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Fernando
Homem de Melo
Prof.
da FEA/USP
Mestre
e Doutor em Economia pela Universidade Estadual da Carolina
do Norte, Estados Unidos, Fernando Homem de Melo é
professor da USP desde 1975. Em 1984, tornou-se Professor
Titular de Microeconomia da Faculdade de Economia, lecionando
as disciplinas de Introdução à Economia,
Economia Internacional e, principalmente, Economia Agrícola.
É também pesquisador da FIPE - Fundação
Instituto de Pesquisas Econômicas -, da qual foi Diretor-Presidente
entre 1985 e 1989. Escreveu vários livros e trabalhos
em publicações técnicas e na grande imprensa,
principalmente sobre o Proálcool, a questão
energética e o problema alimentar. Entre os prêmios
de sua carreira estão os da Embrapa, Moinho Santista
e Governo do Estado de São Paulo.
Portal -
A agropecuária em 2003 teve um bom desempenho, crescendo
5%, o que deu uma boa contribuição para o PIB
do País. Como o sr. analisa esses resultados?
Homem
de Melo: Realmente,
essa foi a primeira importante notícia do ano da agricultura
para a sociedade brasileira, o crescimento de 5%. O PIB brasileiro
decresceu 0,2% e o PIB agrícola cresceu 5%. Não
fosse o crescimento do PIB agrícola em 5%, fosse menos
do que isso, próximo de zero, o declínio da
economia brasileira seria muito maior e muito mais ainda se
a gente considerar o conceito do agronegócio que inclui,
além da agropecuária, insumos de um lado e todo
o setor posterior à porteira da fazenda. Então
é uma notícia muito boa, a agricultura realmente
mudou de cenário depois da mudança do regime
cambial em 99, quando passamos a flutuar a taxa de câmbio,
em compensação ao regime anterior da chamada
âncora cambial, que tanto prejuízo trouxe ao
setor agropecuário. A segunda boa notícia, que
tem sido recorrente, é a contribuição
da agropecuária e do agronegócio às exportações
e ao saldo comercial. No momento em que o Brasil enfrenta
um quadro difícil de vulnerabilidade externa, a agropecuária
está demonstrando que, com todo o protecionismo no
mundo desenvolvido ela tem sido capaz de exporta mais e mais
graças, em boa parte, à mudança do regime
cambial, mudança dos preços internacionais,
como a que estamos verificando hoje no caso da soja, carnes,
café. Então eu acho que é um ponto muito
grande a salientar: a despeito do protecionismo internacional
que tanta briga tem causado, tanta negociação,
tanta frustração, a agricultura tem sido capaz
de penetrar no mercado internacional, o agronegócio,
em si.
Portal -
O sr. acha que existe uma
percepção dessa importância na sociedade
como um todo, já que a industrialização
sempre foi vista como indutora do desenvolvimento? Está
mudando esse paradigma?
Homem de Melo:
Talvez pouco a pouco esteja mudando. Eu sempre discuto
com os meus alunos esse oposto entre a tecnologia de ponta
que é produzir e exportar aviões de São
José dos Campos para o mundo e a agropecuária,
o agronegócio. São dois pólos opostos:
um representa a industrialização brasileira,
apesar de que demanda uma quantidade enorme de importações
de componentes para se exportar aviões, mas é
a industrialização de ponta, de que a sociedade
tem tanto orgulho. O agronegócio, de certa forma,
tem um certo preconceito contra, por gerar empregos de
baixa, média qualificação. Eu acho
que no fundo é isso: a massa de desempregados precisa
encontrar empregos não na Embraer, que não
vai encontrar, ou na indústria automobilística,
que fez uma revolução tecnológica.
Está começando a mudar esse quadro e eu
acho que a década passada foi muito importante
para isso com a abertura comercial. A agricultura brasileira
é extremamente competitiva e está começando
a mostrar para a sociedade que tem condições,
não tanto só a agropecuária que é
9%, 10% do PIB - a gente não encararia um setor
que diminuiu como proporção no PIB como
uma gigantesca fonte de crescimento - mas o agronegócio
já é próximo a 30% do PIB. Então
considerando o agronegócio, o novo regime cambial,
as perspectivas do mercado internacional, abrem-se horizontes
ao novo, ao adicional crescimento do agronegócio
que, pouco a pouco, a sociedade brasileira vai incorporando
como mérito.
