Bernardo
Mançano Fernandes
Professor
Doutor em Geografia e coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos
de Reforma Agrária (NERA)
Bernardo Mançano Fernandes nasceu no sertão dos Inácios,
bairro rural do município de Neves Paulista (SP). É doutor em Geografia
na USP e professor e pesquisador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente (SP). Coordena o
NERA (Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária),
onde está implantando, por meio entre convênio entre o MST e a Unesp,
o Dataluta - Banco de Dados da Luta pela Terra. É autor dos livros MST:
formação e territorialização (Editora Hucitec), Formação
do MST no Brasil (Editora Vozes) e Brava Gente, pela Fundação Perseu
Abramo, entre outros. Desde 1990 é membro do Setor de Educação
do MST. Foi, entre 2002 e 2004, presidente da AGB - Associação dos
Geógrafos Brasileiros.
Portal
- Qual a distinção que o sr. faz entre luta pela terra e luta
pela reforma agrária? Fernandes:
Existe uma distinção. A luta pela posse da terra é uma luta
popular desenvolvida pelas famílias sem terra. Então as famílias
ocupam uma área e depois pressionam o governo para que o governo desaproprie.
O governo é a única instituição competente, de acordo
com a nossa constituição, capaz de desapropriar uma área.
Então a luta pela terra leva a uma reforma agrária. Mas essa luta
não é a reforma agrária; quem faz a reforma agrária
é o Estado quando ele desapropria uma área e desconcentra a estrutura
fundiária. Portal
-
Como o sr. analisa o processo de reforma agrária no Brasil? Fernandes:
Eu diria que não existe uma reforma agrária no Brasil hoje. Porque
se nós pegarmos o censo agropecuário de 1940, que foi o primeiro
que foi feito, até o censo de 1995, 1996, os últimos que foram feitos,
e observarmos, a estrutura fundiária sempre esteve concentrada, ela nunca
se desconcentrou. Então não se pode falar que existiu, ou existe,
uma reforma agrária no Brasil, porque nunca houve uma desconcentração
da estrutura fundiária e essa estrutura fundiária vem se concentrando
cada vez mais. Agora, há os assentamentos que estão sendo implantados.
Como nós chamamos isso? O que as pessoas chamam de reforma agrária
nós podemos chamar de política de assentamentos rurais. Portal
- Existem muitas divergências em relação ao número
de famílias assentadas e as que ainda estão esperando pelos assentamentos.
Quais são esses contingentes? Fernandes:
A questão é a seguinte. Nós temos um problema porque
nós não sabemos quantas famílias forma assentadas. Porque
em 2000, 2001 e 2002, o governo Fernando Henrique implementou um processo de reforma
agrária que eu chamei de clonagem de assentamentos. O que ele fez? Ele
pegou assentamentos criados na década de oitenta, pelo José Sarney,
e da década de setenta, criados pelo governo militar, liberou crédito
e relançou esses assentamentos como se ele tivesse criado. Entendeu? Então
esses assentamentos foram todos cadastrados duas vezes no banco de dados do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Então,
antes de qualquer coisa, precisamos limpar esse banco de dados, temos que fazer
um censo para saber quantas famílias realmente assentadas existem. Mas
a minha estimativa é que nós tenhamos, hoje, algo em torno de quinhentas
mil famílias assentadas. Portal
- Quais as principais diferenças e semelhanças entre a reforma
agrária praticada pelo governo Fernando Henrique e a do governo Lula? Fernandes:
Vou pegar o segundo governo FHC e comparar com o primeiro governo do Lula. O primeiro
governo do Fernando Henrique foi muito bom, se você levar em consideração
a implantação de uma política de assentamentos. Foi o momento
em que ele mais assentou gente na história do Brasil. Agora no segundo
governo FHC, ele criminalizou, ele mandou prender e colocou o poder judiciário
à frente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ou seja, ele
acabou com as políticas públicas de desenvolvimento, ele sucateou,
ele precarizou os assentamentos. No primeiro ano do governo Lula, foram assentadas
38 mil famílias. Dessas 38 mil famílias, 30 mil foram assentadas
em assentamentos já criados, ou seja, foi feito um levantamento do número
de lotes vagos existentes, onde foram assentadas essas 30 mil famílias.
