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ENTREVISTAS

José Eli da Veiga
Professor titular da FEA - USP

O que hoje é chamado de desenvolvimento sustentável está há mais de trinta anos no centro das preocupações de José Eli da Veiga. Seu envolvimento com o tema vem do início dos anos setenta, quando trabalhou na Estação Central de Economia e Sociologia Rural do INRA-Paris (Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França). Professor-titular da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), José Eli da Veiga obteve o título de Livre Docente em 1993 com tese sobre a evolução da política agrícola dos Estados Unidos. Fez doutorado na Universidade Paris-I e foi pesquisador visitante nas universidades de Londres, da Califórnia e de Paris. Na administração pública, foi secretário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável entre 2001 e 2002, superintendente regional do INCRA-SP, diretor do Instituto de Assuntos Fundiários e coordenador sócio-econômico da Secretaria de Agricultura paulista no governo Franco Montoro. Entre os livros que publicou, destacam-se "Cidades Imaginárias", "A Face Rural do Desenvolvimento", "Metamorfoses da Política Agrícola dos Estados Unidos" e "O Desenvolvimento Agrícola, Uma Visão Histórica".


Portal - Em seu livro "Cidades Imaginárias - o Brasil é menos urbano do que se calcula", o sr. contesta números do censo do ano 2000 que apontam um Brasil 81,2% urbanizado, sendo que em 2010 seria de 90% e, em 2030, 100%. Por que isso ocorre? Essa porcentagem oficial levaria até a políticas errôneas em relação ao meio rural?

José Eli: Infelizmente o Brasil usa um critério puramente administrativo para separar o que seria urbano do que seria rural. Toda sede de município, ou de distrito, é considerada perímetro urbano e a população aí residente é assim classificada. Mesmo que essa sede tenha quatro casas e 18 habitantes, como ocorre no município gaúcho União da Serra. Ou mesmo que a população seja indígena, como acontece em centenas de municípios. A explicação desse absurdo, que é longa, está no livro citado.

Portal - O agribusiness é apontado como um dos principais fatores do desenvolvimento econômico brasileiro. Como ele é composto por muitas cadeias produtivas fora, inclusive, do setor rural, em que medida ele pode ser um efetivo indutor de desenvolvimento no campo?

José Eli: Para algo ser indutor de desenvolvimento no "campo" não há necessidade de que tenha localização rural. Ao contrário, a esmagadora maioria das inovações dos setores produtivos mais rurais - como o agrícola, o pecuário, o florestal, o mineral, o pesqueiro - tiveram origem nas cidades.

Portal - O sr já afirmou que a sociedade brasileira paga um alto preço por acreditar no mito da agricultura patronal. Que tipo de produtores compõem esse segmento e por que o sr. considera esse modelo nocivo?

José Eli: Eu nunca me referi a modelo. O que eu sempre disse e que agora já se pode dizer no presente, é que a sociedade brasileira está pagando um preço elevadíssimo por ter escolhido o caminho avesso daquele que vingou em todos os países mais desenvolvidos. Nesses países a sociedade confiou na agricultura familiar e por isso não assistiu tão grande expulsão prematura de trabalhadores desse setor. As altíssimas taxas de desemprego que existem hoje no Brasil se devem essencialmente a esse fenômeno.

Portal - Em relação a empregos gerados, o agribusiness tem condições de absorver a mão-de-obra excedente no campo ou, ao contrário, com o uso crescente da tecnologia, tende a expulsar cada vez mais os trabalhadores rurais?

José Eli: Os elos secundário e terciário do agronegócio podem absorver uma parte dessa mão-de-obra precocemente expulsa da agropecuária. Mas é uma parte pequena do total.

Portal - O sr. é um defensor da agricultura familiar como estratégia de desenvolvimento rural. Como se dá em relação a outros países? Quais os casos de sucesso?

José Eli: Basta apanhar um dos 15 relatórios anuais sobre o desenvolvimento humano publicados pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e examinar a lista dos países que têm alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) - mais de 0,800. Todos fizeram uma opção preferencial pela agricultura familiar em algum momento de sua história.

Portal - A agricultura familiar é compatível com esse modelo cada vez mais tecnológico e voltado, principalmente, às exportações?

José Eli: Nos países mais desenvolvidos, durante todo o século 20, foi a agricultura familiar a que mais adotou as principais inovações tecnológicas. Claro, o sistema de ensino-pesquisa-extensão foi desde o início voltado para esse tipo de agricultura. Exatamente o contrário do que aconteceu aqui a partir de meados do século 19.

Portal - As pequenas propriedades geradas pelos assentamentos têm condições de absorver tecnologia e mão-de-obra?

José Eli: Depende de muitas varáveis, quase todas ligadas ao ambiente institucional que envolve o assentamento. Há casos em que isso ocorre e outros em que ocorre exatamente o inverso.

Portal - São muitas as opiniões contrárias a uma reforma agrária com distribuição de terras. Qual sua visão?

José Eli: O Brasil nunca fez, não está fazendo, e nunca fará uma reforma agrária. Sobraram no máximo 500 mil famílias ainda dispostas a se virarem como novos sitiantes. Para atendê-las, bastaria 3% da área agrícola. Ou seja, mesmo que todas essas famílias forem assentadas, a estrutura agrária permanecerá a mesma.

Portal - Há também quem defenda que não existem mais latifúndios no Brasil de hoje, portanto, não haveria mais terras a desapropriar. Como está a estrutura agrária brasileira?

José Eli: Mesmo sem modificar a atual legislação, que é obsoleta, ainda assim sobra muita terra desapropriável. Não no Sul, em SP, ou no RJ. Mas em Minas Gerais e nas macrorregiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte há inúmeros imóveis desapropriáveis.

Portal - Quais as principais diferenças entre a reforma agrária do governo Fernando Henrique Cardoso e do governo Lula?

José Eli: Nenhum dos dois fez reforma agrária, mas a política de assentamentos do atual governo está absolutamente travada, enquanto a anterior, tocada por Raul Jungmann, chegou a ser bem célere para os padrões brasileiros...

Portal - O presidente Lula disse que ele seria o único capaz de fazer uma reforma agrária com tranqüilidade no País. O sr. acredita que ainda seja possível, já que uma das principais críticas é em relação à morosidade do processo?

José Eli: Sem comentários!

Portal - Qual seria o modelo ideal de reforma agrária no Brasil?

José Eli: Nenhum. Quando deveria ter sido feita, não foi. Agora é muito tarde para realizá-la.

Portal - Os grandes empresários rurais apontam a violência no campo, principalmente em relação às ocupações de terra promovidas pelos movimentos de sem-terra, como um fator de instabilidade e impedimento, inclusive, de mais investimentos no setor. Como o sr. analisa essa questão?

José Eli: Não analiso. Análises desse tipo devem ser feitas por cientistas políticos.

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