Portal - Quais
são os principais problemas da agropecuária,
o que emperra esse desenvolvimento?
Homem de Melo: Hoje, no lado externo, é
o protecionismo que também, aliás, lembrando
um pouco a questão anterior, o protecionismo tem
a sua própria dinâmica. Nós estamos
nessa chamada rodada de Doha, que deixa muita gente frustrada
com os impasses de negociação que ocorreram,
tanto na Alca quanto na rodada da OMC de Doha, mas eu
sou um otimista. Eu acho que além do fato de que
o Brasil tem sido capaz de penetrar mercados protegidos,
com sua alta competitividade e produtividade existe, pouco
a pouco, uma mudança no cenário internacional,
de um quadro absolutamente protecionista, com a Europa,
por exemplo, que privilegia sua agricultura através
do conceito de multifuncionalidade, meio ambiente, paisagem
rural, turismo e outras coisas mais, com instrumentos
de política agrícola que distorcem o mercado
internacional, os preços internacionais que prejudicam
os países exportadores. Eu acho que aí também
há mudança, assim como também há
mudança na sociedade brasileira, na percepção
do papel do agronegócio, há uma mudança
pouco a pouco na economia internacional para uma visão
de que essa política protecionista, tanto na Europa
quanto nos Estados Unidos, tem que mudar. Então
essa é a grande restrição a ser ultrapassada
pelo Brasil no curto prazo, dois, três anos, não
precisa ser agora em 2004. Uma redução adicional
do protecionismo agrícola dos países desenvolvidos
dará um grande impulso a países como o Brasil,
a Argentina, Austrália, Nova Zelândia, alguns
países asiáticos que têm grandes vantagens
comparativas na produção e exportação
de produtos agropecuários.
Portal -
Muitos produtores dizem que é impossível
ter uma agropecuária, um agronegócio forte,
sem um apoio maciço do governo. O sr. acredita
que só com o apoio mais forte do governo esse desenvolvimento
pode acontecer?
Homem de Melo: Eu acho que existe a necessidade de
uma política agrícola no Brasil, assim como
existe a necessidade de uma política industrial
mais ativa para beneficiar setores que tenham vantagem
competitiva nas exportações e ainda não
conseguiram explorar isso. Por exemplo, por que o Brasil
é tão competitivo no mercado internacional?
Uma das razões mais importantes que eu poderia
mencionar é a atuação da Embrapa
nos últimos 30 anos. A Embrapa é um símbolo
de política agrícola, com origem no regime
militar, com origem em um ex-professor aqui da casa, prof.
Delfim Netto, que era ministro de Planejamento na época.
Ele foi um daqueles que empurrou, dentro do governo, a
criação da Embrapa.. Trinta anos depois,
ninguém duvida da capacidade, das contribuições
que a Embrapa teve, pelo contrário. Dúvidas
são levantadas quanto à politização
da Embrapa no atual governo, de mexida nos diversos órgãos,
centros de pesquisa, politicamente falando, destituição
de chefias, cortes orçamentários, mas a
Embrapa é uma glória do passado de política
agrícola brasileira e é um instrumento de
política agrícola de longo prazo. Em 30
anos, ela já fez contribuições sensíveis
a essa competitividade que está ajudando o Brasil
a penetrar mercados internacionais e está ajudando
o Brasil a produzir alimentos mais baratos. A sociedade
brasileira tem que reconhecer: nós nunca tivemos
no Brasil crises de médio e longo prazo na produção
de alimentos, exceto nos anos 70 que foram anos muito
conturbados, mas a agricultura brasileira tem sido capaz
de produzir alimentos mais baratos. Voltando ao ponto
da concepção de política agrícola,
muda a concepção dos anos 80 para os anos
90 com a abertura comercial. Não precisamos manter
tantos estoques reguladores, por exemplo, quanto antes,
quando a economia era mais fechada. Hoje nós podemos
importar milho, leite, quando necessário, da Argentina
e do Mecosul, o que não existia antes da abertura
comercial. Nós temos a necessidade de uma política
agrícola para a agricultura familiar, que foi um
setor muito desprotegido nos últimos 20, 30 anos.
Temos a necessidade de uma política agrícola
para produtos mais de mercado interno, como feijão,
mandioca, principalmente esses dois, mesmo o milho ainda
é um produto em transição. Eu vejo
como necessário o papel de uma política
agrícola mais ativa, ao contrário de determinados
setores que acreditam que o mercado possa fazer tudo.
