharam muito com as duas companhias e observaram: "o meu Fundo de Garantia rende TR mais 3% e essas ações renderam muito mais, então essa é uma alternativa em que tenho que pensar um pouco mais". O preconceito vai caindo no momento que você esclarece e que o fato começa a se apresentar. Então acho que o tempo, a aculturação, vai realmente dar uma nova dimensão ao mercado de capitais. É por isso que a gente está fazendo esse projeto de "Bovespa vai a você", que vai a todos os lugares.

Portal - Existem muitos entraves para o funcionamento de uma empresa de capital aberto no Brasil, como a burocracia e os juros altos? O que pode ser feito para facilitar a vida de uma empresa que quer abrir seu capital?

Magliano: A CVM agora com o presidente Luiz Leonardo Cantidiano, excelente presidente que nós temos, facilitou muito. Hoje uma empresa pode abrir seu capital e colocar suas ações na prateleira, quer dizer, ela fica com todo o processo pronto e, no momento oportuno, ela lança as açõe, não é muito complicado. Obviamente, que no momento em que você está captando poupança pública você tem uma série de obrigações, precisa ser visível, transparente, tem que dar acesso, quer dizer, ter sócio é diferente do que você ser dono da empresa. A maior modificação é essa, porque a tendência das pessoas é querer ficar com a empresa só para si mas, no momento em que tem um sócio, tem que dar todos os esclarecimentos, ser visível e transparente. O grande fator inibidor no mercado de capitais é a alta taxa de juros. Você como aplicador fala: o que eu vou preferir? Um título do governo que já garanta uma taxa alta ou vou investir no mercado de ações? O governo garante 10%, 12% ao ano, por que eu vou optar pelo mercado de ações? Já no mercado americano você tem um juro de 1%, um pouco mais, você sabe que o dividendo de uma companhia vai dar mais rentabilidade que um título público. No Brasil, a maior concorrência que nós temos é da taxa de juros. No momento em que as taxas de juros começarem a cair, o mercado de capitais se torna cada vez mais uma alternativa, porque as empresas vão dar dividendos e, daqui a pouco, você vai poder viver disso, como se vive na Inglaterra, na França, em todos os países desenvolvidos.


Portal - Sua perspectiva para a queda de juros é otimista?


Magliano: Eu acho que sim, o viés foi dado na última reunião do Conselho Monetário Nacional. Nós sabemos que uma alta taxa de juros, por longo tempo, é insustentável para qualquer economia, sua dívida pública aumenta muito e você inibe todo o crescimento e a geração de empregos. Você realmente precisa diminuir sua taxa de juros para viabilizar o País.


Portal -
Um dos mais graves problemas hoje no Brasil é, justamente, o desemprego. A abertura de capital das empresas do agronegócio pode ajudar na criação de novos empregos, evitando o êxodo rural e o inchaço das cidades?


Magliano: Perfeitamente. Se você tiver uma captação via mercado de capitais, você pode contar com esse dinheiro, vai ter tranqüilidade para planejar seu investimento, a ampliação de uma fábrica do agronegócio, ou o aumento de sua área de plantação, agregar algum valor aos produtos agrícolas que você está vendendo. Isso dá uma dimensão muito grande para o empresário que pode realmente estudar, planejar e efetivar o seu projeto.


Portal - A aproximação do mercado financeiro com o agronegócio tem em vista mais as grandes empresas do setor, que são em geral voltadas para o mercado externo mas tem todo um setor da agropecuária, que é de produção familiar, que é mais voltado para o mercado interno. Como esse segmento seria afetado pela aproximação do mercado financeiro com o agronegócio?


Magliano: O que é importante para nós é financiar o empresário para que ele faça investimentos e tenha condições de gerar empregos, essa é a função legítima da Bolsa. Tem as grandes empresas, para elas é mais fácil porque elas são mais conhecidas, têm estrutura de capital, estão mais estruturadas para isso. Mas até empresas menores podem fazer consórcios ou até consórcios de fazendas, uma fusão entre duas, três, quatro fazendas, e você pode ter condições de abrir uma companhia, de se tornar uma companhia aberta. Precisa apresentar as alternativas, é isso que a gente quer porque sempre tem fundos especiais para financiar pequenos e médios empresários, tem até fundos emergentes que financiam o empresário para que ele comece a se desenvolver e depois tenha suas ações na Bolsa. Então liquidez e dinheiro existem, o que precisa é ele estar bem alocado e ter projetos com consistência. Acho que essa aproximação vai gerar alternativas para o agribusiness. O fundamental é apresentar alternativas e também começar a se aproximar do agribusiness e ver qual é o problema real, aí a gente pode até criar um produto específico para essa atividade. Essa aproximação é que vai gerar a espontaneidade das partes de dizer: "eu tenho essa necessidade". Você tem? Então vamos gerar um tipo de produto, uma cédula, uma letra de câmbio especial, um comércio para isso, uma debênture especial, isso tudo a gente cria. O mercado financeiro, principalmente no Brasil, em que a gente convivia com uma inflação de 40%, 50% ao mês, é muito criativo. É só apresentar o problema que a gente apresenta a solução.


Portal - Existe uma grande pressão, social e política, pelo aceleramento do processo de reforma agrária, e também uma pressão grande em sentido contrário, para que ele não se acelere. Na sua opinião, esse conflito de interesses, que gera tensão e violência no campo, pode ser superado de alguma maneira que satisfaça os dois lados?


