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ENTREVISTAS

Guido Gatta
Diretor de Marketing da Tortuga

O Sucesso do Agronegócio, nós já sonhávamos
dez anos atrás

A história de Guido Gatta se confunde com a própria história da Tortuga, empresa que o jovem italiano de Pádua ajudou a construir em 1954, quando foi "importado" pelo conterrâneo Fabiano Fabiani, e para a qual dedicou 50 anos de sua vida. Perito agrícola, com especialização em nutrição animal pela Faculdade de Agronomia de Florença, ele desembarcou em Santos em setembro de 1954, com apenas 22 anos. Sob o comando de Fabiani, o fundador da Tortuga, Gatta fez de tudo um pouco: foi assistente técnico, supervisor, gerente de vendas, diretor de fábrica, até ser promovido a diretor de Marketing, posto que ocupa desde a década de 60. "O segredo do sucesso da Tortuga é o gosto pela novidade. Sempre buscamos estar à frente de nosso tempo. Fomos os pioneiros em vários campos da nutrição animal, como na tecnologia do boi verde, que hoje está conquistando o mercado mundial", diz Gatta. "Este boom que o agronegócio brasileiro está vivendo hoje, nós já sonhávamos dez anos atrás. E é muito bom estar vivo para viver os nossos sonhos".


Agroanalysis - A Tortuga completou este ano 50 anos de vida, e o senhor comemorou, em setembro último, 50 anos de empresa e de Brasil, país onde teve a oportunidade de acompanhar - e participar também - da evolução da pecuária e da agricultura. Qual é a principal diferença entre a agropecuária dos anos 50 e a de hoje?

Guido Gatta - Totalmente diferente. Pessoas como o Fabiano Fabiani estavam bem à frente do seu tempo, pensavam dez anos à frente. O sucesso do agronegócio de hoje, a gente já sonhava e previa 20 anos atrás. E é muito bom estar vivo para viver os nossos sonhos. Cheguei até a escrever alguns ensaios, anos atrás, onde previa que o Brasil seria o maior produtor de carnes do mundo. Em aves, nós já somos. Em carne bovina também. Só faltam os suínos. Na carne bovina, o sucesso do Brasil segue uma lógica. Na faixa tropical, onde o País se situa, temos de um lado a Austrália, um país extremamente seco e onde a pecuária alcançou o máximo que podia e, portanto, chegou a seu limite. Nesta faixa também está situada a Índia, onde a vaca é um animal sagrado. Há depois a África, um continente ainda dominado por tribos. Resta então apenas o Brasil e alguns países vizinhos, como o Uruguai e a Argentina. Nós temos as condições ideais para a produção de carne bovina: sol, chuva e muito capim. Nós podemos fazer o boi de capim, o boi verde, que aliás foi criado pela Tortuga.


Agroanalysis - A Tortuga já previa o potencial do chamado boi verde?

Gatta - Sem dúvida. Nós estamos desenvolvendo o boi verde há 18 anos. Fomos os pioneiros do boi verde. Isto muito antes de surgir a doença da vaca louca. Esta visão não é só nossa. Muitas empresas de grande porte, multinacionais, são donas de terras na Amazônia, no Pará, no Maranhão. Tem muita gente com dinheiro investindo nesta área.


Agroanalysis
- Vamos pensar mais à frente. Este boi verde vai ser mesmo o Nelore ou um boi cruzado com raças européias?

Gatta - Agora você me pegou. Depende de fatores do mercado, depende de saber vender o peixe. E o Brasil não sabe vender o seu peixe. Nosso marketing é horrível. Veja o caso da Colômbia, que soube vender o café bem melhor do que nós, embora o Brasil seja o maior produtor do mundo. A melhor soja quem vende é a Holanda, você acredita? A Alemanha vende nossos peixinhos ornamentais. Se Nelore ou não Nelore? Todas as raças são boas, depende de onde você está. Não é uma questão matemática.


Agroanalysis - Embora o Brasil tenha assumido a liderança mundial do mercado de carne bovina, o preço que pagam lá fora pelo nosso produto é muito baixo.

Gatta - Baixíssimo, embora este ano tenha melhorado, passando de US$ 1.600 a tonelada para US$ 2.000, que já é uma grande vitória. A Argentina exporta a US$ 5.000, porque soube trabalhar o seu marketing. Este é um trabalho grande e sério, que deve reunir toda a cadeia: os produtores, os frigoríficos, os exportadores.

