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Nelson
Barrizelli
Prof.
da FEA/USP
Nelson Barrizzelli
é economista, mestre e doutor em Administração
de Empresas, especializado em finanças e marketing.
Professor assistente da FEA - Faculdade de Economia e Administração
- da USP, leciona na área de marketing de varejo. Também
supervisiona o setor de pesquisas da Fundação
Instituto de Administração, instituição
conveniada com a FEA/USP. Atua como consultor de várias
entidades do varejo e tem larga experiência em empresas
da iniciativa privada, como a AGC International. Em 1988 comprou
uma fazenda para criar gado de leite em Andradas, Minas Gerais,
onde trabalhou com gado puro e importação de
embriões, chegando a produzir 2.500 litros de leite
por dia. Desencantado com os prejuízos, arrendou 80%
da terra para plantio e na parte que restou passou a plantar
café a meia.
Portal -
Quais são os principais problemas do agronegócio
brasileiro?
Nelson
Barrizzelli: O
problema fundamental é o seguinte: primeiro, não
tem apoio de lado nenhum. Em todo mundo, a agropecuária
só vai para frente porque os governos apóiam.
Não existe nenhum país que eu conheça
que tenha uma agropecuária desenvolvida que não
tenha apoio oficial. Esse problema que nós estamos
tendo aí com a Alca, ficou absolutamente transparente,
nas negociações na Organização
Mundial do Comércio, em todas essas questões
internacionais, os grandes subsídios dos governos para
a agropecuária emergem nos países desenvolvidos
de uma forma extraordinária, coisa que, teoricamente,
não seria necessária porque esses países
têm acesso a tecnologias que nós não temos,
têm custos muito mais baixos que os nossos. No entanto
gastam-se bilhões de dólares por ano para manter
o pessoal no campo, para manter uma tecnologia sempre de primeira
linha, de última geração, aumento de
produtividade e assim por diante. Aqui no Brasil, nós
simplesmente não temos apoio para nada. Ainda há
15 anos existia a possibilidade de ter algumas empresas de
porte médio nessa área mas hoje nós temos
ou gigantes no setor ou subsistência, é quase
impossível alguém passar de uma situação
de pequeno produtor para se tornar enorme produtor. Terá
que fazer isso com recursos próprios, com dinheiro
extremamente caro.
Portal -
O sr. acha então que
os subsídios, como são aplicados nos Estados
Unidos ou na Europa, seriam uma saída?
Nelson Barrizzelli:
Na área agrícola e na área da pecuária
não existe nenhuma chance de um país se
tornar forte sem subsídios, não existe nenhuma
possibilidade. E uma outra característica muito
importante é que, fora do Brasil, raramente alguém
planta alguma coisa sem ter um contrato na mão,
seja através da cooperativa local, seja através
de grupos voluntários de agricultores que se juntam.
O fato é que quando o indivíduo planta,
ele já sabe para quem ele vai vender e por quanto
ele vai vender. Se houver uma frustração,
por razões climáticas ou por qualquer problema
que ocorreu, o seguro cobre as despesas e o agricultor,
a exemplo de um industrial, ou de comerciante, cuida do
seu negócio dentro de uma perspectiva perfeitamente
previsível, com os riscos naturais de preço,
etc., que existem em qualquer atividade. Aqui no Brasil
não, aqui você planta e não tem a
mínima idéia do que vai acontecer com a
sua safra, você só vai saber o que vai acontecer
no dia em que começar a vender. Se houver uma frustração
por qualquer razão, por produtividade, problemas
de cultivo, ou por razões climáticas, etc.,
é o agricultor que arca com todos os prejuízos
e problemas. Então, na minha opinião, não
existe possibilidade de se desenvolver uma atividade que
é de altíssimo risco - não tem risco
maior do que o sujeito lidar com seres vivos, no caso
da pecuária, ou na área agrícola.
Evidentemente que eu não posso diminuir meu risco
se o preço sobe ou desce, isso faz parte da dinâmica
do mercado em qualquer ramo de atividade mas posso, se
for uma indústria, colocar uma máquina no
seguro e fazer lucro cessante. Eu acho que aqui no Brasil,
infelizmente, nós copiamos um modelo que não
tem nada a ver com nosso país. Copiamos um modelo
de privilégio total à indústria quando,
na verdade, nós somos um país com terras
agriculturáveis em quantidades imensas, um clima
absolutamente favorável, regiões onde nós
poderíamos ter absoluta superioridade sobre qualquer
país do mundo em determinadas culturas, eu acho
que a soja está mostrando que isso é verdade
e, no entanto, nós ficamos sempre discutindo que
caminho nós vamos seguir. Esse, para mim, é
o maior problema que nós estamos vivendo hoje,
nós abdicamos das nossas vocações
em troca de um modelo que não tem nada a ver com
a nossa realidade.