As oito mil restantes, o governo Lula assentou em terras novas. O que isso quer
dizer? Quer dizer que esse é um dos piores resultados dos últimos
dez anos. Em termos de desapropriação, essa ação do
governo Lula é uma das piores dos últimos anos. Agora, o fato é
que o governo Lula tem um compromisso muito grande com a reforma agrária.
A esperança e a expectativa são enormes. Este ano ele tem que assentar
115 mil famílias, mas o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel
Rossetto, já está avisando que não haverá dinheiro
para que esse número seja alcançado. Defendo o seguinte: ter dinheiro
ou não ter dinheiro é uma questão política, você
decide se você vai pagar a dívida externa ou se você vai fazer
a reforma agrária. É uma discussão que o governo vai ter
que ter e uma decisão política que o governo vai ter que tomar.
Dependendo dessa opção política, pode, ou não, sair
uma reforma agrária. Portal
- Uma das principais críticas em relação ao processo
no governo atual é da morosidade. Falta vontade política ou recursos? Fernandes:
O dinheiro existe, claro. Com o que o Brasil paga de juros da dívida
externa por dia dá, tranqüilamente, para fazer uma reforma agrária.
Aliás, com esse dinheiro, resolve-se não apenas o problema da reforma
agrária, como uma série de outros problemas. A questão é
como o governo vai negociar politicamente esse processo, qual o caminho que o
governo vai querer contruir e trilhar. Portal
- Estudiosos da reforma agrária afirmam que, hoje em dia, não
existem mais latifúndios improdutivos no País, portanto não
teria mais sentido uma reforma agrária com distribuição de
terras. Qual sua opinião? Fernandes:
Para te responder isso, vou precisar mudar o conceito de terra improdutiva. Eu
acho que no Brasil existem poucas terras improdutivas, porque vemos que todas
as terras produzem muito e bem, tudo o que é plantado, nasce. Então
assentar gente em terras improdutivas é perder tempo porque a terra não
vai produzir nada. O que eu quero discutir é o conceito de produtividade
da terra, ou seja, não é a questão da pessoa estar ou não
plantando, mas o conceito físico de produtividade, se a terra tem capacidade
de gerar alguma produção. Nesse sentido, há muita terra que
pode ser usada para a reforma agrária, e essas terras são produtivas,
não tenha dúvida. Então, a discussão da reforma agrária
não deve passar apenas pelo conceito de produtividade ou de não-produtividade;
deve passar pelo conceito de qual modelo de desenvolvimento se quer para o Brasil.
Por exemplo, eu quero um modelo de desenvolvimento que tenha agricultura capitalista
e agricultura familiar. Então a agricultura familiar vai precisar aumentar
seu espaço, porque nos últimos anos a produção familiar
tem perdido muita terra. E também só a distribuição
de terras não resolve. Para se fazer uma reforma agrária é
preciso pensar o campo brasileiro, nós temos que pensar em Internet, energia
elétrica, escola, universidade, temos que pensar em saúde, em moradia,
em estrada. Temos que pensar em um campo em que as pessoas sintam prazer em viver,
não um campo que lembre isolamento, falta de infra-estrutura e miséria. Portal
- Com o atual desenvolvimento do agronegócio brasileiro, há
quem diga que o setor é capaz de absorver a mão-de-obra do campo,
sem a necessidade de uma reforma agrária. O sr. acredita que existe essa
possibilidade? Fernandes:
O agronegócio não resolve o problema do campo. Porque a tendência
do agronegócio é ser cada vez mais competitivo e para ele ser cada
vez mais competitivo, ele precisa diminuir o uso de mão-de-obra no campo.
A tendência desse agronegócio é mecanizar, é informatizar,
é diminuir o máximo da mão-de-obra para poder ser mais competitivo.
E essa competitividade acaba reduzindo o número de empregos, o que acaba
liberando mais gente. Liberando gente, há a possibilidade de incorporação
dessas pessoas pela agricultura familiar que, ao contrário do agronegócio,
precisa de gente para ser competitiva porque não há capital para
investir em colheitadeiras dirigidas por satélites, equipamentos. Há
que se colher com o tratorzinho mesmo. Daí o grande papel da agricultura
familiar. O agronegócio se preocupa com a produção para a
exportação, ele não tem a preocupação interna.
Muitas vezes produzimos soja para vender no exterior e importamos arroz e feijão.