Por definição, o mercado não é
capaz de fazer tudo na área de inovações
tecnológicas, e é por isso que nós
temos a Embrapa, respeitando o fato de que o setor privado
é muito competente em sementes, defensivos, fertilizantes.
Uma combinação de mercado e política
agrícola eu acho que é a combinação
mais adequada para o Brasil no momento atual.
Portal - O
que o sr. tem achado da atuação do governo
nesse sentido?
Homem
de Melo: As minhas grandes críticas foram ao
desmonte da política agrícola no governo
Fernando Henrique Cardoso. A política de crédito
rural sofreu muito, agora ela está em recuperação.
O Brasil hoje, provavelmente, não tem muito mais
do que alguns milhares de toneladas de produtos agrícolas
em estoques reguladores. A política macroeconômica
do plano real foi extremamente desfavorável à
agricultura, a chamada âncora verde que para dominar
a inflação sobrevalorizou a taxa de câmbio,
a política de juros elevados, que em parte continua
hoje. Eu acho que essa parte está ultrapassada,
a agricultura recuperou preços para os níveis
anteriores à chamada âncora verde, recuperou
renda, o montante de crédito rural é crescente.
Acho que esses números que aí estão,
crescimento de 5% como nós falávamos ao
início, crescimento das exportações,
do saldo comercial, não ocorrem por acaso. Depois
de 99 houve a mudança do regime cambial brasileiro
e a flutuação da taxa de câmbio e
o Brasil tem necessidade no seu lado macroeconômico
de diminuir sua vulnerabilidade externa e exportar mais
para poder importar mais. O agronegócio tem tudo
para dar sua colaboração.
Portal -
O governo Lula está empenhado em formular para
o próximo Plano Safra, que vai ser divulgado ainda
neste semestre, novos mecanismos de captação
de recursos como fundos de investimento e letras de comércio
agrícola. O sr. acredita que esses novos mecanismos
podem suprir a carência de recursos do setor?
Homem de Melo:
Não, vou tentar explicar rapidamente o porquê:
pela política monetária de juros elevados
que o Brasil tem adotado, eu, você, como eventuais
poupadores e supridores de fundos de poupança para
esses novos fundos ou mesmo recursos financeiros do mercado
internacional, vão ter que ser remunerados aqui
no Brasil no mínimo pela taxa do CDI, pela taxa
Selic de 16,5%, mais um spread, e essas taxas ainda representam
taxas muito elevadas para a agricultura. A agricultura
hoje trabalha com 8,75% ao ano. Acho a iniciativa válida
mas não acho que seja uma solução
de curtíssimo prazo. A solução de
fundos privados para financiar a agricultura só
ocorrerá quando o Brasil tiver taxas de juros no
mercado interno compatíveis com taxas de juros
no mercado internacional. Essa é uma outra razão
pela qual a gente ainda tem a necessidade de uma política
agrícola mais ativa na área de financiamento
para a agricultura, por exemplo, crédito rural
para investimento, para comercialização
e para custeio que são os três grandes tomadores
de crédito rural. Não dá para pagar
taxas de 20%, 25% ao ano, que são taxas aí
até abaixo do que o comércio, serviços
e indústrias têm pago. A grande restrição
a essa iniciativa, que deve continuar, mas não
será uma solução a curto prazo, é
a política monetária de juros elevados do
governo federal. Hoje a grande restrição
ao crescimento econômico brasileiro, geração
de empregos, ao maior consumo interno de produtos alimentares,
que está estagnado, a economia menos 0,2% no ano
passado, um declínio de 1,5% per capita, um declínio
dos salários reais, da massa salarial. Tudo isso
passa por duas coisas: primeiro uma política de
empregos, essa de apoio à construção
civil que o governo está lançando pode ser
tomada como uma política de emprego porque a construção
civil caiu 8,6% no ano passado, foi o setor econômico
que mais caiu e é um setor que gera muitíssimos
empregos com salários baixos ou médios para
essa multidão de desempregados que o Brasil tem
e estão ansiosos para consumir produtos alimentares,
particularmente para passar de uma etapa de consumir produtos
básicos para uma dieta um pouco mais equilibrada,
mais sofisticada, que inclua carnes, verduras, leite,