Magliano: Perfeitamente. Vou dar um exemplo clássico. Nós fomos à Câmara Federal no dia 24 de março para falar com duas deputadas do PC do B e conversamos sobre Bolsa, investimentos, clubes de investimento. Fomos convidados pelo PC do B para fazer uma explanação sobre mercado de capitais. Então a gente sente que no momento em que você está querendo esclarecer, fazer alguma coisa de bom para o País, legítimo, visível, transparente, o outro lado também te ouve. A experiência que eu estou tendo no Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social do Lula é isso: uma hora você está com o representante da CUT - Central Única dos Trabalhadores - o Luiz Marinho da CUT. Do lado dele quem estava? Roberto Setúbal e do outro lado estava outro líder sindical, tinha o representante do MST. Somos brasileiros, precisamos começar a falar, começar a nos entender, porque temos que resolver o nosso problema mas só vamos resolver dialogando, aprendendo. Como fala o grande filósofo Norberto Bobbio, nós precisamos aceitar as diferenças. Ser democrata é aceitar as diferenças, então você precisa aprender a ouvir, a conversar, para criar um consenso. Eu acho que isso tudo está começando a se criar no Brasil. A gente está tendo a experiência lá no Conselho, é uma questão de tempo. Todos os lados têm que começar a ceder, ter um consenso para resolver um problema que já vem há décadas e décadas que é esse problema da reforma agrária.


Portal - Nas últimas décadas, a industrialização foi encarada como a grande indutora do desenvolvimento brasileiro mas, recentemente, é o agronegócio vem conseguindo resultados expressivos como foi o caso do PIB de 5% em 2003, quando o PIB geral teve resultado negativo. O sr. acha que daqui para a frente pode mudar o foco do desenvolvimento, passando da indústria para o agronegócio?


Magliano:
Eu acho que você também tem um outro fator determinante em relação ao PIB que é o setor de serviços e comércio. O setor de serviços e comércio hoje representa um número expressivo em renda e empregos. O importante seria ter um equilíbrio da indústria, com o comércio e serviços e o agribusiness. Existem momentos mais propícios para o desenvolvimento por exemplo agrícola, às vezes os preços sobem, o mercado é altamente propício como também você tem um mercado com queda substancial dos produtos agrícolas. Há quanto tempo nós viemos com café, soja, tudo, então tivermos um desenvolvimento. Então está tendo um equilíbrio desses três setores mas o fundamental é a mentalidade que está mudando, uma mentalidade competitiva, moderna que até o fazendeiro se naquele determinado momento o setor dele não for muito auspicioso ele pode complementarmente entrar no comércio, entrar numa empresa de serviços. Mudando a cultura a gente se adapta mais. Acho que vai haver uma distribuição cada vez melhor desses segmentos, comércio, indústria, serviços e agricultura.


Portal - Existe um estudo da Embrapa que constatou que um crescimento de 10% no PIB agrícola provoca um impacto quase igual, de 9% a 10% no PIB das pequenas e médias cidades. Gostaria que o sr. analisasse essa relação do setor rural com os setores urbanos, no seu caso o mercado financeiro.


Magliano: É interessante saber que qualquer investimento nesse setor vai refletir no aumento do todo. Essa tese que nós temos da Bolsa se aproximar do interior, de se aproximar com o agribusiness está reafirmada muito por isso. É importante a gente estar muito próximo e achar mecanismos que possam auxiliar o setor porque ele é fundamental para o Brasil para diminuir, inclusive, o índice de desemprego e o êxodo rural. Nós precisamos de um equilíbrio maior, de pessoas que se instalem como na França onde, segundo ouvi falar, uma pessoa que cria vaca recebe mil dólares por ano para manter a vaca lá e o bezerro é dele. Por que? Custa mais para a sociedade tirá-lo do campo e ele ir para a cidade, porque aí você tem o problema de água, luz, telefone, criar toda a infra-estrutura. Se ele ficar lá sai mais barato. Então está dentro desse espírito da gente manter as pessoas, não inchar mais os grandes centros urbanos, como São Paulo que tem uma população muito grande, a gente pode manter no interior e fazer com que o desenvolvimento seja mais harmônico e mais distribuído e que haja uma melhor distribuição de renda no interior. É uma revolução importante a agrícola, da qual nós queremos participar como coadjuvantes e como pessoas que possam auxiliar o agricultor para que ele pense como alternativa: "eu tenho uma fazenda, por que eu não posso abrir o capital de uma fazenda?" Por que não? Pode, tem toda a possibilidade de abrir.

Portal - O sr. vê a chegada desse segmento do agronegócio ao mercado de capitais como uma nova injeção de ânimo?

Magliano: É como no caso das mulheres, nós descobrimos cada vez que nós íamos aos clubes a todos os lugares onde se constituíam clubes de investimento que a iniciativa sempre era das mulheres. A mulher vai ser a grande investidora no futuro, e nós estamos sentindo hoje também que o agronegócio vai colaborar muito para o desenvolvimento do mercado de capitais, assim como nós podemos colaborar para o desenvolvimento desse segmento no Brasil. É uma parceria muito bem feita a que vamos desenvolver com a Sociedade Rural Brasileira. A gente acredita que vai desenvolver um projeto consistente e coerente. É um projeto novo de ir ao interior, ver qual é o problema da agricultura, complementarmente ao projeto "Bovespa vai aos municípios", pois no momento em que você vai aos municípios pode dar uma ênfase muito grande à parte do agribusiness.

Portal do Fazendeiro

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