Portal -
Mas com a estrutura que nós temos hoje, com uma
indústria já bastante desenvolvida, o sr.
acha que nós poderíamos voltar e colocar
o agronegócio como indutor do desenvolvimento?
Nelson Barrizzelli: Eu acho que não há
necessidade de mudar o modelo. Mesmo porque, esse modelo
está mudando sozinho no mundo inteiro. Nós
tivemos o período da agricultura, tivemos o período
da industrialização e hoje nós estamos
na economia pós-industrial. O problema é
que tipo de vocação econômica que
um país tem. Nós criamos nesses últimos
50 anos uma excelente infra-estrutura industrial só
que, com raríssimas exceções, pouco
fundada numa vocação industrial local, brasileira.
Foi uma infra-estrutura baseada em alguns pioneiros locais
que viram uma grande oportunidade, com base em incentivos
governamentais, para poder desenvolver o negócio.
Se formos olhar o que era o Brasil nos anos 40 e o que
é o Brasil hoje, em termos industriais, vamos ver
que a grande força genuinamente brasileira ficou
com algumas famílias, no caso dos Gerdau, da Votorantim,
e com empresas estatais, a Petrobrás, a área
siderúrgica que depois acabou totalmente privatizada.
A base industrial brasileira é hoje totalmente
internacional, multinacional, o que significa que as decisões
básicas da área são tomadas fora
do Brasil num número extremamente significativo
de segmentos: o segmento automobilístico é
todo multinacional, segmento químico e farmacêutico
é multinacional, o segmento alimentício
é multinacional, e assim vai. O resultado prático
disso? o que sobrou para nós dessa infra-estrutura
industrial que nós temos? Sobrou como decisão
interna do país e como controle efetivo para o
nosso futuro, as poucas estatais que não se internacionalizaram,
não se privatizaram, as famílias mais tradicionais,
que mantiveram seus negócios na área industrial
e o agronegócio. Nós não estamos
aproveitando adequadamente ainda o modelo pós-industrial,
que é o modelo tecnológico, o modelo de
serviços, etc. Nós ainda, do mesmo jeito
que ficamos 100 anos atrasados em relação
à industrialização - evidentemente
se o Brasil tivesse se industrializado na metade do século
XIX, nossa história teria sido outra - ficamos
um século discutindo se seríamos industriais
ou seríamos agrícolas e no fim não
fomos nem uma coisa nem outra. Agora na tecnologia pós-industrial
temos o mesmo problema: até hoje não temos
uma política industrial para o Brasil. O mundo
já está num modelo pós-industrial
e estamos discutindo se precisamos de uma política
industrial. É algo que deveria ter acontecido em
1940, estamos 60 anos defasados nesse processo. Em contrapartida
nó, temos um pouco de vergonha de trabalhar, ou
de focar as forças que realmente o Brasil possui
como vocação.
Portal -
O
sr. acha que existe preconceito em relação
ao agronegócio?
Nelson Barrizzelli: Eu acho que agronegócio
na visão na elite brasileira é coisa de
caipira, de gente do interior. Não acordamos para
o fato de que agronegócio não significa,
necessariamente, só agricultura, só pecuária.
Significa o manejo da cadeia, aonde entra a indústria
nesse processo. Então, na verdade, onde é
que nós seríamos fortes? Seríamos
fortes se tivéssemos uma visão clara de
como funciona o agribusiness, de todo esse conjunto, principalmente
para fins de exportação, que no fundo, se
olharmos com cuidado, é o que tem sustentado o
Brasil nos últimos 15 anos. O que efetivamente
cresceu, apesar de ter uma participação
pequena no total do PIB brasileiro, foi o PIB agrícola,
que vem crescendo consistentemente, abandonado, com um
monte de preconceito, sem ajuda de ninguém, etc.