derivados. Como falava o presidente Fernando Henrique
Cardoso, o símbolo do plano real, o frango com
iogurte. É uma combinação um pouco
indigesta, frango com iogurte, mas iogurte no café
da manhã e frango no almoço não é
indigesto. Quando a população cresce de
renda, de salário, consegue emprego, ela vai sofisticando
um pouco seus hábitos alimentares. Acho que hoje
o grande pecado do governo Lula foi ter continuado e aprofundado
a política econômica do governo Fernando
Henrique Cardoso, com um certo grau de razão, mas
esse certo grau já passou, a temeridade de um ano
atrás, o perigo inflacionário já
passou, nós estamos hoje - o índice da FIPE
de inflação em fevereiro foi 0,19% - praticamente
vivendo em um mundo sem inflação, ainda
que tenha mudança de preços relativos entre
setores, ainda que tenha efeitos de sazonalidade. Acho
que é preciso mais audácia na política
macroeconômica do governo Lula, principalmente na
política monetária, reduzir juros de uma
maneira acentuada. Dou um exemplo do nosso ex-colega aqui
da casa, deputado Delfim Netto, em uma revista. É
um artigo um pouco sonhador, ele fala: suponhamos que
a gente gasta 9,5% do PIB em juros, para dar uma idéia
isso representa algo em torno de 150 bilhões de
reais/ano. Ele falou que, se a gente no lugar de 9,5%
gastasse 5,5%, se reduzíssemos os juros a 10%,
11%, 12% ao ano, sobraria alguma coisa como 20 bilhões
de dólares ou 60 bilhões de reais para aplicação
em investimentos, infra-estrutura.que tanto o agronegócio
precisa, quem conhece a região centro-norte brasileira
sabe que aquilo é um milagre que a expansão
agrícola ocorra com as deficiências de infra-estrutura
lá existentes, saneamento das zonas urbanas, programa
habitacional. Não é reativar aquele passado
protecionista que tantos criticam, inclusive o presidente
do Banco Central, Henrique Meireles, equivocadamente ao
meu ver, mas é ter um papel mais ativo do governo
nessas áreas básicas: saúde, saneamento,
infra-estrutura, habitação popular, tudo
isso aí pode ser uma alavanca poderosa, por isso
eu chamei o raciocínio do Delfim de sonhador, de
gastar menos 4% do PIB em juros, isso poderia dar o deslanche
na economia brasileira..
Portal -
Como o sr. analisa a dualidade da existência de
um lado de uma agricultura empresarial, capitalizada e
de alta tecnologia e de outro a agricultura familiar mais
voltada ao mercado interno?
Homem de
Melo:
O grande desafio é incorporar a agricultura familiar
à agricultura empresarial, é apóia-la,
já que ela sempre foi discriminada. Ela produz
o feijão e a mandioca para o mercado interno mas
também produz o fumo para o mercado externo, é
um grande produtor. Também alimenta as granjas
dos exportadores de aves e suínos. Então
ela tem um papel econômico muito grande. Em números
ela contribui com 37%, 38% do valor da produção,
em termos de emprego é muito mais do que isso.
Só pensando nesses dois números a gente
já vê que a agricultura familiar é
um segmento importante, economicamente falando, mas que
por razões estruturais, de baixo acesso à
rede educacional brasileira, à saúde, à
tecnologia, ao crédito agrícola, tamanho
da terra insuficiente ficou reduzida a baixos níveis
de renda. Acho que um dos méritos do governo atual
é ter reequilibrado as prioridades em termos de
desenvolvimento agrícola, não só
a agricultura patronal ou empresarial, que anda praticamente
sozinha, é competente para fazer quase tudo sozinha.
A agricultura familiar que precisa de apoio em todos esses
pontos que eu mencionei: mais crédito rural, mais
tecnologia, mais tudo e principalmente mais tamanho, estimular
programas que não apenas incentivem tecnologia
na agricultura familiar mas também que a agricultura
familiar pequena, 10, 20, 30 hectares, que inviabiliza
uma renda mínima para a família cresçam
em tamanho, arrendando terras, o Banco de Terras, enfim
programas que contribuam para uma oportunidade maior no
mercado de ser incorporada aos padrões de competitividade
em determinados nichos de mercado à agricultura
empresarial.
Portal -
O sr. acha que a agricultura familiar, o sr. já
falou no fumo, mas que ela pode ter uma produção
direcionada ao mercado externo?
