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ENTREVISTAS

Nelson Barrizelli
Prof. da FEA/USP

Nelson Barrizzelli é economista, mestre e doutor em Administração de Empresas, especializado em finanças e marketing. Professor assistente da FEA - Faculdade de Economia e Administração - da USP, leciona na área de marketing de varejo. Também supervisiona o setor de pesquisas da Fundação Instituto de Administração, instituição conveniada com a FEA/USP. Atua como consultor de várias entidades do varejo e tem larga experiência em empresas da iniciativa privada, como a AGC International. Em 1988 comprou uma fazenda para criar gado de leite em Andradas, Minas Gerais, onde trabalhou com gado puro e importação de embriões, chegando a produzir 2.500 litros de leite por dia. Desencantado com os prejuízos, arrendou 80% da terra para plantio e na parte que restou passou a plantar café a meia.

Portal - Quais são os principais problemas do agronegócio brasileiro?


Nelson Barrizzelli: O problema fundamental é o seguinte: primeiro, não tem apoio de lado nenhum. Em todo mundo, a agropecuária só vai para frente porque os governos apóiam. Não existe nenhum país que eu conheça que tenha uma agropecuária desenvolvida que não tenha apoio oficial. Esse problema que nós estamos tendo aí com a Alca, ficou absolutamente transparente, nas negociações na Organização Mundial do Comércio, em todas essas questões internacionais, os grandes subsídios dos governos para a agropecuária emergem nos países desenvolvidos de uma forma extraordinária, coisa que, teoricamente, não seria necessária porque esses países têm acesso a tecnologias que nós não temos, têm custos muito mais baixos que os nossos. No entanto gastam-se bilhões de dólares por ano para manter o pessoal no campo, para manter uma tecnologia sempre de primeira linha, de última geração, aumento de produtividade e assim por diante. Aqui no Brasil, nós simplesmente não temos apoio para nada. Ainda há 15 anos existia a possibilidade de ter algumas empresas de porte médio nessa área mas hoje nós temos ou gigantes no setor ou subsistência, é quase impossível alguém passar de uma situação de pequeno produtor para se tornar enorme produtor. Terá que fazer isso com recursos próprios, com dinheiro extremamente caro.



Portal - O sr. acha então que os subsídios, como são aplicados nos Estados Unidos ou na Europa, seriam uma saída?


Nelson Barrizzelli:
Na área agrícola e na área da pecuária não existe nenhuma chance de um país se tornar forte sem subsídios, não existe nenhuma possibilidade. E uma outra característica muito importante é que, fora do Brasil, raramente alguém planta alguma coisa sem ter um contrato na mão, seja através da cooperativa local, seja através de grupos voluntários de agricultores que se juntam. O fato é que quando o indivíduo planta, ele já sabe para quem ele vai vender e por quanto ele vai vender. Se houver uma frustração, por razões climáticas ou por qualquer problema que ocorreu, o seguro cobre as despesas e o agricultor, a exemplo de um industrial, ou de comerciante, cuida do seu negócio dentro de uma perspectiva perfeitamente previsível, com os riscos naturais de preço, etc., que existem em qualquer atividade. Aqui no Brasil não, aqui você planta e não tem a mínima idéia do que vai acontecer com a sua safra, você só vai saber o que vai acontecer no dia em que começar a vender. Se houver uma frustração por qualquer razão, por produtividade, problemas de cultivo, ou por razões climáticas, etc., é o agricultor que arca com todos os prejuízos e problemas. Então, na minha opinião, não existe possibilidade de se desenvolver uma atividade que é de altíssimo risco - não tem risco maior do que o sujeito lidar com seres vivos, no caso da pecuária, ou na área agrícola. Evidentemente que eu não posso diminuir meu risco se o preço sobe ou desce, isso faz parte da dinâmica do mercado em qualquer ramo de atividade mas posso, se for uma indústria, colocar uma máquina no seguro e fazer lucro cessante. Eu acho que aqui no Brasil, infelizmente, nós copiamos um modelo que não tem nada a ver com nosso país. Copiamos um modelo de privilégio total à indústria quando, na verdade, nós somos um país com terras agriculturáveis em quantidades imensas, um clima absolutamente favorável, regiões onde nós poderíamos ter absoluta superioridade sobre qualquer país do mundo em determinadas culturas, eu acho que a soja está mostrando que isso é verdade e, no entanto, nós ficamos sempre discutindo que caminho nós vamos seguir. Esse, para mim, é o maior problema que nós estamos vivendo hoje, nós abdicamos das nossas vocações em troca de um modelo que não tem nada a ver com a nossa realidade.