Graças ao esforço de algumas pessoas, que
conseguiram visualizar essa grande vantagem competitiva
que o Brasil tem, o PIB agrícola tem conseguido
sustentar o crescimento total bastante pequeno que o Brasil
tem tido. Eu acho que isso seria mostra suficiente para
perceber que se conseguíssemos efetivamente enxergar
o agronegócio como um todo harmônico, contínuo,
e que realmente pode nos trazer enormes benefícios,
estaríamos hoje numa posição diferente.
Se você visitar qualquer país do mundo você
vai ver "café da Colômbia" em praticamente
todos os países desenvolvidos e ninguém
sabe se aquele café é da Colômbia,
isso não é nada mais do que uma marca, virou
uma marca. Não vejo "café do Brasil"
em lugar nenhum quando viajo para o exterior. Nós
nunca conseguimos firmar no exterior uma marca nossa.
Hoje quem faz o melhor marketing de café no mundo
é a Alemanha e não planta um pé de
café, está certo? E nós que somos,
praticamente, líderes em cafés de boa qualidade,
exportamos grãos para alguém para ele fazer
todo o beneficiamento, colocar embalagem, uma marca, agregar
valor e ganhar efetivamente o dinheiro que se deveria
ganhar na cadeia. Isso vale para tudo, nós exportamos
carne verde, não exportamos carne com marca do
Brasil, nós exportamos frangos, exportamos grãos
de soja. Então nós temos alguns poucos visionários
no Brasil que conseguem intuir que a cadeia toda, a partir
da agricultura até o momento em que se faz uma
marca consegue se criar alguma coisa de valor mas o resultado
é muito pequeno porque são esforços
individuais.
Portal - E
o que poderia ser feito na área governamental para
induzir esse tipo de desenvolvimento do agronegócio?
Nelson
Barrizzelli: Eu acho que a área governamental
reflete aquilo que a elite brasileira acaba desejando.
Nós, na verdade, temos no Brasil aquilo que se
pode chamar de sistema que dirige o país. O presidente
da República, os governadores, os ministros fazem
parte desse sistema, mas eles não representam efetivamente
o único fator de decisão. Na área
governamental temos o Executivo e o Legislativo que são,
na verdade, um reflexo do que as elites do país
estão empurrando. Eu acho que as nossas elites
vivem com um pé no Brasil e com a cabeça
no 1º mundo. Então elas não têm
uma visão clara de quais são as nossas competências
e as nossas vocações. Acho que continuamos
com um certo complexo de inferioridade por não
sermos um país como os Estados Unidos, por não
sermos um país como os países europeus.
Acho que isso não é uma coisa de agora.
Não sou sociólogo mas os sociólogos
têm demonstrado que nós vivemos vários
anos ou várias década voltados para a Europa
e depois da 2ª Guerra Mundial voltados para os Estados
Unidos. Primeiro copiamos o que se fazia na Europa e depois
passamos copiar o que se fazia nos Estados Unidos. E hoje
essa cópia é tão flagrante que hoje
nós temos até nas lojas, liquidação
é "sale". No fundo, as nossas elites
não se conformam em viver num país que não
é tão desenvolvido como o 1º mundo
e, portanto, querem ter aqui um simulacro de país
de 1º Mundo e isso faz com que não haja uma
pressão efetiva sobre quem toma decisão
na direção de tentarmos utilizar aquilo
em que nós somos efetivamente fortes. Eu acho que
o primeiro passo deveria ter uma consciência nacional
e as elites brasileiras deveriam reconhecer que nós
temos hoje uma enorme vantagem competitiva chamada agribusiness
e isso deveria estar permeando a opinião pública
como sendo efetivamente uma força, como sendo algo
muito valorizado. Se isso fosse feito nós teríamos,
na seqüência, uma pressão sobre quem
toma decisões para poder desenvolver programas
ou políticas de apoio específico ao agribusiness.
Eu acho, por exemplo, que nós deveríamos
ter muito claro, aqui no Brasil, em que áreas nós
deveríamos cultivar o que. Isso deveria ser um
projeto nacional. Nós temos ali no São Francisco
a possibilidade de exportar por ano mais de 2 ou 3 bilhões
de dólares de frutas, sem contar o que se pode
fazer no Nordeste irrigado. Quanto nós exportamos
no Brasil? 10% disso, enquanto que o Chile, que tem provavelmente
5% das terras adequadas para frutas, com um esforço
de 10 anos consegue exportar os 2 bilhões de dólares.