Homem
de Melo: Em
economia aberta, ao contrário de economia fechada
que a gente vivia até os anos 80, vai ficando mais
tênue essa diferença entre agricultura de
mercado interno e agricultura de mercado externo. Essa
diferença continua, por exemplo, o feijão
não tem, a mandioca também não tem
um mercado internacional bem desenvolvido, outros produtos
também não têm mercado internacional,
como a batata, por razões de perecibilidade, maior
necessidade de logística, custos mais acentuados
de transferência no espaço, legumes e verduras
a mesma coisa. Então mesmo em economia aberta sempre
haverá um subgrupo da agricultura que será
um subgrupo de mercado interno. A agricultura familiar
poderá perfeitamente se encaixar aí. Ela
hoje demonstra grande capacidade na produção
de feijão e mandioca, que são produtos do
mercado interno, que não têm o mercado internacional
mais desenvolvido, mas é o principal aliado das
multinacionais na produção de fumo que é
um produto não alimentar de mercado internacional.
A minha preocupação não é
que ela produza mais para o mercado interno, a minha preocupação
é que ela produza mais, ganhe mais dinheiro, seja
mais rentável, tenha mais renda e com isso a agricultura
familiar, pais e filhos tenham acesso a uma vida melhor
e não necessariamente apenas produzindo mais produtos
para o mercado interno.
Portal - Uma
relação tão acentuada com o mercado
externo não traz uma excessiva dependência
ao Brasil?
Homem
de Melo:
A resposta requer um pouco de consideração
aos conceitos de segurança alimentar e confiabilidade
alimentar. O primeiro dá mais ênfase à
produção interna de produtos alimentares
básicos. O conceito de confiabilidade alimentar,
que é um conceito mais de teoristas de economia
internacional, ele confia mais em mercado internacional.
Então vamos dizer, se o Brasil tem um problema
de trigo vamos importar trigo. A gente discute muito com
os alunos, tem um refeitório aqui na faculdade
muito bom, essa inovação brasileira por
quilo. Além do arroz e feijão, o arroz provém
ou do Mercosul ou do Rio Grande do Sul mas o consumidor
nosso aqui está pouco ligando se o arroz que ele
está comendo veio do Uruguai ou foi produzido no
Rio Grande do Sul. Do lado da bandeja do arroz e do feijão
tem o trigo na forma de macarrão. O consumidor
brasileiro daqui ou de qualquer lugar do Brasil, quando
compra macarrão no supermercado ele está
preocupado com o preço e não com a origem
do produto, se é trigo da Argentina, dos Estados
Unidos ou se é brasileiro. Então essas duas
ênfases têm que ter um certo equilíbrio:
determinados produtos têm mais confiança
de mercado internacional, a Argentina nunca renegou trigo
para o Brasil, nunca traiu o Brasil no fornecimento do
trigo. Agora eu diria que no caso do feijão, da
mandioca, a gente tem que ter uma política de estoques
reguladores mais próxima do conceito de segurança
alimentar do que do conceito de confiabilidade alimentar.
Portal -
Por exemplo, essa grande expansão da soja, com
bons preços e situação externa favorável,
muitos agricultores aqui no Brasil estão deixando
outras culturas para plantar soja, se houver algum problema
no mercado internacional que provoque uma queda de preços
muito violenta, como isso vai atingir o Brasil? Não
se desequilibraria a estrutura montada aqui para essa
agricultura de exportação?
Homem
de Melo:
A exuberância atual da soja deve-se à política
interna brasileira e à conjugação
de algumas variáveis que favoreceram ao Brasil,
como por exemplo, sucessivas frustrações
da safra norte-americana, inclusive e do ano passado,
de 15 milhões de toneladas. Isso combinando com
o evento da vaca louca, que desviou a demanda para aves
e suínos que são fortemente consumidores
de soja e milho e, mais recentemente, por percalços
climáticos no Brasil e na Argentina puxou o desenvolvimento
da produção de soja nos últimos anos
e o câmbio no mercado interno a partir de 99, com
a mudança do regime cambial e essas variáveis
de mercado internacional. Isso está mudando, eu
tenho chamado a atenção sobre isso que é
a necessidade de entender essa dinâmica do mercado
internacional de soja e derivados que está ligado
ao mercado consumidor de carnes, principalmente de países
emergentes consumidores fazerem uma mudança de
hábitos de consumo na direção daquilo
que eu, anteriormente, chamei a atenção,
de uma dieta mais elaborada, principalmente carnes, verduras,
legumes, frutas, etc. Está mudando, se a gente
olhar esse ano, o Brasil vai produzir mais soja, cerca
de 57 milhões de toneladas, uma safra espetacular
tirando um pouquinho esse percalço temático,
e o preço espetacular também. Acho que quem
plantou soja o ano passado, as indicações
eram de plantar soja, vai fazer uma fortuna este ano,
desde que comercialize até julho, agosto, porque
a curva de preços futuros da soja no mercado internacional
é elevada mas é declinante. O preço
de novembro da soja em Chicago é cerca de 30% menor
em dólares menor do que o preço de março.