Portal - Mas com a estrutura que nós temos hoje, com uma indústria já bastante desenvolvida, o sr. acha que nós poderíamos voltar e colocar o agronegócio como indutor do desenvolvimento?


Nelson Barrizzelli: Eu acho que não há necessidade de mudar o modelo. Mesmo porque, esse modelo está mudando sozinho no mundo inteiro. Nós tivemos o período da agricultura, tivemos o período da industrialização e hoje nós estamos na economia pós-industrial. O problema é que tipo de vocação econômica que um país tem. Nós criamos nesses últimos 50 anos uma excelente infra-estrutura industrial só que, com raríssimas exceções, pouco fundada numa vocação industrial local, brasileira. Foi uma infra-estrutura baseada em alguns pioneiros locais que viram uma grande oportunidade, com base em incentivos governamentais, para poder desenvolver o negócio. Se formos olhar o que era o Brasil nos anos 40 e o que é o Brasil hoje, em termos industriais, vamos ver que a grande força genuinamente brasileira ficou com algumas famílias, no caso dos Gerdau, da Votorantim, e com empresas estatais, a Petrobrás, a área siderúrgica que depois acabou totalmente privatizada. A base industrial brasileira é hoje totalmente internacional, multinacional, o que significa que as decisões básicas da área são tomadas fora do Brasil num número extremamente significativo de segmentos: o segmento automobilístico é todo multinacional, segmento químico e farmacêutico é multinacional, o segmento alimentício é multinacional, e assim vai. O resultado prático disso? o que sobrou para nós dessa infra-estrutura industrial que nós temos? Sobrou como decisão interna do país e como controle efetivo para o nosso futuro, as poucas estatais que não se internacionalizaram, não se privatizaram, as famílias mais tradicionais, que mantiveram seus negócios na área industrial e o agronegócio. Nós não estamos aproveitando adequadamente ainda o modelo pós-industrial, que é o modelo tecnológico, o modelo de serviços, etc. Nós ainda, do mesmo jeito que ficamos 100 anos atrasados em relação à industrialização - evidentemente se o Brasil tivesse se industrializado na metade do século XIX, nossa história teria sido outra - ficamos um século discutindo se seríamos industriais ou seríamos agrícolas e no fim não fomos nem uma coisa nem outra. Agora na tecnologia pós-industrial temos o mesmo problema: até hoje não temos uma política industrial para o Brasil. O mundo já está num modelo pós-industrial e estamos discutindo se precisamos de uma política industrial. É algo que deveria ter acontecido em 1940, estamos 60 anos defasados nesse processo. Em contrapartida nó, temos um pouco de vergonha de trabalhar, ou de focar as forças que realmente o Brasil possui como vocação.


Portal - O sr. acha que existe preconceito em relação ao agronegócio?