Portal -
Falta uma difusão de tecnologia?
Nelson Barrizzelli:
Primeiro falta uma consciência de que isso é
importante, esse é o primeiro passo. O segundo
passo é uma política efetiva de governo
voltada para o agribusiness. Eu vou citar só um
exemplo de como funciona o governo: eu decidi na minha
fazenda fazer um laticínio para melhorar o valor
do leite que eu produzia. Fui a Brasília verificar
o que precisava, me deram todas as informações,
chamei um especialista para poder fazer tudo o que devia.
90 dias depois esse processo estava parado na Secretaria
de Agricultura de Belo Horizonte. Fui ate lá e
descobri que estava parado em cima da mesa de um burocrata
porque para se construir uma parede no prédio onde
ia ser o laticínio tinha que pintar aquela parede
de amarelo e a pessoa que fez o desenho pintou de vermelho.
Então, resultado: o cidadão colocou do lado,
porque a cor estava errada, não informou ninguém
e, se eu não tivesse ido lá, provavelmente,
até hoje, aquilo estaria lá parado. Se,
por acaso, o governo não atrapalhasse, acho que
seria uma grande oportunidade, uma grande vantagem. Então
não falta tecnologia, temos aí a Embrapa,
que tem sido de um auxílio nessa área extraordinário,
pouquíssimo valorizada, raramente a gente ouve
falar dela, do apoio que a empresa tem dado, do desenvolvimento
tecnológico que a Embrapa tem conseguido, não
é valorizado, quem valoriza aqui? Não existe
dinheiro, não existem recursos. Quando enxergo
isso, não vejo simplesmente o governo dando dinheiro
através do Banco do Brasil. Isso eu acho que até
tem um pouco por aí, nem sei se muito bem aplicado
mas um pouco tem, mas não é isso a que me
refiro. É toda uma consciência de nação
brasileira de que isso é realmente é importante,
que é fundamental para o nosso futuro, que é
aí que nós poderíamos ganhar. Nós
podíamos ter hoje, só de exportações
de alimentos, desde que com valor agregado, no mínimo
mais 20, 25 bilhões de dólares, e seria
um valor ainda pequeno em termos da capacidade que o Brasil
tem para produzir. Mas eu acho que isso tem que deixar
de ser coisa de caipira, tem que ser algo realmente sério,
e se for sério a população vai valorizar
e a população valorizando as elites vão
fazer pressão e o governo vai responder. Na verdade
é algo que tem que vir de baixo para cima porque
se for feito só de cima o que vai virar? Isso vai
virar só subsídio e só subsídio
nós tivemos aí antes de 1980, provavelmente,
a agricultura brasileira teve os maiores subsídios
da nossa história, não sei se tão
grande como no exterior mas muito subsídio, juros
privilegiados, dinheiro fácil, etc. e o que aconteceu?
Rigorosamente nada. O problema do subsídio é
a ponta da pirâmide, ele não é a base.
A base é o reconhecimento de que nós temos
aqui uma força imensa que, aliás, deveria
estar sendo usada de uma forma melhor nessas negociações
internacionais como Alca, etc. porque é isso que
nós temos para oferecer. Não temos indústrias
para trocar com os Estados Unidos, as indústrias
que nós temos aqui são as que eles têm
lá, e vieram de lá, em última análise,
nós não temos muita coisa nesse campo, mas
onde nós temos uma enorme vantagem competitiva
é justamente no agribusiness.
Portal - O
sr. falou de uma agricultura empresarial e uma de subsistência.
O que fazer para aproximar esses dois setores?