Então o produtor brasileiro de soja tome como alerta:
comercialize a sua safra cedo porque o mercado está
mudando. Se a safra norte-americana de soja que é
colhida no segundo semestre crescer esses 15 milhões
de toneladas que foram perdidas no ano passado, o mercado
tende a cair de preço e o ajuste vai ficar para
2005, a normalidade do mercado de soja volta em 2005.
Então não é que essa exuberância
seja simplesmente passageira mas ela tem que ser entendida,
ela não vai durar para sempre. Isso me faz lembrar
que existem outras alternativas para o Brasil: produzir
milho, por exemplo, para exportação, aumentar
a produção de trigo no inverno para substituir
importações. Nós temos outros exemplos
de produtos alimentares e não alimentares que podem
ocupar um pouco do lugar dessa exuberância da soja.
Houve um congresso em Foz do Iguaçu que falou que
em três anos o Brasil vai estar produzindo 80 milhões
de toneladas. Eu acho uma euforia um pouco artificial
e excessiva e está tomando conta de todos nós
e a análise positiva e realista está ficando
um pouco subordinada a essa euforia.
Portal - Seria
uma bolha da soja?
Homem
de Melo:
Seria
mais ou menos, uma bolha que tem durado alguns anos em
função de câmbio, de preços
internacionais e das inovações tecnológicas
que a Embrapa viabilizou, que permitem a produção
de soja até o norte brasileiro, do sul ao norte.
O produto, que é de origem de clima temperado,
com origem no Rio Grande do Sul, em 40, 50 anos ela ainda
é produzida no Rio Grande do Sul, mas é
produzida em regiões tropicais no norte do País.
Portal - Existe
no Brasil uma forte pressão social no sentido da
realização de uma reforma agrária
com distribuição de terras. Nós falamos
da possibilidade de integração de pequenas
propriedades no mercado e o resultado de uma reforma agrária
desse tipo seria o surgimento de uma imensa quantidade
de pequenas propriedades. O sr. acha que essas novas propriedades
surgidas da reforma agrária têm condições
de ser integradas ao mercado?
Homem
de Melo:
A
questão é, no mínimo, polêmica
mas muito necessária de ser feita e de ser opinada.
Acho que existem três tipos de agricultura no Brasil:
primeiro a agricultura empresarial altamente competitiva,
que anda sozinha, a agricultura familiar que precisa de
apoio para compensar a discriminação que
sofreu no passado e os sem terra que querem terra. A agricultura
empresarial deixa que ela caminha sozinha, não
deve ter muita ênfase não, depende mais de
variáveis macroeconômicas, acesso a crédito
rural, a inovações tecnológicas.