Nelson Barrizzelli:
Eu acho que agronegócio na visão na elite brasileira é coisa de caipira, de gente do interior. Não acordamos para o fato de que agronegócio não significa, necessariamente, só agricultura, só pecuária. Significa o manejo da cadeia, aonde entra a indústria nesse processo. Então, na verdade, onde é que nós seríamos fortes? Seríamos fortes se tivéssemos uma visão clara de como funciona o agribusiness, de todo esse conjunto, principalmente para fins de exportação, que no fundo, se olharmos com cuidado, é o que tem sustentado o Brasil nos últimos 15 anos. O que efetivamente cresceu, apesar de ter uma participação pequena no total do PIB brasileiro, foi o PIB agrícola, que vem crescendo consistentemente, abandonado, com um monte de preconceito, sem ajuda de ninguém, etc. Graças ao esforço de algumas pessoas, que conseguiram visualizar essa grande vantagem competitiva que o Brasil tem, o PIB agrícola tem conseguido sustentar o crescimento total bastante pequeno que o Brasil tem tido. Eu acho que isso seria mostra suficiente para perceber que se conseguíssemos efetivamente enxergar o agronegócio como um todo harmônico, contínuo, e que realmente pode nos trazer enormes benefícios, estaríamos hoje numa posição diferente. Se você visitar qualquer país do mundo você vai ver "café da Colômbia" em praticamente todos os países desenvolvidos e ninguém sabe se aquele café é da Colômbia, isso não é nada mais do que uma marca, virou uma marca. Não vejo "café do Brasil" em lugar nenhum quando viajo para o exterior. Nós nunca conseguimos firmar no exterior uma marca nossa. Hoje quem faz o melhor marketing de café no mundo é a Alemanha e não planta um pé de café, está certo? E nós que somos, praticamente, líderes em cafés de boa qualidade, exportamos grãos para alguém para ele fazer todo o beneficiamento, colocar embalagem, uma marca, agregar valor e ganhar efetivamente o dinheiro que se deveria ganhar na cadeia. Isso vale para tudo, nós exportamos carne verde, não exportamos carne com marca do Brasil, nós exportamos frangos, exportamos grãos de soja. Então nós temos alguns poucos visionários no Brasil que conseguem intuir que a cadeia toda, a partir da agricultura até o momento em que se faz uma marca consegue se criar alguma coisa de valor mas o resultado é muito pequeno porque são esforços individuais.


Portal - E o que poderia ser feito na área governamental para induzir esse tipo de desenvolvimento do agronegócio?

Nelson Barrizzelli: Eu acho que a área governamental reflete aquilo que a elite brasileira acaba desejando. Nós, na verdade, temos no Brasil aquilo que se pode chamar de sistema que dirige o país. O presidente da República, os governadores, os ministros fazem parte desse sistema, mas eles não representam efetivamente o único fator de decisão. Na área governamental temos o Executivo e o Legislativo que são, na verdade, um reflexo do que as elites do país estão empurrando. Eu acho que as nossas elites vivem com um pé no Brasil e com a cabeça no 1º mundo. Então elas não têm uma visão clara de quais são as nossas competências e as nossas vocações. Acho que continuamos com um certo complexo de inferioridade por não sermos um país como os Estados Unidos, por não sermos um país como os países europeus. Acho que isso não é uma coisa de agora. Não sou sociólogo mas os sociólogos têm demonstrado que nós vivemos vários anos ou várias década voltados para a Europa e depois da 2ª Guerra Mundial voltados para os Estados Unidos. Primeiro copiamos o que se fazia na Europa e depois passamos copiar o que se fazia nos Estados Unidos. E hoje essa cópia é tão flagrante que hoje nós temos até nas lojas, liquidação é "sale". No fundo, as nossas elites não se conformam em viver num país que não é tão desenvolvido como o 1º mundo e, portanto, querem ter aqui um simulacro de país de 1º Mundo e isso faz com que não haja uma pressão efetiva sobre quem toma decisão na direção de tentarmos utilizar aquilo em que nós somos efetivamente fortes. Eu acho que o primeiro passo deveria ter uma consciência nacional e as elites brasileiras deveriam reconhecer que nós temos hoje uma enorme vantagem competitiva chamada agribusiness e isso deveria estar permeando a opinião pública como sendo efetivamente uma força, como sendo algo muito valorizado. Se isso fosse feito nós teríamos, na seqüência, uma pressão sobre quem toma decisões para poder desenvolver programas ou políticas de apoio específico ao agribusiness. Eu acho, por exemplo, que nós deveríamos ter muito claro, aqui no Brasil, em que áreas nós deveríamos cultivar o que. Isso deveria ser um projeto nacional. Nós temos ali no São Francisco a possibilidade de exportar por ano mais de 2 ou 3 bilhões de dólares de frutas, sem contar o que se pode fazer no Nordeste irrigado. Quanto nós exportamos no Brasil? 10% disso, enquanto que o Chile, que tem provavelmente 5% das terras adequadas para frutas, com um esforço de 10 anos consegue exportar os 2 bilhões de dólares.