Nelson Barrizzelli:
Acho que a agricultura empresarial deveria se valer da
agricultura de subsistência como uma parte de seu
processo, como uma terceirização de seu
processo. O modelo é mais um modelo cooperativo,
onde eu tenho uma grande empresa agrícola e na
periferia dela uma grande quantidade de pequenos agricultores
que serve para mantê-los vivendo nas áreas
onde eles estão mas de alguma forma ligados a essa
grande empresa agrícola de tal maneira que eles
tenham garantia de sobrevivência, que não
precisem ir ao banco pegar empréstimo de 10 mil
reais para poder plantar um alqueire de milho e depois,
se não der para pagar o banco, tem que vender o
alqueirizinho dele e ir para a cidade criar problemas,
virar favelado. É um problema de integração,
da mesma forma que essas grandes empresas agrícolas
precisariam estar integradas a grandes indústrias
do setor de agribusiness que seriam as grandes exportadoras
ou fornecedoras do mercado nacional. Em algumas áreas
temos isso, por exemplo, na área de frango nós
temos um esquema muito bem montado, na área de
soja temos alguma coisa, não tão bem estruturada,
mas temos. Na área de carne, infelizmente, não
temos nada, temos alguns esforços para isso. No
Brasil nós fizemos um enorme esforço, gastamos
fortunas para fazer o cruzamento industrial, criar o novilho
precoce, o novilho que consegue um preço muito
maior, que tem menos gordura e mais carne, etc. quando
esse pobre novilho precoce bate no frigorífico
ele vira vaca, vira como qualquer outro, o preço
é rigorosamente o mesmo, ninguém paga mais
por causa disso. Por que? Porque não existe nenhum
esforço no sentido de se criar uma integração
de tal maneira que, ao se criar o novilho precoce, ele
passe por um processo de manipulação industrial,
etc. que vire uma marca brasileira e que tenha toda uma
infra-estrutura no exterior para colocar esse bicho de
tal maneira que a gente consiga trazer para quem criou
o novilho precoce aquele valor que o consumidor lá
fora paga por uma carne diferenciada. Isso vale para muitos
outros mercados. Mesmo no caso da soja hoje nós
estamos nas mãos das multinacionais, são
empresas multinacionais que compram o grão aqui
no Brasil, exportam e vão fazer a agregação
de valor, lá fora ele vira farelo, proteína
de soja, uma série de coisas que realmente agregam
valor.
Portal -
Uma das grandes questões para o desenvolvimento
do setor é o conflito agrário e uma das
soluções apontadas, que é o assentamento,
deve implicar no surgimento de uma grande quantidade de
propriedades familiares. O modelo que o sr. apontou comporta
a incorporação de novos proprietários
vindos de uma reforma agrária?
Nelson
Barrizzelli: O
conflito agrário, na verdade, é efeito e
não causa. É resultado da urbanização
muito rápida que o país teve justamente
por falta de reconhecer que a agricultura deveria ser
a grande força nacional, o que não impediria
ao mesmo tempo a industrialização do Brasil,
porque não são excludentes. O resultado
prático é que ao longo desses últimos
70, 80 anos ou mais até recentemente, nos últimos
40 anos, nós expulsamos do campo um enorme contingente
de pessoas por falta de apoio, por falta de ajuda, por
falta de condições para que eles continuassem
donos da terra e esse pessoal se transformou em párias
na cidade, no primeiro momento até vieram para
trabalhar na indústria mas quando a indústria
se modernizou e nós tivemos todo esse desenvolvimento
na área de automação etc., a indústria
se tornou uma exportadora líquida de mão-de-obra.
O desemprego conjuntural existe e vai continuar, a menos
que a gente crie novas indústrias no Brasil porque
as que existem agora já chegaram num ponto em que
a mão-de-obra se equilibrou. O movimento agrário
acabou se formando nitidamente com fins políticos,
não com fins práticos, de fixar o homem
na terra pela grande quantidade de pessoas que saíram
da terra e que acabaram percebendo, através dessa
pregação fácil que existe, que uma
das possibilidades para o futuro deles era voltar para
a terra. Como eles não tinham dinheiro para comprar,
então o negócio é fazer reforma agrária.
Eu acho que um outro fator que gerou isso foi exatamente
o número de proprietários de terras no Brasil
ser relativamente pequeno em relação a grandes
extensões e esses proprietários não
perceberem nenhuma vantagem específica em fazer
com que sua terra seja movimentada para fins produtivos.
Ao contrário, eles só mantiveram a terra
para fins especulativos. Isso aconteceu porque nós
nunca privilegiamos a agricultura: ninguém que
tem mil alqueires, cinco mil alqueires, vai deixar lá
parado se aquilo pode render mais dinheiro do que ele
consegue no mercado financeiro. Se o que ele consegue
no mercado financeiro é mais do que a terra rende,
ele deixa no mercado financeiro e é isso que nós
temos feito. Então eu acho que no momento em que
isso está montado, não tem jeito, a probabilidade
desse modelo dar certo é praticamente zero.
Portal -
E qual seria o modelo ideal?