A política agrícola tem que ser voltada
mais à agricultura familiar. Resta a terceira questão:
o que fazer? Essa eu acho a grande pergunta na questão
agrária brasileira de hoje. Será que em
2004 o Brasil vai ser o único país no mundo
que vai fazer uma reforma agrária massiva, como
foi proposta de assentar um milhão de famílias,
quando tem uma dívida social, no mínimo,
com a agricultura familiar? Acho que devem prosseguir
os assentamentos, devem prosseguir as desapropriações
de terras improdutivas de maneira melhor possível
apesar da crise fiscal que o Brasil enfrenta. Eu vou exagerar
um pouco para marcar posição: se a gente
pegar o Movimento dos Sem-Terra com trabalhadores na maioria
desqualificados e desapropriar terras produtivos, esse
é o exagero que eu vou fazer, pegar gente que não
tem qualificação para uma agricultura profissional,
que usa insumos, que usa tecnologia, assentados no lugar
de uma terra produtiva nós vamos baixar a produtividade
da agricultura brasileira, vamos perder competitividade
interna e externa. Voltando ao início: o grande
desafio é produzir alimentos baratos, em larga
escala e esse tipo de agricultura do MST não é
capaz de fazer isso em 20 hectares, 10, que é a
média da terra, às vezes de baixa qualidade
que lhes é dada em projetos de assentamento. Então
eu volto à questão: o que fazer? Tem dois
componentes: primeiro, o Brasil retomar o crescimento
da economia e fazer políticas de emprego. Retomando
o crescimento da economia eu estou gerando emprego. Fazendo
política de construção civil eu estou
gerando emprego. Uma parte dessas pessoas do Movimento
Sem Terra pode preferir até ficar no setor urbano
porque sua vocação é essa, eles já
migraram para o setor urbano. Eles estão no Movimento
porque não têm opção, o País
está há 20 anos em crise. Aos demais, que
se criem oportunidades dentro da agricultura sem mexer
com as terras produtivas. Aí vai o que? localizar
terras improdutivas, que não é uma tarefa
fácil mas está ficando muito controvertida
porque o Incra também está ficando um órgão
excessivamente politizado. As áreas de fronteira
agrícola brasileira que ainda dispõem de
terras improdutivas que com investimentos públicos
do tipo do projeto Avança Brasil do governo Fernando
Henrique Cardoso, principalmente em transportes, mas com
os avanços que a fronteira agrícola brasileira
já teve nos últimos 20, 30 anos, poderá
absorver uma parte dessa agricultura com apoio de assistência
técnica, crédito agrícola, etc. Então
terras improdutivas em fronteiras agrícolas em
regiões com investimento do governo, por exemplo,
irrigação do São Francisco, produzindo
frutas, etc., poderá absorver uma parte dessa população
de sem terra, mas sempre preservando aquilo que é
produtivo. Esse é o grande desafio brasileiro,
que foi arduamente conseguido ao longo do século
que passou: uma agricultura com alta produtividade, competitiva
no mercado internacional e no mercado interno, que produz
alimentos, fibras, exporta e abastece o mercado interno,
então correr o risco de fazer algo contra essa
agricultura em 2004 , no novo século, eu acho que
é um risco que o Brasil não pode correr.
Agora tem o lado social que tem que ser olhado, como disse
muito bem o ex-ministro Rubem Ricupero em um artigo no
final do ano passado na Folha de São Paulo, esse
lado social não pode ser desprezado. São
milhões e milhões de pessoas no Brasil atualmente
desempregadas, que precisam de emprego. O problema deve
ser olhado no contexto macroeconômico e no microeconômico.
Portal - Com
a expansão do agronegócio há a possibilidade
de absorver esse contingente sem a necessidade de uma
reforma agrária como tem sido feita até
agora?
Homem
de Melo:
É
uma possibilidade. O melhor exemplo que eu tenho para
dar do agronegócio nesse contexto é o investimento
que a Perdigão fez no município de Rio Verde
em Goiás, da ordem de 500 milhões de dólares
com recursos próprios e de financiamento, se não
me engano, do BNDES, gerando empregos diretos e indiretos
e dando uma nova dinâmica à região
de Rio Verde, todo o entorno da região de Rio Verde.
O investimento gera empregos diretos que, em Rio Verde,
valem R$600,00, R$700,00, R$800,00, e que eu comparo com
o engenheiro chefe aqui da Embraer em São José
dos Campos que ganha R$20.000,00. O que nós precisamos
gerar é esse tipo de emprego da Perdigão
em Rio Verde para absorver essa massa de desempregados
no interior do Brasil e evitar que eles venham para as
cidades e constituam a massa da periferia angustiada,
porque a industrialização brasileira está
em crise e não vai voltar a ser a mesma pela razão
que nós discutimos anteriormente que é,
basicamente, a abertura comercial. Essa conjugação
de empregos diretos e indiretos no interior brasileiro,
exemplificado por Rio Verde, mas poderia ser Rondonópolis,
Ribeirão Preto, o Triângulo Mineiro, o interior
do Paraná, e mais ainda ao norte do Mato Grosso,
Lucas do Rio Verde, Sorriso e caminhando mais ao norte
ainda para a fronteira agrícola eu acho que é
um grande potencial de absorção de trabalhadores
menos qualificados que me parece que é o grande
desafio do desemprego brasileiro.
Portal do Fazendeiro
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