A agricultura familiar supre esse espaço. Portal
- Estudos da Embrapa mostram uma íntima relação entre
o desenvolvimento do PIB agrícola e o de outros setores: 10% do PIB agrícola
trazem um aumento de, pelo menos, 9% do PIB dos setores industrial e de serviços.
O desenvolvimento do agronegócio trouxe crescimento especialmente para
pequenas e médias cidades do Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas, Maranhão,
Bahia e Rondônia. Esse desenvolvimento é capaz de garantir o aumento
da renda no campo? Fernandes:
Já mencionei a resposta na questão anterior. A saída
para aumentar a renda no campo é garantir para os pequenos agricultores
o preço mínimo, o seguro agrícola, fazer investimentos em
infra-estrutura, em educação, em saúde e fazer, de fato,
uma reforma agrária. Tudo isso pode ajudar a aumentar a renda no campo. Portal
- É possível conciliar a expansão do agronegócio
com uma agricultura familiar como a produzida pelos assentamentos? Fernandes:
Não é possível conciliar o agronegócio com a agricultura
familiar simplesmente porque o agronegócio não quer a agricultura
familiar. Não é a agricultura familiar que ignora o agronegócio,
mas o contrário. O agronegócio diz o seguinte: se vocês, agricultores
familiares, quiserem fazer parte do nosso modelo de desenvolvimento, vocês
devem obedecer às nossas regras. Só que os produtores familiares
não querem obedecer às regras do agronegócio, eles querem
discutir essas e outras regras, querem ter o poder de decisão. E o agronegócio
não quer que os agricultores familiares tenham esse poder, eles querem
decidir por eles. Portal
- O abandono
e a venda de lotes dos assentamentos são apontados como resultados que
atestariam a inviabilidade desse modelo. O que falta para que os assentamentos
tenham uma boa produtividade e garantam a sobrevivência digna das famílias? Fernandes:
Quando as pessoas abandonam, saem ou vendem os lotes de assentamentos, elas não
estão tentando fazer disso um negócio, como pensam muitos analistas.
Os assentados deixam a terra porque eles estão sendo descapitalizados,
porque eles não têm oportunidade de permanecer nessas terras, não
há condições. Diferente de um grande produtor de soja, que
pode ver a soja cair de preço, o mercado ficar desfavorável e pode
começar a tomar prejuízo. Diante disso, esse grande produtor muda
de negócio, pega seu dinheiro e vai investir na indústria, no setor
financeiro etc. Os assentados que deixam a terra não estão pegando
seu capital para investir em outro mercado, mas estão tentando existir
em outro lugar, o que é bem diferente. Portal
- Qual seria o modelo ideal de reforma agrária no Brasil? Fernandes:
Acho que nesse plano que nós fizemos para o governo Lula, o Plano Nacional
de Reforma Agrária, nós tentamos superar uma série de erros
existentes em diversos projetos de reforma agrária, projetos de outros
países. Primeiro: não adianta o governo ficar assentando em locais
pontuais, isto é, ficar fazendo um assentamento em São Paulo ou
um assentamento em Pernambuco, por exemplo, não é essa a idéia.
A idéia é pegar uma região do país e assentar diretamente
nesta região. Por que essa é uma saída? Porque quando você
pega uma região em cada Estado, você pode impactar essa região,
pode resolver que o local vai ser uma região de desenvolvimento de agricultura
familiar. Com isso o processo fica mais abrangente porque se trabalha com uma
escala territorial ampliada. Cada região pode desenvolver um modelo próprio
a partir dessa ocupação. Um segundo aspecto que faz parte de um
modelo ideal de reforma agrária são as cooperativas. Com a produção
cooperativa, as famílias sentem que fazem parte de uma estrutura e sabem
que elas não estão sozinhas, ou seja, elas sabem que vão
poder negociar sempre em conjunto. Terceiro aspecto: garantia de preços
mínimos, compra antecipada e seguro agrícola. Quarto: educação
para as crianças dessas famílias, a segurança de que existe
a chance de ir a uma universidade, de ter uma formação. Existe,
por exemplo, um convênio entre o MST, a Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Unesp, que garante um número
de vagas para membros de famílias assentadas. Não se deve deixar
essas pessoas com a sensação de desesperança. Esse é
o modelo ideal.
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