Nelson
Barrizzelli:
Não adianta dar terra para alguém, você
pode dar terra para quem você quiser, ele vai continuar
pobre, miserável, do mesmo jeito que era na favela,
não resolve. Se alguém tiver que receber
terra, tem que receber semente, apoio, trator, dinheiro
para a colheita, certeza de preço, etc. Essa pregação
de que a terra é a solução, isso
é absolutamente falso. Se conseguíssemos,
de alguma maneira, dar substância para a agricultura,
iríamos criar empregos no campo. Nós iríamos
fazer duas coisas: primeiro criar emprego porque não
é verdade que a agricultura hoje já chegou
num nível em que já não cria mais
empregos, isso não é fato. Na área
da fruticultura, por exemplo, você precisa de mão-de-obra,
não existe máquina que cuide de parreira,
que cuide de macieira. Existe máquina que planta
soja mas na área de fruticultura, se nós
fizéssemos um grande projeto nacional para nós
exportarmos 3, 4 bilhões de dólares em frutas,
criaríamos alguns milhares de empregos. Com certeza,
pessoas que estão vegetando nas grandes cidades
seriam impulsionadas para esses projetos. Uma outra área
onde criaríamos emprego é exatamente na
cadeia do agribusiness porque, na medida em que deixássemos
de exportar soja em grão e passássemos a
exportar produtos com valor agregado, criaríamos
empregos em modelos industriais que não temos hoje.
Nós achamos extraordinário jogar 800 milhões
de reais numa fábrica da Ford, uma multinacional
fortemente lucrativa, com dinheiro à vontade para
investir onde ela quiser para criar 1.500 empregos. Imagine
o que você criaria de empregos aplicando 800 milhões
de reais numa cadeia produtiva de agribusiness, gerando
indústrias que não existem hoje, e o que
é mais importante: gerando valor agregado lá
na ponta para você conseguir resultados de exportação
muito maiores do que nós temos hoje. Nós
teríamos empregos e moeda forte para melhorar a
situação interna do país, mas eu
nunca vi ninguém da área do governo preocupado.
O BNDES faz estudos na cadeia da indústria química,
na química fina, na biotecnologia, etc para saber
onde é que exatamente vai botar dinheiro. O BNDES,
nos últimos anos, usou dinheiro do Fundo de Amparo
ao Trabalhador para gerar desemprego. Por que? Porque
ele pegou esse dinheiro que é do Fundo de Amparo
ao Trabalhador para modernização de indústrias
e modernização de indústrias gera
desemprego. Então esse país está
todo errado, em sua concepção ele está
errado. Todo esse conflito agrário acabaria se
resolvendo naturalmente se ao longo do tempo você
pudesse absorver essa gente de outra forma. É evidente
que no meio de um monte de espertalhões que querem
ser deputados, senadores, etc. tem um monte de espertalhões
que têm um emprego na cidade e querem um terreninho
para poder vender e fazer algum dinheirinho. Evidentemente
não são todos, ao contrário, a grande
maioria se entusiasma com a pregação fácil
de que se conseguir um pedaço de terra vai ficar
rico, a vida vai estar resolvida, etc. e o cara vai atrás
disso. Certamente que se esse indivíduo que hoje
não tem emprego, não tem nenhuma perspectiva,
pudesse ser introduzido dentro de uma cadeia agropecuária
ou dentro de uma cadeia de agribusiness ele certamente
largaria toda essa bobagem e iria cuidar da vida. Isso
acabaria se resolvendo naturalmente, sem essas tensões.
Mesmo porque, a reforma agrária no Brasil deveria
começar pelas áreas do próprio governo.
O governo hoje é o maior dono de terras no Brasil,
se ele quisesse fazer a reforma agrária poderia
começar pelas terras dele, não precisa desapropriar
terra nenhuma. Infelizmente, o que o MST quer não
é isso, o que o MST quer é invadir propriedades
já preparadas, já organizadas, já
desbravadas e assim por diante. Evidentemente tudo isso
é muito político. Eu acho que nós
resolveríamos grande parte dos nossos problemas
nessa área se realmente déssemos atenção
à força que o agribusiness tem. Isso não
se resolve em um ano mas se resolve no tempo, mas há
quantos anos nós estamos aí brigando com
essas coisas? Já poderia ter tido pelo menos um
encaminhamento mas não, isso é cachorro
correndo atrás do rabo. Eu fico muito triste com
essa situação.
Portal do Fazendeiro
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