Portal - Falta uma difusão de tecnologia?


Nelson Barrizzelli: Primeiro falta uma consciência de que isso é importante, esse é o primeiro passo. O segundo passo é uma política efetiva de governo voltada para o agribusiness. Eu vou citar só um exemplo de como funciona o governo: eu decidi na minha fazenda fazer um laticínio para melhorar o valor do leite que eu produzia. Fui a Brasília verificar o que precisava, me deram todas as informações, chamei um especialista para poder fazer tudo o que devia. 90 dias depois esse processo estava parado na Secretaria de Agricultura de Belo Horizonte. Fui ate lá e descobri que estava parado em cima da mesa de um burocrata porque para se construir uma parede no prédio onde ia ser o laticínio tinha que pintar aquela parede de amarelo e a pessoa que fez o desenho pintou de vermelho. Então, resultado: o cidadão colocou do lado, porque a cor estava errada, não informou ninguém e, se eu não tivesse ido lá, provavelmente, até hoje, aquilo estaria lá parado. Se, por acaso, o governo não atrapalhasse, acho que seria uma grande oportunidade, uma grande vantagem. Então não falta tecnologia, temos aí a Embrapa, que tem sido de um auxílio nessa área extraordinário, pouquíssimo valorizada, raramente a gente ouve falar dela, do apoio que a empresa tem dado, do desenvolvimento tecnológico que a Embrapa tem conseguido, não é valorizado, quem valoriza aqui? Não existe dinheiro, não existem recursos. Quando enxergo isso, não vejo simplesmente o governo dando dinheiro através do Banco do Brasil. Isso eu acho que até tem um pouco por aí, nem sei se muito bem aplicado mas um pouco tem, mas não é isso a que me refiro. É toda uma consciência de nação brasileira de que isso é realmente é importante, que é fundamental para o nosso futuro, que é aí que nós poderíamos ganhar. Nós podíamos ter hoje, só de exportações de alimentos, desde que com valor agregado, no mínimo mais 20, 25 bilhões de dólares, e seria um valor ainda pequeno em termos da capacidade que o Brasil tem para produzir. Mas eu acho que isso tem que deixar de ser coisa de caipira, tem que ser algo realmente sério, e se for sério a população vai valorizar e a população valorizando as elites vão fazer pressão e o governo vai responder. Na verdade é algo que tem que vir de baixo para cima porque se for feito só de cima o que vai virar? Isso vai virar só subsídio e só subsídio nós tivemos aí antes de 1980, provavelmente, a agricultura brasileira teve os maiores subsídios da nossa história, não sei se tão grande como no exterior mas muito subsídio, juros privilegiados, dinheiro fácil, etc. e o que aconteceu? Rigorosamente nada. O problema do subsídio é a ponta da pirâmide, ele não é a base. A base é o reconhecimento de que nós temos aqui uma força imensa que, aliás, deveria estar sendo usada de uma forma melhor nessas negociações internacionais como Alca, etc. porque é isso que nós temos para oferecer. Não temos indústrias para trocar com os Estados Unidos, as indústrias que nós temos aqui são as que eles têm lá, e vieram de lá, em última análise, nós não temos muita coisa nesse campo, mas onde nós temos uma enorme vantagem competitiva é justamente no agribusiness.


Portal - O sr. falou de uma agricultura empresarial e uma de subsistência. O que fazer para aproximar esses dois setores?