Agroanalysis - Como poderíamos mudar o marketing da carne lá fora? O senhor acha que o consumidor na Europa sabe que o Brasil produz o boi verde?

Gatta - Não sabe. Ele sabe, sim, que no Brasil se mata gente todos os dias em todas as esquinas. Eu acabei de voltar da Europa, e na Itália esta é a imagem que se tem do Brasil. Nossas embaixadas e nossos consulados trabalham muito mal. Não sabem fazer marketing e não se preocupam com negócios. Não entendem nada de agronegócio. Há 50 anos, quando eu vim para o Brasil, procurei antes saber na embaixada brasileira como era a agricultura por aqui. Eles me falaram: açúcar, café e algodão. Aí eu perguntei: e a pecuária? E eles nem sabiam o que era a pecuária.

Agroanalysis - Será que hoje a resposta seria diferente? As embaixadas e consulados brasileiros já conhecem o agronegócio?

Gatta - Não acredito, embora o boom dos últimos anos serviu para que as pessoas começassem a se preocupar
mais com o agronegócio.


Agroanalysis - Qual é o segredo do sucesso da Tortuga?

Gatta - Tentar sempre prever o futuro, se colocando no campo da novidade. Há vários exemplos disto, como a descoberta da carência do fósforo no rebanho bovino brasileiro, no final dos anos 50. Hoje, todo mundo fala em carência mineral. Fomos nós também que inventamos a gaiola para as galinhas. Mais: a alimentação de suínos só com soja e milho, eliminando as farinhas de carne e de peixe. Fomos os pioneiros na importação dos primeiros suínos Duroc da Inglaterra, animais do “tipo carne”. Em muitos campos, fomos pioneiros. O Fabiani também sempre foi um sujeito econômico; nunca precisamos pagar royalties para ninguém. Montamos nossa fábrica com a capacidade brasileira, sem comprar tecnologia de ninguém. Estamos desenvolvendo agora uma nova geração de minerais orgânicos. São produtos que aumentam a produtividade dos bovinos, melhoram a formação de anticorpos e, conseqüentemente, elevam a resistência dos animais a doenças. E estamos produzindo os minerais orgânicos em larga escala e com um custo baixo. De dois anos para cá, introduzimos estes produtos também na avicultura e na suinocultura. E com muito sucesso, tanto é que estamos entrando em 16 países.

Agroanalysis - A biotecnologia deverá contribuir para o desenvolvimento de novos produtos para a nutrição
animal. O que vem pela frente?


Gatta - Toda uma linha de produtos pré-bióticos e pró-bióticos, que vão substituir os antibióticos. As doenças não vão ser mais tratadas com antibióticos, mas serão prevenidas com esses fermentos novos. Há hoje uma preocupação grande na Europa com relação ao uso de antibióticos na ração animal. Daí a necessidade de se buscar soluções naturais. Aliás, estão voltando produtos que já existiam no passado. Há 50 anos, o doutor Fabiani fazia vitaminas para aves e suínos com levedo de cerveja. Eu perguntava a ele: por que gastar tanto dinheiro com levedo? E ele respondia: eu não sei, só sei que é bom. Hoje, se sabe que o levedo elimina doenças, reduz o estresse e traz outras vantagens. Já não podemos mais dar antibióticos como nutrição, como ainda se faz com suínos e aves. Isto deverá ser proibido, porque o dia em que uma pessoa precisar tratar de uma doença com antibiótico, ele não terá mais efeito. A Europa e os EUA não aceitam mais
isso.


Agroanalysis - O próximo salto da Tortuga é a conquista do mercado mundial da nutrição animal?

Gatta - Vamos invadir o mundo. Apresentamos a tecnologia dos minerais orgânicos na feira de Utrecht, na Holanda, no ano passado. Foi uma “bomba”. Isto não existe na Europa. Eu vejo a Tortuga daqui a dez anos com outra cara. Vamos ter que montar outra fábrica, porque o potencial destes produtos no exterior é grande. Só que é muito difícil atender às legislações dos vários países. Teremos de fazer parcerias e sociedades para vencer todas estas barreiras. "A Tortuga daqui a dez anos terá outra cara. Vamos ter que montar outra fábrica, para atender as exportações"

REVISTA DE A GRONEGÓCIOS DA FGV
BRUNO BLECHER
Da Redação

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