Nelson Barrizzelli: Acho que a agricultura empresarial deveria se valer da agricultura de subsistência como uma parte de seu processo, como uma terceirização de seu processo. O modelo é mais um modelo cooperativo, onde eu tenho uma grande empresa agrícola e na periferia dela uma grande quantidade de pequenos agricultores que serve para mantê-los vivendo nas áreas onde eles estão mas de alguma forma ligados a essa grande empresa agrícola de tal maneira que eles tenham garantia de sobrevivência, que não precisem ir ao banco pegar empréstimo de 10 mil reais para poder plantar um alqueire de milho e depois, se não der para pagar o banco, tem que vender o alqueirizinho dele e ir para a cidade criar problemas, virar favelado. É um problema de integração, da mesma forma que essas grandes empresas agrícolas precisariam estar integradas a grandes indústrias do setor de agribusiness que seriam as grandes exportadoras ou fornecedoras do mercado nacional. Em algumas áreas temos isso, por exemplo, na área de frango nós temos um esquema muito bem montado, na área de soja temos alguma coisa, não tão bem estruturada, mas temos. Na área de carne, infelizmente, não temos nada, temos alguns esforços para isso. No Brasil nós fizemos um enorme esforço, gastamos fortunas para fazer o cruzamento industrial, criar o novilho precoce, o novilho que consegue um preço muito maior, que tem menos gordura e mais carne, etc. quando esse pobre novilho precoce bate no frigorífico ele vira vaca, vira como qualquer outro, o preço é rigorosamente o mesmo, ninguém paga mais por causa disso. Por que? Porque não existe nenhum esforço no sentido de se criar uma integração de tal maneira que, ao se criar o novilho precoce, ele passe por um processo de manipulação industrial, etc. que vire uma marca brasileira e que tenha toda uma infra-estrutura no exterior para colocar esse bicho de tal maneira que a gente consiga trazer para quem criou o novilho precoce aquele valor que o consumidor lá fora paga por uma carne diferenciada. Isso vale para muitos outros mercados. Mesmo no caso da soja hoje nós estamos nas mãos das multinacionais, são empresas multinacionais que compram o grão aqui no Brasil, exportam e vão fazer a agregação de valor, lá fora ele vira farelo, proteína de soja, uma série de coisas que realmente agregam valor.


Portal - Uma das grandes questões para o desenvolvimento do setor é o conflito agrário e uma das soluções apontadas, que é o assentamento, deve implicar no surgimento de uma grande quantidade de propriedades familiares. O modelo que o sr. apontou comporta a incorporação de novos proprietários vindos de uma reforma agrária?


Nelson Barrizzelli: O conflito agrário, na verdade, é efeito e não causa. É resultado da urbanização muito rápida que o país teve justamente por falta de reconhecer que a agricultura deveria ser a grande força nacional, o que não impediria ao mesmo tempo a industrialização do Brasil, porque não são excludentes. O resultado prático é que ao longo desses últimos 70, 80 anos ou mais até recentemente, nos últimos 40 anos, nós expulsamos do campo um enorme contingente de pessoas por falta de apoio, por falta de ajuda, por falta de condições para que eles continuassem donos da terra e esse pessoal se transformou em párias na cidade, no primeiro momento até vieram para trabalhar na indústria mas quando a indústria se modernizou e nós tivemos todo esse desenvolvimento na área de automação etc., a indústria se tornou uma exportadora líquida de mão-de-obra. O desemprego conjuntural existe e vai continuar, a menos que a gente crie novas indústrias no Brasil porque as que existem agora já chegaram num ponto em que a mão-de-obra se equilibrou. O movimento agrário acabou se formando nitidamente com fins políticos, não com fins práticos, de fixar o homem na terra pela grande quantidade de pessoas que saíram da terra e que acabaram percebendo, através dessa pregação fácil que existe, que uma das possibilidades para o futuro deles era voltar para a terra. Como eles não tinham dinheiro para comprar, então o negócio é fazer reforma agrária. Eu acho que um outro fator que gerou isso foi exatamente o número de proprietários de terras no Brasil ser relativamente pequeno em relação a grandes extensões e esses proprietários não perceberem nenhuma vantagem específica em fazer com que sua terra seja movimentada para fins produtivos. Ao contrário, eles só mantiveram a terra para fins especulativos. Isso aconteceu porque nós nunca privilegiamos a agricultura: ninguém que tem mil alqueires, cinco mil alqueires, vai deixar lá parado se aquilo pode render mais dinheiro do que ele consegue no mercado financeiro. Se o que ele consegue no mercado financeiro é mais do que a terra rende, ele deixa no mercado financeiro e é isso que nós temos feito. Então eu acho que no momento em que isso está montado, não tem jeito, a probabilidade desse modelo dar certo é praticamente zero.


Portal -
E qual seria o modelo ideal?


Nelson Barrizzelli: Não adianta dar terra para alguém, você pode dar terra para quem você quiser, ele vai continuar pobre, miserável, do mesmo jeito que era na favela, não resolve. Se alguém tiver que receber terra, tem que receber semente, apoio, trator, dinheiro para a colheita, certeza de preço, etc. Essa pregação de que a terra é a solução, isso é absolutamente falso. Se conseguíssemos, de alguma maneira, dar substância para a agricultura, iríamos criar empregos no campo. Nós iríamos fazer duas coisas: primeiro criar emprego porque não é verdade que a agricultura hoje já chegou num nível em que já não cria mais empregos, isso não é fato. Na área da fruticultura, por exemplo, você precisa de mão-de-obra, não existe máquina que cuide de parreira, que cuide de macieira. Existe máquina que planta soja mas na área de fruticultura, se nós fizéssemos um grande projeto nacional para nós exportarmos 3, 4 bilhões de dólares em frutas, criaríamos alguns milhares de empregos. Com certeza, pessoas que estão vegetando nas grandes cidades seriam impulsionadas para esses projetos. Uma outra área onde criaríamos emprego é exatamente na cadeia do agribusiness porque, na medida em que deixássemos de exportar soja em grão e passássemos a exportar produtos com valor agregado, criaríamos empregos em modelos industriais que não temos hoje. Nós achamos extraordinário jogar 800 milhões de reais numa fábrica da Ford, uma multinacional fortemente lucrativa, com dinheiro à vontade para investir onde ela quiser para criar 1.500 empregos. Imagine o que você criaria de empregos aplicando 800 milhões de reais numa cadeia produtiva de agribusiness, gerando indústrias que não existem hoje, e o que é mais importante: gerando valor agregado lá na ponta para você conseguir resultados de exportação muito maiores do que nós temos hoje. Nós teríamos empregos e moeda forte para melhorar a situação interna do país, mas eu nunca vi ninguém da área do governo preocupado. O BNDES faz estudos na cadeia da indústria química, na química fina, na biotecnologia, etc para saber onde é que exatamente vai botar dinheiro. O BNDES, nos últimos anos, usou dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador para gerar desemprego. Por que? Porque ele pegou esse dinheiro que é do Fundo de Amparo ao Trabalhador para modernização de indústrias e modernização de indústrias gera desemprego. Então esse país está todo errado, em sua concepção ele está errado. Todo esse conflito agrário acabaria se resolvendo naturalmente se ao longo do tempo você pudesse absorver essa gente de outra forma. É evidente que no meio de um monte de espertalhões que querem ser deputados, senadores, etc. tem um monte de espertalhões que têm um emprego na cidade e querem um terreninho para poder vender e fazer algum dinheirinho. Evidentemente não são todos, ao contrário, a grande maioria se entusiasma com a pregação fácil de que se conseguir um pedaço de terra vai ficar rico, a vida vai estar resolvida, etc. e o cara vai atrás disso. Certamente que se esse indivíduo que hoje não tem emprego, não tem nenhuma perspectiva, pudesse ser introduzido dentro de uma cadeia agropecuária ou dentro de uma cadeia de agribusiness ele certamente largaria toda essa bobagem e iria cuidar da vida. Isso acabaria se resolvendo naturalmente, sem essas tensões. Mesmo porque, a reforma agrária no Brasil deveria começar pelas áreas do próprio governo. O governo hoje é o maior dono de terras no Brasil, se ele quisesse fazer a reforma agrária poderia começar pelas terras dele, não precisa desapropriar terra nenhuma. Infelizmente, o que o MST quer não é isso, o que o MST quer é invadir propriedades já preparadas, já organizadas, já desbravadas e assim por diante. Evidentemente tudo isso é muito político. Eu acho que nós resolveríamos grande parte dos nossos problemas nessa área se realmente déssemos atenção à força que o agribusiness tem. Isso não se resolve em um ano mas se resolve no tempo, mas há quantos anos nós estamos aí brigando com essas coisas? Já poderia ter tido pelo menos um encaminhamento mas não, isso é cachorro correndo atrás do rabo. Eu fico muito triste com essa situação.

Portal do Fazendeiro

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